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O ESPÍRITO: NEM TÃO DESCONHECIDO ASSIM

 

 

“No decorrer de poucos séculos, seres humanos inteligentes, de todas as posições sociais, puderam fazer algo que teria estarrecido as gerações anteriores: negar a própria existência do espírito.” (Ken Wilber)

 

O documentário “O Dilema das Redes” (assista), cujo roteiro é desenvolvido por ex-executivos das maiores empresas do Vale do Silício e acadêmicos, retrata o vício e os impactos negativos das redes sociais sobre pessoas e comunidades como resultados de estratégias criadas para manipular emoções e comportamentos e manter usuários conectados. É digno de nota que em determinado momento do documentário um dos executivos assim se expressa: “dois tipos de indústria chamam clientes de usuários: a das drogas ilegais e a de softwares.”

Os métodos descritos pelos entrevistados abrangem a manipulação das emoções por meio da dopamina - um neurotransmissor ligado ao prazer, à alegria e ao bem-estar, estimulando o sistema de “recompensa imediata”, como curtidas ou comentários positivos nas redes sociais. Estas teriam criado métodos de navegação capazes de estimular a circulação de dopamina em níveis sem precedentes. Em linhas gerais, são os mesmos mecanismos cerebrais acionados nos casos de dependência química.

O que é mais desanimador é que a natureza do dilema é ética, e os protagonistas não apresentam nenhuma solução para a superação. Na realidade, eles não têm noção, além do negócio em si, do que eles estão lidando. A inteligência artificial (IA), através de símbolos computacionais, surge com o propósito de construir mecanismos e/ou dispositivos que simulem a capacidade do ser humano de pensar, resolver problemas, ou seja, de ser inteligente. Apesar de ser classificada como artificial, ela é por si só inteligência, e por ser atributo do Espírito, aqui está o ponto nevrálgico para as causas e soluções da crise civilizatória da Humanidade. Veja-se, questão nº 24 de “O Livro dos Espíritos”:

 

“– A inteligência é um atributo essencial do espírito; mas um e outro se confundem num princípio comum, de maneira que, para vós, são uma e a mesma coisa.”

 

A inteligência, de onde se manifestam os patrimônios da evolução e da cultura, expressa-se pelo pensamento. Diz o Espírito Emmanuel que:

 

“Pensamento, eletricidade e magnetismo conjugam-se em todas as manifestações da vida universal, criando gravitação e afinidade, assimilação e desassimilação, nos campos múltiplos da forma que servem à romagem do espírito para as metas supremas, traçadas pelo Plano Divino.”

 

David Bohm, (1917-1992), físico estadunidense de posterior cidadania brasileira e britânica, no início da década de 1990 já mostrava o cenário das muitas crises que hoje se agudizam em todas as partes do globo. Bohm diagnosticou que a causa está naquilo que ele chamou de “a doença do pensamento”, cujos principais sintomas são: a) o imediatismo; b) a superficialidade; c) o simplismo.            Esses sintomas provocam, na maioria das pessoas, uma dificuldade de fazer conexões, de pensar fora do contexto imediato de espaço tempo. O pensamento linear/binário tornou o indivíduo presa fácil para os condicionamentos e manipulações. Na verdade, o ser humano já se tornou meio cyborg, e os robôs da inteligência artificial, através da mentira, elegem presidentes, polarizam a sociedade e gerem nações.

            A síntese disso tudo é que a Humanidade perdeu o pouco da capacidade que tinha de pensar, e os monopólios de tecnologia querem moldá-la a seu bel-prazer, tão só com os valores capitalistas, com a fusão entre o homem e as máquinas, corrompendo a natureza dos indivíduos e redirecionando a trajetória humana. Na realidade, o liberalismo predomina no Vale do Silício. Com isso, estão esmagando os valores virtuosos que protegem as individualidades, enfraquecendo os ideais de busca do bem comum. Por isso, com a polarização incontrolável no mundo, o homem perdeu a capacidade de resolver os problemas que afetam a Humanidade. No império do conhecimento, o monopólio e a conformidade são perigos inseparáveis. No caso da comida, essa lógica só foi compreendida tardiamente.

            Edgar Morin, antropólogo, sociólogo e filósofo francês judeu de origem sefardita, atesta que se vive uma sociedade de expansão dos conhecimentos, mas também de sua regressão. Pela sua expansão rápida e pela forma fragmentada que se desenvolve, revelam-se camadas profundas de ignorância, que ele define como “conhecimento ignorante”. Essa ignorância, diz ele:

 

“(...) é diferente da antiga que vem da falta de conhecimentos; a nova surge do próprio conhecimento. Antigos mistérios, como o da natureza da nossa realidade, foram revivificados, pela microfísica e astrofísica.”

 

Morin cita como exemplo a própria realidade da matéria, que segundo a ciência, responde por apenas 4% de sua realidade, que se dividiria entre uma matéria negra e uma energia negra, sendo esta detectada ou suposta por sua força de dilatação, o que causa uma estranheza, pois mergulha o universo em uma invisibilidade de mais de 97%. O mistério exposto por Morin está bem explicado na questão nº 27 de “O Livro dos Espíritos”.

