quinta-feira, 2 de agosto de 2018

A MEDIOCRIDADE NOSSA DE CADA DIA






“Quando orientas a proa visionária em direção a uma estrela, e desdobras as asas para atingir tal excelsitude inacessível, ansioso de perfeição rebelde à mediocridade, levas em ti o impulso misterioso de um ideal. É áscua sagrada, capaz de te preparar para grandes ações. Cuida-a bem; se a deixares apagar, jamais ela se reacenderá. E se ela morrer em ti, ficarás inerte: fria bazófia humana.” (José Ingenieros)

          As etapas da vida são como as estações do ano. O crepúsculo da vida é comparado ao inverno, a estação fria, como se os cabelos brancos representassem a neve fria sobre a terra. É momento oportuno para se fazer reflexões filosóficas e delas se tirar aprendizados para consolidação do processo de conhecimento de si mesmo e de compartilhamento das experiências. Não se deve temê-la. Depois, os ciclos se renovam e virão novamente outros ciclos de estações, através de novas existências no corpo, sempre começando pela primavera da infância.
         Esse ebuliente ciclo social que o Brasil atravessa serve de laboratório para o indivíduo fazer leituras e releituras do cotidiano. As provocações filosóficas são as mais diversas.

          Trabalho empírico foi realizado em uma equipe de trabalho, através de empresa gestora de conflitos. No texto compartilhado no grupo, foram abordadas questões fictícias, mas similares às que envolviam o grupo. Apenas 19% se manifestou sobre as situações, mas com abordagens destoantes do que os problemas exigiam. As colocações ou eram clichês, ou repetições inócuas, dogmáticas, sem nenhum substrato que ampliasse a discussão que o tema se propunha. Os que se identificaram com a situações-problemas, optaram em descambar para as questões de ordem pessoal, sem se deterem no campo das ideias. O professor de política da Universidade de Harvard (EUA), Michael Sandel, classifica esse fenômeno, como “terceirização das ideias”. “Terceirizar ideias é fugir do debate.” E nesse tangenciamento, problemas cruciais, como corrupção, negligência, incompetência, sabotagem e chantagem emocional, ficam restritos somente ao âmbito político e não pessoal e coletivo.
          O retrato dessa dura realidade está no resultado da pesquisa Indicador de Alfabetismo Funcional, conduzida pelo Instituto Paulo Montenegro em parceira com a ONG Ação Educativa, que aponta que apenas 22% dos brasileiros que chegaram à universidade têm plena condição de compreender e se expressar. Entre os 70 países avaliados, o Brasil ocupa a 59ª posição em termos de leitura e interpretação.
          Ao se perder o hábito de se permitir ouvir a ideia espelhada pelo outro, não necessariamente para se chegar a um acordo, mas para raciocinar e refletir sobre a vida, o meio e as mudanças que se necessita, contribui-se efetivamente para esse ciclo de negatividade moral, ética e espiritual.
          Imperativo notar que na medida em que a experiência humana alcança novos paradigmas, ao se observar a realidade, as ideias vão se modificando pela imaginação, que é plasticizante e jamais se acomoda.
          Uma nação, se é que podemos dar esse título ao Brasil, não chega a esse ápice de adormecimento de valores morais por acaso. Vê-se que os apetites xenofóbicos, misóginos, homofóbicos e fascistas tornaram-se dominadores e vorazes e mesclam as relações cotidianas dos brasileiros.
José Ingenieros(1877-1925), médico, psiquiatra, psicólogo, farmacêutico, escritor, docente, filósofo e sociólogo ítalo-argentino, define esse estágio civilizatório como mediocracia, que segundo ele:

“Quando o ignorante se julga igualado ao estudioso, o velhaco ao apóstolo, o falador ao eloquente e o mau digno, a escala do mérito desaparece numa vergonhosa nivelação de vilania. A mediocracia é isso: os que nada sabem, julgam dizer o que pensam, embora cada um só consiga repetir dogmas, ou auspiciar voracidades.”

