Pular para o conteúdo principal

DECOLONIZAR, QUEIMANDO LIVROS?

 


Este é um artigo que terá mais perguntas e perplexidades do que respostas prontas, embora aponte algumas proposições. Essas reflexões surgem num momento delicado e necessário da história do Brasil e da história ocidental. Estou lendo o brilhante e indispensável livro de Boaventura Santos, O Fim do Império Cognitivo – A Afirmação das Epistemologias do Sul – e ao mesmo tempo estamos assistindo à derrubada de estátuas de reis e colonizadores, à queima de livros (esses dias, no Canadá, quadrinhos de Asterix e Tintim foram queimados, por terem falas ofensivas às culturas indígenas).

Estamos vendo também emocionados às belíssimas manifestações dos nossos indígenas em Brasília, por causa da votação no STF sobre o Marco Temporal. Esses povos nossos originários mostram sua força, sua conexão com a terra e resistem ao extermínio sistemático de suas vidas há 500 anos.

O avanço do pensamento decolonial, para Boaventura Santos, não deve ser apenas uma releitura da história, a partir da perspectiva dos povos colonizados e destituídos de seu direito de fala, numa ação de resistência, mas uma própria mudança na área do conhecimento, do que consideramos válido como conhecimento. Ele aponta que a dominação da cultura ocidental europeia se dá também pela imposição de uma forma de ver o mundo, científica-tecnológica, à qual há tantas leituras críticas, inclusive pelo fato de que esse jeito de estar no mundo implica, ou pelo menos anda junto com, toda a agressão à mãe-terra, toda a exploração e extermínio de povos inteiros e de culturas silenciadas, toda a desigualdade planetária. Entretanto, ele vai mais além da crítica marxista tradicional, em relação às estruturas perversas do capitalismo, para reivindicar a incorporação de novas epistemologias (ou formas de conhecer), que venham de culturas ancestrais, de comunidades que estão na resistência e na luta para a própria sobrevivência, a partir dessas mesmas culturas, desprezadas e oprimidas pelo projeto colonialista. Projeto, aliás, que não arrefeceu no século XXI. No Brasil, ele acontece ainda internamente, como vemos nas lutas de indígenas e negros, até hoje submetidos à morte e à discriminação. E externamente também: agora mesmo, aprofundamos no Brasil nosso status de colônia dos EUA.

Voltando ao pensamento decolonial e ao revisionismo histórico, que estamos vendo ser reivindicado por povos e por setores da sociedade, dá-se uma desconstrução de todas as narrativas do homem branco, do patriarcado, da visão eurocêntrica… e isso afeta estátuas, livros literários e filosóficos, poemas, canções. Sendo o racismo, o machismo e outros maléficos “ismos” estruturais, eles perpassam produções culturais várias, paisagens diversas, que fazem parte de tradições milenares ocidentais, que apesar de terem sido impostas, têm seu valor tanto quanto as que foram silenciadas nas Américas, na África e na Ásia. E essas que foram silenciadas, não se pode idealizá-las tampouco, porque nelas também há opressões, patriarcados e outros ismos.

Vamos tomar alguns exemplos mais longínquos e outros mais próximos. Pode parecer que temos de abdicar de toda a tradição filosófica grega, de toda raiz de valores cristãos (refiro-me aos legítimos valores propostos por Jesus, de fraternidade e amor e não às suas apropriações inquisitoriais, colonialistas, opressoras). Pode parecer que temos de renunciar a uma parte da história, para incorporar a que foi negada. Pode parecer que temos de recusar autores e obras, que tiveram seu valor estético e filosófico, mas estavam naturalmente contaminados por preconceitos étnicos, homofóbicos ou machistas, dos contextos de suas épocas.

Isso desencadeia uma verdadeira crise de tirar o chão, para quem foi estruturado nessa cultura. Não que não possamos e até devamos nos desconstruir, repensando-nos e reinventando-nos.

O que venho refletindo é que a revisão histórica, o movimento decolonial, as justíssimas reivindicações de povos e grupos, a inclusão das vozes epistemológicas do Sul, como quer Boaventura – tudo isso é uma necessidade, um clamor imprescindível. Inclusive com naturais manifestações de queimar estátuas. Mas e… livros? Já os livros a mim, me chocam. Por mais que tenha absoluta repulsa por um pensamento como o de Hitler, jamais queimaria Mein Kampf, porque precisamos guardar a obra como registro histórico, nem que seja como objeto de estudo psiquiátrico.

