Pular para o conteúdo principal

"O CIO DA TERRA" : PENSANDO O TRABALHO COMO EXPIAÇÃO

 

Ceifeiros, de Pieter Bruegel (1565)


Por Jorge Luiz

            Do latim tripalium, surge a palavra trabalho formada da junção dos elementos tri, que significa “três”, e palum, que quer dizer “madeira”.  Conforme afirma o Dicionário Etimológico, Tripalium é o nome de um instrumento de tortura constituído de três estacas de madeira bastante afiadas e que era comum em tempos remotos na região europeia. Desse modo, originalmente, “trabalhar” significa “ser torturado”.

 

            Os Espíritos afirmam na questão nº 676, de O Livro dos Espíritos (O L. E.):

 

“É uma consequência da sua natureza corpórea. É uma expiação e, ao mesmo tempo, um meio de aperfeiçoar a sua inteligência. Sem o trabalho, o homem permaneceria na infância intelectual; eis porque ele deve a sua alimentação, a sua segurança e o seu bem-estar ao seu trabalho e à sua atividade. Ao de físico franzino, Deus concedeu a inteligência para compensá-lo; mas há sempre trabalho.”

 

Já na questão nº 998, os Espíritos esclarecem que “a expiação se cumpre durante a existência corporal, mediante as provas a que o Espírito se acha submetido e, na vida espiritual, pelos sofrimentos morais, inerentes ao estado de inferioridade do Espírito.”

            A necessidade da encarnação está atrelada a um processo educativo que confere ao Espírito, enquanto encarnado, possibilidades de sua evolução, tendo como ponto de partida a condição da simplicidade e da ignorância.

            O ser humano não gosta de trabalhar, isto é um fato. Olhando-se a historicidade da evolução das sociedades se enxergará que a relação do trabalho foi e continua sendo uma relação de exploradores e explorados; opressores e oprimidos. As relações trabalhistas foram e são escravocratas. A própria política econômica do neoliberalismo é fundada na escravidão. Os dias atuais evocam essa tradição.

            Tiago Cavalcanti, subprocurador do trabalho, assim se expressa a esse respeito:

 

“O estudo da história pré-capitalista revela claramente o desprezo de nossos ancestrais pelo trabalho humano: escravidão, servidão e outras variadas formas de atividades compulsórias sempre se fizeram presentes nas sociedades antigas e pré-modernas. Nem mesmo as distintas experiências sociais ao longo da narrativa humana são capazes de infirmar uma realidade iniludível: a história da Humanidade é a história da exploração do homem pelo homem. (Grifos nossos)

 

            Karl Marx, em seus escritos, apesar de afirmar que o “trabalho”, em sua essência, é atividade não livre, inumana, associal e determinada pela propriedade privada, a sua criadora, no entanto, o considera atividade vital e uma forma de existir. O homem trabalha para viver e nem sequer considera o trabalho como parte da sua vida, é, antes de tudo, um sacrifício da sua vida. “O trabalho é uma mercadoria que o homem adjudicou a um terceiro”. Para Marx, o produto da sua atividade tão pouco é o objetivo da sua atividade. No entanto, ele afirma: “Agindo sobre a Natureza, que está fora dele, e transformando-a por meio da ação, o homem transforma também a si mesmo”. Esta percepção marxista converge para os ensinamentos espíritas.

Oscar Wilde, poeta e dramaturgo inglês, foi assertivo em sua análise sobre a alma do homem, quando identificou que a excelência do Ser, naquilo que apregoa o Espiritismo, só poderá ocorrer com o socialismo, através da abolição da propriedade privada. Wilde, em seu ensaio, critica a caridade na forma de assistencialismo e a define como Individualismo, não na concepção egoica que entendemos, mas a conquista da individualidade, abdicando a escravidão da propriedade privada e evoluindo na condição de ser livre, em uma sociedade sem existência da pobreza. Leia-se o que afere Wilde:

 

“O homem desenvolverá o Individualismo a partir de si mesmo, como o está agora desenvolvendo. Perguntar se o Individualismo é possível é como questionar se é possível a Evolução. Esta é a lei da vida, e não há evolução senão rumo ao Individualismo (leia-se Iluminação). Onde essa tendência não se manifesta, trata-se de um crescimento interrompido artificialmente, de doença ou de morte.”