          Não mais democracia. Não meritocracia. Nem mediocracia, que os filósofos preferem denominar “mesocracias”. (1) Mas sim, a mediocracia que quando a verdade deixa de ser útil e entra em penumbra, e se destempera tudo que está a caminho da virtude e da dignidade. As coisas do espírito são desprezadas.
          Destacam-se, nesse desiderato, as personalidades que sofrem de umbiguismo, ou seja, todas as suas demandas estão orientadas para o seu umbigo. Além de serem orientadas pelo ego, há nelas marcas que se fixaram no período do narcisismo infantil, o que é normal nas crianças, mas não no adulto.
          O medíocre sonega impostos, fura fila, tenta subornar policiais ou autoridades; o propósito é levar vantagem em tudo. O indivíduo medíocre não dialoga, disputa e por divina força tem que sair vencedor.
          Na mediocracia os países deixam de ser pátrias e o povo passa a ser uma nau náufraga, ou uma massa humana em disparada como um rebanho bovino. E aí, salve-se quem puder! É o ápice do egoísmo.
          Ora, o egoísmo é marca determinante na personalidade, derivada do processo da construção da individualidade, mas que gradualmente o Espírito encarnado terá que se desfazer nas vivências sucessivas, pelo processo de individuação, que é a iluminação do lado sombrio da individualidade.
          Na questão nº 833 de O Livro dos Espíritos, está escrito que é pelo pensamento que o homem goza de uma liberdade sem limite, porque o pensamento não conhece entraves. Portanto, o pensamento é atributo do Espírito, e pensar é uma arte. Não é à toa que Allan Kardec afirma que o espírita é um livre-pensador. Um dos principais processos do pensar do indivíduo é a abstração, pelo seu intelecto extra das realidades sensíveis e sua essência inteligível e universal.
          Os Espíritos ao atestarem na questão 822 de O Livro dos Espíritos que a felicidade relativa na Terra como condicionante moral e a fé no porvir, consolida que essas abstrações são elaboradas e só consolidadas como aperfeiçoamento evolutivo se as experiências surgirem como proveitosas, e são proveitosas, porque são instruídas pelo ideal espírita. E isso proporcionará a autonomia ao educando, pois ele passará a agir, por si só, representado por conceitos éticos e morais espíritas.
          A mediocridade é contagiosa, assim como o egoísmo. O Espírito Fénelon, respondendo à questão nº 917 de O Livro dos Espíritos, assim se expressa:

“É o contato que o homem experimenta do egoísmo dos outros que o torna geralmente egoísta, porque sente a necessidade de se pôr na defensiva. Vendo que os outros pensam em si mesmos e não nele, é levado a se ocupar de si mesmo mais que dos outros.”

          Assim também com a mediocridade. Isso faz lembrar Oscar Wilde (1854-1900), poeta e dramaturgo irlandês que advertia:

“Ah! Não me diga que concorda comigo! Quando as pessoas concordam comigo, tenho sempre a impressão de que estou errado.”

           Wilde apresenta o antídoto para a mediocridade.
          Sêneca, um dos mais célebres intelectuais do Império Romano, em sua obra Da Vida Feliz, dedicada a seu irmão Gallio, quando o ensina a buscar a felicidade, ele escreve:

“Ora, nada nos enreda em maiores males do que o fato de agirmos conforme a voz comum.”

           Veja o que diz o Apóstolo Paulo, em sua Epístola aos Romanos – 12:2 –, também prevenindo contra a mediocridade:

“E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.”

          O próprio Jesus, conforme narra o evangelista João – 15:18-20 – evidencia que as belas atitudes dos seus discípulos, contrariam inimigos, considerando-se que a mediocridade faz o indivíduo popular. Leia-se:

“O mundo amar­-vos­-ia se vocês lhe pertencessem; mas vocês não lhe pertencem. Eu vos escolhi para saírem do mundo, e por isso o mundo vos odeia.”

          Em Mateus – 5:37 –, Jesus é mais severo: que sua mensagem não seja de palavras vãs, mas atitudes concretas para a renovação do mundo:

“Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; Não, não; porque o que passa disto é de procedência maligna.”

         Fuja-se da mediocridade!

(1)        Governo ou influência da classe média.


Referências:
IDE, Pascal. A arte de pensar.  São Paulo: Martins Fontes, 2000.
INGENIEROS, José. O homem medíocre.  Rio de Janeiro: Getúlio Costa, 1944.
KARDEC, Allan. O Livro dos espíritos. São Paulo: LAKE, 2000.
SÊNECA. Da vida feliz. São Paulo. Martins Fontes. 2001.


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