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ENSAIO SOBRE A CORRUPÇÃO NA EVOLUÇÃO DO ESPÍRITO


Por Jorge Luiz

        O Brasil ocupa hoje o 104º lugar em índice de percepção da corrupção, entre os 180 países avaliados pela Transparência Internacional (posição em 31.01.2024).

O Brasil ficou abaixo da média global (43 pontos), da média regional das Américas (43 pontos) e da média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que ficou em 66 pontos. O resultado do país também ficou abaixo da média de um recorte de países classificados como “democracias falhas” (48 pontos).

A corrupção no Brasil é endêmica. É endêmica porque é sistêmica.

Recorrentemente são publicados livros, artigos científicos, analisando esse fenômeno, entre suas causas, consequências e formas de controle.

O combate à corrupção é a pauta principal de todas as plataformas políticas, e faz sentido, pois no imaginário popular a corrupção é particularidade do segmento político. Naturalmente, ela se expressa com mais intensidade nesse do que em outros vieses da sociedade. Contudo, há uma normatização da corrupção na política, de profundidade, que só é percebida por insignificante parcela da população, e traz sérios prejuízos principalmente para as menores camadas da sociedade, com as chamadas privatizações de serviços essenciais e instituições estratégicas para a Nação, como a Petrobras, a Eletrobras, os bancos oficiais, cujas justificativas vêm eivadas e enviesadas pelas mentiras.

O professor e filósofo do direito Alysson Leandro Mascaro, assim se expressa:

“A corrupção é estrutural do capitalismo. A mercadoria atravessa a tudo e a todos, e a intermediação dos vínculos jurídicos por estratégias de favorecimento pessoal não é uma negação da natureza desses vínculos, mas uma de suas possibilidades, sendo, aliás, em modelos médios de reprodução capitalista, sua possibilidade central e provável. Nesse nível estrutural, o capital, podendo a tudo e a todos comprar, apenas se confirma quando a corrupção é dada. Não há limites éticos, morais, culturais ou sociais ao moto-contínuo da determinação econômica capitalista – a acumulação não reconhece fronteira. (...) O capital existe com o direito e o Estado – sendo a legalidade a resultante da conformação dessas formas – mas, ao mesmo tempo, toda ordem estatal e legalidade só existe em função do capital.”

            Fácil compreender que a corrupção faz parte do modelo de reprodução do capitalismo, não sendo uma forma de sociabilidade, e não tem como se considerar que ela está na natureza do homem, muito embora alguns a resistam, outros, não. A questão central é que a ideologia do capital, diz Mascaro, está em nosso inconsciente e se encontra subjacente em todas as ideologias da vida em sociedade. O mercado não tem alma.

 Leia-se o que diz David Harvey, professor da City University of New York e trabalha com diversas questões ligadas à geografia urbana; em 2007 foi classificado como o décimo oitavo teórico vivo mais citado nas ciências humanas:

“Imagine como seria o mundo se a dominação do valor de troca e o comportamento alienado associados à busca de poder monetário, como descreveu Keynes, fossem simultaneamente reduzidos e o poder das pessoas privadas para lucrar com a riqueza social fosse radicalmente reprimido. Imagine, ainda, se a alienação da experiência contemporânea do trabalho, do consumo compensatório que nunca satisfaz, dos níveis incalculáveis de desigualdade econômica e discordância na relação comum com a natureza diminuísse por conta de uma onda de descontentamento popular com os excessos do capital. Viveríamos num mundo mais humano, com níveis bem reduzidos de desigualdade social e conflitos, e muito menos opressão e corrupção.”

A intenção não é elaborar um tratado sobre a corrupção. Mas, você que chegou até aqui, compreendeu que essa corrupção nada tem a ver com a evolução do Espírito. Reflexão precisa, para entender que há corrupção (sistêmica) e corrupção (mudança).

