Pular para o conteúdo principal

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA


O egoísmo pessoal, o comodismo, a falta de generosidade, 
as pequenas cobardias do quotidiano, tudo isto contribui para 
essa perniciosa forma de cegueira mental que consiste em estar no 
mundo e não ver o mundo, ou só ver dele o que, em cada momento, 
for susceptível de servir os nossos interesses.”
 José Saramago


O título foi tomado de empréstimo do festejadíssima obra de José Saramago, que se tornou filme em 2008, depois de um consórcio entre Brasil, Japão e Canadá, tendo como diretor o brasileiro Fernando Meireles. A diferença é que a cegueira aqui abordada não é a dos olhos físicos, mas a deficiência os “olhos” que ficam por trás dos “olhos físicos”. Segundo este conceito, o aparelho visual passa ser chamado de “janelas da alma”.

No desconhecimento de si mesmo está o cerne dessa cegueira. Repetimos o ethos da civilização grega, a partir do século IV a.C.: a perseguição da beleza física, tendo como padrão a proporcionalidade matemática dos corpos masculinos que eram expostos nus nos ginásios, onde também se exercitavam para modelar o corpo. Marcus Vitrúvio Polião, arquiteto romano, (Sec. I a.C) em sua volumosa obra – 10 volumes – “De Architectura” definiu as justas proporções corporais em frações de figura inteira: a face devia ter 1/10 do comprimento total, a cabeça 1/8, o comprimento do tórax 1/4, etc.

            Como o mito grego Narcíso que se apaixona pela sua própria imagem refletida na água, o culto à aparência exige naturalmente a observação e a aprovação para o fortalecimento do ego, o que provoca a multiplicação das postagens, curtições e compartilhamentos de fotos nas redes sociais.  É preciso “causar”. É preciso “mitar”. A virtualidade se sobrepõe à realidade. As mesmas ferramentas virtuais que nos aproximam, nos afastam. A utopia da beleza física viralizou-se. Não a utopia kardeciana que amanhã poderá ser verdade, mas a utopia do vazio, de uma vida sem sentido de valores transcendentais que atendam às necessidades do homem no que toca a sua origem, natureza e destinação, valores esses fundamentais para a sociedade cósmica.

            Os seres inteligentes da criação nunca dispuseram de tantos conhecimentos acerca da inteligência. Desde as inteligências múltiplas de Haward Gardner, às inteligências emocional e social de Daniel Goleman.

            A neurociência, por sua vez, atesta que o nosso cérebro é sociável. O Ser humano foi programado para se conectar. Conectar-se com o próximo, mesmo as interações de rotina, ainda que algumas desejáveis ou não. Quanto mais forte a ligação emocional, maior é a força mútua com essa pessoa.

            Conectado e desconectado. Eis a realidade. Conectado com o próximo mas sem uma troca intensa emocionalmente, o homem não se eleva. 

            Para o vulgo, personalidade impactante é aquela que conta com milhares de seguidores. Portanto, o homem segue, mas não busca. Não busca, porque não sabe qual a sua natureza. O propósito pelo qual Deus o criou.

            Para se conectar é preciso enxergar. Conectados virtualmente, as “janelas da alma”, inundado por uma explosão de imagens, mensagens e triagens, o homem, perdeu a capacidade de ver. Nem vê, nem enxerga. Seus olhos de transcendência que só se elevam diante do contato com o semelhante, estão vendados. Cegueira que transforma camada expressiva da sociedade como “invisíveis”

Distraídos, cegos, ainda assim aprendizes seguindo a marcha evolutiva. Seguem, mas não buscam. Não buscam soluções para as desigualdades sociais, para a miséria, para a corrupção. Entediados e solitários, mas ainda assim aprendizes. Agora através da virtualidade, amanhã da realidade.

No entanto, se considerarmos a marcha evolutiva do espírito, nenhum esforço se perde. Até mesmo as escolhas imaturas do presente ensejarão futuros aprendizados, tornando-nos pessoas experimentadas. Hoje valorizamos o “belo” do ponto de vista físico, mesmo que este confronte com a “beleza ética”. Amanhã, no entanto, os “olhos da alma” só darão acesso a informações dignas e edificantes, capazes de construírem em nós a beleza interior.

Quando nos tornarmos internamente belos, projetaremos, com naturalidade, a beleza exterior. E não será apenas nos gestos, nos sorrisos, no autocuidado, no modo de nos apresentar, mas também nos relacionamentos sociais, na conduta, no trato com as questões de justiça, de trabalho, de sentimento.

