Pular para o conteúdo principal

A RELIGIÃO ARRELIGIOSA








            

            Por quase dois milênios os teólogos cristãos consideraram como condição essencial para a salvação do indivíduo e a sua recepção no Reino de Deus, a sua vinculação à igreja, por ela ser o único lugar que se pode viver na comunhão com Cristo. Essa orientação varia dentro das diversas teologias católicas e protestantes.
            Os dados do IBGE no censo de 2010, no contexto da chamada POF (Pesquisa Sobre Orçamento Familiar) apontam para desinstitucionalização religiosa do indivíduo e a queda do número de profitentes das religiões ditas históricas.
            O que é de fundamental importância é que o conceito denominacional está não só em franco desuso, como também em declínio tanto na América do Norte como no Brasil. Surge, portanto, para estudiosos da religião o “religioso genérico.”
       Ora, não estando o indivíduo mais vinculado a uma denominação religiosa, à sua pregação, sua vinculação far-se-á diretamente com Deus, ante o reconhecimento de sua vida e obras.
            Há um paradoxo em todo esse cenário temos que admitir, da mesma forma que ocorre a dessacralização, o homem busca um sentido para a sua espiritualidade. Isto é, as pessoas estão se divorciando das igrejas, mas não do desejo de Espiritualidade. As pessoas querem viver a experiência cristã no recôndito de sua vida.
          Derivando desse cenário, há uma necessidade de uma reinterpretação das religiões em explicar as origens do Universo e da vida, vem forçando os teólogos a racionalizarem novas explicações e novos padrões de acomodamento da religião num mundo cada vez mais dominado pela razão. É o instante da arreligiosidade das religiões.

            Contextuo a arreligiosidade como sendo: a) tudo aquilo que impede o desenvolvimento cognitivo do Ser; b) a mensagem de Jesus não sendo herança arguida por essa ou aquela Igreja; c) o cristão será aquele que busca viver a mensagem do Cristo; d) a fé que não embota a consciência.
    A religião arreligiosa é a religião real segundo Ken Wilber, famoso pensador estadudinense, criador da psicologia integral, considerado por alguns como o “Einstein da Consciência”, será a que, “em sua essência é uma ciência de experiência espiritual (usando “ciência” em amplo sentido como experiência direta, em qualquer domínio, que se submete às três linhas de injunção, dados e possibilidade de contestação)”
            Segundo Wilber, para que haja uma integração entre ciência e religião, terá de ser uma integração entre ciência real e religião real, e não entre ciência espúria e religião espúria. A religião arreligiosa é a religião desfeita de seus dogmas, ritos, elementos mitológicos e mitopoéticos; a religião real de Wilber. A religião essencialmente moral, fundamentada no amor.
           Allan Kardec no cap. I, de “O Evangelho Segundo o Espiritismo” no item 8 quando trata da aliança da Ciência e da Religião, ele afirma o que possibilitará essa aliança é “o conhecimento das leis que regem o mundo espiritual e suas relações com o mundo corporal, leis tão imutáveis como as que regulam o movimento dos astros e a existência dos seres.” 
         A religião real é a religião arreligiosa. Portanto, não existirão religiões, mas uma religião. Quando Allan Kardec assevera que O Espiritismo é religião é nesse sentido. Ou seja, a religião espírita é a religião.   A religião arreligiosa é viva, pois se expressa na moral do indivíduo. O templo é interior. Ela não é meio; caminho; mas consequência; fim em si mesma. Ela não é ensinada, mas descoberta interiormente, como marca do Criador em nós. É o Reino de Deus anunciado por Jesus. O Nirvana do Budismo.
            Na tradição Zen Budista é considerado que ninguém pode lhe oferecer um curso de religião. Segundo a tradição, a religião é tão delicada, tão frágil, que nenhum invólucro pode protegê-la. No momento em que você a transfere, ela já está morta. Ela vive numa vida interna. Vive em Buda. Em Krishna. Em Jesus, em um Mestre. Ele não a pode dar, mas você pode abrir-se para ela.
            Em “O Livro dos Espíritos”, questão 653, os Reveladores Espirituais afirmam que a “verdadeira adoração é a do coração.” Como está bem explícito no Evangelho de João, 4:24: “Deus é Espírito, e importa os que o adoram o adorem em Espírito e Verdade.”
            Mensagem recebida em 15.04.1860, assinada por Um Espírito, inserida em Obras Póstumas  atesta que o Espiritismo: “instituirá a verdadeira religião, a religião natural, a que parte do coração e vai diretamente a Deus, sem se deter nas franjas de uma sotaina, ou degraus de um altar.”
            Todo esse entendimento é consolidado quando da primeira mensagem que Allan Kardec recebeu através da médium Srta. Japhet, em 30.04.1856, que lhe revelou da sua missão. Observemos o trecho que transcrevo: “(...) Deixará de haver religião e uma se fará necessária, mas verdadeira, grande, bela e digna do Criador. Seus primeiros alicerces já foram colocados.”
            O aspecto tríplice – Ciência, Filosofia e Religião – consolidado pelo Espírito Emmanuel em nenhum momento foi aventado por Allan Kardec na Codificação. Antes disso, porém, os aspectos históricos e culturais brasileiros, a forte influência católica e a influência mais polêmica - o roustainguismo - nos primórdios do Espiritismo no Brasil, em que pesem alguns expoentes do pensamento espírita de antes e de então compreenderem o seu verdadeiro caráter, fez com que se desenvolvesse no Brasil o viés sofrivelmente religioso.
            Marion Aubrée e François Laplantine, antropólogos franceses de ofício, autores da obra “A Mesa, o Livro e os Espíritos” assim se expressam sobre esse quesito: “O corolário desse fundamento religioso é a organização dos centros espíritas brasileiros em forma de Igrejas.”
            Por isso e apesar de tudo isso é que levou Kardec a recomendar: “Não tendo o Espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual da palavra, não podia nem devia enfeitar-se com um título cujo valor inevitavelmente se teria equivocado (e equivocou). Eis por que simplesmente se diz: DOUTRINA FILOSÓFICA E MORAL. Aqui se revela a herança Pestalozziana no amor aos conceitos que as palavras exprimem. E ainda, o conhecimento do “princípio da não contradição” de Aristóteles (384 a.C – 322 a.C), filósofo grego, que afirmava: “uma proposição não pode ser verdadeira e falsa ao mesmo tempo.
            Propositalmente, expectei o futuro e fiz uma viagem retrocedendo ao passado para que, regressando ao presente, refletíssemos sobre as atitudes que adotaremos, individual e coletivamente, para fazer o Espiritismo voltar ao rumo proposto por Allan Kardec.


