Pular para o conteúdo principal

UMA NOVA GUERRA...E QUANTAS MAIS, AINDA, SERÃO NECESSÁRIAS?

 

Por Marcelo Henrique

A Filosofia Espírita encara o belicismo como um instrumento social, humano, para a moralização e progressão de indivíduos e povos, já que, a par das mortes e da destruição, novas ideias são semeadas, vicejam e se engrandecem, no sentido da renovação das coletividades.

Nas manchetes dos principais veículos de mídia, as lamentáveis imagens e narrativas sobre mais uma guerra. De modo reticente, o inestancável conflito secular entre Israel e o grupo extremista Hamas, próximo à Faixa de Gaza, já contabiliza mais de 1.200 mortos, em três dias de (novo) conflito.

Recentemente, ainda que em narrativa romanceada, assisti a uma série na Netflix, “A Garota de Oslo” (“Bortført”, de 2021), bastante realista e que confirma a belicosidade, a violência extrema e a “luta” fanática pelos ideais de ambos os lados. Não há “inocentes” nem “pacifistas”, nos dois lados. A inocência só pode ser enquadrada em relação aos civis que, em suas residências, locais públicos, escolas, universidades e postos de trabalho, são atingidos por bombardeios ou disparos. Recomendamos para aqueles que, além das imagens “de guerra”, desejam conhecer e entender um pouco melhor como se dão os “bastidores” de uma guerra que parece interminável [1].

A história de nossa civilização é pródiga no retrato de conflitos bélicos, em todas as eras. Contudo, ganha especial relevo a existência de guerras em épocas nas quais o desenvolvimento intelectual, o alcance do estágio civilizado para a quase totalidade dos agrupamentos humanos e a existência de canais de diálogo, interação e convivência, já deveriam ter abandonado – como um simples relato retrospectivo – o eclodir de lutas armadas. Contudo, não é o que ocorre. Em grande parte, porque as nações são chefiadas por indivíduos e estes, com maiores ou menores poderes, têm em suas mãos a decisão pela declaração de luta ou pela celebração da paz, assim como as coletividades – umas mais que as outras – possuem valores e predisposições para a beligerância e a intolerância (inclusive religiosa ou étnica), ocasião em que a vontade do soberano representa a da maioria de seu povo.

A cada conflito, desde que a Filosofia Espírita foi trazida ao conhecimento humano, é comum encontrarmos ensaios procurando entender a “função” e os objetivos da guerra para a Humanidade. Delineamentos básicos do entendimento espiritual sobre os conflitos armados são, por certo, encontrados em “O livro dos Espíritos”, merecendo, ainda que de modo breve, remissão e reforço. Kardec, aliás, no processo de organização os ensinamentos trazidos pelas inteligências desencarnadas, cunhou tópico específico na obra pioneira, dentro do Capítulo VI (Lei de Destruição), da Terceira Parte (a que disserta sobre as Leis Morais), nos itens 742 745.

De maneira geral, assim, as guerras, no conceito espiritual, enquadram:

1) Uma ocorrência compatível com o grau de desenvolvimento de seres e coletividades, de modo que nos mundos superiores ao nosso, elas não mais ocorrem, visto não haver ódios ou discórdias, já que ninguém deseja provocar danos aos semelhantes (comentário de Kardec junto à questão 182). Elas desapareceram, nestes orbes, porque os homens compreenderam a justiça e praticam a Lei de Deus (item 743);

2) Embora para os homens possa, em função do nível de compreensão, justa causa para a eclosão do belicismo, os Espíritos pontuam que muitos homens só se comprazem na discórdia e na destruição, pouco importando a “justiça da causa” (item 542);

3) O fanatismo e a motivação religiosa das guerras representam a ligação entre Espíritos encarnados e desencarnados, sendo que estes últimos impelem àqueles ao conflito; não prosperam, pois, as justificativas fundadas em Deus ou em Sua palavra para o cometimento de violências (item 671);

4) São decorrentes da predominância da natureza animal sobre a espiritual e do transbordamento das paixões (item 742);

5) Servem para a liberdade e o progresso sociais, mesmo que presente, temporariamente, a escravidão (itens 744 e 744, a);

6) Aqueles que provocam as guerras, para delas obterem proveito ou satisfazer a ambição de mando, são grandes culpados e irão expiar seus erros por muitas existências (item 745);

7) Exclui-se a culpabilidade do homem que, forçado a ir à guerra, por ofício ou convocação, vem a matar ou ferir aqueles que estão guerreando por outras cores, mas não a crueldade que eventualmente cometa no desempenho deste mister (item 749);

8) Em nosso mundo, são válidos os esforços para a superação das animosidades e a promulgação de normas internacionais protetivas dos direitos humanos e restritivas de conflitos. Notadamente, a presença de Espíritos mais adiantados vai operando a transformação coletiva (gradual e consequente), apagando eventuais distinções de castas, origens e cores, bem como tornando possível a convivência pacífica entre homens de crenças diferentes, que se confundem na crença de um único Deus, como “[…] povos que marcham à testa da civilização” (Comentários de Kardec, na Conclusão de “O livro dos Espíritos”, Item VI).

