Pular para o conteúdo principal

A COPA VERDE DO BRASIL




Por André Trigueiro (*)




Fizemos 3 perguntas para o principal responsável pelo projeto brasileiro de tornar a Copa de 2014 a “Copa das Copas” na área da sustentabilidade.

Cláudio Langone é engenheiro químico, consultor em gestão ambiental e sustentabilidade, Coordenador da Câmara Temática Nacional de Meio Ambiente e Sustentabilidade da copa 2014, do Ministério do Esporte.

1) A Copa da Alemanha em 2006 foi a primeira a preocupar-se com um legado ambiental. A Copa do Brasil fez algo diferente nesse sentido?
Cláudio Langone: O Brasil estruturou sua Agenda de Sustentabilidade com base nas lições aprendidas na Alemanha e África do Sul, que tiveram representação em seminários promovidos pela Câmara Temática Nacional de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Copa 2014.

O diferencial do Brasil se deu primeiramente no sistema de governança montado para a estruturação da Agenda, com participação dos atores envolvidos na CTMAS e na criação de Câmaras Locais de Sustentabilidade.

Nos projetos desenvolvidos, destacam-se como diferenciais o fato de termos a primeira Copa em que todos os estádios passaram por processos de certificação em construção sustentável. Além disso, são pioneiros a iniciativa de promoção de produtos orgânicos e sustentáveis e o fornecimento de alimentação orgânica aos voluntaries, a inclusão de catadores de materiais recicláveis, o Selo Baixo Carbono - mecanismo de arrecadação de créditos de carbono para a compensação das emissões da Copa, e a abordagem da Campanha Passaporte Verde, voltada à sensibilização do turista para práticas conscientes (a campanha foi desenvolvida na África do Sul, mas foi totalmente reformulada, com foco na utilização de ferramentas digitais e interativas).


Nossa Agenda teve como característica um foco em ações positivas, que extrapolassem a lógica da mitigação de impactos, e trabalhassem na articulação entre meio ambiente, inclusão social e geração de renda. Por isso, é uma iniciativa multisetorial, que envolveu vários ministérios e secretarias nas áreas de meio ambiente, esporte, turismo, agricultura, desenvolvimento social, e outros.

2) A certificação ambiental dos estádios contou com recursos do BNDES (R$400 milhões por projeto), mas, ainda assim, na maioria das arenas o selo obtido foi "Prata" (terceiro mais importante em uma escala de quatro da certificadora LEED). Não poderíamos ter um melhor desempenho nesse quesito?
Cláudio Langone: A exigência de certificação das Arenas foi uma decisão voluntária do governo brasileiro, como condição para o financiamento do BNDES. O Brasil não direcionou para um selo específico, mas todos os projetos brasileiros optaram pelo selo Americano LEED, que estava mais organizado no Brasil. A decisão de exigir a Certificação Básica se deu em função de que a maior parte dos estádios brasileiros passaram por processos de reforma. Nessa situação, fica bastante diminuída a margem de manobra dos projetistas para a escolha dos quesitos a serem contemplados nas obras. A obtenção dos certificados Ouro e Platina em geral se dá em projetos novos, em que se tem possibilidades de incluir itens como o preparo da área onde vai se localizar o projeto, e incluir na origem quesitos que não teriam como ser escolhidos em reformas de edificações. No Brasil, mesmo em estádios com fortes restrições como o Mineirão e o Maracanã, tombados pelo Patrimônio Histórico, foi possível obter a Certificação.

O Mineirão tornou-se o segundo estádio do mundo a receber a certificação Platinum. Deve-se ressaltar também que o GBC adotou para a certificação das arenas uma norma que foi estruturada para edifícios, o que gerou algumas necessidades de adaptação pontuais. A partir da experiência brasileira, o GBC decidiu que será feita uma norma LEED especificamente para arenas esportivas.

O nível Prata é uma certificação alta para projetos de reforma.  As principais questões abordadas nas arenas brasileiras se deram em:
- medidas no processo construtivo, como a reciclagem do entulho de demolição na própria obra e reaproveitamento como material de base, gerando significativa redução de custos;
- itens de projeto, como captação de água da chuva para irrigação e limpeza, iluminação e ventilação natural, torneiras e vasos sanitários inteligentes, sistemas de coleta seletiva etc.

Embora alguns itens sejam mais caros na fase de construção, eles levam a uma diminuição dos custos de manutenção das arenas, por exemplo, nas contas de água e luz.

Para dar efetividade ao esforço feito na certificação, a FIFA e o governo brasileiro promoveram em 2013 um curso de capacitação dirigido aos operadores das Arenas em gestão da sustentabilidade.

