Pular para o conteúdo principal

MORTE: CONSTRUTO SOCIAL

 


            A morte é o fenômeno mais natural na vida do ser humano. Encontramo-la na cadeia alimentar dos animais, nos vegetais e nos microrganismos, na qual nos inserimos, e na nossa, pelo menos, por enquanto. Os Reveladores Celestes respondem a Kardec sobre a alimentação animal pelo homem, na questão nº 723 de O Livro dos Espíritos: “dada a vossa constituição física, a carne alimenta a carne, do contrário o homem perece. Afinal, tudo se transforma na natureza.

Apesar dessa naturalidade, a morte desde sempre foi encarada como um acontecimento funesto e que causa uma imensa dor e tristeza pela separação.

Só a partir do surgimento da Doutrina Espírita é que, de forma científica, a Humanidade passou a ter conhecimento de como é a realidade além-túmulo. Antes disso, o sobrenatural dominava essa realidade, e os mortos não passavam de fantasmas; assombrações. As respostas sempre foram buscadas de forma efetiva na filosofia e na religião.

É preciso entender que ao longo da esteira do tempo a compreensão da morte pelo homem passou por sucessivas e importantes mudanças, principalmente na primeira Idade Média ou alta Idade Média (século V até o XII) e na segunda Idade Média ou baixa Idade Média (do século XII até o XV).

Philippe Ariès (1914-1984), historiador medievalista francês, define assim o que foi a morte para a primeira Idade Média:

 

“Com a morte, o homem se sujeitava a uma das grandes leis da espécie e não cogitava em evitá-la, nem em exaltá-la. Simplesmente a aceitava, apenas com a solenidade necessária para marcar a importância das grandes etapas que cada vida devia sempre transpor.”

 

            Ariès denomina de “morte domada” o período que alcançado até o século XII, quando se considerava a advertência da morte, pois uma pessoa não morria sem ter tido tempo de ser alertada que iria morrer. É importante salientar que a morte pela peste ou súbita era vista de forma terrível, e era considerada excepcional e não era mencionada. Não havia os recursos médicos para o prolongamento da vida como na atualidade. A certeza consistia no fato de o homem ser advertido. Ele diz:

 

“(...) o aviso era dado por signos naturais ou ainda, com maior frequência, por uma convicção íntima, mais do que por uma premonição sobrenatural ou mágica.”

           

            Esse tipo de realidade ainda é constatado nos dias atuais, agora esclarecido pela Doutrina Espírita.

            A cerimônia era pública, onde o quarto do moribundo era frequentado por todos – amigos e vizinhos – inclusive por crianças, bem diferente dos dias de hoje, em que se afastam as crianças dos agonizantes. Os médicos do fim do século XVII, quando surgiram as primeiras noções de higiene, queixavam-se do excesso de pessoas no ambiente.

            Esse período é marcado pela compreensão da morte como uma lei da espécie e não se cogitava em evitá-la ou exaltá-la.“Simplesmente a aceitava, apenas com a solenidade necessária para marcar a importância das grandes etapas que cada vida devia sempre transpor.”

Os defuntos eram sepultados somente com os sudários (sem caixão) em grandes valas. Não havia necessidade de um túmulo para o próprio morto, como se fosse sua propriedade perpétua. Os cemitérios e as igrejas se confundiam. Os mortos eram enterrados tanto no interior das igrejas (ricos) quanto no seu pátio (pobres).

O que Ariès identifica no período acima é que o indivíduo era profunda e imediatamente socializado, a sua socialização não o separava da natureza, portanto, essa familiaridade com a morte era uma aceitação de uma ordem da natureza. Enfim, a família não atrasava o processo de socialização do indivíduo.

Portanto, observa-se, a partir do século XI ou XII, algumas mudanças sutis que, pouco a pouco, um sentido dramático e tradicional à familiaridade vista acima, do homem com a morte. Antes a certeza, depois a incerteza reinou, uma vez que coube à Igreja intermediar o acesso da alma ao paraíso ou ao julgamento e o julgamento final deixou de ser evento que ocorreria nos Tempos Finais e passou a ser um evento que ocorreria imediatamente após a morte, o que resultaria na descida ao inferno (sofrimento eterno) ou ascensão aos céus (alegria eterna), o que dependeria da vida do indivíduo antes da morte. A morte deixou de ser um processo natural e passou a ser uma provação.

