Pular para o conteúdo principal

A BÍBLIA E O ESPIRITISMO





 




Desde o ano de 1964 que estudo a Bíblia. Primeiro teologicamente, como seminarista, e depois do ano de 1979, quando conheci a Doutrina Espírita, passei a estudá-la com outra visão, agora observando novos conceitos.

Quando conheci a pedagogia de Kardec e a mensagem do Espírito da Verdade, fiquei encantado.

No entanto, me cobravam os amigos católicos a respeito de minha nova opção por uma Doutrina religiosa que, segundo eles, era condenada pela Bíblia. Achei estas observações preconceituosas e parti para uma busca profunda em torno da Bíblia e do Espiritismo.


Foi então que iniciei uma nova etapa de pesquisas e estudos que duraram dez anos. Mergulhei nos textos originais do grego e do latim, idiomas estudados no seminário, e fui descobrindo que não havia unidade nas traduções existentes destes textos, quando trazidos para a língua portuguesa.

Avancei mais ainda e iniciei um curso de hebraico com professores de Israel e fui descobrindo que este idioma era a principal língua utilizada para a escrita da Bíblia. Compreendi também que este era o idioma que Jesus falava, pois Ele nasceu e viveu como judeu e tudo que ensinou foi no idioma hebraico e por isso, nem sempre existe autenticidade nos seus ensinamentos quando trazidos para os textos ocidentais. Mais forte ainda é o caso do Novo Testamento, que só existe em grego e foi vítima dos copistas que mudaram, acrescentaram, tiraram e interpolaram tudo o que acharam necessário para adaptarem os seus textos às suas conveniências e entendimentos pessoais.

A partir destes acontecimentos, trabalhei numa pesquisa profunda sobre a Bíblia e o Espiritismo. Mergulhei em seus textos originais hebraicos e fui descobrindo que nela nem existia referência ao Espiritismo, pois a Doutrina Espírita foi codificada, aproximadamente, 3500 anos depois que a Bíblia foi escrita.

Hoje toda tradução que faço procuro nela o correspondente entendimento da Doutrina Espírita. Observando sempre que a Bíblia está repleta de fenômenos que vieram a ser chamados de mediúnicos depois da codificação da Doutrina. Muitos fatos e ensinamentos bíblicos ficaram mais claros e de fácil entendimento sob a ótica do Espiritismo. Kardec nos informa que a Bíblia não contém erros, nós é que nos equivocamos ao interpretá-la. Q. 59 L.E. Kardec acrescenta ainda que o Espiritismo se encontra por toda parte: na Antiguidade e em todas as épocas da humanidade. Em tudo encontramos seus traços, nos escritos, nas crenças e nos monumentos, e é por isso que, se ele abre novos horizontes para o futuro, lança também uma viva luz sobre os mistérios do passado.

Isto nos levou a refletir sobre os acontecimentos, sobre a história da antiguidade bíblica e a analisar os textos com uma visão racional e lógica, comparando os acontecimentos e ensinamentos bíblicos com os conceitos da Doutrina Espírita.

A Bíblia passou por diversas traduções a partir do século III a. C, quando o rei egípcio Ptolomeu Filadelfo II promoveu a primeira versão do hebraico para o grego, culminando com a famosa Septuaginta, ou Tradução dos Setenta. O trabalho aconteceu na ilha de Faros em Alexandria, no Egito, hoje uma península, e tinha o objetivo de obter uma cópia da Bíblia em grego para fazer parte da famosa biblioteca de Alexandria.

Foi a partir desta tradução que muitos estudiosos judaicos passaram a dizer que a Bíblia não possui tradução, mas TRAIÇÃO. A esta tradução se sucederam outras, entre as quais a famosa Vulgata Latina do ano 386, realizada por Jerônimo sob a ordem do Papa Dâmaso. Esta tradução reuniu o Velho Testamento e o Novo Testamento que só existiam em grego e eram edições separadas. O papa Dâmaso conhecia as divergências nas traduções gregas e por isso solicitou que Jerônimo realizasse este trabalho transferindo os conceitos gregos para o latim.

Atualmente existe uma quantidade imensa de bíblias em português – particularmente, possuo 25 traduções, e todas justificam ser detentoras da verdade. Para quem desconhece, gostaria de informar que nós, os espíritas, estudamos a Bíblia, sim, com o conhecimento racional e lógico, sem acreditar no maravilhoso e no sobrenatural, conscientes de que as traduções nem sempre são confiáveis. Sabemos que religião sem ciência é fanatismo e ciência sem religião é ateísmo.

Esclarecemos e declaramos aqui nosso profundo respeito pela Bíblia e pelos seus ensinamentos morais. No entanto, não aceitamos as traduções corrompidas e desvirtuadas de seus ensinamentos morais e espirituais dos textos originais para idiomas ocidentais. Todas sofreram influências religiosas e objetivos às vezes tendenciosos. Não existe religião na Bíblia. O que existe é um conjunto de preceitos morais e de justiça que, se praticados pela humanidade, nos ajudará a atingir a Paz tão almejada e necessária aos homens.

