Pular para o conteúdo principal

ENSAIO TEÓRICO SOBRE A FRAGILIDADE DAS RELAÇÕES AFETIVAS

 

Por Mário Portela

O que faz com que um indivíduo em uma relação afetiva alimente expectativas acerca do outro, acarretando nele e no seu amado, consequências nem sempre felizes?

Mesmo sendo um sentimento bastante abordado pela filosofia, o amor ainda permanece bastante preso ao campo do pensamento teórico-abstrato. Ainda não amamos com desenvoltura e isso indica o quão estamos distantes da arte de gerenciar emoções e sentimentos. Numa tarde domingo, após proferir uma palestra sobre o ódio, fui interpelado por uma ouvinte. Maria, nome que usarei para preservar sua identidade, apresentou-se como portadora de um ódio crescente, sufocante e contrário a tudo aquilo que ela entendia como amor. Desolada, ela desabafa dizendo ter sido trocada por uma mulher mais nova após ter dedicado trinta e dois longos anos de sua vida ao esposo. Com isso sua vida não encontrou mais tranquilidade, parte integrante de seu ser havia desaparecido e perdão tornara-se apenas mera palavra figurativa e sem grande significado. Ora, como os seres humanos vivem em conflitos, suas relações também serão, forçosamente, conflituosas e inconsistentes. Desconhecer evidente conceito é negar a realidade na qual estamos inseridos.

A conversa com Maria não foi nada fácil. Com o coração despedaçado, sua mente rechaçava qualquer convite à racionalidade. Antes de qualquer coisa é preciso que compreendamos que nosso maior compromisso enquanto humanos é com a vida. O viver, mesmo com todas as suas dificuldades é uma aquarela de cores vibrantes. Identificar isso é regra áurea para nos sentirmos bem. Quando vivemos o fim de um relacionamento afetivo sentimos a forte dor do desamparo, além de ficarmos presos a fragmentos nostálgicos de um passado eufórico que teimamos em eternizar. Para entendermos nosso compromisso com a vida, precisamos abandonar essa forma arcaica de amar, esse sentimento disfarçado de certo cuidado especial, que sonega afeto aprisionando o objeto amado.

A vida a dois será sempre um eterno monólogo. Nunca chegaremos a um consenso mútuo. É preciso aceitar que a solidão do outro não deixa de ser sozinha pelo simples fato de unir-se a nossa solidão. Na verdade, são duas solidões que se aconchegam tornando a vida mais suave a partir da habilidade da proteção compartilhada, da sintonia; jamais por uma simbiose vampiresca a sorver nossa individualidade. Ciúmes, cobranças, culpabilidade são chancelas da discórdia abrindo veredas na estrada do tempo e enterrando sob a memória um sentimento que outrora nos preencheu. Infelizmente, a poesia do amor não é fácil de ser recitada. Através desse amor infantil escravizamos e nos deixamos escravizar. Elegemos o amado como objeto final de nosso amor e para ele transferimos total poder. Com isso, renunciamos ao nosso compromisso com a vida. O amor de transferência é via de mão única na qual acreditamos amar mais e melhor do que o objeto amado. Esse tipo de relação doentia não proporciona reciprocidade, ao contrário distancia gradativamente os amantes. No início, somos absorvidos pelo discurso inebriante da paixão. Ah! A paixão! Esse alucinógeno que nos rouba a lucidez. Para quem diz amar, os defeitos permanecem submersos por um tempo. Mas o amor humano é de se exasperar e quando o furor da paixão cede lugar à calmaria da rotina do cotidiano, o objeto amado começa a ser incômodo naquilo que antes fazíamos de conta não ver. Abrimos mão da racionalidade e da nossa liberdade e criamos um abismo entre nós e o outro. Já não nos reconhecemos mais frente um ao outro.

Os amantes são paradoxais. Alardeiam amor eterno, mas detestam e aprisionam em nome desse mesmo sentimento. Imersos na euforia, divagam o pensar menosprezando a intelectualidade para beneficiar aquilo que denominamos “sentimento puro”. Amar assim é acender a chama da infelicidade. Dizem que quem ama espera, no entanto, não sabe esperar o tempo do outro; que quem ama suporta, mas esquece de suportar o próprio peso da ansiedade, da insegurança dentro de si. No fundo somos todos ingênuos ao acreditar na eternidade de algo que por si só é finito. Refiro-me aqui exclusivamente ao amor “eros”. O eros vem do grego e significa “o amor romântico”. Entretanto, esse conceito de amor não se restringe simplesmente a natureza sexual. Este pode ser interpretado como um amor para alguém que você ama mais do que o amor de “philos” que significa amizade. Sem a emancipação do outro em todos os aspectos multivivenciais, o amor é incapaz de se retroalimentar para permanecer vivo. A complexidade da sexualidade e de suas relações afetivas não pode ser explicada através de velhos achismos ecoados por meio de um grito falido a bradar “até que a morte os separe”. A eternização da relação não poderá jamais adjetivar a plenitude de um amor. O amor se transforma e pode, dependendo de inúmeros fatores, percorrer pelos campos elísios dos diversos tipos de amabilidade. Quando nos apoderamos do outro cerceamos sua liberdade. Investidos de falsas certezas narcísicas nos sentimos onipotentes. É nesse momento que abdicamos da fase de enamoramento. Sentimos que o outro já nos pertence e não precisamos mais nos esforçar para manter acesa a centelha do fogo da conquista. Reafirmo, porém, que a certeza de que o outro nos pertence viabiliza a morte do desejo e quando menos esperamos nos identificamos como amigos. Haverá problema nisso? Certamente não. Quando disseram que seria eterno não estavam restringindo a plenitude do amor somente ao desejo. Não, jamais. O desejo por si só é pobre para predicar esse sentimento pleno que dá luz a tudo. Deixar o outro trilhar seu próprio caminho é imperativo ético; é garantir-lhe o direito irrevogável à liberdade; é não se sobrepor a sua individualidade; é fazer valer um eu te amo em sua mais sublime essência. Ah! O amor! Como é difícil amar! Como é difícil nos entregarmos ao outro sem renunciar a nós mesmos! Como não nos perdermos nessa tempestade de areia?

