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DIÁRIO DA MAMA 7 - ENTRE QUÍMIOS

 

Por Dora Incontri

As pessoas que acompanham o Diário da Mama me perguntam por nova escrita, no justo desejo de saberem como estou passando. Nem relatei a segunda quimio e já estou às vésperas da terceira. O dia em que fiz a segunda, já duas semanas atrás, deslizou com suavidade e foi menos impactante do que a primeira.

É algo palpável, quase concreto o quanto a oração nos carrega, para atraversarmos os mares bravios da vida. A nossa própria, a que fazemos do profundo de nossa fé e as que nos são endereçadas, nas asas de pensamentos amorosos, sinceros e potentes. Nessa segunda vez, fui acompanhada por minha outra Claudia amiga-irmã, a Gelernter. E nossas orações, ao som de Hildegard von Bingen, foram muito confortadoras durante o processo da químio.

Nos dias que se sucederam, porém, embora de início me parecessem mais amenos, em relação à primeira, foram se mostrando cheios de novidades incômodas: a diabete destrambelhada (por causa da cortisona), taquicardia, episódios de pressão baixa, neuropatia nos pés, alteração de paladar, mas sobretudo, muito, muito cansaço. Um cansaço que não passa, descansando. Que me faz me arrastar entre o trabalho e a cama, entre o almoço e a rede, entre o trabalho e o sofá. Todo mundo com quem converso que já passou por isso, confirma a exaustão como sintoma incontornável da quimioterapia.

O choque da químio nos tira de nós mesmos, de nossa energia vital, de nossa potência. É temporário, mas é estranho. Mais estranho para mim que sou um furacão de atividades… mas não será isso o necessário no momento, um repouso forçado, para algum tipo de aprofundamento da alma?

Essa quinzena teve um ponto alto que não posso deixar de mencionar, porque revela o quanto a arte é terapêutica e vital: fui com todos os cuidados possíveis (para me prevenir de pegar Covid) a um concerto aqui em Bragança, em homenagem a Vinicius de Moraes, nosso poetinha querido. Orquestra Jovem de Bragança, a neta do Vinicius, Mariana, cantando, e ainda meus sobrinhos participando do coral infantil. Foi um deleite. Nesse dia, saí revigorada e o cansaço fugiu. Fui dormir às duas horas da manhã, depois de uma pizza com meu pai e amigos, e pulei da cama disposta, no dia seguinte.

Hoje, estou me preparando para enfrentar a quimio de amanhã. É sempre imprevisível como será. Mas sempre posso contar com a música e com a prece, com os amigos desse lado e do outro lado da vida.

 

A cada trecho da escalada

Na montanha do tempo

Uma fé esforçada

 Uma tênue mirada

 No topo da chegada.

 A cada dia, uma dia

 A cada dor esguia

 inha alma se recria…

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