Embora o padrão exigido pelo BNDES tenha sido o de certificado Básico, a maioria das arenas conseguirá o nível Prata. Já temos o Mineirão certificado Platina e esperamos que o Estádio Nacional de Brasília atinja o nível Ouro nesta etapa, chegando também a Platina até o final de 2014, com a instalação da usina Solar de 2,5 MW.

3) Qual será o legado ambiental desse Copa no Brasil? O que ficará depois do evento?
Cláudio Langone: Estádios - Como legado, o Brasil será o país com o maior número de Arenas certificadas. Além disso, o processo de certificação dos estádios será um indutor de novas práticas de sustentabilidade na construção civil, já que todas as grandes construtoras brasileiras participaram da construção dos estádios. E, em função das políticas de compras locais, os fornecedores de materiais de construção incorporaram matérias primas certificadas ao seu portfólio, como tintas, solventes, cimento, revestimentos, aço, torneiras e vasos sanitários inteligentes.
Orgânicos – a campanha Brasil Orgânico e Sustentável, organizada pelo governo federal em parceria com a Associação Brasil Orgânico e Sustentável, criada especialmente para esse fim, é uma campanha permanente e terá continuidade.
Coleta Seletiva e inclusão de catadores – em várias Cidades Sede da Copa, tanto a Coleta Seletiva quanto a contratação de catadores estão sendo feitas pela primeira vez, e o sucesso da experiência abre espaços para sua incorporação como política pública. Além dos investimentos específicos na Operação Copa, o BNDES abriu linha de financiamento denominada Cidades da Copa, que beneficiou com recursos de doação as cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Porto Alegre e Curitiba para estruturar de forma permanente a coleta seletiva com inclusão de catadores, num montante de 120 milhões de reais. Outras 4 sedes estão em processo de consulta – Cuiabá, Salvador, Fortaleza e Manaus.

A Campanha Passaporte Verde foi totalmente reformulada para a Copa 2014, e terá continuidade sob a coordenação dos Ministérios do Turismo e Meio Ambiente e do PNUMA. A nova marca e ferramentas desenvolvidas em função da copa 2014 serão adotadas globalmente pelo PNUMA.

Compensação e Mitigação de Emissões – o trabalho feito pelo Brasil nessa área foi reconhecido pela UNFCC como um novo paradigma em termos de grandes eventos. Além disso, um dos principais saldos do trabalho foi a criação de capacidade nas Cidades Sede para a produção de inventários de emissões e definição de políticas de mitigação.

Legado para 2016 – um dos legados mais importantes da Agenda de sustentabilidade da Copa é que grande parte dos esforços e estratégias desenvolvidos para 2014 poderão ter rebatimento na Agenda de Sustentabilidade dos Jogos olímpicos, pois envolvem os mesmos atores institucionais.




(*) Pós-graduado em gestão ambiental pela COPPE/UFRJ e professor de jornalismo ambiental da PUC RJ, André Trigueiro é jornalista da TV Globo e comentarista da Rádio CBN.

Fonte: portal G1





Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

A ANATOMIA DE UM ABANDONO: DO CAPITALISMO DESTRUTIVO À TEOLOGIA DO CUIDADO

    Por Jorge Luiz.            O Corpo como Sentença Político-Espiritual A obra literária “Quem Matou meu Pai” , de Édouard Louis, é um monólogo biográfico nascido de uma dor visceral. O relato parte do encontro com seu pai — um homem que, após uma vida de trabalho manual na fábrica e um grave acidente laboral, encontra-se doente, com dificuldades para andar e respirar, reduzido a uma "invalidez" física. Esse corpo quebrado é o ponto de partida para que o autor, com uma voz apaixonada e urgente, questione os culpados pela destruição da saúde e da dignidade do seu progenitor.             Na realidade, o relato de Louis faz-nos reconhecer, na sua história, a trajetória de milhões de indivíduos e as “digitais do poder” na anatomia da vida quotidiana. É um relato sobre a luta de classes, o afeto e o apagamento — um grito que ecoa em um tempo em que a gestão técnica tenta silenciar o...

MORAL À LUZ DO ESPIRITISMO

  Por Doris Gandres                                         A definição de moral, à luz dos princípios espiritistas, está transcrita na resposta à q.629 do Livro dos Espíritos – “moral é a regra da boa conduta e, portanto, da distinção entre o bem e o mal. O homem se conduz bem quando faz tudo tendo em vista o bem e para o bem de todos.”             Certamente ainda estamos um tanto longe de visar estritamente o bem e não as vantagens pessoais e, dificilmente, particularmente o bem de todos...             José Herculano, em seu comentário à resposta da q.636 do mesmo livro, na edição por ele traduzida, afirma que “os sociólogos confundiram moral e costumes”; e conclui: “A moral relativa é a convencional, enquanto a moral absoluta é a ditada pela aspi...

