Pular para o conteúdo principal

EU POSSO SER MANIPULADO. E VOCÊ, TAMBÉM PODE?

 

Por Maurício Zanolini

A jornalista investigativa Carole Cadwalladr voltou à sua cidade natal depois do referendo que decidiu pela saída da Grã-Bretanha da União Europeia (Brexit). Ela queria entender o que havia levado a maior parte da população da pequena cidade de Ebbw Vale a optar pela saída do bloco econômico. Afinal muito do desenvolvimento urbanístico e cultural da cidade era resultado de ações da União Europeia. A resposta estava no Facebook e no pânico causado pela publicidade (postagens pagas) que apareciam quando as pessoas rolavam suas telas – memes, anúncios da campanha pró-Brexit e notícias falsas com bordões simplistas, xenofobia e discurso de ódio.

Mas os anúncios já não estavam mais lá. Carole soube deles através do relato dos moradores que descreveram as peças publicitárias que apareceram de forma insistente no período imediatamente anterior ao referendo. A única fonte que poderia mostrar as postagens, informar quem pagou por elas e qual o alcance que elas tiveram (e portanto qual o impacto na escolha da saída do bloco econômico) era o próprio Facebook. E a empresa de Mark Zukerberg se recusou a fornecer tais informações.

 

As ferramentas digitais como – Facebook, WhatsApp, Instagram – são recentes e a maioria dos países não tem uma legislação para regular o uso das possibilidades que elas oferecem. Aliás, a cada par de meses surgem novas características dentro dessas mesmas ferramentas (como ter um perfil para empresas, depois postar anúncios, depois “impulsionar” as postagem pagando para aumentar o alcance deles, etc).

A forma como funcionam os processos democráticos dos países, como o debate entre diferentes partidos, a escrita e negociação sobre projetos lei, o trâmite das votações na câmara, depois no senado, voltando para a câmara, com possibilidade de veto total ou parcial pelo presidente, etc, claramente não tem a mesma agilidade das novas tecnologias. Além disso, os políticos que são os representantes escolhidos por nós para navegar por todos esses trâmites, têm seus interesses particulares. Um deles é o de atrair financiadores para suas campanhas para poderem se manter nos cargos por sucessivos mandatos.

O que Carole descobriu sobre a manipulação da campanha a favor do Brexit é que além​ do uso massivo das redes sociais e do conteúdo mentiroso dos anúncios, o dinheiro que pagava os impulsionamentos (e engordava a receita do Facebook) vinha de lugares nada ortodoxos, como empresas russas. Mais do que isso, a investigação da jornalista encontrou um elo entre o que aconteceu no Brexit e a campanha que elegeu Donald Trump, presidente dos Estados Unidos.

 

O documentário Privacidade Hackeada (disponível no Netflix), mostra o uso dos dados que todos nós cedemos ao Facebook (nos testes de personalidade que fazemos e postamos na rede social, por exemplo), por empresas como a Cambridge Analytica. A partir dessas informações, a empresa mapeou o perfil psicológico dos eleitores norte-americanos, identificou aqueles que seriam suscetíveis a uma manipulação e direcionou a propaganda pró-Trump para esse grupo. O truque é manipular sentimentos de ódio e medo, fazendo com que as dúvidas (racionais) dos eleitores se transformassem em certezas (irracionais). A Cambridge Analytica comemorou a vitória de Donald Trump como um grande momento. Com esse caso de sucesso, eles poderiam oferecer o serviço dele para muitos governos pelo mundo.

Se ingleses e norte-americanos foram manipulados pelo uso ainda não ilegal de ferramentas que hoje são globais, qual a possibilidade de nós aqui, na periferia do mundo, não estarmos à mercê dessas mesmas práticas? O trabalho investigativo da jornalista Carole Cadwalladr parou a empresa Cambridge Analytica, mas ainda não conseguiu responsabilizar legalmente o Facebook. A democracia ainda não tem defesas legais ou institucionais frente a esse casamento da tecnologia com o dinheiro dos mais ricos, que impõe a todos nós seus interesses econômicos e políticos.

