quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

PACTO ÁUREO?






Por Jorge Hessen (*)


 
Outubro de 2014 - 65 anos do Pacto Áureo
Os primórdios do “espiritismo”

De conformidade com as fontes compulsadas, identificamos os primórdios do movimento “pré-espírita” brasileiro nas experiências dos partidários do mesmerismo (1). Dentre os seus adeptos, encontramos os médicos homeopatas Benoît Jules Mure (francês) e João Vicente Martins (português). Ambos chegaram ao Brasil em 1840. Havia mais apaixonados pela técnica de Mesmer, a exemplo de José Bonifácio de Andrada e Silva (o “Patriarca da Independência”), igualmente adepto à homeopatia, e Mariano José Pereira da Fonseca (Marquês de Maricá), este último publicou um livro de essência “pré-Codificação espírita, em 1844.

O “Espírito” Humberto de Campos explanou em “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho” (*) que Benoît Jules Mure e João Vicente Martins “fariam da medicina homeopática verdadeiro apostolado. Muito antes da codificação espírita já conheciam os transes mediúnicos e o elevado alcance da aplicação do magnetismo espiritual. Introduziram vários serviços de beneficência no Brasil e traziam por lema, dentro da sua maravilhosa intuição, a mesma inscrição divina da bandeira de Ismael – “Deus, Cristo e Caridade”. Aplicavam aos doentes os passes como um ato religioso. Não o faziam por charlatanismo. Samuel Hahnemann recomendava esse processo auxiliar da Homeopatia. Foram os homeopatas que lançaram os passes, não os espíritas. Estes continuaram a tradição.


(*) Na qualidade de historiador identifiquei em “Brasil coração do mundo pátria do Evangelho” diversas interpolações, isto é, percebi várias “adaptações” a partir da psicografia original, identifiquei um conjunto controlado de informações infligidas ao texto de Humberto de Campos. Deste modo, há indícios evidentes de inserções descontextualizadas nos capítulos, prejudicando inclusive os fatos históricos propostos pelo Espírito. Dentre algumas interferências externas ao autor, há gritante evocação da primazia injustificável de uma instituição espírita sobre todas as instituições co-irmãs no Brasil. Nada, absolutamente nada, justifica tal supremacia. O próprio Chico Xavier, que doou de boa-fé para a FEB as suas mais importantes literaturas psicográficas, mormente na gestão de Guillon Ribeiro, recordo que na década de 1960, por livre iniciativa, Chico Xavier   se afastou em caráter irrevogável da pretensa “casa mãe” dos espíritas no Brasil. Até 2002 (ano da sua desencarnação) nunca mais retornou para lá….

Tal situação fez-me recordar uma advertência de Emmanuel contido em A Caminho da Luz, capítulo 16, observemos a coincidência histórica: “A igreja de Roma, que antes da criação oficial do Papado considerava-se a eleita de Jesus, ao arvorar-se em detentora das ordenações de Pedro, não perdia ensejos de firmar a sua injustificável primazia junto às suas congêneres de Antioquia, de Alexandria e dos demais grandes centros da época. Herdando os costumes romanos e suas disposições multisseculares, procurou um acordo com as doutrinas consideradas pagãs, pela posteridade, modificando as tradições puramente cristãs, adaptando textos, improvisando novidades injustificáveis e organizando, finalmente, o Catolicismo sobre os escombros da doutrina deturpada.” (Grifei)

Foi no Rio de Janeiro que se formaram os precursores do movimento espírita brasileiro, mormente pelo grupo fundado pelo médico e historiador Alexandre José de Mello Moraes, cujos integrantes eram Pedro de Araújo Lima (Marquês de Olinda), Bernardo José da Gama (Visconde de Goiana), José Cesário de Miranda Ribeiro (Visconde de Uberaba) e outros destacados personagens do Segundo Reinado. Há fontes que remontam ao ano de 1845, quando no distrito de Mata de São João, Província da Bahia, foram registradas as primeiras manifestações do “além-túmulo”.

