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LUZ QUE PODE OFUSCAR


         
 
 Uma das passagens mais clássicas e conhecidas da Filosofia é a Alegoria da Caverna, integrante do Livro VII, da obra A República, de Platão. Através desta metáfora, Platão narra de forma dramática a situação de prisioneiros, que desde o nascimento são acorrentados em uma caverna e que passam todo o tempo olhando para uma parede do fundo que é iluminada pela luz gerada por uma fogueira. Esta ilumina animais, plantas, objetos e estátuas que são projetados na parede, manipulados, passando a representar o cotidiano desses seres. Com o passar do tempo dão nomes a esses seres, inclusive com a realização de competições para se vangloriarem a quem acertar as denominações e regularidades.

          Imagine-se agora que um dos prisioneiros começasse a investigar o interior da caverna, projetando-se para o mundo exterior. Obviamente que esse ser seria ofuscado pela luz do sol, como um torpor de cegueira e, para logo se habituar à nova realidade, passaria a enxergar as maravilhas dos novos seres fora da caverna.

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          A metáfora acima se aplica didaticamente ao Espiritismo. A bem da verdade, o professor e filósofo J. Herculano Pires, afirma que “O Mito da Caverna” é uma alegoria espírita. O Espiritismo é uma luz pujante, nunca comparável a uma simples vela que alumia. Em contato com esses ensinamentos, muitas mentes sentem o torpor de ofuscamento como o registrado por aquele que se arvorou em sair da caverna. Aqui, a caverna da ignorância.

          Allan Kardec, na obra O que é o Espiritismo, ele assinala o seguinte:

“O Espiritismo prende-se a todos os ramos da Filosofia, da Metafísica, da Psicologia e da Moral: é um campo imenso que não podemos percorrer em poucas horas.”


          Léon Denis, na obra Depois da Morte, também adverte:

“O Espiritismo é, pois, uma poderosa síntese das leis físicas e morais do Universo e, simultaneamente, um meio de regeneração e de adiantamento; infelizmente, pouquíssimas pessoas se interessam por esse estudo.” 


          A simplicidade(saiba mais) com que Kardec ordena as ideias espíritas leva a alguns incautos a acreditarem que apenas lançar vistas nas obras básicas já abarca todo o conhecimento espírita. Aqui reside o torpor consciencial que durará o tempo suficiente para a sua decisão em se dedicar a um estudo aprofundado das obras básicas. Somente com uma compreensão sólida e convicta do Espiritismo, o espírita pode contribuir de forma efetiva e eficaz para a ação transformadora que o mundo necessita. Imperativo dizer que essa variável impacta significativamente na frequência das casas espíritas.
          Os Espíritos deixam de ser seres sobrenaturais para assumirem a condição de forças da Natureza. Sem essa compreensão, que parece primária em um primeiro momento, esvai-se qualquer tentativa de apreender todos os fenômenos da vida material e espiritual, tendo como força motriz as vidas sucessivas. Interessante é que se observa no meio espírita ainda dificuldade dessa compreensão, pois o que se percebe na maioria das casas espíritas são as práticas mediúnicas mais ligadas ao mediunismo que propriamente à mediunidade, como está disciplinada em O Livro dos Médiuns. Aqui cabe uma afirmativa do professor e filósofo J. Herculano Pires, em sua obra O Centro Espírita:

“Sem o estudo constante da Doutrina não se faz Espiritismo, cria-se apenas uma rotina de trabalhos práticos que dão a ilusão de eficiência”.

          Diagnóstico preciso. O que se verifica hoje nas casas espíritas é um labor permanente pela terapêutica e fenomenologia espírita. As duas, de péssima qualidade. E essa negligência do estudo tem tornado muitas casas espíritas reféns dos “mentores espirituais”, com orientações estapafúrdias que passam ao largo das orientações kardecianas.
O que se pode deduzir desse ofuscamento, ou porque não dizer cegueira doutrinária, é que através dos tempos gerações e gerações de espíritas retornam ao plano espiritual sem terrem desenvolvido nenhum processo de educação espírita. No mínimo, desenvolveram uma compreensão mística, alguns hábitos espíritas e solidamente assistiram aulas de catecismo igrejeiro.
          E de pai para filho, presente sempre a cegueira doutrinária, através de sucessões inúteis, nada mais fizeram do que transformar a grande doutrina numa seita de papalvos, assevera o professor José Herculano Pires, na obra Curso Dinâmico de Espiritismo.

          Nesta mesma obra, ele é mais viril:

“Duras são e têm de ser as palavras, porque ineptas e criminosas foram as ações condenadas. A preguiça mental de ler e pensar, a pretensão de saber tudo por intuição, de receber dos guias a verdade feita, o brilhareco inútil e vaidosos dos tribunos, as mistificações aceitas de mãos beijadas com bênçãos divinas e assim por diante, num rol infindável de tolices e burrices impediu (e impede) a volta de Kardec para continuar o seu trabalho.” (aparte nosso)

          O Espiritismo é luz que pode ofuscar!                                   

Referências:
DENIS, Léon. Depois da morte. Brasília: FEB, 1994.
KARDEC, Allan. O que é Espiritismo. São Paulo: LAKE, 2013.
PIRES, J. Herculano. Curso dinâmico de Espiritismo. São Paulo: Paideia, 2000.
_________________. O centro espírita. São Paulo: LAKE, 1990.

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