Comentários

  1. Valeu Jorge! Boa reflexão! Precisamos estudar a obra legada por Kardec com vontade e determinação, meditando cada parágrafo e com bastante prudência na condução das idéias para não apreciá-las aos pedaços, no que prejudica sensivelmente o entendimento da obra.
    Muita paz!

    Clodoaldo

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Caro amigo Clodoaldo!
      Grato pelo estímulo. Sabe aquele texto que você sonha um dia escrever? Pois esse é o texto. Sempre me incomodou a questão religiosa do Espiritismo. Como você bem colocou, há a necessidade de se estudar o todo de um assunto, e não um parágrafo isolado.
      Abração!

      Excluir
  2. Relembrando Allan Kardec.

    REVISTA ESPÍRITA (DEZEMBRO 1868)
    SESSÃO ANUAL COMEMORATIVA DOS MORTOS
    (Sociedade de Paris, 1° de novembro de 1868)

    (...) Todas as reuniões religiosas, seja qualquer culto a que pertençam, são fundadas sobre a comunhão de pensamentos; é aí, com efeito, que ela deve e pode exercer toda a sua força, porque o objetivo deve ser o desligamento do pensamento das amarras da matéria. Infelizmente, a maioria se afastou deste princípio, à medida que fizeram da religião uma questão de forma. Disto resultou que, cada um fazendo consistir seu dever no cumprimento da forma, se acredita quite com Deus e com os homens, quando praticou uma fórmula.

    (...) Os egoístas e os orgulhosos mentem quando se dizem reunidos em nome de Jesus, porque Jesus os desaprova por seus discípulos.

    (...) Tocados por esses abusos e desvios, há pessoas que negam a utilidade das assembleias religiosas, e, por conseguinte, dos edifícios consagrados a essas assembleias. Em seu radicalismo, eles pensam que melhor seria construir hospícios do que templos, tendo em vista que o templo de Deus está por toda a parte, que ele pode ser adorado por toda a parte, que cada um pode pedir em sua casa e a toda hora, ao passo que os pobres, os doentes e os enfermos têm necessidade de lugares de refúgio.

    (...) Mas do fato de que são cometidos abusos, de que se afastou do caminho reto, segue-se que o caminho reto não existe, e que de tudo o que se abusa seja mau? Falar assim é desconhecer a fonte e os benefícios da comunhão de pensamento que deve ser a essência das assembleias religiosas; é ignorar as causas que a provocam.

    (...) Dissemos que o verdadeiro objetivo das assembleias religiosas deve ser a comunhão de pensamentos; é que, com efeito, a palavra religião quer dizer laço; uma religião, em sua acepção ampla e verdadeira, é um laço que religa os homens numa comunhão de sentimentos, de princípios e de crenças; consecutivamente, esse nome foi dado a esses mesmos princípios codificados e formulados em dogmas ou artigos de fé.