Quando isso acontecer, não mais priorizaremos o corpo escultural em detrimento do disforme ou deficiente. Não escolheremos a companheira por ser mais alta ou mais baixa, morena ou clara. O que os atuais padrões de beleza consideram como fealdade, nos parecerá aceitável, em razão de nossa maturidade espiritual, conforme o provérbio: “quem ama o feio, bonito lhe parece”. E assim, dentro de certo intervalo de tempo (anos? séculos?), o fim dos preconceitos ensejará uma miscigenação tão ampla que a generalidade dos tipos humanos se elevará a padrões de beleza diversificados, em tudo superiores aos atuais, e agradáveis a todos os julgamentos. Mas quando chegarmos a tal estágio, os corpos humanos não trarão apenas a perfeição das formas; principalmente, refletirão a beleza moral dos espíritos neles revestidos. O assunto está bem apresentado, inclusive com outras variáveis, na “Teoria da Beleza”, pela pena genial de Allan Kardec. Para o conceito de hoje, este é um desejo utópico, como utópica é a educação plural, a justiça, a equidade, a paz, o amor. Mas ai do homem se não perseguisse essas utopias que aos poucos vão-se concretizando!


Comentários

  1. Francisco Castro de Sousa16 de abril de 2016 às 23:29

    Desejo parabenizar essa união de dois amigos de mesmo ideal, que estão de olhos bem abertos e que desejam que muitos outros olhos se abram para enxergar o outro no sentido de encontrar a verdadeira beleza, a beleza interior! Parabéns Jorge e Everaldo pelo belo trabalho, que nos faz perceber que voces estão de olhos bem abertos para o futuro!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Castro,
      Pelo seu comentário, a parceria foi aprovada.
      Abraços!

      Excluir
  2. Juro que fiquei MUITO curioso para saber como se deu essa MANOBRA literária, pois li e reli para encontrar a diversidade e o que vi foi unidade. Acredito que o editorial de hoje à noite fale de forma diferente disso que li agora, seguramente com brilhantismo menor. Roberto Caldas

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

SOBRE ATALHOS E O CAMINHO NA CONSTRUÇÃO DE UM MUNDO JUSTO E FELIZ... (1)

  NOVA ARTICULISTA: Klycia Fontenele, é professora de jornalismo, escritora e integrante do Coletivo Girassóis, Fortaleza (CE) “Você me pergunta/aonde eu quero chegar/se há tantos caminhos na vida/e pouca esperança no ar/e até a gaivota que voa/já tem seu caminho no ar...”[Caminhos, Raul Seixas]   Quem vive relativamente tranquilo, mas tem o mínimo de sensibilidade, e olha o mundo ao redor para além do seu cercado se compadece diante das profundas desigualdades sociais que maltratam a alma e a carne de muita gente. E, se porventura, também tenha empatia, deseja no íntimo, e até imagina, uma sociedade que destrua a miséria e qualquer outra forma de opressão que macule nossa vida coletiva. Deseja, sonha e tenta construir esta transformação social que revolucionaria o mundo; que revolucionará o mundo!

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

SOCIALISMO E ESPIRITISMO: Uma revista espírita

“O homem é livre na medida em que coloca seus atos em harmonia com as leis universais. Para reinar a ordem social, o Espiritismo, o Socialismo e o Cristianismo devem dar-se nas mãos; do Espiritismo pode nascer o Socialismo idealista.” ( Arthur Conan Doyle) Allan Kardec ao elaborar os princípios da unidade tinha em mente que os espíritas fossem capazes de tecer uma teia social espírita , de base morfológica e que daria suporte doutrinário para as Instituições operarem as transformações necessárias ao homem. A unidade de princípios calcada na filosofia social espírita daria a liga necessária à elasticidade e resistência aos laços que devem unir os espíritas no seio dos ideais do socialismo-cristão. A opção por um “espiritismo religioso” fundado pelo roustainguismo de Bezerra Menezes, através da Federação Espírita Brasileira, e do ranço católico de Luiz de Olympio Telles de Menezes, na Bahia, sufocou no Brasil o vetor socialista-cristão da Doutrina Espírita. Telles, ao ...

PERDA LETAL DO DNA DA CIVILIDADE AMEAÇA O GLOBO

                                          Por Ana Cláúdia Laurindo Fenômenos climáticos estão gerando tempestades em partes do globo, e estas modificam paulatinamente algumas regiões da Terra. Cientistas observam, alertam. Animais migram e ameaçam o habitat de outras espécies. Plantas tóxicas são arrancadas e espalhadas para além do seu nicho conhecido. Novos comportamentos de cuidados são sugeridos ao ser humano. No entanto, a hecatombe cultural humana também espalha veneno e ameaça a espécie. O DNA da civilidade está sendo modificado.

