Pular para o conteúdo principal

HUMANOS, ESPÍRITOS, HUMANOS!

 

Por Jerri Almeida

Há milhares de anos, abandonamos as cavernas e a vida nômade de coletores-caçadores, para adentrarmos no mundo da cultura, das representações, dos códigos de escrita, da comunicação e da urbanização. Em sua longa jornada no planeta Terra, o homo sapiens se defronta com a morte, com a insegurança e com inúmeras incertezas. Portador de afetividade, o Sapiens é um ser que sorri, sofre, chora, é imaginativo, violento, esperto, engenhoso, criativo, amante, egoísta, solidário, capaz de alimentar ilusões e projetos ambiciosos. Como dizia Sófocles: “Não existe nada mais maravilhoso-apavorante que o homem.” [1] A história da filosofia é a tentativa, por vezes frustrante, de compreender o ser humano.

De Sócrates a Freud, a natureza humana tem suscitado inúmeros questionamentos e interrogações. O Sapiens é predador, irracional – por vezes – expressa sua louca agressividade, mas também sua genialidade e amorosidade. Entre práticas de escravidão e guerras, surgem também ações humanitárias em prol da vida e da dignidade humana.

Quem é o homem, afinal?

O sociólogo Edgar Morin tentou sintetizar na expressão Sapiens-demens. Ou melhor, o homem é Sapiens, demens, faber, economicus, ludens e consumans. [2] Antes, ou bem antes dele, não faltaram pensadores que tentaram conceituar o homem. Para Aristóteles o homem era “um animal político”, para Rabelais “um animal que ri”, para Descartes “um ser que pensa”, para Kant, “um ser que julga”, para Marx “um ser que trabalha”, para Freud “um ser dominado por suas pulsões inconscientes”.

Na famosa Enciclopédia elaborada no século XVIII, por Diderot e d'Alembert, consta uma interessante definição para o verbete homem: “ser que sente, reflete, pensa, que perambula livremente sobre a superfície da Terra, que parece estar à frente de todos os outros animais, os quais ele domina, que vive em sociedade, que inventou as ciências e as artes, que tem uma bondade e uma maldade que lhe são únicas, (...) que fez leis etc. (...) É composto por duas substâncias, uma chamada alma, outra conhecida pelo nome de corpo.” [3] Definir é sempre limitar. O filósofo André Comte-Sponville, para fugir dessa armadilha, simplesmente ou jocosamente, afirmou que: “É um ser humano todo ser nascido de dois seres humanos.” [4]

Seres humanos são pessoas complexas. Muitos estão preocupados com o mercado econômico, outros com o dilema de para onde viajar nas férias, outros, ainda, alimentam culpas e ressentimentos por não terem aproveitado suficientemente suas oportunidades ou nem terem podido viajar. Mas, qual o lugar que o humano ocupa na sociedade contemporânea? Nascemos humanos, mas necessitamos urgentemente nos humanizar.

Para a filosofia espírita, a humanidade não é um mero fatalismo biológico. A existência nos fala de nossa própria essência, que é preciso prospectar. E, descobrindo a essência, descobrimos o homem. Essa é a grande aventura humana. A essência, na perspectiva desvelada por Allan Kardec, é o Espírito: ser imortal e pluexistencial que se desenvolve e progride por meio de suas múltiplas experiências. A humanização do humano e a espiritualização do Espírito implicam numa mesma lógica: o melhoramento pessoal e social.

O progresso necessita ocorrer numa dinâmica integrativa entre o indivíduo e o grupo social. Por isso, Kardec didaticamente apontou ou esquematizou o conjunto das Leis Morais, constantes na terceira parte de O Livro dos Espíritos. Na sociedade contemporânea, o humano foi reduzido ao status de “consumidor” consumido pelo trabalho e escravo do que não possui. A sociedade do descartável e do cansaço é, também, uma sociedade da decepção. O humano-espírito, é um sujeito oprimido pela estrutura econômica, pela cobrança por desempenho e carente – na sua essência - de uma cultura humanizadora que promova sua dignidade existencial.

O problema, no entanto, levantado pelo filósofo Byung-Chul Han é a desumanização que o próprio ser humano se impõe na contemporaneidade, o que ele chama de “autoexploração”:

“A sociedade do desempenho é uma sociedade de autoexploração. O sujeito de desempenho explora a si mesmo, até consumir-se nesse processo uma autoagressividade, que não raro se agudiza e desemboca num suicídio. O projeto se mostra como um projetil, que o sujeito de desempenho direciona contra si mesmo”. [5]

Trata-se, numa análise ampla, do indivíduo-humano-espírito que, vivendo na sociedade capitalista, trava uma guerra constante consigo mesmo, desumaniza-se, desnaturaliza-se frente ao “eu-ideal”, enquanto o “eu-real” sente-se acossado por suas autorreprimendas, seja pelo sentimento de fracasso ou pela cobrança social de sucesso, felicidade e de positividade.