Penso a vida de forma mais simplificada. Para isso precisei quebrar um conjunto de crenças e ressignificar todo o meu repertório cultural. Traçar um plano teórico e ao mesmo tempo sofisticado a ponto de problematizar as questões que nos chegam. Isso muitas vezes dói; pensar é transgredir regras. Acredito que inicialmente seja necessário renunciarmos a nós mesmos. Se quisermos crescer ao lado de alguém, temos que pensar em nos melhorar. É preciso tratar o eu interior, nosso ego em desalinho, que se autodenomina melhor sabotando nosso potencial de convivência. A próxima medida a ser feita é termos em mente que acima do amor eros é imprescindível mantermos o amor philia. O ser amado jamais poderá ser minimizado a um simples objeto de desejo. Ele é, acima de tudo, nosso irmão em humanidade e merece todo nosso respeito e reverência. O ser que compartilha conosco o caminhar traz traços do divino que habita em nós e jamais poderemos nos esquecer disso. É essa mentalidade desperta que garantirá a saúde dos relacionamentos e nos livrará de pensamentos egóicos. O próximo passo é construirmos uma relação onde os dois parceiros tenham certeza da temporariedade dos acontecimentos da vida. Todo relacionamento afetivo é uma escola de sentimentos e como todo educandário, apresenta em seu conteúdo diversas seriações e experiências. O amor maduro transforma as consciências, respeitando as individualidades. Em essência, estamos aqui para aprendermos a nos relacionar. O amor prudente vê na felicidade do outro, a própria felicidade. É esse amor incondicional que os gregos chamavam de ágape e que Jesus muito bem exemplificou. E como viver esse amor verdadeiro, libertador? Não há outra estrada se não a do autoconhecimento. Não basta entendermos, é preciso que elaboremos um significado e essa significação é o que nos faz amantes e seres desejantes.

Em O Banquete, diálogo platônico escrito por volta do ano 380 a.C, encontraremos uma série de discursos sobre a natureza e a qualidade do amor (eros). Nele, Fedro recorrendo à autoridade de Hesíodo, dirá que o amor é dos deuses mais antigos, que sequer possui genitores e que é, para nós, a causa dos maiores bens, pois sem ele, não há com se produzir grandes e belas obras. Talvez essa tenha sido a forma poética de falar que o amor muitas vezes assemelha-se a uma força indomável e, talvez, jamais desbravemos suas fronteiras. Mas prefiro pensar o amor como sendo uma alquimia divina manifesta em tudo e que sua sacralidade será proporcional ao esforço que fazemos para construir relacionamentos mais saudáveis, capazes de acolher o outro em toda sua integralidade e aspectos de seu ser.

 

Ab imo pectore!

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

OS PIORES INIMIGOS – EPÍLOGO: A VAIDADE

  Por Marcelo Teixeira         Visito pela última vez o capítulo 31 do livro “Luz Acima”, ditado pelo espírito Irmão X e psicografado pelo médium Chico Xavier, para encerrar a série sobre os piores inimigos. Na história narrada, o apóstolo Pedro viaja a pé com Jesus. No trajeto, é visitado por cinco inimigos internos. Chegou a hora do inimigo ainda não abordado: a vaidade.            Pedro e o Cristo cruzam com um romano chamado Rufo Grácus, que é semiparalítico e viaja a bordo de uma liteira carregada por fortes escravos. Ao ver a dupla, Rufo sorri para ambos com ar de desdém. O apóstolo, sem hesitar, diz que tem vontade de cruzar novamente com o “pecador impenitente, a fim de dobrar-lhe o coração para Deus”. Jesus lhe afaga o ombro e indaga: “Por que instituiríamos a violência ao mundo, se o próprio Pai nunca se impôs a ninguém?”. E arremata: “A vaidade é um verdugo sutil”.