09.10 - O AUTO-DE-FÉ E A REENCARNAÇÃO DO BISPO DE BARCELONA¹ (REPOSTAGEM)

            Por Jorge Luiz     “Espíritas de todos os países! Não esqueçais esta data: 9 de outubro de 1861; será marcada nos fastos do Espiritismo. Que ela seja para vós um dia de festa, e não de luto, porque é a garantia de vosso próximo triunfo!”  (Allan Kardec)                    Cento e sessenta e quatro anos passados do Auto-de-Fé de Barcelona, um dos últimos atos do Santo Ofício, na Espanha.             O episódio culminou com a apreensão e queima de 300 volumes e brochuras sobre o Espiritismo - enviados por Allan Kardec ao livreiro Maurice Lachâtre - por ordem do bispo de Barcelona, D. Antonio Parlau y Termens, que assim sentenciou: “A Igreja católica é universal, e os livros, sendo contrários à fé católica, o governo não pode consentir que eles vão perverter a moral e a religião de outr...

É HORA DE ESPERANÇARMOS!

    Pé de mamão rompe concreto e brota em paredão de viaduto no DF (fonte g1)   Por Alexandre Júnior Precisamos realmente compreender o que significa este momento e o quanto é importante refletirmos sobre o resultado das urnas. Não é momento de desespero e sim de validarmos o esperançar! A História do Brasil é feita de invasão, colonização, escravização, exploração e morte. Seria ingenuidade nossa imaginarmos que este tipo de política não exerce influência na formação do nosso povo.

DESCAMINHOS DA DIVULGAÇÃO ESPÍRITA

“Mais vale um inimigo confesso do que um amigo desajeitado.” (Allan Kardec)             Por Jorge Luiz (*)             Recebi e-mail com programação de evento dito espírita, que será realizado aqui em Fortaleza. Fiquei perplexo pela escolha do tema central, mais apropriado para programas televisivos transmitidos na madrugada: “ Por que está dando “tudo errado” para mim?” Ou, quem sabe, para aqueles cartazes colados em postes de iluminação pública para anúncios de consulta, os conhecidos ledores de buena-dicha.             A grade de programação traz como subtemas: Por que não consigo me resolver sexualmente? Drogas resolve? Depressão: causa ou consequência? Estou na família certa?  Em nenhum momento assinala-se que o evento é espírita ou que as abordagens serão espíritas. Aliás, só se encontra a p...

OS ESPÍRITAS FAZEM PROSELITISMO?

  Por Francisco Castro (*) Se entendermos que fazer proselitismo é montar barracas em praça pública, fazer pessoas assinar fichinha, ou ter que fazer promessa de aceitar essa ou aquela religião? Por outro lado, se entendermos que fazer proselitismo significa fazer visitação porta a porta no sentido de convencer alguém, ou de fazer com que uma pessoa tenha que aceitar essa ou aquela religião? Ou, ainda, de dizer que essa ou aquela religião é a verdadeira, ou de que essa ou aquela religião está errada? Não. Não, os Espíritas não fazem proselitismo! Mas, se entendermos que fazer divulgação da existência da alma, da reencarnação, da comunicabilidade dos Espíritos, da Doutrina dos Espíritos, do Ensino Moral de Jesus e de que ele é modelo e guia da humanidade e não de certa parcela de uma nacionalidade ou de uma religião? A resposta é sim! Os Espíritas fazem proselitismo sim! Qual seria então a razão de termos essa grande quantidade de jornais e revistas espírita...

ALÉM DO PAPEL EM BRANCO: A LUZ HUMANA CONTRA A SOMBRA DO ALGORITMO.

  Por Jorge Luiz   A Analogia do Consumo O CEO da OpenAI, Sam Altman, em entrevista recente, gerou polêmica ao se referir ao custo dos recursos com água e eletricidade de ferramentas de Inteligência Artificial (IA). Ao fazer uma análise comparativa com o ser humano, Altman afirmou: "Também é preciso muita energia para treinar um humano. Leva algo como 20 anos de vida e toda a comida que você puder consumir antes que você fique inteligente. E não só isso, foi necessária a evolução geral dos 100 bilhões de pessoas que já viveram e aprenderam a não serem comidas por predadores, ou aprender como entender a ciência e tudo mais, para produzir você" (1). Altman tem uma visão reducionista do ser humano, como se o seu desenvolvimento fosse, na realidade, um “treinamento de IA” (input de dados); talvez ele seja simpático ao empirismo britânico das sensações e percepções, elaborado por John Locke, tendo seu núcleo na citação: “Suponhamos, pois, que a mente é, como dizemos, u...