A solução desse labirinto todo exige a reconexão dos conhecimentos separados, divididos, compartilhados e dispersos. Há a necessidade de um conhecimento, que não tenha a capacidade de ser mercadoria – valor intrínseco do capitalismo – para unir esses conhecimentos.

Aliás, o grande visionário do século XX – Peter Drucker (1909-2005), o mais reconhecido dos pensadores acerca dos efeitos da globalização na economia em geral - afirmou que a humanidade é irracional, imensurável e amorfa, para a solução desse caos, há a necessidade de se estabelecer para os indivíduos função e posição social. E Drucker, de forma majestosa, consolida a resposta para os desejos e carências aqui relatados, quando afirma:

 

“(...) é evidente que o tipo e a forma de relacionamento funcional entre sociedade e indivíduo em qualquer sociedade dependem da crença básica dessa sociedade quanto à natureza e à realização do homem.”

 

A natureza do homem pode ser vista como livre ou não, igual ou desigual, boa ou má, perfeita, aperfeiçoável ou imperfeita. A realização pode almejar este mundo ou o próximo, a vida eterna ou a expiação da alma individual pregada pelas religiões ocidentais; a paz ou a guerra; o sucesso econômico ou uma grande família. A crença na natureza do homem determina o objetivo da sociedade; a crença referente à sua realização, a esfera em que se busca a execução do objetivo.

 

Qual filosofia, ciência ou religião detém valores para responder a essas necessidades? Que é o homem?

 

Chegou-se àquele momento que, segundo Allan Kardec, a humanidade se faria madura para que o Espiritismo, devido a sua potência moralizadora, por suas tendências progressivas, pela amplitude de suas vistas, pela generalidade das questões que abraça, mais que qualquer outra doutrina, estaria apto a secundar o movimento de renovação social.

 

O que falta para isso?

 

Na década de 1970, um movimento nascido em Princeton e em Pasadena no EUA, com os mais eminentes físicos e astrônomos, que se uniram a biologistas, médicos, psicólogos e teólogos, que se autodenominavam “neognósticos”, concluíram que o Espírito é indissociável de todos os fenômenos que vemos no Universo, sejam físicos, sejam psíquicos. Em o Espírito ascendendo à condição de “fenômeno” científico, o homem necessariamente sairia do centro de ser pensante e isso poderia exigir a renovação de toda linguagem científica. Ora, a ciência espírita proporciona todas essas exigências e as ciências ao longo desses 163 anos convergiram para o paradigma espírita.

Quem vai oferecer outra pista para a não realização dessa exigência é Ken Wilber, um dos maiores pensadores dos dias atuais, considerado o “Einstein da Consciência”, em sua obra “O Olho do Espírito”, quando ele afirma categoricamente que a decisão de integrar a tradição do liberalismo com uma espiritualidade genuína é eminentemente política. Ele vai além e afirma que:

 

“Os liberais, portanto, tenderam a substituir a salvação por Deus pela salvação pela economia. A verdadeira liberdade podia ser encontrada não por um deleite celestial depois da morte (ou em qualquer ópio das massas), mas, em vez disso, em lucros reais, na terra real, começando com as necessidades materiais e econômicas.”

 

            Digno de nota é entender que “progressistas” e “liberais” para a essência do liberalismo são sinônimos. Não se pode negar os progressos materiais para a Humanidade ditados pelo liberalismo. O condenável é que muito frequentemente a tirania religiosa foi apenas substituída pela tirania econômica, e o Deus do todo poderoso dólar substituiu o Deus do papa. A alma não podia ser oprimida por Deus, mas podia ser oprimida pela fábrica, arremata Wilber.

            O Espírito não é tão desconhecido assim. O homem continua sendo o grande desconhecido.

            Quanto aos espíritas, brasileiros em especial, pecaram por não ter desenvolvido um movimento centrado nos aspectos filosóficos da Doutrina Espírita, pois teriam permitido uma práxis filosófica como Karl Marx desejou, não só de interpretar o meio, mas também transformá-lo. Como religião, caiu na vala comum.

           

 

            Referências:

            BOHM, David. O pensamento como um sistema. São Paulo: Madras, 2010.

CHARON, Jean E. O espírito, este desconhecido. São Paulo: Melhoramentos, 1977.

            DRUCKR, Peter. A sociedade. São Paulo: Nobel, 2001.

FOER, Franklin. O mundo que não pensa. Rio de Janeiro: LEYA, 2018.

             KARDEC, Allan. A gênese. São Paulo: LAKE, 2010.

            _____________ O livro dos espíritos. ____________, 2000.

            MORIN, Edgar. Conhecimento, ignorância, mistério. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil,   2020.

WILBER, Ken. O olho do espírito. São Paulo: Cultri, 1997.

VÁZQUEZ, Adolfo S. Filosofia da práxis. São Paulo, 2007.

XAVIER, F. Cândido. Pensamento e vida. Brasília: FEB, 1958.

           

Comentários

  1. Isso me faz lembrar dois versos de uma canção de Beto Guedes: "A lição sabemos de cor / Só nos resta aprender".

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