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

AS ESTRUTURAS FEDERATIVAS ESPÍRITAS NO BRASIL - DIANTE DE UM MOVIMENTO DOUTRINÁRIO CAPENGA

  Por Jorge Hessen As dinâmicas federativas no movimento espírita brasileiro, especialmente aquelas intensificadas e reformuladas na era da internet, revelam-se progressivamente antiquadas, ineficazes e supérfluas. Há muitos anos temos lembrado que tais   estruturas, concebidas em um contexto histórico de desunião,   escassez de informação e limites de comunicação, perderam sua função original diante do amplo acesso contemporâneo às fontes primárias ou secundárias da Doutrina Espírita.

“CANALHA! CANALHA! CANALHA!”: O GRITO DE INDIGNAÇÃO CONTRA A CANALHICE ESTRUTURAL BRASILEIRA

    Por Jorge Luiz     O Grito da Canalhice: Uma Definição Multifacetada             “Assim sendo, declaro vaga a Presidência da República.” Com essas palavras,  o presidente do Senado, Auro Moura Andrade, anunciou a um tumultuado Congresso Nacional, na madrugada do dia 2 de abril de 1964, que João Goulart não era mais o presidente do Brasil. Jango estava em Porto Alegre. Na gritaria que se seguiu à fala de Auro, o deputado Almino Afonso ouviu Tancredo Neves, líder do governo na Câmara, gritar: “Canalha! Canalha! Canalha”. A frase é frequentemente citada por outros políticos em momentos de crise, como fez o senador Roberto Requião, em 2016, durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff, evocando a memória do ato de Moura Andrade e a reação de Tancredo.

PLATÃO E O ESPIRITISMO

  Por Jerri Almeida A filosofia nas suas origens gregas buscou interpretar o enigma da vida numa dimensão gnoseológica e ontológica. Das interpretações míticas iniciais, aos vôos consideráveis da razão, os filósofos gregos ampliaram os modelos explicativos da vida e da própria natureza humana.

QUANDO A VIDA TEM ROTEIRO: FATALIDADE, ESCOLHA E PLANEJAMENTO REENCARNATÓRIO

  Por Wilson Garcia Há perguntas que atravessam séculos com a mesma inquietação: existe destino? Somos conduzidos por um fio invisível que determina o fim de nossa história, ou caminhamos em terreno aberto, onde cada decisão pode alterar o curso dos acontecimentos? A questão 853 de O Livro dos Espíritos volta a frequentar esse debate com força. O texto descreve situações em que uma pessoa escapa de um perigo mortal apenas para cair em outro — e questiona: seria isso fatalidade? O termo, carregado de ressonâncias filosóficas e religiosas do século XIX, parece sugerir um destino inflexível.

TRÍPLICE ASPECTO: "O TRIÂNGULO DE EMMANUEL"

                Um dos primeiros conceitos que o profitente à fé espírita aprende é o tríplice aspecto do Espiritismo – ciência, filosofia e religião.             Esse conceito não se irá encontrar em nenhuma obra da codificação espírita. O conceito, na realidade, foi ditado pelo Espírito Emannuel, psicografia de Francisco C. Xavier e está na obra Fonte de Paz, em uma mensagem intitulada Sublime Triângulo, que assim se inicia:

ALUCINAÇÃO - UMA REVISÃO EM KARDEC

  Todas as vezes que me sento diante do computador para escrever algum artigo, penso seriamente naquilo que seria possível para mim, mas que, antes de tudo, poderia despertar algum sentido mais profundo para os que me leem. Naturalmente, a minha pretensão é grande, pois reconheço a minha pequenez para tal, no entanto, parto do princípio de que, se possível, eu possa escrever sobre um assunto que não seja corriqueiro. Entretanto, como psiquiatra, não consigo fugir muito aos assuntos ligados ao dia-a-dia da minha experiência profissional. Portanto, escolhi mais uma vez abordar um tema voltado à questão patológica: a alucinação. Contudo, desta vez, mais do que nunca, o meu referencial é Kardec.

O ESTUDO DA GLÂNDULA PINEAL NA OBRA MEDIÙNICA DE ANDRÉ LUIZ¹

Alvo de especulações filosóficas e considerada um “órgão sem função” pela Medicina até a década de 1960, a glândula pineal está presente – e com grande riqueza de detalhes – em seis dos treze livros da coleção A Vida no Mundo Espiritual(1), ditada pelo Espírito André Luiz e psicografada por Francisco Cândido Xavier. Dentre os livros, destaque para a obra Missionários da Luz, lançado em 1945, e que traz 16 páginas com informações sobre a glândula pineal que possibilitam correlações com o conhecimento científico, inclusive antecipando algumas descobertas do meio acadêmico. Tal conteúdo mereceu atenção dos pesquisadores Giancarlo Lucchetti, Jorge Cecílio Daher Júnior, Décio Iandoli Júnior, Juliane P. B. Gonçalves e Alessandra L. G. Lucchetti, autores do artigo científico Historical and cultural aspects of the pineal gland: comparison between the theories provided by Spiritism in the 1940s and the current scientific evidence (tradução: “Aspectos históricos e culturais da glândula ...