Sempre que uma nova guerra eclode, se percebe a presença do mal, não como uma “entidade” ou força espiritual independente, mas como a exacerbação e a exteriorização de sentimentos peculiares ao homem transitório, ainda bastante animalizado e com vícios e tendências inferiores. E, em face da capacidade intelectual de uns, o desejo de escravização, de domínio e subjugação dos semelhantes, individual ou coletivamente, aflora no sentido de satisfação das paixões, não importando o preço (custo) de suas vontades e desejos. Dominação, esmagamento, dizimação e destruição passam a ser atitudes comuns, substantivos naturais para aqueles que só enxergam os seus direitos, independentemente de legitimação ou senso de justiça.

Dizem os Espíritos, no entanto, que o bem ao se proliferar ou preponderar, gera influência direta nas legislações e na gestão das nações que, refletindo os interesses renovados de seus povos, admoestam e impedem – mesmo com o uso da força, a princípio, ou mediante estratégias de conversação e pressão política – ações violentas e invasões de competência e jurisdição, tratando-as com rigor e represália. As grandes convulsões, assim, que as guerras encerram, vão, pouco a pouco, se acalmando, para dar lugar a uma coletividade renovada e harmonizada, não sem sobressaltos e custos.

De uma maneira muito particular, a fase que atravessamos – mais propriamente desde o início do Século XX até os dias presentes, com todas as ocorrências bélicas – é a demonstração, do ponto de vista psicológico e sociológico, do processo de maturação necessária para que se inicie e opere a transição, uma espécie de “limpeza” espiritual na qual as tendências armamentistas, conflituosas e egoísticas vão desembocando em eventos que aceleram a substituição de muitos Espíritos que não tenham condições de habitar uma Terra regenerada. São, estes, transmudados para outros planos, compatíveis com seus níveis evolutivos.

É por isso que a Filosofia Espírita encara o belicismo como um instrumento social, humano, para a moralização e a progressão de indivíduos e povos, já que, a par das mortes e da destruição, novas ideias são semeadas, acalentadas, vicejam e se engrandecem, no sentido da renovação das coletividades.

Além dos prejuízos diretos (destruição, mortos e feridos) as guerras também provocam outros danos paralelos. Estudos da ONG “Save the children” (Salve as crianças) demonstram que cerca de 43 milhões de crianças em 30 países não têm tido acesso à educação regular em face dos conflitos armados, já que não existem “áreas livres e seguras”, zonas de proteção incondicional, imunes a atentados e bombardeios. Assim sendo, em muitos casos, levando em conta a duração média dos conflitos (dez anos), conclui-se que muitas crianças ficam privadas, neste tempo, do acesso à instrução regular. Outro dado alarmante é a estimativa de crianças alcançadas pelos efeitos das últimas guerras: 2 milhões foram assassinadas, 6 milhões ficaram feridas e outras 20 milhões foram obrigadas a abandonar suas casas.

É por isso que são louváveis os esforços engendrados no sentido do desarmamento físico (diminuição, erradicação ou controle efetivo sobre instrumentos bélicos, notadamente os de natureza nuclear e química), os quais devem ser acompanhados de processos educativos, sólidos e eficazes, porque, senão, o homem, baseado quase que exclusivamente em seus (primitivos e destrutivos) instintos, encontrará outros meios de duelar e tentar dizimar seus semelhantes, em nome de ideais que lhe pareçam, a princípio, justos ou válidos, já que pertencentes a visões particulares.

Da cátedra espírita resulta a noção de que não será à custa de vidas humanas que se conseguirá o estágio de paz social. A chamada ética espírita, fundada nos ideais de liberdade, fraternidade e solidariedade, oferece importantes elementos na contribuição aos debates mundiais sobre guerra e paz. A propósito, diz Kardec, em “Obras Póstumas”: “A fraternidade, na rigorosa acepção da palavra, resume todos os deveres do homem para com os semelhantes. Significa: devotamento, abnegação, tolerância, indulgência; é a caridade evangélica por excelência e a aplicação da máxima: fazer aos outros o que queremos que os outros nos façam”.

