Pular para o conteúdo principal

AOS AMIGOS PAULO DE TARSO E BEZERRA DE MENEZES¹



Por Roberto Caldas (*)


Bezerra de Menezes
Paulo de Tarso
        As grandes obras, mesmas aquelas de forte destinação espiritual, necessitam de recursos humanos de lúcida disponibilidade e destacada voluntariedade, ao ponto até de exigirem altos níveis de determinação e renúncia por parte daqueles que a abraçam.
É o que iremos identificar se passarmos uma vista nas biografias de Paulo de Tarso, uma das maiores expressões formatação do Cristianismo e Adolfo Bezerra de Menezes, um dos mais brilhantes expoentes da divulgação do Espiritismo em terras brasileiras.
Paulo de Tarso, intrépido defensor da lei judaica, acossado pelos seus temores, justo que era, abalado pela consumação da morte de Estevão, de sua responsabilidade, passara pelo deserto da própria solidão e vacilava quanto as próprias convicções. O chamado que recebera em plena Estrada de Damasco (“Saulo, Saulo porque me persegues”) pronunciado pelo próprio Nazareno já retornado à pátria espiritual, joga-o de inopino nas trevas da sua cegueira interior, da qual só sairia quando reformulada a sua disposição de perseguir aos cristãos. A sua decisão lha valeu longo período de ostracismo, pois os antigos parceiros o desprezavam e combatiam tanto quanto os novos companheiros, aos quais precisava provar as novas intenções. 
 
Bezerra de Menezes, homem engajado no movimento do Catolicismo e completa adesão aos dogmas e sacramentos daquela religião, numa época em que os ânimos em relação às idéias espíritas ainda produziam perseguições de toda monta e execravam os seus profitentes, demorou muito até que se permitisse iniciar as primeiras letras naquela nova ciência. Cobrava-se que, como homem bem informado e crítico das informações que chegavam ao cenário de sua época, ainda não tivesse tido a coragem de examinar coisa alguma a respeito do Espiritismo. Ao fazê-lo se encantou com aqueles princípios que, confessou depois, parece que já os conhecia desde sempre. Convertido teve a hombridade de comunicar a mudança de crença em assembléia que reunia os seus mais próximos companheiros de retiros espirituais, expondo-se à crítica franca dos antigos confrades.
Ambos descreveram trajeto de honesta atuação diante dos grupamentos dos quais se despediam, mercê de suas biografias que dignificaram os espaços que ocupavam, mas se tornaram especiais pela trajetória de luzes que acenderam depois de convertidos. Constituem uma classe de homens que atenderam ao chamado de Jesus quando admoestava a respeito da firmeza de caráter na condução dos passos daqueles que crêem, “seja o teu falar sim, sim; não, não”. (Mateus V; 37).
Precisamos nos refugiar na aura de seres como Paulo de Tarso e Bezerra de Menezes, especialmente numa época em que ficou muito fácil o disfarce e a mentira. Quando olharmos em volta, criaturas que compõem as multidões que grassam em rebanhos sem pastores confiáveis, urge que nos entrincheiremos na firmeza de homens que colocaram em jogo tudo que dispunham pela certeza de que deveriam reinventar as suas vidas, acima de qualquer dificuldade que se apresentasse a sua frente.

Paulo de Tarso e Bezerra de Menezes, entre outras semelhanças, amavam a Jesus.  

¹ Editorial do Programa Antena Espírita de 23.08.2015.

(*) escritor, editorialista do programa Antena Espírita e voluntário do C.E. Grão de Mostarda.
  

Comentários

  1. GOSTEI MUITO DO EDITORIAL DO PROGRAMA ANTENA ESPIRITA, ELE VEM COM INFORMAÇÕES MUITO IMPORTANTE. FALA COMO ATÉ A CONVICÇÃO DE QUE AQUILO É UM A COISA CERTA, PODE NOS FAZER A SER UMA CONVICÇÃO. E TAMBÉM A CORAGEM DE ENFRENTAR AS CONSEQUENCIAS VINDAS POR PARTE DE OUTROS QUE NÃO ACREDITAM OU NÃO QUEREM QUE SEJA DIVULGADO, NO CASO A DOUTRINA ESPIRITA.

