Pular para o conteúdo principal

A VERDADE QUE LIBERTA



 



 

JESUS E A VERDADE
No diálogo entre Jesus e Pilatos – João, 18:28-40 -, o Meigo Nazareno afirma que todo aquele que é da verdade ouve a minha voz. Em réplica, Pilatos indaga: Que é a verdade? Na sequência, ele conclui ante os judeus que não identificou nenhuma culpa nele. Alguns dias depois, Jesus é condenado à morte, por pessoas totalmente desqualificadas em responder à pergunta elaborada por Pilatos.
Em outros momentos Jesus afirma que se conhecendo a verdade ela vos libertará (João, 8:32) e que ele é o caminho, a verdade e a vida (João, 14:6).


A GNOSE DA VERDADE
Verdade, do latim veritas, atis, significa tudo aquilo que está intimamente ligado ao que é correto, verdadeiro, é a ausência da mentira. Conjunto de princípios que é a base da vida espiritual e da vida universal. (1)
Acerca do estudo da verdade, Carlos Torres Pastorino em sua belíssima obra Sabedoria do Evangelho, em oito volumes, para o entendimento do sentido da verdade, deve-se compreender que o Cristianismo não é uma religião nem uma confissão, segundo a acepção moderna dessas palavras, (...) mas um contato íntimo (com Cristo) nasce de uma gnose profunda. (2) A compreensão do sentido da palavra verdade, exaustivamente usada por Jesus nos seus ensinamentos, é um desses termos especializados para entendermos a sua gnose.
E ele prossegue, traduzindo logos por “ensino” e não “palavra”, expressão, segundo ele, fraca para corresponder à força da frase e o resultado que promete. Ele enfatiza:
“Em lugar de “conhecereis”, que dá ideia de simples informação intelectual externa, que realmente é insuficiente para produzir o resultado prometido, preferimos a expressão técnica “tereis a gnose”, que exprime o conhecimento profundo e experimental-prático, vivido pela criatura.”
Para Pastorino, são três os estágios para se alcançar a verdade que liberta: a LEI do primarismo da hominização rebelde, onde predomina a sensação (1º plano, da verdade); a FÉ no passo seguinte, em que a supremacia cabe às emoções (2º plano, lei da justiça); e agora a GNOSE no plano do intelecto desenvolvido (3º plano, lei da liberdade).

A VERDADE EM UM MUNDO GLOBALIZADO
A indagação de Pilatos feita no atual mundo em profundas transformações se torna mais difícil de se responder presente as ideologias, presença inquestionável da mídia, de segmentos religiosos, fundamentos políticos todos dirigidos por alguns indivíduos de caracteres duvidosos e as redes sociais com os fake news. Embora as notícias falsas existam no mundo desde a sua criação, elas cresceram exponencialmente com a criação da Internet. Portanto, fake news são notícias criadas a partir de personagens conhecidos mas com suas falas distorcidas, ou inventadas, para confundir leitores, e amplificar sentimentos de rejeição ao alvo escolhido. Os fake news vêm piorando as relações políticas e sociais em todo o mundo. Conclui-se daí que a ignorância em nossos dias não significa o não conhecido, mas o resultado de todos os agentes poderosos de forma deliberada para que a sociedade não tome conhecimento da realidade. Surge daí uma nova ciência, a agnotologia, que tem como significado estudo da ignorância ou dúvida culturalmente induzida, em especial a publicação de dados científicos falsos ou enganosos. A palavra foi cunhada por Robert N. Proctor, professor de História da Ciência e Tecnologia em Stanford, juntando as palavras gregas “agnosis - não conhecer” e “logia - estudo de”.
Isso ocorre não só pelas causas da ignorância culturalmente induzida, mas também pela forma inadequada do indivíduo pensar – pensamento linear/binário – (motivado), desatenção e memória curta.