A filosofia espírita oferece contribuições interessantes para um novo paradigma cultural. A percepção de um homem “interexistêncial”, reencarnante, abre horizontes mais confortadores sobre a natureza do “Eu” e do “estar-no-mundo”. Se vivemos numa sociedade individualista, onde o egoísmo enferruja as engrenagens da justiça social, e desumaniza o humano, é preciso que tais engrenagens sejam lubrificadas, periodicamente, pelo amor, pela ética e pelo próprio humanismo. A não alienação do sujeito em relação ao mundo, não implica numa sujeição, desse sujeito, aos valores utilitaristas do mundo.

Se os aspectos apresentados por Aristóteles, Rabelais, Descartes, Kant, Marx, Kardec, Freud e Morin, estiverem corretos, então isso significará que o ser humano/espírito é ainda mais complexo do que o nosso tímido senso comum imagina. É na complexidade, portanto, que percebemos a magnitude do ser humano!

 

NOTAS

1. Citado por MORIN, Edgar. O Método 5. A humanidade da humanidade. A identidade humana. Trad. Juremir Machado. 5ª ed. Porto Alegre: Sulina, 2012. p. 115.

2.MORIN, Edgar. Op. cit. p. 18 - 116.

3.Homem, Diderot [8, 256] Verbete integrante da Enciclopédia - Volume 2, de Diderot e d'Alembert, organização Pedro Paulo Pimenta e Maria das Graças de Souza. São Paulo: Editora Unesp, 2015, págs. 360-361.

4. COMTE-Sponville, André. Apresentação da Filosofia. Trad. Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 128.

5.HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Trad. Enio Paulo. 2ª ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 2021. p. 101.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

SER HUMANO: ZONA DE INTERESSES – DA COISIFICAÇÃO DA VIDA AO NEGÓCIO DA MORTE

    Por Jorge Luiz O Sujeito como Território de Caça  Thomas Hobbes, em sua festejadíssima obra Leviatã (1651), sentenciou que o “homem é o lobo do homem”. Para ele, a ausência de uma autoridade central condenaria a humanidade a uma vida “solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta”. O remédio hobbesiano é o Contrato Social de submissão: a entrega irreversível do poder ao Soberano (Estado) em troca de segurança. Hobbes rompe com o pensamento puramente religioso ao defender o Erastismo — a subordinação da Igreja ao poder civil —, sob a premissa de que não pode haver dois senhores disputando a obediência do súdito. Contudo, o Leviatã de Hobbes não anteviu a mutação do Estado-Nação sob o capitalismo. O sistema, consolidado entre os séculos XVIII e XIX, transitou do mercantilismo para o liberalismo industrial, onde o Estado parece diminuir sua intervenção, mas se agiganta na construção das subjetividades. Como propõe Louis Althusser , o Estado realiza-se através de s...

FRONTEIRAS ENTRE O REAL E O IMAGINÁRIO

  Por Jerri Almeida                A produção literária, desde a Grécia Antiga, vem moldando seus enredos e suas tramas utilizando-se de contextos e fatos históricos. Os romances épicos, que em muitos casos terminam virando, contemporaneamente, filmes ou novelas de grandes sucessos, exploram os aspectos de época, muitas vezes, adicionando elementos mentais e culturais de nosso tempo. Essa é uma questão perigosa, pois pode gerar os famosos anacronismos históricos. Seria algo como um romance que se passa no Egito, na época de um faraó qualquer, falar em “burguesia egípcia”. Ora, “burguesia” é um conceito que começa a ser construído por volta dos séculos XII-XIII, no Ocidente Medieval. Portanto, romances onde conceitos ou ideias são usados fora de seu contexto histórico, tornam-se anacrônicos.

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

O ESTUDO DA GLÂNDULA PINEAL NA OBRA MEDIÙNICA DE ANDRÉ LUIZ¹

Alvo de especulações filosóficas e considerada um “órgão sem função” pela Medicina até a década de 1960, a glândula pineal está presente – e com grande riqueza de detalhes – em seis dos treze livros da coleção A Vida no Mundo Espiritual(1), ditada pelo Espírito André Luiz e psicografada por Francisco Cândido Xavier. Dentre os livros, destaque para a obra Missionários da Luz, lançado em 1945, e que traz 16 páginas com informações sobre a glândula pineal que possibilitam correlações com o conhecimento científico, inclusive antecipando algumas descobertas do meio acadêmico. Tal conteúdo mereceu atenção dos pesquisadores Giancarlo Lucchetti, Jorge Cecílio Daher Júnior, Décio Iandoli Júnior, Juliane P. B. Gonçalves e Alessandra L. G. Lucchetti, autores do artigo científico Historical and cultural aspects of the pineal gland: comparison between the theories provided by Spiritism in the 1940s and the current scientific evidence (tradução: “Aspectos históricos e culturais da glândula ...