 

            Nesse torvelinho de incertezas e certezas, o trabalho como expiação é assumido pelo Espírito, enquanto encarnado, pelo desejo essencialmente do Ter, essa foi a maneira que a Misericórdia Divina encontrou para possibilitar esses enfrentamentos. É imperativo notar que a política trabalhista dos tempos capitalistas segue a mesma relação com a escravidão do passado: o escravo e o servo; o capitalista, suas hierarquias e o proletariado. Entre estes, o Estado e a sua forma jurídica. Nessa estrutura social imposta, a força do trabalho se torna mercadoria e o trabalhador irá vendê-la de acordo com a necessidade do capitalista e receberá, pela força do trabalho, o salário, que é, portanto, segundo Marx, a soma na qual o capitalista paga por um determinado tempo ou prestação de trabalho. Essa forma de relação no trabalho do mundo vem provocando miséria e um êxodo social de desesperançados.

            Tudo isso não passou despercebido por Kardec. Em seu comentário à questão nº 685 “a”, em O L. E., quando apresenta a educação, como arte de formar caracteres, ele afere:

 

“Não basta dizer ao homem que ele deve trabalhar, é necessário também que o que vive do seu trabalho encontre ocupação, e isso nem sempre acontece. Quando a falta de trabalho se generaliza, toma as proporções de um flagelo, como a escassez. A ciência econômica procura o remédio no equilíbrio entre a produção e o consumo, mas esse equilíbrio, supondo-se que seja possível, sofrerá sempre intermitências e durante essas fases o trabalhador tem necessidade de viver.”     

 

            Sintetizando esses pensares, é de fácil compreensão que o estilo de governança a que o mundo está mergulhado é de selvageria, guerras, doenças, desigualdades sociais e morte. Compreende-se que a propriedade privada (tudo que se acumula a partir do capital) é a causadora de todas as desavenças sociais e econômicas entre os homens e as nações, principalmente a precarização do trabalho.

            A crise do capital de 2008 e a pandemia provocaram uma desestruturação social, na reprodução capitalista e dentro de todas as instituições afetadas. A família se sobrepõe a todas por ser o fundamento maior da vida enquanto encarnados.

            Pesquisadores portugueses publicaram seus trabalhos na obra que carrega o título O Trabalho Aqui e Agora, a qual mostra a realidade multidimensional, a partir do percurso de 53 trabalhadores portugueses, propondo como contraponto os alicerces de uma política de reconquista do tempo vivido e do reforço da centralidade do trabalho.

            Ladislau Dowbor, economista brasileiro de origem polonesa, ao comentar a obra portuguesa, assinala:

 

“Acrescente-se a isso a fragilização das famílias. Na ampla família tradicional, com pais, avôs, tios, filhos, a solidariedade entre gerações, entre as fases ou momentos produtivos ou improdutivos, manifestava-se no lar. Hoje, na Europa, o domicílio tem, em média, 2,4 pessoas. No Brasil ainda temos 3,1, mas se reduzindo rapidamente. Na família ampla, quem estava desempregado, ou idoso, tinha por igual um lugar à mesa e a cama para dormir. A reprodução social entre gerações era sustentada pela família. Na família nuclear moderna, há pouco espaço para o tio, para o avô, gera-se uma ruptura social. Na Suécia, por exemplo, a perda da solidariedade familiar é compensada com amplas políticas sociais, mas em Portugal, como vemos no livro, temos menos família no sentido amplo, e pouca ou insuficiente política de seguridade.”

 

            No Brasil, a família é totalmente devastada pela precarização do trabalho através de uma política desumana, onde as reformas no campo do trabalho destituíram os trabalhadores de qualquer direito em suas políticas sociais.

            Não há saída para a sociedade humana senão por um tipo de relação social e econômica que priorize a cooperação. É possível sim se construir isso mesmo a partir do sistema de produção capitalista, com uma transição para o socialismo, tendo como núcleo de solução a propriedade privada. É fácil de se constatar todos os dias que a justiça trata com mais rigor os crimes contra a propriedade privada do que os crimes contra a dignidade humana.

            A alma do homem, como bem elaborou Wilde, só se tornará translúcida pelo socialismo. Diz ele:

“Será algo maravilhoso quando vislumbrarmos a verdadeira personalidade do homem. Crescerá naturalmente, simplesmente, à maneira das flores e das árvores. Nunca se porá em discórdia, nem entrará em discussões ou contendas. (...) Ela (a personalidade) os amará por serem diferentes. (...) A personalidade do homem será deslumbrante. Será tão deslumbrante quanto a personalidade de uma criança.”

 

            Afinal de contas, Jesus asseverou: “Eu asseguro que, a não ser que vocês se convertam e se tornem como crianças, jamais entrarão no Reino dos Céus. Portanto, quem se faz humilde como esta criança, este é o maior no Reino dos Céus.” (Mateus 18.1-4).