O jornalismo ético é a última linha de defesa, mantendo as democracias vivas, ainda que feridas, nesse contexto de desinformação e mentiras que estamos vivendo. Nosso papel enquanto sociedade é apoiar a pluralidade da imprensa, financiar os profissionais que trabalham de forma independente (já que eles não estão dentro de uma estrutura corporativa que os proteja, e por isso são alvos de múltiplos processos que os fragilizam financeiramente). Ainda que nossas emoções possam ser manipuladas, nós somos responsáveis pelo que escolhemos fazer quando sentimos ódio e medo. Acompanhar o trabalho de jornalistas como Carole Cadwalladr, The Young Turks, Glen Greenwald, Luis Nassif, Bob Fernandes, entre outros, é essencial em tempos de manipulação.

Comentários

  1. COMENTÁRIO ELABORADO PELA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - IA (GEMINI)
    EU POSSO SER MANIPULADO. E VOCÊ, TAMBÉM PODE?

    O artigo levanta uma questão crucial: a vulnerabilidade das democracias frente ao uso não regulamentado e manipulador das grandes plataformas digitais, como o Facebook.

    O texto utiliza o Brexit e a eleição de Donald Trump como estudos de caso, destacando a atuação da Cambridge Analytica e a recusa do Facebook em fornecer dados, expondo como a microdirecionamento de anúncios, financiado por fontes ilícitas (como a Rússia), explorou medos e ódios para transformar dúvidas racionais em "certezas irracionais" nos eleitores.

    A conclusão é um alerta: a agilidade da tecnologia sobrepujou os lentos processos democráticos e legais. O texto finaliza reforçando o jornalismo ético e independente como a última linha de defesa contra a desinformação, e apela à sociedade para que apoie essa pluralidade e exerça sua responsabilidade individual diante da manipulação emocional.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

MORAL À LUZ DO ESPIRITISMO

  Por Doris Gandres                                         A definição de moral, à luz dos princípios espiritistas, está transcrita na resposta à q.629 do Livro dos Espíritos – “moral é a regra da boa conduta e, portanto, da distinção entre o bem e o mal. O homem se conduz bem quando faz tudo tendo em vista o bem e para o bem de todos.”             Certamente ainda estamos um tanto longe de visar estritamente o bem e não as vantagens pessoais e, dificilmente, particularmente o bem de todos...             José Herculano, em seu comentário à resposta da q.636 do mesmo livro, na edição por ele traduzida, afirma que “os sociólogos confundiram moral e costumes”; e conclui: “A moral relativa é a convencional, enquanto a moral absoluta é a ditada pela aspi...

SOBRE ATALHOS E O CAMINHO NA CONSTRUÇÃO DE UM MUNDO JUSTO E FELIZ... (1)

  NOVA ARTICULISTA: Klycia Fontenele, é professora de jornalismo, escritora e integrante do Coletivo Girassóis, Fortaleza (CE) “Você me pergunta/aonde eu quero chegar/se há tantos caminhos na vida/e pouca esperança no ar/e até a gaivota que voa/já tem seu caminho no ar...”[Caminhos, Raul Seixas]   Quem vive relativamente tranquilo, mas tem o mínimo de sensibilidade, e olha o mundo ao redor para além do seu cercado se compadece diante das profundas desigualdades sociais que maltratam a alma e a carne de muita gente. E, se porventura, também tenha empatia, deseja no íntimo, e até imagina, uma sociedade que destrua a miséria e qualquer outra forma de opressão que macule nossa vida coletiva. Deseja, sonha e tenta construir esta transformação social que revolucionaria o mundo; que revolucionará o mundo!

DEUS¹

  No átimo do segundo em que Deus se revela, o coração escorrega no compasso saltando um tom acima de seu ritmo. Emociona-se o ser humano ao se saber seguro por Aquele que é maior e mais pleno. Entoa, então, um cântico de louvor e a oração musicada faz tremer a alma do crente que, sem muito esforço, sente Deus em si.

É HORA DE ESPERANÇARMOS!