Diante do que estudamos e encontramos em nossas pesquisas, não se pode afirmar que existe condenação do Espiritismo na Bíblia. Outro ponto interessante é que os Salmos de Davi demonstram que o Sheol, ou inferno, não é eterno. Como acréscimo, temos ainda que a figura de satanás é uma criação folclórica dos persas cuja função era assumir o erro dos homens. Isto porque quando fazemos algo bom e louvável aceitamos que fomos nós e acatamos de bom grado todos os elogios a respeito; no entanto, quando erramos, não fomos nós, mas o obsessor ou satanás.

Finalmente, com base na Bíblia, nosso estudo pode ser resumido nos seguintes pontos: 1-Deus não castiga. 2-O inferno não é eterno. 3- Satanás não existe. 4- A Bíblia não condena o Espiritismo.

Todas estas informações e os resultados de nosso estudo estão registrados em nosso primeiro livro intitulado Analisando as Traduções Bíblicas. Esta obra tem sido estudada por diversas correntes religiosas, está prefaciada por um professor de hebraico e posfaciada por um pastor protestante.

Continuamos nosso estudo até o presente, sempre convidando aqueles que buscam a verdade a refletir sobre os nossos resultados. Sem a pretensão de condenar a fé ou a religião dos que nos acompanham. Agradeço a oportunidade de lembrar para você que nos lê sobre a grande frase de Jesus: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. João 8:32.

Receba nossos respeitos e votos sinceros de muita luz e Paz. Jesus sempre em nossas vidas!

Comentários

  1. Francisco Castro de Sousa9 de março de 2017 às 16:15

    Há mais de 30 anos, nessa época eu trabalhava em uma grande empresa do meu Estado - Ceará, e havia um colega que, vez ou outra, me dizia: Castro eu queria um dia conversar contigo. Um dia deu certo, ele sabia que eu professava o Espiritismo, então ele começou assim: Castro se eu lhe disser que a Bíblia condena o Espiritismo o que você me diz? Respondi de imediato, mandaria você jogar essa Bíblia fora! Ele ficou desconcertado, mais logo em seguida ele perguntou, porque? E eu respondi, porque quem publicou essa Bíblia enganou você e todos aqueles que a adquirirem! Como assim, perguntou ele? Ora rapaz a Bíblia data de muitos séculos, quase 20 séculos, e o termo Espiritismo é de 1857, portanto do século XIX! Como um termo criado por Allan Kardec há pouco mais de um século pode ter sido condenado na Bíblia? A nossa conversa acabou aí e nunca mais nos falamos sobre o assunto! Vejam que o meu raciocínio é extremamente simplório e o do Confrade Severino Celestino é profundamente enraizado no estudo que fez, e que ainda faz, das escrituras. Parabéns ao estimado confrade e ao Canteiro de Ideias pela publicação do artigo!

    ResponderExcluir
  2. Castro, essa interpretação é consequência do David Bohn classificou como "doença do pensamento". É o pensamento cartesiano, que não se permite refletir, recebe o "pacote pronto". Esse tipo de posicionamento acerca dessa e da "proibição" de Moisés são recorrentes. Muito elucidativa o seu comentário.

    ResponderExcluir
  3. Quando alguem me pergunta, sobre tal condenação? respondo exatamente, como o nosso Irmão Francisco Castro de Sousa, respondeu (comentário supra).
    Sugiro, aos interessados, sobre o tema, que pesquisem a obra de “O Que é a Bíblia”, com Dr. Severino Celestino da Silva, dentre outras tantas escritas por ele.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

O COTIDIANO DO TRATAMENTO DO HOSPITAL ESPÍRITA ANDRÉ LUIZ - HEAL

O presente trabalho apresenta a realidade da assistência numa instituição psiquiátrica que se utiliza também dos recursos terapêuticos espíritas no tratamento dos seus pacientes, quando estes solicitam os mesmos. Primeiramente, há um breve histórico do Hospital Espírita André Luiz (HEAL), acompanhado da descrição dos recursos terapêuticos espíritas, seguido, posteriormente, do atendimento bio-psico-sócio-espiritual, dando ênfase neste último aspecto.         Histórico     O HEAL foi fundado em 25/12/1949, por um grupo de idealistas espíritas, sob orientação direta dos espíritos, em reuniões de materialização, preocupados com a assistência psiquiátrica aos mais carentes daquela região, além de oferecer o tratamento espiritual para os atendidos, por acreditarem na conjunção das patologias psiquiátricas com os processos obsessivos (ação maléfica dos espíritos).     O serviço de internação foi inaugura...

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

CIVILIZAÇÃO

  Por Doris Gandres A mim me admira como a filosofia espiritista ainda hoje, passados cerca de 160 anos de seu lançamento a público como corpo de doutrina organizada com base na pesquisa e no bom senso, se aplica a situações e condições contemporâneas. Ao afirmar que nos julgamos “civilizados” devido a grandes descobertas e invenções, por estarmos melhor instalados e vestidos e alimentados do que há alguns séculos, milênios até – o que hoje sabemos estar restrito a uma minoria dentro da humanidade – percebemos o quanto de verdade encerra essa afirmativa ao nos chamar a atenção de como estamos iludidos.