    ResponderExcluir
  2. Muito oportuno destaque.
    Paulo de Tarso, inesquecível tarefeiro cristão!
    Dr. Bezerra, espírita dedicado, grande alma!
    Quanto àquela recomendação de Jesus, de pedir trabalhadores para a m esse, que Deus nos brinde com "exemplares" como estes!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

O ESPIRITISMO ENTRE A FILOSOFIA E A RELIGIÃO: AS DIFERENÇAS DE SENSIBILIDADE ENTRE KARDEC, HERCULANO PIRES E CHICO XAVIER

       Por Wilson Garcia      A comparação entre Allan Kardec e Chico Xavier talvez seja uma das mais delicadas do movimento espírita brasileiro. Ela toca não apenas em personalidades históricas, mas em dois modos profundamente distintos de compreender o próprio Espiritismo. E, de fato, há diferenças muito evidentes entre ambos — de formação intelectual, de sensibilidade religiosa, de linguagem, de método e até de projeto cultural.   A hipótese de que Chico seria a reencarnação de Kardec ganhou força mais pelo imaginário afetivo do movimento espírita do que por evidências concretas de continuidade intelectual. Quando observamos os dois racionalmente, o contraste salta aos olhos.

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

A RELIGIÃO DO CAPITAL: O ENRIQUECIMENTO DOS PASTORES E A ESTERILIDADE DA FÉ INSTITUCIONAL.

      Por Jorge Luiz   A “Teocracia do Capital”: A Ascensão das Organizações Religiosas no Brasil Moderno             Os números denunciam. Segundo o Censo de 2022, o Brasil tem mais estabelecimentos religiosos que superam a soma de hospitais e escolas. O número de organizações religiosas criadas por dia no Brasil varia de 17 a 25. Essas mesmas instituições movimentam mais de R$ 21 bilhões por ano, riqueza cujo retorno social institucionalizado é questionável. Esse montante, contudo, carece de um vetor social direto, uma vez que goza de imunidade tributária e não se reverte em investimentos em saúde ou educação. Tamanha pujança econômica permitiu, inclusive, que diversos pastores brasileiros figurassem na revista Forbes como detentores de fortunas bilionárias.             Em contrapartida a isso tudo, o Brasil vive uma anomia moral. Os escândalos de ...

O ABORTO E A GRATIDÃO POR TER NASCIDO

Minha mãe e eu, 54 anos atrás Hoje, no dia do meu aniversário, uma data que sempre me alegra, pois gosto de ter nascido, resolvi escrever algumas considerações sobre esse tema tão controvertido: o aborto. Se estou comemorando meu aniversário e vivendo uma vida plena de sentido, é porque minha mãe permitiu que eu nascesse. Me recebeu e me acolheu, com a participação de meu pai. Então, é bastante pertinente falar sobre esse tema, nesse dia. Meu dia de entrada nessa vida. Penso que esse debate sempre caminha por lados opostos, com argumentos que não tocam o cerne da questão.

O ESTUDO DA GLÂNDULA PINEAL NA OBRA MEDIÙNICA DE ANDRÉ LUIZ¹

Alvo de especulações filosóficas e considerada um “órgão sem função” pela Medicina até a década de 1960, a glândula pineal está presente – e com grande riqueza de detalhes – em seis dos treze livros da coleção A Vida no Mundo Espiritual(1), ditada pelo Espírito André Luiz e psicografada por Francisco Cândido Xavier. Dentre os livros, destaque para a obra Missionários da Luz, lançado em 1945, e que traz 16 páginas com informações sobre a glândula pineal que possibilitam correlações com o conhecimento científico, inclusive antecipando algumas descobertas do meio acadêmico. Tal conteúdo mereceu atenção dos pesquisadores Giancarlo Lucchetti, Jorge Cecílio Daher Júnior, Décio Iandoli Júnior, Juliane P. B. Gonçalves e Alessandra L. G. Lucchetti, autores do artigo científico Historical and cultural aspects of the pineal gland: comparison between the theories provided by Spiritism in the 1940s and the current scientific evidence (tradução: “Aspectos históricos e culturais da glândula ...