Para alcançar o status social de fraternidade verdadeira, no entanto, é fundamental investir na erradicação dos males derivados dos vícios individuais que provêm do orgulho, do egoísmo, da ambição, da cupidez e dos excessos em tudo. É fato que a exacerbada materialização dos interesses humanos excita a cobiça, a inveja, o ciúme de uns em relação a outros, gerando ódios, disputas, processos conflituosos, guerras e todos os males engendrados no íntimo dos homens.

Para tanto, aqueles que já compreendem a natureza e o alcance dos ideais de verdadeira humanização, devem sair das redomas das instituições espíritas para, efetivamente, influenciarem no progresso social, participando das políticas públicas e das iniciativas – locais ou mesmo internacionais, quando possível – para a construção de atmosfera e realidades mais pacíficas e com justiça social. Enquanto continuarmos “discursando para nós mesmos”, “falando para quem proximamente nos entende”, sem arregaçarmos as mangas e dialogarmos nos cenários sociais mais diferenciados e que carecem do nosso concurso participativo, mais ficaremos atônitos e perplexos em relação aos “destinos” que o homem molda para nosso planeta.

Vencer, pois, a timidez dos bons propósitos íntimos para apresentar-se como alternativa viável e palpável à vida individual e coletiva é a tarefa dos homens de boa vontade, estejam eles albergados em qualquer adjetivação filosófica, científica, ideológica ou religiosa de nosso tempo. Ademais, a paz verdadeira e possível – investindo na erradicação dos conflitos interpessoais – começa em cada um de nós!

 


[1] Maiores detalhes sobre a série, em: <https://www.netflix.com/br/title/81147725>.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

DA QUIMERA HUMANA AO VOTO ANÔMICO

        Por Jorge Luiz                   A Contradição como Condição Ontológica             A paisagem político-social contemporânea expõe com crudeza o colapso dos filtros ético-morais no exercício da cidadania, revelando um fenômeno ainda mais perverso: a eleição consagradora de indivíduos formalmente denunciados por crimes gravíssimos, impulsionada justamente pelas parcelas mais vulneráveis da população. Desprovidos de amparo social e desarmados de senso crítico por um histórico de exclusão, esses grupos tornam-se alvos prioritários de apelos religiosos instrumentalizados, em que a fé é dobrada para anestesiar o discernimento ético e sacralizar a barbárie. Ao converter a transgressão em capital político com a chancela dos próprios espoliados, o corpo social escancara a sua contradição ontológica e o ponto cego do Brasil anômico — aquele em que a desori...

AS DEFORMIDADES COGNITIVAS PRETENSOS “HERCULANISTAS”

  Por Jorge Hessen O livre-pensamento, a liberdade de consciência e a fraternidade são princípios kardecianos que não combinam com patrulhamento doutrinário, condenações sistemáticas e apropriações ideológicas do Espiritismo. Há uma contradição curiosa entre alguns atuais admiradores de José Herculano Pires: proclamam fidelidade absoluta a Allan Kardec, mas adotam posturas que merecem ser confrontadas com os próprios fundamentos da Codificação.

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

INTERDEPENDÊNCIA E LIBERDADE INDIVIDUAL

      Por Doris Gandres   “A liberdade individual e a interdependência são essenciais para a vida em sociedade.” Mahatma Gandhi (1)               Hoje ainda, em geral, imaginamos que temos liberdade para realizar tudo aquilo que nos agradar, tudo que atender aos nossos interesses, independentemente de estarmos atingindo ou não a liberdade alheia. Muito frequentemente ignoramos o limite para o exercício da nossa liberdade.             Usualmente somos muito cônscios dos nossos direitos, porém muito relapsos quanto aos nossos deveres. Léon Denis nos recomenda “considerar a vida e suas responsabilidades sob um aspecto mais grave, a submeter mais estritamente nossos atos à regra austera do dever” (2).             No Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap.XVII, item 7, Lázaro Espírito transmite ...