Então, isso se aplica aos livros de Monteiro Lobato, aos quadrinhos de Asterix e de Tintim ou a qualquer samba machista ou racista (e há muitos…). Revolução cultural que signifique destruição pura e simples do que estava dado não é inteligente, não é humano e empobrece a história e a cultura. É preciso ensinar e construir novas narrativas e leituras críticas, preservando algo do que constituiu o passado e integrando os avanços presentes.

Mesmo porque todo esse processo é dialético. Há muito de elaboração sociológica e filosófica europeia no próprio clamor decolonialista. Intelectuais do Norte e do Sul, homens e mulheres, brancos, negros e indígenas estão escrevendo, militando e lutando de forma colaborativa nesse sentido. O próprio livro de Boaventura é uma prova disto.

Mergulhando no plano pessoal e trazendo minha visão espírita kardecista, quero concluir, dizendo o seguinte: Como sou reencarnacionista e evolucionista, tenho convicção de que já fui colonizador branco e mulher negra, já vivi na Grécia e na África, no Oriente e no Ocidente e tenho aprendido, como toda a humanidade tem de aprender, que somos essencialmente iguais e que nossas diferenças são preciosas. Para que possamos de fato avançar nesse quesito, temos que promover uma consciência planetária que inclua a todos e todas e não exclua nem os que foram excluídos já, nem os que promoveram a exclusão.

Claro que não vamos homenagear estupradores e canalhas, mas entenderemos que mesmo os bem-intencionados, artistas e filósofos, podem ter tido natural influência do meio. Como nos julgará o futuro? Não teremos aspectos de nosso pensar e agir, que poderão ser considerados inaceitáveis por nossos netos e bisnetos?

 Alguns poderão objetar que eu, na condição de branca, adepta de uma filosofia que veio de uma França colonialista, esteja tendendo a “passar pano” para brancos colonizadores e que não há salvação possível para um discurso que venha desse “lugar de fala”. O que sugerem então? A eliminação pura e simples dessa vertente, junto com seus defensores? Ao contrário, penso que é possível a reinvenção das influências francesas e iluministas, no caso espíritas, ao influxo dos avanços decolonialistas do século XXI. Mas isso é assunto para outro artigo ou mesmo para um livro.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

AS BETS E O JOGO DA VIDA

      Por Jorge Luiz                     A Encomenda da Esperança: A Captura do Imaginário             Muito recentemente, os símbolos da Pátria foram sequestrados por uma corrente partidária de extrema-direita. De repente, o imaginário do brasileiro foi dilacerado: o que era símbolo de pertencimento e brasilidade transmutou-se em sentimento de aversão por aqueles alinhados a ideologias progressistas. Com a camisa da Seleção Brasileira, o fenômeno não foi diferente. Esse episódio escancara algo fundamental: o imaginário é o campo onde se travam as disputas centrais da nossa época.             O imaginário, para Castoriadis (2012), não significa o fictício, o ilusório ou o especulativo, mas o elemento determinante — e não determinado — de novas formas e significações; uma criação autônoma que não se ...

A HISTÓRIA DE JERÔNIMO

  Por Jerri Almeida A história de Jerônimo é comovente. Nasceu no dia 1º de novembro de 1939 em Ituiutaba, Minas Gerais. Narra-se que sua infância foi a de uma criança normal. Frequentou escola até o início do ginasial antigo. Todavia, já na adolescência, começou a sentir os primeiros sinais de sua doença, através de dores nas articulações, especialmente nos joelhos e tornozelos, que passaram a inchar e, aos dezoitos anos, já andava com dificuldade.

QUANDO O ESPIRITISMO VIRA ARENA DE PRÁTICAS “DIFERENTONAS”

  Sala para realização de cirurgia espiritual no C.E.Casa de Oração Espírito de Luz Por Jorge Hessen Entre a codificação e a fantasia mediúnica, alguns parecem ter escolhido a segunda Há algo profundamente preocupante no movimento espírita brasileiro: a crescente transformação da mediunidade em laboratório de novidades. Cada grupo inventa sua fórmula, cada dirigente anuncia seu método, cada médium apresenta uma experiência particular, como se representasse a evolução da Doutrina. E, quando alguém pergunta onde está Kardec, responde-se com a palavra mágica: “caridade”. Não. Caridade não é salvo-conduto para a improvisação “diferentona”.

