terça-feira, 8 de dezembro de 2015

LIXO E SUICÍDIO: PONTOS DE PARTIDA PARA A RECICLAGEM¹






Por André Trigueiro (*)


O catador de lixo e o voluntário do CVV guardam afinidades importantes. Em primeiro lugar, ambos desafiam o tabu de lidar com assuntos que a sociedade abomina ou despreza. Seguem na contramão do senso comum, desafiam a cultura dominante, lidam com o preconceito.  O catador” enxerga" os resíduos com outros olhos. Ele não perde tempo com o lixo.  Separa apenas o que ainda tem serventia e lhe garante o sustento. O voluntário do CVV "enxerga" o ser humano com outros olhos. Acredita no valor de cada um, na capacidade que temos de dar a volta por cima. Por pior que seja a situação de quem o procura, o voluntário investe tempo e energia no exercício da escuta amorosa, resgatando o valor e a autoestima de quem muitas vezes se sente um trapo. O catador ajuda a reduzir o monumental volume de resíduos que satura os aterros e lixões. O voluntário do CVV ajuda a reduzir a perturbação que satura a alma e impede a correta avaliação dos fatos. O trabalho realizado pelo catador reduz os indicadores de desperdício. 

Reciclagem significa economia de matéria-prima e energia. O trabalho realizado pelo voluntário do CVV reduz as estatísticas de suicídio. A existência do CVV implica na economia de dor, de sofrimento, e eventualmente, de vidas. O lixo contamina o solo, a água, o ar. Sem o catador, a quantidade de resíduos contaminados espalhando doenças seria maior. Em contato com a sujeira, os recicláveis viram problema, e ganham status de caso de saúde pública. A reciclagem não é a solução definitiva, mas ajuda. O suicídio também é caso de saúde pública e foco de contaminação. Especialistas da área de saúde estimam que para cada caso de suicídio, um grupo próximo de aproximadamente dez pessoas, entre parentes e amigos, carrega um trauma para o resto da vida. Sem os voluntários do CVV, o número de suicídios ou pessoas perturbadas seria certamente maior. O CVV não é a solução definitiva para o problema do suicídio Mas contribui efetivamente para a prevenção. Para a reciclagem de lixo acontecer, basta separar aquilo que pode ser reutilizado. É um gesto simples, não requer erudição, nível superior, conhecimentos técnicos sofisticados. Basta boa vontade. Para a reciclagem de pessoas acontecer, a experiência do CVV demonstra, não é preciso erudição, nível superior ou conhecimentos técnicos sofisticados. Basta boa vontade. Os estudiosos do lixo afirmam que tudo  absolutamente tudo ¬ o que é descartado tem serventia. Até a parte orgânica do lixo tem a sua riqueza: pode virar adubo natural de ótima qualidade ou fonte de energia pela utilização do gás metano. São Paulo abriga a primeira usina de energia do Brasil sobre um aterro de lixo (Aterro Bandeirantes) que abastece duzentas mil pessoas. Os estudiosos da alma afirmam que cada um de nós é único no universo, portanto cada existência guarda consigo uma singularidade, um valor inerente à vida. Até os momentos de dor e de sofrimento são especialmente ricos pelas lições que nos trazem, pela fortaleza que construímos dentro de nós a partir dessas experiências. Para que possamos descobrir essa riqueza por nós mesmos, é que existe o CVV. São Paulo abriga desde 1962 o primeiro grupamento de voluntários que abraçaram com alegria e determinação essa causa. A partir de São Paulo, o Brasil inteiro está sendo fecundado pela semente do bem trazida pelo CVV. Que a reciclagem de materiais ou de pessoas continue inspirando gestos e atitudes na direção de um mundo mais justo, feliz e sustentável.


(*) jornalista com Pós-graduação em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ onde hoje leciona a disciplina “Geopolítica Ambiental”, professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ, autor dos livros “Mundo Sustentável 2 – Novos Rumos para um Planeta em Crise" (Ed.Globo, 2012); "Mundo Sustentável - Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em transformação" (Ed.Globo, 2005), “Espiritismo e Ecologia” (Ed.FEB, 2009) e "Viver é a Melhor Opção - A prevenção do suicídio no Brasil e no Mundo" (Ed. Correio Fraterno, 2015); Coordenador editorial e um dos autores do livro "Meio Ambiente no século XXI" (Ed.Sextante, 2003).

Nenhum comentário:

Postar um comentário