A VERDADE E AS RELIGIÕES
A verdade enfatizada por Jesus é um corolário de interpretações. Para o Judaísmo, a verdade está na Torá. Para o Islamismo, não existe verdade fora de Maomé e o Alcorão. Para o Catolicismo, a verdade está circunscrita a Jesus e ao Novo Testamento. Para os Neopentecostais a verdade que liberta está na Bíblia. Para o Budismo não há verdade fora dos ensinamentos de Buda. Já conforme o hinduísta, a verdade está nos livros védicos. Poder-se-ia elencar tantas outras organizações religiosas e todas seriam taxativas em afirmar que a verdade absoluta se encontra em seus ensinamentos. Todas são verdades relativas, da mesma forma que o Espiritismo.

A VERDADE E O ESPIRITISMO
Será que é dessa verdade que Jesus se refere? Dentro dessa complexidade que o indivíduo contemporâneo enfrenta para discernir entre a verdade e a mentira, como fará para conseguir a verdade que liberta?
Na questão nº 780 “a”, os Reveladores Celestes, respondendo a Allan Kardec, afirmam que não há uma simetria entre o progresso intelectual e o moral. Contudo, o progresso intelectual pode conduzir ao progresso moral dando a compreensão do bem e do mal, (moral) pois então do homem pode escolher. O desenvolvimento do livre-arbítrio segue-se ao desenvolvimento da inteligência e aumenta a responsabilidade do homem pelos seus atos.”
Verifica-se com os ensinamentos espíritas que os conhecimentos multiculturais dissertos podem favorecer o progresso moral, a verdade que liberta. Na sequência, mas precisamente na questão nº 781, os Espíritos Reveladores asseguram que é impossível deter a marcha do progresso, mas se pode entravá-la algumas vezes, situação que o mundo enfrenta nessa quadra evolutiva.
Carlos Pastorino elucida essa afirmativa quando diz que o caminho é longo, ascensão lenta, mas estrada segura e infalível. No entanto, os que ainda se encontram no primeiro estágio lutarão contra os do segundo, assim como estes e os do primeiro se unirão contra os que já estão no terceiro estágio.

“EU E O PAI SOMOS UM” (João, 10:30)
A gnose profunda da Verdade leva a Unidade, o qual Jesus prefere denominar o reino dos Céus. O mundo material é o mundo das polaridades. Amor e ódio. Bem e mal. Certo e errado. Calor e frio. Essa polaridade fragmenta a verdade em verdades relativas.
Hermes de Trimegisto era um legislador egípcio, pastor e filósofo, que viveu na região de Ninus por volta de 1.330 a.C. ou antes desse período; a estimativa é de 1.500 a.C a 2.500 a.C. Ele enunciou as sete leis universais ou leis herméticas. A quarta dela, a da polaridade, assim é enunciada:

“Tudo é duplo; tudo tem dois polos; tudo tem par de opostos; o semelhante e o dessemelhante são uma só coisa, os opostos são idênticos em natureza, mas diferente em grau; os extremos se tocam, todas as verdades são meias-verdades; todos os paradoxos serão reconciliados.”

Observe-se que até a consciência humana que se expressa no cérebro apresenta em sua anatomia física, no qual se encontra as faculdades tipicamente humana de discriminação e julgamento atribuído ao córtex cerebral. Tudo que gera essa polaridade são idênticos em natureza, muito embora apresente gradientes vibracionais variáveis.
Essa polaridade se encontra no taoísmo as duas unidades são denominadas yang (masculino) e yin (feminino). Na tradição hermética essa mesma tradição é representada pelo sol (masculino) e pela lua (feminino). A Doutrina Espírita esclarece que o Espírito pode reencarnar na polaridade masculina ou feminina, de acordo com as suas necessidades evolutivas, na esteira das vidas sucessivas.
Allan Kardec, em A Gênese, no cap. III:8, evidencia a polaridade atestando que seus objetos de causas são idênticos no estudo que realiza sobre O Bem e o Mal:

“... o mal é a ausência do bem, como o frio é a falta de calor. O mal não é um atributo distinto, assim como o frio não é um fluido especial: um é a negação do outro.”