UM HOMEM, UMA HISTÓRIA RESIGNIFICANDO O VÍNCULO SOLIDÁRIO

  Objetivando transmitir uma mensagem de “alento” e “esperança” a pessoas em desespero, John Edwards, de 61 anos, um ex-dependente de drogas e ex-alcóolatra (sóbrio há mais de duas décadas) inexplicavelmente se voluntariou deitar em um caixão que foi fechado e enterrado no terreno de uma igreja de Belfast, na Irlanda do Norte. Obviamente o ataúde foi especialmente adaptado para que Edwards “sobrevivesse” por três dias (quando fosse desenterrado) e pudesse transmitir a experiência ao vivo pelas redes sociais. No passado Edwards enfrentou abuso sexual, viveu na rua, recebeu tratamentos para distúrbios mentais, sobreviveu a várias overdoses e “perdeu” mais de 20 amigos por conta de abuso de drogas, álcool e suicídios. Sobreviveu a dois cânceres e a um transplante de fígado após desenvolver hepatite C por causa de uma agulha contaminada.

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

É HORA DE ESPERANÇARMOS!

    Pé de mamão rompe concreto e brota em paredão de viaduto no DF (fonte g1)   Por Alexandre Júnior Precisamos realmente compreender o que significa este momento e o quanto é importante refletirmos sobre o resultado das urnas. Não é momento de desespero e sim de validarmos o esperançar! A História do Brasil é feita de invasão, colonização, escravização, exploração e morte. Seria ingenuidade nossa imaginarmos que este tipo de política não exerce influência na formação do nosso povo.

LOBISOMEM: MITO OU REALIDADE?

    Por Americo N. Domingos Filho   Na tradição oral, em âmbito mundial, há o relato fantástico de um ser que se converte em lobo, em noites de lua cheia, e, sedento de sangue, sai em busca de suas vítimas para sugá-las. Ao amanhecer, assume de novo as características de uma pessoa comum. Essa lenda revela um ser amaldiçoado, que se torna parte homem e parte lobo, produzindo muito temor, principalmente nas crianças e, igualmente, em muitos adultos, especialmente os moradores de áreas rurais.

SIMPLESMENTE JESUS¹

Esqueçamos as circunstâncias do nascimento, o período dos 03 aos 30 anos, as ações reconhecidas como milagres, a cruz, a morte, a ressurreição. Foquemos no homem que esteve entre nós há dois mil anos e continua motivo de discussões e retóricas tanto tempo depois. Quem é Jesus e o que representa em nossas vidas, ou melhor, na vida de cada um de nós, quando estamos na solidão testemunhada apenas pelo espelho? Longe do discurso que bradamos para que os outros nos escutem com aplausos, qual é de verdade a importância de Jesus no plano de nossas existências?         Definitivamente se esperamos encontrá-lo nos bancos ou no púlpito das igrejas, ainda delirantes quanto ao seu retorno em majestosa nuvem cercado de um séquito de anjos para nos proclamar filhos diletos de Deus; se julgamos que o fato de ter servido a agremiações religiosas tais ou quais nos confere assento a sua mesa de bodas; se aguardamos que as nossas doações de bens e gêneros exclusiv...

O ESPIRITISMO NECESSITA RETORNAR ÀS SUAS ORIGENS PRIMORDIAIS

  Após a desencarnação de Allan Kardec o Movimento Espírita francês e mundial sucumbiu, devido à imaturidade doutrinária de Pierre G. Leymarie. A ele foi incumbida a administração do espólio da família de Kardec, assumindo a obrigação de sustentar a propagação do Espiritismo, mas em vez disso mistificou a propaganda doutrinária, e para descrédito do Espiritismo teve que amargar uma cadeira por comprovadas fraudes veiculadas na Revista Espirita. Leymarie era um apaixonado praticante da Teosofia de Blavatsky e defendia as ridículas obras de J.B. Roustaing e para variar era deslumbrado pela maçonaria. Ora, com tal “curriculum vitae”, as suas atuações suscitaram o desfalecimento do Movimento Espírita mundial.