A morte passa a ser “clericalizada”, segundo Ariès, é a maior mudança antes das secularizações do século XX.

Entretanto, a partir da segunda metade do século XX ocorreu uma mudança muito significativa, a morte deixa de ser um evento familiar para ser interdito, - “morte interdita” - principalmente para as crianças. Já não se morre no seio da família, mas sim nos hospitais. É a morte selvagem, como bem define Ariès.

Dois pontos merecem destaque nas narrativas acima: o moribundo e a criança.

a)    moribundo

- A morte era uma cerimônia pública organizada pelo próprio moribundo que conhece o protocolo;

- Relacionava os amigos e parentes que iria receber, onde ocorriam despedidas e perdões;

 

“Hoje, a iniciativa passou da família, tão alienada quanto o moribundo, ao médico e à equipe hospitalar. São eles os donos da morte, de seu momento e também de suas circunstâncias; constatou-se que se esforçavam para obter de seu doente uma forma aceitável. Uma morte aceitável é uma morte que possa ser aceita ou tolerada pelos sobreviventes.” (Philippe Ariès)

 

b)   crianças

- Não há representação de um quarto de moribundo até o século XVIII sem algumas crianças. Uma coisa vista se impõe por si mesma;

- A família não intervinha para atrasar a socialização da criança;

- A socialização não separava a criança da natureza, na qual só podia intervir por milagre;

 

“Hoje as crianças são iniciadas, desde a mais tenra idade, na fisiologia do amor e do nascimento; no entanto, quando não veem mais o avô e perguntam por que, respondem-lhes, na França, que este viajou para muito longe, e, na Inglaterra, que descansa num lindo jardim onde crescem as madressilvas.” (Philippe Ariès)

 

            Os fatos são suficientes para constatar que a morte como entendida através das civilizações é construto social. Portanto, de acordo com o construto social, a realidade divina e o pensamento individual não são determinados por categorias imutáveis do tipo divino ou natural, uma vez que existam a ação humana em sua complexidade humana e a que orienta os diversos construtos. Não passa despercebido que o construto tem uma fundamentação no ego e este não é nada, embora guie as personas.

            O que é um construto social diante das evidências científicas elaboradas pela TRVP (Terapia Regressivas às Vivências Passadas), EQM (Experiências de Quase-Morte), TCI (Transcomunicação Instrumental com os Mortos) e as Recordações Espontâneas de Vidas Passadas?

            Essas evidências sugerem um novo construto social que emancipará a Humanidade para voos grandiosos, centrado na existência do Espírito. As dificuldades infelizmente se concentram na polarização política entre liberais e conservadores. Os valores liberais devem prevalecer para a compreensão de Deus e do Espírito. Da mesma forma, entendem os conservadores. Nesse impasse, obviamente, não se encaixa a realidade do Espírito de Allan Kardec, de ser circunscrito e que guarda sua individualidade após a morte, renascendo várias vezes e se comunicando após a desercarnação (morte).

A morte vencida pelo Espiritismo e pela lei do progresso, a mediunidade hoje faculdade biológica do indivíduo, pela força da inteligência, e vice-versa, irá se desenvolver e, da mesma forma que a inteligência possibilitou até hoje os processos de comunicações entre os homens, a mediunidade desenvolvida facultará a comunicação com os Espíritos desencarnados, na vida cotidiana, obviamente, com um construto social mais moralizado.

            Independente das tiranias políticas o Espiritismo, após inaugurar a era do Espírito, vai moldando no imaginário do ser humano o construto social que o homem tanto necessita e fará a Terra galgar patamares mais elevados nas escalas dos Mundos, modelo incompatível com as expectativas da questão política entre liberais e conservadores. Leia-se o que Ken Wilber, pensador estadudinense, criador da psicologia integral:

 

“Um Espírito liberal – liberto e libertador – não repousa em nenhum desses caminhos. Onde localizamos o Espírito? Essa é a grande questão de nossos tempos, não é mesmo? Essa é a questão central de um Deus liberal.”