    (...) O laço estabelecido por uma religião, qualquer que lhe seja o objeto, é, pois, um laço essencialmente moral, que religa os corações, que identifica os pensamentos, as aspirações, e não é somente o fato de compromissos materiais, que se quebram à vontade, ou do cumprimento de fórmulas que falam aos olhos mais do que ao espírito. O efeito desse laço moral é de estabelecer entre aqueles que une, como consequência da comunhão de objetivos e de sentimentos, a fraternidade e a solidariedade, a indulgência e a benevolência mútuas. É nesse sentido que se diz também: a religião da amizade, a religião da família.

    (...) Se assim é, dir-se-á, o Espiritismo é, pois, uma religião? Pois bem, sim! sem dúvida, Senhores; no sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e disto nos glorificamos, porque é a doutrina que fundamenta os laços da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre as bases mais sólidas: as próprias leis da Natureza.

    (...) Por que, pois, declaramos que o Espiritismo não é uma religião? Pela razão de que não há senão uma palavra para expressar duas ideias diferentes, e que, na opinião geral, a palavra religião é inseparável da de culto; que ela desperta exclusivamente uma ideia de forma, e que o Espiritismo não a tem. Se o Espiritismo se dissesse religião, o público não veria nele senão uma nova edição, uma variante, querendo-se, dos princípios absolutos em matéria de fé; uma casta sacerdotal com um cortejo de hierarquias, de cerimônias e de privilégios; não o separaria das ideias de misticismo, e dos abusos contra os quais a opinião frequentemente é levantada.

    (...) O Espiritismo, não tendo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual da palavra, não se poderia, nem deveria se ornar de um título sobre o valor do qual, inevitavelmente, seria desprezado; eis porque ele se diz simplesmente: doutrina filosófica e moral (...).

    É interessante a leitura, na íntegra, deste discurso do Codificador do Espiritismo.

    Fraternalmente,
    Luiz Acioli

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

O AMOR É PARA SEMPRE...

Por Dora Incontri (*) (Escrevi esses pensamentos, muito sentidos, há alguns anos. Pretendia publicá-los num livro, mas antes que ficarem guardados, na memória do computador, melhor partilhar com outros que, como eu, estejam amadurecendo essa que é a maior herança divina em nós: a capacidade de amar.) Parque Nacional da Tijuca - Rio de Janeiro O amor é o oposto da indiferença. O amor nunca tanto faz, com o que o ser amado faz. Por isso se empenha sempre por um fazer de luz. O amor pode curar, salvar, elevar, educar, regenerar. Mas tudo a longo prazo, pois para se mostrar, atuar e agir, precisa muito ter paciência, perseverar, persistir, muitas, infinitas vezes perdoar… Tudo devagar. O amor desgovernado, tumultuado pelas paixões, queima os corações, provoca afastamentos, descontentamentos, dilacerações… Por isso, o amor precisa se asserenar, se suavizar, alimentando-se de eternidade!

O ESPIRITISMO ANTE AS IDEOLOGIAS DE ESQUERDA E DE DIREITA

  Por Elias Moraes O movimento espírita não teve como se furtar ao acirramento das disputas ideológicas no campo político partidário, observadas nas duas últimas décadas; ao contrário, foi fortemente atingido por essas disputas. A princípio, mediante manifestações ostensivas de muitas das suas principais lideranças em defesa das pautas do campo ideológico da Direita, ainda que sob a forma de uma fingida neutralidade. A essas manifestações seguiu-se uma forte reação dos que discordavam dessa postura, e que foram estigmatizados sob o rótulo de "espíritas de Esquerda". Ante o clima de confronto que se estabeleceu, o argumento mais utilizado pelos que adotavam a negação como estratégia de silenciamento das discussões era que o Espiritismo não era nem de Esquerda e nem de Direita, mas "de cima", ou "do alto", como se a doutrina espírita não tivesse posições muito bem definidas a respeito de cada um dos temas colocados em pauta pelos atores de ambos os campos ...

UM PALHAÇO NA MEDIÚNICA

Existe um ponto que reúne o melhor de mim nesta curta jornada pelas estradas pedagógicas da vivência espírita: a mesa mediúnica! Lembro como agora da primeira participação, e como aquilo mudou minha percepção de mundo, com um sentimento de vastidão insondada para tão distante de todos os conceitos construídos pelos setores formais aos quais me ligava.