Segundo o Dicionário Filosófico, a palavra corrupção, do latim corruptione. 1. Ação ou efeito de corromper; podridão, putrefação, decomposição. 2. Devassidão, depravação, perversão. 3. Modificação, mudança, alteração, adulteração. (grifos nossos).

Na filosofia de Aristóteles, contrariamente à geração, que é uma criação, a corrupção designa a destruição ou degradação da substância. A corrupção, diz Aristóteles, "é uma mudança que vai de algo ao não-ser desse algo; é absoluta quando vai da substância ao não-ser da substância, específica quando vai para a especificação oposta". Ele exemplifica: “Seguramente, nós não dizemos que a madeira se mistura com o fogo, nem que a sua combustão é uma mistura, seja das suas próprias partes, seja dela própria com o fogo, mas que há geração do fogo e corrupção da madeira.”

O Apóstolo dos Gentios, escrevendo aos povos de Corinto, em sua I Epístola (15:42), nos oferece uma perspectiva digna de moldura do sentido da corrupção na evolução do Espírito quando assevera que “semeia-se o corpo em corrupção, é ressuscitado em incorrupção.”. É o não-ser para o vir-a-ser de Aristóteles. Necessário reforçar que o sistema capitalista, comentado na introdução deste artigo, é um modelo de reprodução do capital, nas formas de mercadoria, sistematizado em uma estrutura de classes em que se dá essa reprodução, e não um modo de sociabilidade. Portanto, é nesse universo que o Espírito será educado e sociabilizado. A sua educação terá que ser modelada para se adaptar a esse sistema. O Espírito reencarna na corrupção, a sua tomada de consciência no decorrer da sua jornada terrena será sempre decisiva para se libertar dessas correntes e retornar ao seu corpo perispiritual menos denso, de que quando reencarnou, segundo Paulo.

O Espírito Lázaro, em mensagem no livro O Evangelho Segundo o Espiritismo, de uma forma poética, detalha exatamente como deve ocorrer a corrupção no contexto da jornada do Espírito, à sua plenitude espiritual, requintando-se através do amor:

“Em sua origem, o homem só tem instintos; quando mais avançado e corrompido, só tem sensações; quando instruído e depurado, tem sentimentos. E o ponto delicado do sentimento é o amor, não o amor no sentido vulgar do termo, mas esse sol interior que condensa e reúne em seu ardente foco todas as aspirações e todas as revelações sobre-humanas.”

Sob ensaios do livre-arbítrio, o homem começa a tomar consciência de si mesmo e, interagindo com o meio, domina o fogo, a linguagem, a moradia etc.

            Aqui se insere a corrupção com o significado de mudança; transformação, como sugere Sócrates, acusado de corromper a juventude ateniense, julgado e condenado à morte ingerindo cicuta. Sócrates é atual e sua postura nunca deixará de assim ser, enquanto perdurar a corrupção sistêmica. Francis Cornford (1874-1943), estudioso e tradutor clássico inglês conhecido por seu trabalho em filosofia antiga, assim escreveu:

 “Não é de surpreender que os cidadãos mais velhos de Atenas, quando souberam (talvez por meio de desagradáveis conversas com seus próprios filhos adolescentes) que Sócrates incentivava os jovens a questionar todo preceito moral, não viram nenhuma diferença entre sua doutrina e a de Antifonte, concluindo que ele estava corrompendo os jovens. Se tomarmos nossa palavra ‘corromper’ em seu sentido literal, a acusação era verdadeira. Dizer aos jovens que, para obter a total liberdade da idade adulta, eles devem questionar toda máxima de conduta que receberam e julgar toda questão moral por si mesmos significa corrompê-los no sentido de destruir toda a muralha com que os pais e a sociedade, de maneira tão laboriosa, cercaram-lhes a infância. Na verdade, Sócrates estava minando a moralidade da submissão social — aquela moralidade da obediência à autoridade e da concordância com o costume, que tem mantido coesos os grupos humanos de todos os tamanhos, da família à nação, ao longo de toda a história da humanidade. Ou melhor, ele estava indo além desta moralidade de submissão e proibição para uma moralidade de tipo diferente, da mesma forma que o Sermão da Montanha vai além da lei oferecida no Sinai. O surgimento desta nova moralidade está dentro da própria alma. Pode ser chamada de moralidade da aspiração à perfeição espiritual. Se a perfeição espiritual for vista como o objeto da vida e o segredo da felicidade, então a ação não pode ser governada por nenhum código de regras exposto do exterior. Se essas regras são válidas em algum caso real, é uma questão que só pode ser decidida pelo veredicto sincero e desinteressado da alma individual”.