 

           

Referências:

ARIÈS, Philippe. História da morte no Ocidente. Rio de Janeiro, 1977.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. São Paulo. 2000;

WILBER, Ken. O olho do espírito. São Paulo, 1997.

 

Site:

<https://conceitos.com/constructo-social/>.

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O CALVÁRIO DAS MARIAS: DA RED PILL À INSURREIÇÃO DO ESPÍRITO

      Por Jorge Luiz “Que é mesmo a minha neutralidade senão a maneira cômoda, talvez, mas hipócrita, de esconder minha opção ou meu medo de acusar a injustiça? Lavar as mãos em face da opressão é reforçar o poder do opressor, é optar por ele.” (Paulo Freire)   A Patologia da Simbiose Promíscua Vídeo que circula nas redes sociais mostra a comandante da Guarda Municipal de Fortaleza reunida com outras mulheres, arguindo que há algo de errado no segmento evangélico. Analisando alguns dados estatísticos, ela concluiu que o número de mulheres agredidas dentro da ambiência do lar é de evangélicas. Essas mulheres, ao buscarem ajuda em suas igrejas, são orientadas pelo pastor a não procurarem advogado ou a polícia, e que devem se submeter ao marido, ganhando-o pelo testemunho. A crise é espiritual; portanto, orem! Essa também é a convicção desse mediano escrevinhador. 

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

TERRA: MUNDO DE PROVAS E EXPIAÇÕES

Questão 1018 (O Livro dos Espíritos) – Jamais o reino do bem poderá ter lugar sobre a Terra? Resposta: O bem reinará sobre a Terra quando, entre os Espíritos que vêm habitá-la, os bons vencerem sobre os maus. Os sofrimentos existentes no planeta Terra são devidos às imperfeições morais dos seres, encarnados e desencarnados, que nela habitam. Embora com a intelectualidade até certo ponto desenvolvida e apurada, as criaturas humanas que aqui se encontram, na sua maioria, estão com a moral atrofiada pelas paixões inferiores alimentadas pelo orgulho, pelo egoísmo e pela vaidade, sentimentos estes precursores de todas as desgraças humanas. A iniquidade reinante no globo terrestre não pode ser ignorada pois, em todos os recantos do mundo, ela é visível e concreta. Não duvidamos que a Lei do Progresso é uma lei natural, emanada de Deus e, por isso mesmo, imutável atingindo a tudo e a todos. É certo também que o progresso intelectual precede ao progresso moral, possibilit...

TRANSFORMAÇÃO SOCIAL

  Por Jerri Almeida A aspiração por uma sociedade mais justa e feliz, esteve presente em vários momentos na história do pensamento ocidental. O humanista inglês Thomas More, ao escrever seu livro A Utopia, no século XVI, imaginou uma ilha aonde seus habitantes viviam felizes, num sistema social justo e sábio, retomando a ideia da república em Platão. Condorcet, no final do século XVIII, havia escrito nas páginas de seu Tableau , dez etapas para o avanço triunfal da humanidade, rumo à ciência, à sabedoria e à felicidade.  Mais tarde, Victor Hugo, em sua magistral obra: Os Miseráveis , de 1862, escreveu: “Cidadãos, o século XIX é grandioso, mas o século XX será feliz [...]. Não se terá mais a temer a fome e a exploração, [...] a miséria, as batalhas e todas as rapinagens do acaso na floresta dos acontecimentos. Poder-se-ia quase dizer: não haverá mais acontecimentos. Seremos felizes.[...]”. Havia um imaginário, um otimismo literário no tocante aos avanços e promessas de um mundo...

"FOGO FÁTUO" E "DUPLO ETÉRICO" - O QUE É ISSO?