À MUSA ESTUPRADA

"O Rapto das Sabinas", pintura de Nicolas Poussin           Há indignações tão profundas, que só podem ser expressas em poesia, pelo menos para mim. Nos últimos meses, no meio do espetáculo constrangedor e bizarro em que o país mergulhou, a mulher brasileira foi alvo das mais absurdas violências: uma presidenta que não cometeu nenhum crime afastada do poder por um bando de criminosos, depois de ter sido xingada por uma parte da população, com as maiores baixarias e depois de ter sido ofendida por um Bolsonaro, que invocou seu torturador, num gesto de fascismo e supremo desrespeito humano; a primeira dama do presidente golpista posta como modelo de “beleza, do lar e recato”; um ministério inteiro só de homens (a maioria envolvidos com corrupção); um fundamentalismo religioso avançando no Estado, ameaçando os direitos da mulher; a visita de um ator machista, de filmes pornô, que nada tem a ver com Educação e que se ufana de ter estuprado uma mulher, no ...

COMO SUPERAR A DEPRESSÃO?

A depressão é a segunda causa de incapacidade no trabalho (a projeção é que, até 2020, seja a primeira da lista) e apenas 10% das pessoas deprimidas recebem tratamento adequado, conforme a Organização Mundial de Saúde. Infelizmente, muitas pessoas não buscam tratamento para Depressão por confundi-la com uma tristeza profunda. A causa da depressão é tida como multifatorial, isto é: converge vários fatores como o estilo de vida, o tipo de personalidade, a história pessoal e a predisposição genética. Não há um momento único ou específico em que a depressão comece. A depressão tem características neuroquímicas importantes e não depende necessariamente de um evento gatilho para se manifestar. Muitas pessoas apresentam sintomas depressivos na infância ou na adolescência. Tenho pacientes que após uma sequência de eventos traumáticos na idade adulta manifestaram a depressão. 

UM TAL SR. M...

                                                Anos atrás o pesquisador espírita Clóvis Nunes falou de um suposto encontro entre Allan Kardec e Karl Marx. Ele se escorou em duas mensagens insertas em Obras Póstumas , de 30 de abril de 1856  (saiba mais) e de 12 de maio de 1856 (saiba mais) . Leia-se um trecho da primeira, em que o Espírito se refere a um dos presentes, que para Nunes seria Marx: “A você, Rivail, sua missão está aí (livre, a cesta virou fortemente para meu lado, como o teria feito uma pessoa que me indicasse com o dedo). A você, M..., compete a espada que não fere, mas que mata. Contra tudo o que existe, será você que virá primeiro. Ele, Rivail, virá em segundo lugar, é o trabalhador que reconstrói o que foi destruído”.   ...

INTERDEPENDÊNCIA E LIBERDADE INDIVIDUAL

      Por Doris Gandres   “A liberdade individual e a interdependência são essenciais para a vida em sociedade.” Mahatma Gandhi (1)               Hoje ainda, em geral, imaginamos que temos liberdade para realizar tudo aquilo que nos agradar, tudo que atender aos nossos interesses, independentemente de estarmos atingindo ou não a liberdade alheia. Muito frequentemente ignoramos o limite para o exercício da nossa liberdade.             Usualmente somos muito cônscios dos nossos direitos, porém muito relapsos quanto aos nossos deveres. Léon Denis nos recomenda “considerar a vida e suas responsabilidades sob um aspecto mais grave, a submeter mais estritamente nossos atos à regra austera do dever” (2).             No Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap.XVII, item 7, Lázaro Espírito transmite ...

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

ENLATADOS NO TEMPO

  Por Marcelo Teixeira Uma das partes mais interessantes da língua portuguesa é aquela destinada às figuras de linguagem. Entre elas, a metáfora, que consiste numa comparação implícita, muitas vezes apelando ao sentido figurado. Como exemplo, cito a expressão ‘coração de pedra’. Quando digo que alguém tem essa característica, refiro-me ao fato de a falta de compaixão ser tão forte a ponto de parecer que essa pessoa tem uma pedra no lugar do coração. A metáfora pode ser também utilizada em poesia, música ou literatura para tornar o texto mais elegante ou expressivo. É o caso do livro “Iracema”, em que o autor, José de Alencar, se refere à personagem-título como “a virgem dos lábios de mel”.

DA QUIMERA HUMANA AO VOTO ANÔMICO

        Por Jorge Luiz                   A Contradição como Condição Ontológica             A paisagem político-social contemporânea expõe com crudeza o colapso dos filtros ético-morais no exercício da cidadania, revelando um fenômeno ainda mais perverso: a eleição consagradora de indivíduos formalmente denunciados por crimes gravíssimos, impulsionada justamente pelas parcelas mais vulneráveis da população. Desprovidos de amparo social e desarmados de senso crítico por um histórico de exclusão, esses grupos tornam-se alvos prioritários de apelos religiosos instrumentalizados, em que a fé é dobrada para anestesiar o discernimento ético e sacralizar a barbárie. Ao converter a transgressão em capital político com a chancela dos próprios espoliados, o corpo social escancara a sua contradição ontológica e o ponto cego do Brasil anômico — aquele em que a desori...