            Todos esses fatores são significativos para que o trabalho na sociedade terrena não atenda às necessidades do Espírito, muito pelo contrário, além de escravidão em que sempre se constituiu, transformou-se em uma máquina de matar e fabricar miseráveis. Talvez os filósofos, os dedicados às artes e à psicologia possam demandar algum tempo para a constituição do processo de individuação, a massa de trabalhadores buscam apenas à sobrevivência no dia a dia

Digno de nota para o atendimento da plenificação do atividade laboral como ensaio daquilo que se constituirá a alma do homem no socialismo, é o trabalho na terra desenvolvido por aqueles que se dedicam à agricultura familiar, que atende as demandas das necessidades da alimentação da sociedade e para eles, no processo de sua plenificação espiritual, nas demandas expiatória.

O trabalho como expiação segue os ciclos do cio da terra, como nos versos da poesia de Chico Buarque, imortalizada na voz de Milton Nascimento: “Debulhar o trigo/Recolher cada bago do trigo/Forjar no trigo o milagre do pão/E se fartar de pão.” As riquezas são demandadas da terra e por todos, indistintamente, e todos devem a elas ter acesso, com os direitos pertinentes ao seu trabalho. A meritocracia do trabalho, para se alcança a meritocracia moral. Não se pode receber nada além do fruto do seu suor.

Ninguém pode se apropriar dos resultados do trabalho, senão do que produzir. A poesia diz tudo: “Decepar a cana/Recolher a garapa da cana/Roubar da cana a doçura do mel/Se lambuzar de mel.”         A intermediação feita pelo homem, apropriando-se, roubando o seu semelhante da participação na doçura do mel, lambuzando-se do mel produzido pelo homem e da cana, é o representativo das fortunas centralizadas na mão da minoria. O capital especulativo que hoje provoca morte e misérias no mundo.

            E assim, segue a jornada aguda e desumanamente expiatória pelo capital, da parte maior da massa de trabalhadores na sociedade humana, até compreendermos que...

 

Afagar a terra

Conhecer os desejos da terra

Cio da terra, propícia estação

E fecundar o chão.

 

            O trabalho como mercadoria, afastado do indivíduo não é expiação. A estação para fecundar o Espírito da Vida, pelo trabalho, segue o cio da terra, os desejos da terra. Ninguém se apropriará do fruto do trabalho do outro.

                      


Referências:

CAVALCANTI, Tiago M. Sub-humanos: o capitalismo e a metamorfose da escravidão. São Paulo, 2021.

KARDEC, Allan. O Livro dos espíritos. São Paulo, 2000.

MARX, Karl. Trabalho assalariado. Minas Gerais, 2009.

WILDE, Oscar. A Alma do homem sob o socialismo. E-book, L&PM Pocket, 2003.

 

SITE:

<https://www.dmtemdebate.com.br/o-trabalho-aqui-e-agora-crises-percursos-e-vulnerabilidades/>.

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

FÉ E CONSCIÊNCIA DE CLASSE: UMA ANÁLISE SOCIOLÓGICA DA LUTA ENTRE OPRESSORES E OPRIMIDOS NOS EVANGELHOS.

    Por Jorge Luiz   Para Além do Chão da Fábrica: A Luta de Classes na Contemporaneidade Até hoje, a história de todas as sociedades é a história das lutas de classes. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor feudal e servo, mestre de corporação e aprendiz; em resumo, opressores e oprimidos, estiveram em constante antagonismo entre si, travando uma luta ininterrupta, ora aberta, ora oculta — uma guerra que terminou sempre ou com uma transformação revolucionária de toda a sociedade ou com a destruição das classes em luta. Assim, Karl Marx e Friedrich Engels iniciam o desenvolvimento das ideias que comporão o Manifesto do Partido Comunista (Marx & Engels, ebook). As classes determinadas por Marx – burguesia e proletariado – não surgem de um tratado sociológico, são consideradas a partir das relações da reprodução da forma da mercadoria, frente os antagonismos e as contradições entre os opressores e oprimidos, a partir da apropriação do excedente da produç...