  Um amigo indagou-me o que era “fogo fátuo” e “duplo etérico”. Respondi-lhe que uma das opiniões que se defende sobre o “fogo fátuo”, acena para a emanação “ectoplásmica” de um cadáver que, à noite ou no escuro, é visível, pela luminosidade provocada com a queima do fósforo “ectoplásmico” em presença do oxigênio atmosférico. Essa tese tenta demonstrar que um “cadáver” de um animal pode liberar “ectoplasma”. Outra explicação encontramos no dicionarista laico, definindo o “fogo fátuo” como uma fosforescência produzida por emanações de gases dos cadáveres em putrefação[1], ou uma labareda tênue e fugidia produzida pela combustão espontânea do metano e de outros gases inflamáveis que se evola dos pântanos e dos lugares onde se encontram matérias animais em decomposição. Ou, ainda, a inflamação espontânea do gás dos pântanos (fosfina), resultante da decomposição de seres vivos: plantas e animais típicos do ambiente.

UM POUCO DE CHICO XAVIER POR SUELY CALDAS SCHUBERT - PARTE II

  6. Sobre o livro Testemunhos de Chico Xavier, quando e como a senhora contou para ele do que estava escrevendo sobre as cartas?   Quando em 1980, eu lancei o meu livro Obsessão/Desobsessão, pela FEB, o presidente era Francisco Thiesen, e nós ficamos muito amigos. Como a FEB aprovou o meu primeiro livro, Thiesen teve a ideia de me convidar para escrever os comentários da correspondência do Chico. O Thiesen me convidou para ir à FEB para me apresentar uma proposta. Era uma pequena reunião, na qual estavam presentes, além dele, o Juvanir de Souza e o Zeus Wantuil. Fiquei ciente que me convidavam para escrever um livro com os comentários da correspondência entre Chico Xavier e o então presidente da FEB, Wantuil de Freitas 5, desencarnado há bem tempo, pai do Zeus Wantuil, que ali estava presente. Zeus, cuidadosamente, catalogou aquelas cartas e conseguiu fazer delas um conjunto bem completo no formato de uma apostila, que, então, me entregaram.

DÍVIDAS DE VIDAS PASSADAS : PAGAR O QUE? PAGAR A QUEM?

  Por Orson P. Carrara   Somente o desconhecimento dos princípios espíritas pode gerar a ideia de que temos que pagar com sofrimentos, e para alguém, dívidas de existências passadas. Eis o equívoco. O que ocorre é que a existência do espírito é única; as existências corpóreas é que são múltiplas, mas o ser integral é sempre o mesmo. As múltiplas existências corpóreas cumprem a finalidade de estágios de aprendizado, na verdade degraus de aperfeiçoamento.

THEODORO CABRAL

Por Luciano Klein (*) Natural de Itapipoca (imagem), Ceará, nasceu a 9 de novembro de 1891. Foram seus pais: Francisco Gonçalves Cabral e Maria de Lima Cabral. Pertencente a família pobre, emigrou para o Estado do Pará onde se iniciou na vida prática. Graças à sua inteligência e dedicação nos estudos, adquiriu conhecimentos gerais, notadamente de línguas, com rara facilidade, sem haver freqüentado qualquer curso além da escola primária. Estes mesmos atributos levaram-no ao jornalismo, no qual se projetou com rapidez e brilhantismo.

EDYNARDO WEYNE

 Por Luciano Klein (*) Nasceu em Fortaleza, a 9 de janeiro de 1911, sendo seus pais Álvaro Nunes Weyne (prefeito de Fortaleza em duas gestões) e Maria José Rodrigues Weyne, primeira pessoa escolhida para exercer, em nosso Estado, as funções de presidenta da LBA - Legião Brasileira de Assistência. Estudou no Colégio Militar do Ceará. Ainda tenente, assumiu as tribunas publicas no momento em que o mundo vivia a tragédia da 2.ª Guerra Mundial. Ao lado de Perboyre e Silva e Madaleno Girão Barroso, formou o conselho deliberativo da Sociedade Amigos da América, empolgando o público com sua oratória na sessão cívica de instalação no Teatro José de Alencar. Em outra vibrante alocução, na Praça do Ferreira, conclamou a todos para a luta contra o fascismo e a Quinta Coluna. O General Euclides Zenóbio da Costa, comandante das tropas expedicionárias brasileiras, em sua passagem por Fortaleza, no ano de 1943, hospedou-se na residência de Álvaro Weyne, o que ensejou ao t...