FRONTEIRAS ENTRE O REAL E O IMAGINÁRIO

  Por Jerri Almeida                A produção literária, desde a Grécia Antiga, vem moldando seus enredos e suas tramas utilizando-se de contextos e fatos históricos. Os romances épicos, que em muitos casos terminam virando, contemporaneamente, filmes ou novelas de grandes sucessos, exploram os aspectos de época, muitas vezes, adicionando elementos mentais e culturais de nosso tempo. Essa é uma questão perigosa, pois pode gerar os famosos anacronismos históricos. Seria algo como um romance que se passa no Egito, na época de um faraó qualquer, falar em “burguesia egípcia”. Ora, “burguesia” é um conceito que começa a ser construído por volta dos séculos XII-XIII, no Ocidente Medieval. Portanto, romances onde conceitos ou ideias são usados fora de seu contexto histórico, tornam-se anacrônicos.

A REENCARNAÇÃO DE SEGISMUNDO

            O material empírico acerca da comprovação da reencarnação disponível já é suficiente para que a ciência materialista a aceite como lei biológica. Esse material é oriundo de várias matrizes de pesquisas, que sejam das lembranças espontâneas de vivências passadas em crianças, principalmente as encabeçadas por Ian Stevenson (1918 - 2007), desenvolvidas por mais de 40 anos. Da mesma forma, o milhares de casos de regressão de memórias às vidas passadas como terapia, com vistas a soluções para a cura de enfermidades psicossomáticas (TRVP). As experiências de quase morte (EQM), além das pesquisas desenvolvidas pela Transcomunicação instrumental através de meios eletrônicos (TCI).

SER HUMANO: ZONA DE INTERESSES – DA COISIFICAÇÃO DA VIDA AO NEGÓCIO DA MORTE

    Por Jorge Luiz O Sujeito como Território de Caça  Thomas Hobbes, em sua festejadíssima obra Leviatã (1651), sentenciou que o “homem é o lobo do homem”. Para ele, a ausência de uma autoridade central condenaria a humanidade a uma vida “solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta”. O remédio hobbesiano é o Contrato Social de submissão: a entrega irreversível do poder ao Soberano (Estado) em troca de segurança. Hobbes rompe com o pensamento puramente religioso ao defender o Erastismo — a subordinação da Igreja ao poder civil —, sob a premissa de que não pode haver dois senhores disputando a obediência do súdito. Contudo, o Leviatã de Hobbes não anteviu a mutação do Estado-Nação sob o capitalismo. O sistema, consolidado entre os séculos XVIII e XIX, transitou do mercantilismo para o liberalismo industrial, onde o Estado parece diminuir sua intervenção, mas se agiganta na construção das subjetividades. Como propõe Louis Althusser , o Estado realiza-se através de s...

PRECE DO EDUCADOR

Por Dora Incontri (*) Senhor, Que eu possa me debruçar sobre cada criança, e sobre cada jovem, com a reverência que deve animar minha alma diante de toda criatura Tua! Que eu respeite em cada ser humano de que me aproximar, o sagrado direito de ele próprio construir seu ser e escolher seu pensar! Que eu não deseje me apoderar do espírito de ninguém, imprimindo-lhe meus caprichos e meus desejos pessoais, nem exigindo qualquer recompensa por aquilo que devo lhe dar de alma para alma!