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

SILÊNCIO, PODER E RESPONSABILIDADE MORAL: A JUSTIÇA ESPÍRITA E A ÉTICA DA PALAVRA NÃO DITA

  Por Wilson Garcia   Há silêncios que protegem. Há silêncios que ferem. E há silêncios que governam. No senso comum, o ditado “quem se cala consente” traduz uma expectativa moral básica: diante de uma interpelação legítima, o silêncio sugere concordância, incapacidade de resposta ou aceitação tácita. O direito moderno, por sua vez, introduziu uma correção necessária a essa leitura, ao reconhecer o silêncio como garantia individual — ninguém é obrigado a produzir provas contra si. Trata-se de um avanço civilizatório, pensado para proteger o indivíduo vulnerável frente ao poder punitivo do Estado. O problema começa quando esse direito — concebido para a assimetria frágil — é apropriado por indivíduos ou instituições fortes, que não se encontram em situação de coerção, mas de conforto simbólico. Nesse contexto, o silêncio deixa de ser defesa e passa a ser estratégia. Não responde, não esclarece, não corrige — apenas espera. E, ao esperar, produz efeitos.

TRÍPLICE ASPECTO: "O TRIÂNGULO DE EMMANUEL"

                Um dos primeiros conceitos que o profitente à fé espírita aprende é o tríplice aspecto do Espiritismo – ciência, filosofia e religião.             Esse conceito não se irá encontrar em nenhuma obra da codificação espírita. O conceito, na realidade, foi ditado pelo Espírito Emannuel, psicografia de Francisco C. Xavier e está na obra Fonte de Paz, em uma mensagem intitulada Sublime Triângulo, que assim se inicia:

A REBELDIA DOS JOVENS, COMO AGIRMOS?

  Por Alkíndar de Oliveira (*) As atitudes de determinados jovens (nossos filhos ou não) nos estimulam a pensar: o que fazermos com esses jovens rebeldes? Para ilustrar que a rebeldia do jovem é um fato a ser enfrentado, conto a seguir duas histórias reais. A primeira história real: Imagine certo professor que, ao estar ministrando determinada aula, percebe que a atenção dos alunos se dispersa como consequência do procedimento inusitado e inadequado de um deles. Aos olhos do professor este é um aluno problema. E, apesar de inteligente, pela sua displicência ele não se sai bem nas provas. Tem o hábito de falar em momentos errados, adota atitudes estranhas, e nesse dia em especial, colou algodão em seu rosto formando longos bigode e cavanhaque. Com esta expressão ridícula e engraçada, apoiou os queixos com as mãos, formando como que uma forquilha e, muito sério, fingiu estar prestando religiosa atenção à aula. A classe caiu em riso. Esse jovem, depois...

DEUS¹

  No átimo do segundo em que Deus se revela, o coração escorrega no compasso saltando um tom acima de seu ritmo. Emociona-se o ser humano ao se saber seguro por Aquele que é maior e mais pleno. Entoa, então, um cântico de louvor e a oração musicada faz tremer a alma do crente que, sem muito esforço, sente Deus em si.

EDUCAÇÃO; INVESTIMENTO FUNDAMENTAL AO PROGRESSO

    Por Doris Gandres   Quando se pensa em educação, naturalmente lembramos dos professores, professores de todo tipo e de todas as áreas, as exatas, as humanas e, particularmente, as de cunho moral. Pelos séculos adentro, milênios mesmo, e pelo futuro afora, são os professores os construtores dos alicerces necessários ao progresso da humanidade, em todos os sentidos. E não nos faltaram, nem faltam, professores... De leste a oeste, de norte a sul, sob sol ou chuva, frio ou calor, com ou sem condições adequadas, lá estão eles, incansáveis, obstinados, devotados.

A PROPÓSITO DO PERISPÍRITO

1. A alma só tem um corpo, e sem órgãos Há, no corpo físico, diversas formas de compactação da matéria: líquida, gasosa, gelatinosa, sólida. Mas disso se conclui que haja corpo ósseo, corpo sanguíneo? Existem partes de um todo; este, sim, o corpo. Por idêntica razão, Kardec se reportou tão só ao “perispírito, substância semimaterial que serve de primeiro envoltório ao espírito”, [1] o qual, porque “possui certas propriedades da matéria, se une molécula por molécula com o corpo”, [2] a ponto de ser o próprio espírito, no curso de sua evolução, que “modela”, “aperfeiçoa”, “desenvolve”, “completa” e “talha” o corpo humano.[3] O conceito kardeciano da semimaterialidade traz em si, pois, o vislumbre da coexistência de formas distintas de compactação fluídica no corpo espiritual. A porção mais densa do perispírito viabiliza sua união intramolecular com a matéria e sofre mais de perto a compressão imposta pela carne. A porção menos grosseira conserva mais flexibilidade e, d...

18 DE ABRIL - 165 ANOS DO LANÇAMENTO DE O LIVRO DOS ESPÍRITOS