RÉQUIEM

 Por Paulo Eduardo (*) O ofício dos mortos em música sublime. Réquiem significando repouso. Pausa na vida física a fim de enfrentar novos rumos. Retorno à pátria espiritual sendo relembrado neste segundo dia de novembro. Dia de Finados a alegria paradoxalmente triste de uma festa realmente com melodia em surdina. O palco desse momento de velada despedida ou de comunicação interna é o cemitério. Jazigo é sepultura e os espíritos são livres da vestimenta física quando partem em busca dos planos etéreos da vida plena. Ninguém fica residente em catacumba. Uma verdade inconteste. Convém destacar o crescimento da cremação de corpos e nem por isso leva-se ao esquecimento dos nossos cujos despojos tornaram-se pó. Nos réquiens pelo Dia de Finados vamos orquestrar a saudade no seu patamar de harmonia e certeza da perpetuação da vida. A Doutrina Espírita repercute na sua forma belíssima de reverenciar quem parte através do evento morte. Somos imortais na natureza divina...

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

SE O UNIVERSO É TÃO GRANDE, POR QUE IMAGINAMOS UM MUNDO ESPIRITUAL TÃO HUMANO?

    Por Wilson Garcia     Se a ciência expandiu nosso conhecimento sobre o cosmos de forma impressionante, talvez seja hora de perguntar: será que nossa visão sobre o mundo espiritual não ficou pequena demais — terrestre demais, humana demais? Uma leitora fez uma pergunta que me deixou pensando. Ela havia lido meu texto anterior,  Um bilhão de galáxias e uma única pergunta: e o espírito? , e trouxe uma questão que merece ser levada a sério. Ela disse, em resumo: — Tudo bem, falamos de bilhões de galáxias, de um universo gigantesco… mas e o outro lado? O que tudo isso tem a ver com a realidade espiritual? Será que o tamanho do universo material diz algo sobre o universo espiritual? A pergunta é boa. A resposta, porém, pede cuidado.

A CONSPIRAÇÃO DO SILÊNCIO EM TORNO DO ESPIRITISMO¹

Por Dora Incontri (*) Resolvi escrever no meu blog esse desabafo porque é necessário pelo menos que aqui, num terreno meu, e livre, eu possa dizer tudo o que penso e me seja garantida uma escuta honesta. Há uma conspiração do silêncio de 150 anos em torno do Espiritismo e eu, como militante da ideia emancipadora da Pedagogia Espírita, sofro na pele diariamente esse silenciamento em forma de censura, de boicote, de patrulhamento ideológico, de que aliás, os próprios espíritas, muitas vezes fazem parte, por medo, covardia e por falta de entendimento do que o Espiritismo representa. Kardec foi banido da cultura do século XIX, juntamente com todos os que o sucederam em pesquisas sérias a respeito dos fenômenos espíritas, como Crookes, Geley, Lodge, Zöllner, Lombroso, Conan Doyle e tantos outros. Se estes continuam a ser respeitados nos domínios do conhecimento cientifico em que se destacaram – as biografias, os artigos científicos, a divulgação de seus nomes omitem...

DOR CARMIM

     Jorge Luiz                          Os valores divergem muito. A sociedade capitalista é assim, mercantiliza tudo. Os números tornam as coisas frias, como frio é o capitalismo. Estima-se, no entanto, que educar um filho, dependendo da classes sociais, desde os primeiros meses do nascimento até a conclusão de uma formação superior, pode chegar a três milhões de reais. Isso é insignificante diante dos segundos e horas de devotamento e cuidado que se dedica até a formação de um filho em cidadão de bem. Os valores da educação de um filho são incomensuráveis, se não o fosse, assim, só seriam educados os eleitos pela riqueza. A Doutrina Espírita explica.

ESPIRITISMO E COMUNISMO - (I PARTE)

Inserta no terceiro dos discursos proferidos em Lyon e Bordeaux (1862), está a crítica de Kardec aos sistemas de reforma social que visam, ao fim, qualquer tipo de comunismo ; [i] ao mesmo tempo, trata-se de uma defesa contra assertivas de adesão espírita a tais sistemas, no intuito de indispor a nova doutrina com a ditadura de Napoleão III, intrigas da Igreja católica, estreitamente ligada àquele regime. Concentra-se a crítica do mestre na inviabilidade desses sistemas por conta, sobretudo, do estado moral da humanidade, composta, segundo o espiritismo, por almas da terceira ordem da escala espírita, ou seja, nas quais a influência da matéria ainda é dominante, donde a origem do seu vício radical: o egoísmo, incompatível com a justiça, o amor e a caridade. [ii] Tais sistemas levariam, no dizer de Kardec, a um estado de comunidade fundado na completa abnegação da personalidade e, por efeito, requerendo o devotamento mais absoluto, o que só se sustentaria, na opinião do me...