A equivalência entre o bem e o mal será determinante para Allan Kardec, na questão n° 100, de O Livro dos Espíritos, determinar, didaticamente, as diferentes ordens de Espíritos, considerando o gradiente provocado por essas polaridades. Leia-se:

“Esta classificação nada tem de absoluta: nenhuma categoria apresenta caráter bem definido, a não ser no conjunto: de um grau para outro, a transição é insensível, pois, nos limites, as diferenças se apagam, como nos reinos da natureza, nas cores do arco-íris, ou ainda nos diferentes períodos da vida humana.”

Nessas jornadas reencarnatórias, o Espírito paulatinamente, através de vivências das várias meia-verdades, CONHECE-SE A SI MESMO e realiza a Verdade que o liberta dos círculos inferiores da matéria, alçando-o aos Céus como luz.
Aqui não mais a polaridade; Deus e o homem, ao ponto deste O antropomorfizar. Não mais Deus Pai e o homem filho. Deus está no coração. A gnose da verdade que liberta torna o Homem Unidade com Deus. O Homem e Deus são um!


(1)        Dicionário Enciclopédico Ilustrado Larousse;
(2)        PASTORINO, Carlos T. Sabedoria do Evangelho. V. 5. Rio de Janeiro: Sabedoria,  1967.




Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

CROMOTERAPIA NA CASA ESPÍRITA: UM SISTEMA SEM AMPARO NA CODIFICAÇÃO KARDEQUIANA

    Sala de cromoterapia no Colônia Fraternal Bom Jesus - Centro Espírita no Ipiranga (SP)   Por Jorge Hessen                Periodicamente ressurge no movimento espírita a tentativa de justificar a implantação da cromoterapia nas atividades da Casa Espírita, apoiando-se em referências de Joanna de Ângelis, especialmente na obra  Plenitude . Entretanto, essa interpretação não encontra respaldo na Codificação e desconsidera o método científico-doutrinário estabelecido por Allan Kardec.             Em  Plenitude , Joanna de Ângelis menciona a helioterapia e faz alusões à cromoterapia no contexto da preservação da saúde física e psíquica. Em nenhum momento, porém, recomenda sua adoção como prática institucional do Espiritismo. Há profunda diferença entre reconhecer a existência de um recurso terapêutico e convertê-lo em atividade da Casa Espírita.

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

LIVRE PENSAMENTO, LIVRE CONSCIÊNCIA

    Por Doris Gandres                     Há séculos e mais séculos vem a humanidade lutando dos mais diferentes modos e por meios os mais diversos por liberdade; no entanto, nem sempre usando as ações mais apropriadas que a pudessem conduzir à tão sonhada liberdade, ainda que somente no aspecto material, terreno...             Mesmo civilizações, nações e países onde muitas vezes, aparentemente, reina a liberdade, sob uma análise e uma observação mais acuradas, encontramos muitas circunstâncias, situações e condições onde vige pressão, opressão, cerceamento, coação e censura. E não podemos falar apenas do ponto de vista geral, social, de cidadania, de direitos humanos etc, mas também de segmentos religiosos e, nesse campo, lamentavelmente, o meio/movimento espírita não está excluído, o que me parece profundamente contraditório quando se tem algum conhecim...

CANDOMBLÉ, ESPIRITISMO E A LIBERDADE DE SER: O QUE A FALA DE MAJUR NOS ENSINA

  Por Wilson Garcia   A entrevista que a cantora Majur deu ao programa  Desculpa Alguma Coisa , com Tati Bernardi, vai muito além de um papo sobre música ou carreira. O que ela compartilhou ali é uma oportunidade rara para a gente refletir sobre coisas profundas: liberdade de consciência, identidade espiritual, pertencimento e intolerância religiosa.               Quando Majur conta como se aproximou do Candomblé, não está falando só de uma escolha religiosa. Ela fala de um processo de emancipação pessoal. Ao dizer que deixar o ambiente evangélico não significou abandonar Deus, mas sim se libertar de uma prisão, ela expõe algo que muita gente vive: a busca por uma espiritualidade que faça sentido com quem a gente realmente é.