DEPRESSÃO

  1 – Fala-se que a depressão é o mal do século. Estamos diante de um distúrbio próprio dos tempos atuais, uma síndrome da modernidade? Mais apropriado considerar que é um mal antigo com nome novo. Se falarmos em melancolia, perceberemos que ela sempre esteve presente na vida humana. Os melancólicos de ontem são os deprimidos de hoje. Hipócrates (460 a.C-370 a.C.) definia assim a melancolia: Uma afecção sem febre, na qual o Espírito, triste, permanece sem razão fixado em uma mesma ideia, constantemente abatido. É mais ou menos isso o que sente o indivíduo em depressão, com a impressão de que a vida perdeu a graça.

O PUNITIVISMO DAS RELIGIÕES¹

  Por Dora Incontri Desde o momento em que nascemos, estamos enredados numa sociedade que procura nos condicionar o comportamento na base de castigos e recompensas: desde a criança ser posta “para pensar” no quarto ou no canto da sala de aula (verdadeiro horror que passa a mensagem de que pensar é castigo), até além da vida, a promessa de punição do fogo do inferno ou nas doutrinas reencarnacionistas, o resgate cármico através de múltiplas existências. Na educação, a recompensa de presentes e para depois da morte, o paraíso com harpas. Somos tão condicionados a essa forma de raciocínio justiceiro e de barganha, que torcemos o tempo todo pela destruição do outro, que julgamos mau, ou empunhamos em nós mesmos o autoflagelo da chamada culpa cristã. A motivação consumista da vida capitalista é outra forma infantilizada de auto recompensa se formos bonzinhos e trabalharmos bem.

O ABORTO E A GRATIDÃO POR TER NASCIDO

Minha mãe e eu, 54 anos atrás Hoje, no dia do meu aniversário, uma data que sempre me alegra, pois gosto de ter nascido, resolvi escrever algumas considerações sobre esse tema tão controvertido: o aborto. Se estou comemorando meu aniversário e vivendo uma vida plena de sentido, é porque minha mãe permitiu que eu nascesse. Me recebeu e me acolheu, com a participação de meu pai. Então, é bastante pertinente falar sobre esse tema, nesse dia. Meu dia de entrada nessa vida. Penso que esse debate sempre caminha por lados opostos, com argumentos que não tocam o cerne da questão.

'SELFIES" ALIENANTES

Por Jorge Hessen (*) As tecnologias pessoais, sobretudo os smartphones, revolucionaram o formato com que as pessoas se expressam no dia-a-dia na atualidade, e a selfie faz parte dessa transformação. Experimenta-se a neurose do selfie (derivada do termo inglês self (eu) junto ao sufixo “ie” – um tipo de fotografia), para indicar uma espécie de autorretrato, tradicionalmente exposto na rede social que tem contagiado a muitos, principalmente no Instagram e Facebook. O indivíduo aponta o smartphone para o próprio rosto e busca o melhor ângulo para tirar uma fotografia esmerada. Pode ser na praia, na festa, no parque, no restaurante ou em situação de alto risco de vida. A obsessão é tamanha que neste último caso chega a causar acidentes fatais. Quando falamos em selfies aqui, os números não são nem de longe inexpressivos, ou seja, nada menos que 880 bilhões de fotos foram feitos apenas em 2014. Uma parcela relevante de auto-exposição na forma de autorretratos. Tais imag...

O COTIDIANO DO TRATAMENTO DO HOSPITAL ESPÍRITA ANDRÉ LUIZ - HEAL

O presente trabalho apresenta a realidade da assistência numa instituição psiquiátrica que se utiliza também dos recursos terapêuticos espíritas no tratamento dos seus pacientes, quando estes solicitam os mesmos. Primeiramente, há um breve histórico do Hospital Espírita André Luiz (HEAL), acompanhado da descrição dos recursos terapêuticos espíritas, seguido, posteriormente, do atendimento bio-psico-sócio-espiritual, dando ênfase neste último aspecto.         Histórico     O HEAL foi fundado em 25/12/1949, por um grupo de idealistas espíritas, sob orientação direta dos espíritos, em reuniões de materialização, preocupados com a assistência psiquiátrica aos mais carentes daquela região, além de oferecer o tratamento espiritual para os atendidos, por acreditarem na conjunção das patologias psiquiátricas com os processos obsessivos (ação maléfica dos espíritos).     O serviço de internação foi inaugura...