    Pé de mamão rompe concreto e brota em paredão de viaduto no DF (fonte g1)   Por Alexandre Júnior Precisamos realmente compreender o que significa este momento e o quanto é importante refletirmos sobre o resultado das urnas. Não é momento de desespero e sim de validarmos o esperançar! A História do Brasil é feita de invasão, colonização, escravização, exploração e morte. Seria ingenuidade nossa imaginarmos que este tipo de política não exerce influência na formação do nosso povo.

A ANATOMIA DE UM ABANDONO: DO CAPITALISMO DESTRUTIVO À TEOLOGIA DO CUIDADO

    Por Jorge Luiz.            O Corpo como Sentença Político-Espiritual A obra literária “Quem Matou meu Pai” , de Édouard Louis, é um monólogo biográfico nascido de uma dor visceral. O relato parte do encontro com seu pai — um homem que, após uma vida de trabalho manual na fábrica e um grave acidente laboral, encontra-se doente, com dificuldades para andar e respirar, reduzido a uma "invalidez" física. Esse corpo quebrado é o ponto de partida para que o autor, com uma voz apaixonada e urgente, questione os culpados pela destruição da saúde e da dignidade do seu progenitor.             Na realidade, o relato de Louis faz-nos reconhecer, na sua história, a trajetória de milhões de indivíduos e as “digitais do poder” na anatomia da vida quotidiana. É um relato sobre a luta de classes, o afeto e o apagamento — um grito que ecoa em um tempo em que a gestão técnica tenta silenciar o...

LIVRE-ARBÍTRIO E MOBILIDADE SOCIAL

      Por Marcelo Teixeira                Ouvi de um motoboy, a quem chamarei de Dario, um depoimento que me sensibilizou. Disse ele, entre triste e revoltado, que não vislumbrava perspectivas de uma vida melhor para ele e família, apesar de trabalhar de sol a sol. A rotina massacrante e cansativa o fazia sair de casa todas as manhãs na esperança de tempos ditosos; no entanto, acabava sempre fazendo o mesmo trabalho para pagar as mesmas contas e seguir sempre no mesmo ritmo, sem expectativa de algo diferente que lhe permitisse voltar a estudar, adquirir a casa própria ou realizar outro sonho que dependesse de juntar algum dinheiro. Uma vida que se limita a cruzar a cidade de motocicleta, fazendo entregas, num périplo que dura aproximadamente 12 horas por dia.               Tal depoimento me instigou a pensar de forma mais acurada na questão do livre-arbítrio, tema so...

ESPIRITISMO E POLÍTICA¹

  Coragem, coragem Se o que você quer é aquilo que pensa e faz Coragem, coragem Eu sei que você pode mais (Por quem os sinos dobram. Raul Seixas)                  A leitura superficial de uma obra tão vasta e densa como é a obra espírita, deixada por Allan Kardec, resulta, muitas vezes, em interpretações limitadas ou, até mesmo, equivocadas. É por isso que inicio fazendo um chamado, a todos os presentes, para que se debrucem sobre as obras que fundamentam a Doutrina Espírita, através de um estudo contínuo e sincero.

O ESPIRITISMO É PROGRESSISTA

  “O Espiritismo conduz precisamente ao fim que se propõe todos os homens de progresso. É, pois, impossível que, mesmo sem se conhecer, eles não se encontrem em certos pontos e que, quando se conhecerem, não se deem - a mão para marchar, na mesma rota ao encontro de seus inimigos comuns: os preconceitos sociais, a rotina, o fanatismo, a intolerância e a ignorância.”   Revista Espírita – junho de 1868, (Kardec, 2018), p.174   Viver o Espiritismo sem uma perspectiva social, seria desprezar aquilo que de mais rico e produtivo por ele nos é ofertado. As relações que a Doutrina Espírita estabelece com as questões sociais e as ciências humanas, nos faculta, nos muni de conhecimentos, condições e recursos para atravessarmos as nossas encarnações como Espíritos mais atuantes com o mundo social ao qual fazemos parte.