O ESPIRITISMO É PROGRESSISTA

  “O Espiritismo conduz precisamente ao fim que se propõe todos os homens de progresso. É, pois, impossível que, mesmo sem se conhecer, eles não se encontrem em certos pontos e que, quando se conhecerem, não se deem - a mão para marchar, na mesma rota ao encontro de seus inimigos comuns: os preconceitos sociais, a rotina, o fanatismo, a intolerância e a ignorância.”   Revista Espírita – junho de 1868, (Kardec, 2018), p.174   Viver o Espiritismo sem uma perspectiva social, seria desprezar aquilo que de mais rico e produtivo por ele nos é ofertado. As relações que a Doutrina Espírita estabelece com as questões sociais e as ciências humanas, nos faculta, nos muni de conhecimentos, condições e recursos para atravessarmos as nossas encarnações como Espíritos mais atuantes com o mundo social ao qual fazemos parte.

ILUMINANDO A CAVERNA (*)

Por Roberto Caldas (*) Platão (Atenas – 428 a 347 AC) numa de suas mais lidas obras, A República, transcreve um diálogo socrático que passou para a história como A alegoria da Caverna. Nesse diálogo o filósofo Sócrates (469 a 399 AC) conversa com Glauco a respeito da forma como se pode ver o mundo a partir das posições adotadas em determinadas circunstâncias. Ele fantasia uma caverna onde homens presos pelos pés e pela cabeça se encontram de costas para a abertura da mesma e só podem ver o mundo através das sombras projetadas em uma parede à frente criadas por uma fogueira que se encontra às suas costas. Daí eles nada vêem ou sabem além do que aquelas sombras projetam e a compreensão do mundo não passa senão das percepções que têm daquelas imagens. Então, uma daquelas pessoas é solta e levada para conhecer além das sombras projetadas, conhece o fogo que tinha às costas, vê as pessoas que passavam e tinham as suas imagens projetadas, alcança a abertura da caverna e e...

OS ESPÍRITAS FAZEM PROSELITISMO?

  Por Francisco Castro (*) Se entendermos que fazer proselitismo é montar barracas em praça pública, fazer pessoas assinar fichinha, ou ter que fazer promessa de aceitar essa ou aquela religião? Por outro lado, se entendermos que fazer proselitismo significa fazer visitação porta a porta no sentido de convencer alguém, ou de fazer com que uma pessoa tenha que aceitar essa ou aquela religião? Ou, ainda, de dizer que essa ou aquela religião é a verdadeira, ou de que essa ou aquela religião está errada? Não. Não, os Espíritas não fazem proselitismo! Mas, se entendermos que fazer divulgação da existência da alma, da reencarnação, da comunicabilidade dos Espíritos, da Doutrina dos Espíritos, do Ensino Moral de Jesus e de que ele é modelo e guia da humanidade e não de certa parcela de uma nacionalidade ou de uma religião? A resposta é sim! Os Espíritas fazem proselitismo sim! Qual seria então a razão de termos essa grande quantidade de jornais e revistas espírita...

LOBISOMEM: MITO OU REALIDADE?

    Por Americo N. Domingos Filho   Na tradição oral, em âmbito mundial, há o relato fantástico de um ser que se converte em lobo, em noites de lua cheia, e, sedento de sangue, sai em busca de suas vítimas para sugá-las. Ao amanhecer, assume de novo as características de uma pessoa comum. Essa lenda revela um ser amaldiçoado, que se torna parte homem e parte lobo, produzindo muito temor, principalmente nas crianças e, igualmente, em muitos adultos, especialmente os moradores de áreas rurais.

PLATÃO E O ESPIRITISMO

  Por Jerri Almeida A filosofia nas suas origens gregas buscou interpretar o enigma da vida numa dimensão gnoseológica e ontológica. Das interpretações míticas iniciais, aos vôos consideráveis da razão, os filósofos gregos ampliaram os modelos explicativos da vida e da própria natureza humana.