Não é por acaso que o Espírito Sócrates está na plêiade da falange da Verdade e Kardec também assim entende, quando em seus comentários adicionais à questão n.º 685 “a”, de O Livro dos Espíritos, assim anota: “Quando se pensa na massa de indivíduos diariamente lançados na corrente da população, sem princípios, sem freios, entregues aos próprios instintos, deve-se admirar das consequências desastrosas desse fato?” Que hábitos se constroem sem se questionar os hábitos da nossa sociedade?

            Jesus à sua época não foi diferente, e enfrentou a mesma realidade de Sócrates. Disse Jesus, (Jo, 17:14): “Dei-lhes a tua palavra, e o mundo os odiou, pois não são do mundo, assim como não sou do mundo.” Jesus deixa bem claro que quem o segue está no mundo, sem sê-lo do mundo; não se pode compartilhar com as convicções deste mundo. Paulo, não deixa por menos: “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que proveis qual é a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” (Rm,12:2)

            A saga do Espírito em sua evolução é muito bem relatada pelo Espírito Lázaro, acima mencionada. A corrupção ali destacada é a percepção de que há um encantamento do seu entorno que vai além do instinto, e deve ser experimentado, corrompendo o meio e isso se elabora em sensações de todos os matizes que o homem experimenta, ainda parte do processo de individualização do Espírito, realizado pelo predomínio do instinto, experiências realizadas pelos primeiros ensaios do livre-arbítrio. O Espírito Joanna de Ângelis afirma que a “criatura humana é um feixe de sensações, resultado natural dos períodos primários da evolução, em trânsito para a realidade das emoções. (...) O homem-sensação é exigente e possuidor, não se apercebendo do valor da liberdade dos outros, que pretende controlar, nem dos deveres para com a sociedade que se lhe submete, (...)” desafios para o processo de individuação, pela tomada de consciência. O Espírito Joanna de Ângelis, ainda considera: “A sensação é herança do instinto dominador; a emoção é tesouro a conquistar pelos caminhos da ascensão.”

            Cabe a cada espírita, internalizado pelos valores imorredouros do Espírito, corromper com bons hábitos esse mundo corroído pela corrupção sistêmica, com gênese no egoísmo e orgulho, transitando para novos modelos de relacionamentos entre os indivíduos, centrados na mensagem do Reino, ensinada por Jesus, construindo um modelo de sociedade do compartilhar, tal qual os nazarenos construíram em suas jornadas nas casas do caminho.

 

Referências:

FRANCO, Divaldo P. Vida: desafios e soluções. Salvador: Leal, 1997.

HARVEY, Davey. 17 contradições e o fim do capitalismo. São Paulo: Boitempo, e-book.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. São Paulo: Lake, 2007.

_____________. O livro dos espíritos. São Paulo: Lake, 2000.

MASCARO, Alysson L. Crise e golpe. São Paulo: Boitempo, 2018.

SITES

https://sites.google.com/view/sbgdicionariodefilosofia/corrup%C3%A7%C3%A3o.

https://astravessias.org/blog/socrates-corrompeu-juventude-ateniense/.

 

 

Comentários

  1. Leonardo Ferreira Pinto27 de maio de 2024 às 07:26

    Excelente texto. Tema importante para todos. Muito bem fundamentado.

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  2. Valeu, Léo! Jorge Luiz

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