sábado, 16 de abril de 2016

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA


O egoísmo pessoal, o comodismo, a falta de generosidade, 
as pequenas cobardias do quotidiano, tudo isto contribui para 
essa perniciosa forma de cegueira mental que consiste em estar no 
mundo e não ver o mundo, ou só ver dele o que, em cada momento, 
for susceptível de servir os nossos interesses.”
 José Saramago


O título foi tomado de empréstimo do festejadíssima obra de José Saramago, que se tornou filme em 2008, depois de um consórcio entre Brasil, Japão e Canadá, tendo como diretor o brasileiro Fernando Meireles. A diferença é que a cegueira aqui abordada não é a dos olhos físicos, mas a deficiência os “olhos” que ficam por trás dos “olhos físicos”. Segundo este conceito, o aparelho visual passa ser chamado de “janelas da alma”.

No desconhecimento de si mesmo está o cerne dessa cegueira. Repetimos o ethos da civilização grega, a partir do século IV a.C.: a perseguição da beleza física, tendo como padrão a proporcionalidade matemática dos corpos masculinos que eram expostos nus nos ginásios, onde também se exercitavam para modelar o corpo. Marcus Vitrúvio Polião, arquiteto romano, (Sec. I a.C) em sua volumosa obra – 10 volumes – “De Architectura” definiu as justas proporções corporais em frações de figura inteira: a face devia ter 1/10 do comprimento total, a cabeça 1/8, o comprimento do tórax 1/4, etc.

            Como o mito grego Narcíso que se apaixona pela sua própria imagem refletida na água, o culto à aparência exige naturalmente a observação e a aprovação para o fortalecimento do ego, o que provoca a multiplicação das postagens, curtições e compartilhamentos de fotos nas redes sociais.  É preciso “causar”. É preciso “mitar”. A virtualidade se sobrepõe à realidade. As mesmas ferramentas virtuais que nos aproximam, nos afastam. A utopia da beleza física viralizou-se. Não a utopia kardeciana que amanhã poderá ser verdade, mas a utopia do vazio, de uma vida sem sentido de valores transcendentais que atendam às necessidades do homem no que toca a sua origem, natureza e destinação, valores esses fundamentais para a sociedade cósmica.

            Os seres inteligentes da criação nunca dispuseram de tantos conhecimentos acerca da inteligência. Desde as inteligências múltiplas de Haward Gardner, às inteligências emocional e social de Daniel Goleman.

            A neurociência, por sua vez, atesta que o nosso cérebro é sociável. O Ser humano foi programado para se conectar. Conectar-se com o próximo, mesmo as interações de rotina, ainda que algumas desejáveis ou não. Quanto mais forte a ligação emocional, maior é a força mútua com essa pessoa.

            Conectado e desconectado. Eis a realidade. Conectado com o próximo mas sem uma troca intensa emocionalmente, o homem não se eleva. 

            Para o vulgo, personalidade impactante é aquela que conta com milhares de seguidores. Portanto, o homem segue, mas não busca. Não busca, porque não sabe qual a sua natureza. O propósito pelo qual Deus o criou.

            Para se conectar é preciso enxergar. Conectados virtualmente, as “janelas da alma”, inundado por uma explosão de imagens, mensagens e triagens, o homem, perdeu a capacidade de ver. Nem vê, nem enxerga. Seus olhos de transcendência que só se elevam diante do contato com o semelhante, estão vendados. Cegueira que transforma camada expressiva da sociedade como “invisíveis”

Distraídos, cegos, ainda assim aprendizes seguindo a marcha evolutiva. Seguem, mas não buscam. Não buscam soluções para as desigualdades sociais, para a miséria, para a corrupção. Entediados e solitários, mas ainda assim aprendizes. Agora através da virtualidade, amanhã da realidade.

No entanto, se considerarmos a marcha evolutiva do espírito, nenhum esforço se perde. Até mesmo as escolhas imaturas do presente ensejarão futuros aprendizados, tornando-nos pessoas experimentadas. Hoje valorizamos o “belo” do ponto de vista físico, mesmo que este confronte com a “beleza ética”. Amanhã, no entanto, os “olhos da alma” só darão acesso a informações dignas e edificantes, capazes de construírem em nós a beleza interior.

Quando nos tornarmos internamente belos, projetaremos, com naturalidade, a beleza exterior. E não será apenas nos gestos, nos sorrisos, no autocuidado, no modo de nos apresentar, mas também nos relacionamentos sociais, na conduta, no trato com as questões de justiça, de trabalho, de sentimento.

Quando isso acontecer, não mais priorizaremos o corpo escultural em detrimento do disforme ou deficiente. Não escolheremos a companheira por ser mais alta ou mais baixa, morena ou clara. O que os atuais padrões de beleza consideram como fealdade, nos parecerá aceitável, em razão de nossa maturidade espiritual, conforme o provérbio: “quem ama o feio, bonito lhe parece”. E assim, dentro de certo intervalo de tempo (anos? séculos?), o fim dos preconceitos ensejará uma miscigenação tão ampla que a generalidade dos tipos humanos se elevará a padrões de beleza diversificados, em tudo superiores aos atuais, e agradáveis a todos os julgamentos. Mas quando chegarmos a tal estágio, os corpos humanos não trarão apenas a perfeição das formas; principalmente, refletirão a beleza moral dos espíritos neles revestidos. O assunto está bem apresentado, inclusive com outras variáveis, na “Teoria da Beleza”, pela pena genial de Allan Kardec. Para o conceito de hoje, este é um desejo utópico, como utópica é a educação plural, a justiça, a equidade, a paz, o amor. Mas ai do homem se não perseguisse essas utopias que aos poucos vão-se concretizando!


3 comentários:

  1. Francisco Castro de Sousa16 de abril de 2016 23:29

    Desejo parabenizar essa união de dois amigos de mesmo ideal, que estão de olhos bem abertos e que desejam que muitos outros olhos se abram para enxergar o outro no sentido de encontrar a verdadeira beleza, a beleza interior! Parabéns Jorge e Everaldo pelo belo trabalho, que nos faz perceber que voces estão de olhos bem abertos para o futuro!

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    1. Castro,
      Pelo seu comentário, a parceria foi aprovada.
      Abraços!

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  2. Juro que fiquei MUITO curioso para saber como se deu essa MANOBRA literária, pois li e reli para encontrar a diversidade e o que vi foi unidade. Acredito que o editorial de hoje à noite fale de forma diferente disso que li agora, seguramente com brilhantismo menor. Roberto Caldas

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