FRONTEIRAS ENTRE O REAL E O IMAGINÁRIO

  Por Jerri Almeida                A produção literária, desde a Grécia Antiga, vem moldando seus enredos e suas tramas utilizando-se de contextos e fatos históricos. Os romances épicos, que em muitos casos terminam virando, contemporaneamente, filmes ou novelas de grandes sucessos, exploram os aspectos de época, muitas vezes, adicionando elementos mentais e culturais de nosso tempo. Essa é uma questão perigosa, pois pode gerar os famosos anacronismos históricos. Seria algo como um romance que se passa no Egito, na época de um faraó qualquer, falar em “burguesia egípcia”. Ora, “burguesia” é um conceito que começa a ser construído por volta dos séculos XII-XIII, no Ocidente Medieval. Portanto, romances onde conceitos ou ideias são usados fora de seu contexto histórico, tornam-se anacrônicos.

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

DEPRESSÃO

  1 – Fala-se que a depressão é o mal do século. Estamos diante de um distúrbio próprio dos tempos atuais, uma síndrome da modernidade? Mais apropriado considerar que é um mal antigo com nome novo. Se falarmos em melancolia, perceberemos que ela sempre esteve presente na vida humana. Os melancólicos de ontem são os deprimidos de hoje. Hipócrates (460 a.C-370 a.C.) definia assim a melancolia: Uma afecção sem febre, na qual o Espírito, triste, permanece sem razão fixado em uma mesma ideia, constantemente abatido. É mais ou menos isso o que sente o indivíduo em depressão, com a impressão de que a vida perdeu a graça.

OS GÊMEOS ANTE O AFETO E A HOSTILIDADE NA FAMÍLIA

  A gestação de um novo filho na família é a possibilidade do reencontro de seres de vivências passadas no contexto do lar. Reencontro que se inicia no programa pré-existencial reencarnatório, planejado nos departamentos do além-túmulo. Nessa conjuntura há uma união tão intensa entre pais e reencarnante que o nascituro sabe, antes mesmo de renascer, se será acolhido ou rejeitado. No caso de filhos gêmeos, são situações especiais que sempre despertam a atenção, tanto de cientistas como de espiritualistas. Várias teorias já foram sugeridas a fim de explicar os mecanismos determinantes da gemelaridade. Fatores ambientais e genéticos foram descritos como predisponentes a essa circunstância obstétrica. Todavia existem causas mais transcendes.

O ESTUDO DA GLÂNDULA PINEAL NA OBRA MEDIÙNICA DE ANDRÉ LUIZ¹

Alvo de especulações filosóficas e considerada um “órgão sem função” pela Medicina até a década de 1960, a glândula pineal está presente – e com grande riqueza de detalhes – em seis dos treze livros da coleção A Vida no Mundo Espiritual(1), ditada pelo Espírito André Luiz e psicografada por Francisco Cândido Xavier. Dentre os livros, destaque para a obra Missionários da Luz, lançado em 1945, e que traz 16 páginas com informações sobre a glândula pineal que possibilitam correlações com o conhecimento científico, inclusive antecipando algumas descobertas do meio acadêmico. Tal conteúdo mereceu atenção dos pesquisadores Giancarlo Lucchetti, Jorge Cecílio Daher Júnior, Décio Iandoli Júnior, Juliane P. B. Gonçalves e Alessandra L. G. Lucchetti, autores do artigo científico Historical and cultural aspects of the pineal gland: comparison between the theories provided by Spiritism in the 1940s and the current scientific evidence (tradução: “Aspectos históricos e culturais da glândula ...

FÉ INABALÁVEL E RAZÃO - O SIGNIFICADO DE RELIGIÃO PARA ALLAN KARDEC

Com esse artigo, iniciaremos SÉRIE ESPECIAL com origem no artigo científico elaborado por Brasil Fernandes de Barros, Mestre e Doutorando em Ciências da Religião pelo Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC MINAS. E-mail: brasil@netinfor.com.br , publicado originalmente na Revista Interações , Belo Horizonte, Brasil, jan./jun. 2019. Reputamos de importância significativa para os espírita, considerando que o tema ainda divide o movimento espírita. Para possibilitar melhor comodidade à leitura, as postagens serão em dia sim, dia não. Boa leitura!  

OPINIÕES PESSOAIS APRESENTADAS COMO VERDADES ABSOLUTAS

  Por Orson P. Carrara                Sim, os Espíritos nem tudo podem revelar. Seja por não saberem, seja por não terem permissão. As expectativas que se formam tentando obter informações espirituais são muito danosas para o bom entendimento doutrinário e vivência plena dos ensinos espíritas.             É extraordinário o que Kardec traz no item 300 de O Livro dos Médiuns, no capítulo XXVII – Das contradições e das mistificações . O Codificador inicia o item referindo-se ao critério da preferência de aceitação que se deve dar às informações trazidas por encarnados e desencarnados, desde que dentro dos parâmetros da clareza, do discernimento e do bom senso e especialmente daquelas desprovidas de paixões, que deturpam sempre.