Alguns fenômenos das mesas girantes que ocorriam especialmente nos Estados Unidos da América e na Europa foram noticiados pela primeira vez no Brasil entre 1853 e 1854 no Jornal do Commércio, Rio de Janeiro, no Diário de Pernambuco, Recife, e em O Cearense, em Fortaleza. Porém, somente a partir de “1860 que encontramos as primeiras publicações espiritistas.”.3

Na capital do Brasil, as primitivas sessões espíritas foram realizadas na década de 1860, por franceses, muitos deles exilados políticos do regime de Napoleão III de França.4 Desses precursores, mencionamos o jornalista Adolphe Hubert, editor do periódico “Courrier do Brésil”, o professor Casimir Lieutaud5, e a médium psicógrafa, Madame Perret Collard6. O primeiro periódico com trechos traduzidos das obras de Allan Kardec foi “A Verdadeira Medicina Física e Espiritual associada a Cirurgia”, um jornal científico sobre as ciências ocultas e especialmente de propaganda magnetotherapia, publicado de janeiro a abril de 1861 por Eduardo Monteggia.7

Em 1865 (mesmo ano do lançamento da obra “O Céu e o Inferno”), Luiz Olímpio Teles de Menezes (um distribuidor das obras de Roustaing no Brasil) criou em Salvador o “Grupo Familiar de Espiritismo” (considerada a primeira instituição espírita brasileira). Em 1866, Teles de Menezes publicou o opúsculo “O Espiritismo – Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita”, contendo páginas extraídas e traduzidas de O Livro dos Espíritos. No mesmo ano, na cidade de São Paulo, a Tipografia Literária publicou “O Espiritismo reduzido à sua mais simples expressão”, de Allan Kardec (sem indicação de tradutor).

Em 1869 (ano da desencarnação do Codificador), Luís Olímpio publicou o primeiro jornal espírita do Brasil – O “Eco do Além-Túmulo” – no mês de julho de 1869. O “Eco” contava com 56 páginas e chegou a circular em Londres, Madri, Nova Iorque, Paris. Em novembro de 1873 foi fundada em Salvador a Associação Espírita Brasileira (extensão do “Grupo Familiar do Espiritismo”) e, no ano seguinte (1874), alguns membros dessa Associação fundaram o “Grupo Santa Teresa de Jesus”.

Torteroli, um líder dos “científicos”

Um dos divulgadores da Doutrina dos Espíritos no século XIX foi Afonso Angeli Torteroli, fundador do “Centro da União Espírita do Brasil”, instituição que tinha a intenção de coordenar o movimento espírita brasileiro. Para esse objetivo (união e unificação) Torteroli organizou em 1881, no Rio de Janeiro, o 1º Congresso Espírita Brasileiro. Sob sua influência e liderança, “ocorreu certa oposição ao trabalho da edificação “evangélica” (rustanista) no Brasil.”8 Torteroli, então líder dos “científicos” (anti-rustanista), investiu contra Bezerra de Menezes (“místico”) (neo-rustanista), e sob a liderança do genovês9 ocorreram desacordos. No século passado costumava-se denominar os espíritas que compartilhavam do aspecto científico (anti-rustaing) do Espiritismo de “científicos”. Os que encaravam o Espiritismo como religião (rustanistas) eram denominados “místicos”.  Chegou-se mesmo a denominar espíritas apenas os que aceitavam O Livro dos Espíritos como expressão da Doutrina Espírita, e Kardecistas os que se dedicavam com mais afinco ao estudo das demais obras escritas por Allan Kardec. Essas ramificações não mais existem, pois atualmente emprega-se o vocábulo espírita para identificar os que aceitam o Espiritismo ou Doutrina Espírita como um todo, em seu tríplice aspecto de ciência, religião e filosofia.