OS ESPÍRITAS E OS GASPARETTOS

“Não tenho a menor pretensão de falar para quem não quer me ouvir. Não vou perder meu tempo. Não vou dar pérolas aos porcos.” (Zíbia Gaspareto) “Às vezes estamos tão separados, ao ponto de uma autoridade religiosa, de um outro culto dizer: “Os espíritas do Brasil conseguiram um prodígio:   conseguiram ser inimigos íntimos.” ¹ (Chico Xavier )                            Li com interesse a reportagem publicada na revista Isto É , de 30 de maio de 2013, sobre a matéria de capa intitulada “O Império Espírita de Zíbia Gasparetto”. (leia matéria na íntegra)             A começar pelo título inapropriado já que a entrevistada confessou não ter religião e autodenominou-se ex-espírita , a matéria trouxe poucas novidades dos eventos anteriores. Afora o movimento financeiro e ...

DEUS¹

  No átimo do segundo em que Deus se revela, o coração escorrega no compasso saltando um tom acima de seu ritmo. Emociona-se o ser humano ao se saber seguro por Aquele que é maior e mais pleno. Entoa, então, um cântico de louvor e a oração musicada faz tremer a alma do crente que, sem muito esforço, sente Deus em si.

ESPIRITISMO E POLÍTICA¹

  Coragem, coragem Se o que você quer é aquilo que pensa e faz Coragem, coragem Eu sei que você pode mais (Por quem os sinos dobram. Raul Seixas)                  A leitura superficial de uma obra tão vasta e densa como é a obra espírita, deixada por Allan Kardec, resulta, muitas vezes, em interpretações limitadas ou, até mesmo, equivocadas. É por isso que inicio fazendo um chamado, a todos os presentes, para que se debrucem sobre as obras que fundamentam a Doutrina Espírita, através de um estudo contínuo e sincero.

LIVRE-ARBÍTRIO E MOBILIDADE SOCIAL

      Por Marcelo Teixeira                Ouvi de um motoboy, a quem chamarei de Dario, um depoimento que me sensibilizou. Disse ele, entre triste e revoltado, que não vislumbrava perspectivas de uma vida melhor para ele e família, apesar de trabalhar de sol a sol. A rotina massacrante e cansativa o fazia sair de casa todas as manhãs na esperança de tempos ditosos; no entanto, acabava sempre fazendo o mesmo trabalho para pagar as mesmas contas e seguir sempre no mesmo ritmo, sem expectativa de algo diferente que lhe permitisse voltar a estudar, adquirir a casa própria ou realizar outro sonho que dependesse de juntar algum dinheiro. Uma vida que se limita a cruzar a cidade de motocicleta, fazendo entregas, num périplo que dura aproximadamente 12 horas por dia.               Tal depoimento me instigou a pensar de forma mais acurada na questão do livre-arbítrio, tema so...

É HORA DE ESPERANÇARMOS!

    Pé de mamão rompe concreto e brota em paredão de viaduto no DF (fonte g1)   Por Alexandre Júnior Precisamos realmente compreender o que significa este momento e o quanto é importante refletirmos sobre o resultado das urnas. Não é momento de desespero e sim de validarmos o esperançar! A História do Brasil é feita de invasão, colonização, escravização, exploração e morte. Seria ingenuidade nossa imaginarmos que este tipo de política não exerce influência na formação do nosso povo.

O ESPIRITISMO É PROGRESSISTA

  “O Espiritismo conduz precisamente ao fim que se propõe todos os homens de progresso. É, pois, impossível que, mesmo sem se conhecer, eles não se encontrem em certos pontos e que, quando se conhecerem, não se deem - a mão para marchar, na mesma rota ao encontro de seus inimigos comuns: os preconceitos sociais, a rotina, o fanatismo, a intolerância e a ignorância.”   Revista Espírita – junho de 1868, (Kardec, 2018), p.174   Viver o Espiritismo sem uma perspectiva social, seria desprezar aquilo que de mais rico e produtivo por ele nos é ofertado. As relações que a Doutrina Espírita estabelece com as questões sociais e as ciências humanas, nos faculta, nos muni de conhecimentos, condições e recursos para atravessarmos as nossas encarnações como Espíritos mais atuantes com o mundo social ao qual fazemos parte.