Após a desencarnação de Torteroli, este se manifestou pela mediunidade de Chico Xavier, expressando algum pesar pelas dissenções ocorridas. A carta foi psicografada no dia 4 de abril de 1950. Nela o italiano reconhece ter entendido o Espiritismo apenas como ciência e filosofia10 [por causa das puerilidades dos “quatro evangelhos”]. Sobre isso, os simpatizantes do “academista” afirmam que a carta psicografada contém conteúdo anímico do médium de Uberaba. Para tais, a posição doutrinária assumida por Torteroli (estritamente “científica” e “filosófica”, portanto antiroustaing) não prejudicou sua militância espírita, tanto no que diz respeito à divulgação da obra de Allan Kardec quanto à prática do assistencialismo.

Grupo Confúcio

Avancemos para outros eventos. Os Benfeitores supostamente “sugeriram aos espiritistas brasileiros a necessidade de criar, no Rio de janeiro, um núcleo central das atividades, que ficasse como o órgão orientador [federação] de todos os movimentos da doutrina no Brasil”.11 Tal instituição pioneira foi a Sociedade de Estudos Espiríticos – Grupo Confúcio, em 1873. “Confúcio” aqui não era uma homenagem ao grande filósofo chinês, mas a um Espírito que vinha desde algum tempo nos trabalhos particulares do Dr. Sequeira Dias, sugerindo alguns princípios de moral. Conforme previsto no estatutos do Grupo, devia seguir os princípios e as formalidades expostos em O Livro dos Espíritos e em O Livro dos Médiuns. A divisa da sociedade era: “Sem caridade não há salvação”. Suas atividades incluíam ainda o receituário gratuito de homeopatia e a aplicação de passes aos necessitados.

Entre as grandes proezas do “Confúcio” destacou-se a tradução das obras básicas de Kardec para a língua portuguesa, realizada por Fortúnio (pseudônimo do médico Joaquim Carlos Travassos); o lançamento da “Revista Espírita”12, organizada e dirigida por Antônio da Silva Neto, constituindo o segundo periódico espírita do Brasil e o primeiro do Rio de Janeiro.

Na Revista Espírita foram publicadas   artigos doutrinários e de refutação aos oponentes da Doutrina, duramente atacada pelo “Jornal do Comércio”, nos anos de 1874/5, que tachava o Espiritismo de “epidemia mais perigosa que a febre amarela”, “verdadeira fábrica de doidos”13. Ao “Confúcio” deve o Espiritismo brasileiro os serviços de tradução das obras de Kardec e assistência gratuita homeopática.

O “Grupo Confúcio” foi efetivamente o embrião da autoproclamada “casa-mãe” dos espíritas no Brasil, “constituindo [supostamente] a base da obra tangível do suposto “espírito” “Ismael” (nome alcunhado e criado pelo “médium” Frederico Junior), na terra brasileira”14. No grupo participavam, entre outros rustanistas”, Bittencourt Sampaio, Joaquim Carlos Travassos, Francisco de Siqueira Dias Sobrinho, Antônio da Silva Neto, Casemiro Lieutaud. Todos lutaram contra a opinião antirustanista, contra o insulto, sobretudo, contra as ondas de dissensões”.15

Outros grupos

Ao “Grupo Confúcio” seguiu-se a Sociedade de Estudos Espíritas “Deus, Cristo e Caridade”, criado em 1876.16 “Sob a direção de Bittencourt Sampaio, que juntamente com Bezerra de Menezes17, tivera a sua tarefa previamente determinada no Alto. A ele se reuniu outro rustanista, Antônio Luiz Sayão, em 1878, para a imposição do livro de Roustaing nas terras do Cruzeiro. Foram reorganizadas as energias existentes, para fundarem em 1880 a “Sociedade Espírita Fraternidade”, com a qual se carregava em triunfo o bendito lema do suave estandarte do emissário do Divino Mestre”.18 Nesse contexto (1880), Antônio Luís Sayão fundou, com os rustanistas Frederico Pereira Júnior, João Gonçalves do Nascimento, Francisco Leite de Bittencourt Sampaio e outros, o chamado “Grupo dos Humildes”, popularmente conhecido como “Grupo do Sayão”, e posteriormente a confraria veio a chamar-se “Grupo Ismael”. A ele juntou-se Bezerra de Menezes, Frederico Júnior, Domingos Filgueiras, Pedro Richard e outros.

Naquela época, era uma verdadeira epidemia a criação de grupelhos espíritas. O confrade Pedro Richard descreveu que “no século XIX os espíritas, ou por discordância de ideias, ou por criminosa pretensão, criaram considerável número de grupos [facções], cujos membros, em sua maioria, desconheciam os preceitos mais rudimentares da Doutrina. Qualquer espírita formava um grupo, só para satisfazer a vaidade de dar-lhe por título um nome que ele venerava. De grupos produtivos apenas se contavam alguns, em número por demais reduzido.”.19

Federação espírita brasileira

Em 1883, Augusto Elias da Silva, fotógrafo português radicado no Brasil, lança, com seus próprios recursos, o periódico “Reformador”. No ano subsequente, em reunião em que participaram Francisco Raimundo Ewerton Quadros, Manoel Fernandes Filgueiras, João Francisco da Silveira Pinto, Maria Balbina da Conceição Batista, Matilde Elias da Silva, Luis Móllica, Elvira P. Móllica, José Agostinho Marques Porto, Francisco Antônio Xavier Pinheiro, Manoel Estêvão de Amorim e Quádrio Léo, foi proposto a criação da Federação Espírita Brasileira. A partir desse projeto, “as divergências tenderam arrefecerem, para que a fleuma voltasse a todos os centros de experimentação e de estudo.”20

A primeira diretoria da FEB foi composta por Ewerton Quadros (presidente), Domingos Filgueiras (vice-presidente), Silveira Pinto (secretário), Augusto Elias da Silva (tesoureiro), e Xavier Pinheiro (arquivista). Em 1895, Bezerra de Menezes assumiu a presidência e imprimiu à Instituição a orientação doutrinário-evangélica (lamentavelmente com ênfase no quatros evangelhos). O “Grupo Ismael” acompanhou Bezerra, apoiando-o na direção da federação e integrando-se a ela. Paulatinamente, todos os grupos afinados com a filiação ideológica rustanista foram-se reunindo em torno da FEB.

Os presidentes da FEB

À guisa de ilustração, registramos aqui na sequência os nomes dos presidentes da FEB (após Ewerton Quadros e Bezerra de Menezes) são eles: Dias da Cruz, Leopoldo Cirne (apresentou o trabalho “Bases de Organização Espírita em 1904”, estimulou a fundação de Federações Estaduais e em 1913 inaugurou a sede Histórica no Rio de Janeiro, na Av. Passos)21, Aristides Spínola, Manuel Quintão, Guillon Ribeiro, Luiz Barreto, Paim Pamplona, Antônio Wantuil de Freitas ( permaneceu 27 anos no cargo, formalizou  o “Pacto Áureo”22, instalou o Conselho Federativo Nacional da FEB. Durante sua gestão foi efetivada a “Caravana da Fraternidade”), Armando de Assis (criou os Conselhos Zonais do CFN e inaugurou as dependências da FEB em Brasília), Francisco Thiesen (transferiu o Conselho Federativo Nacional e a sede da FEB para Brasília, transformou os Conselhos Zonais em Comissões Regionais, Juvanir Borges de Souza, Nestor Mazotti e Cesar Perri.

A arrumação do “pacto áureo”

No início do século XX surgiram vários líderes do Espiritismo, entre eles: Batuíra, Cairbar Schutel e Eurípedes Barsanulfo. No meado de século, Deolindo Amorim fundou o Instituto de Cultura Espírita do Brasil (ICEB) e atuou na Liga Espírita do Brasil (patrocinadora do II Congresso da CEPA), realizado no Rio, em 1949. Na década de 1940 o movimento espírita paulista começou a se organizar através de congressos e concentrações de mocidades espíritas. Leopoldo Machado foi um dos grandes incentivadores das mocidades espíritas. Toda essa movimentação doutrinária culminou com a criação, em 1947, da União Social Espírita (atual USE).23

Com a consolidação da União Social Espírita, a nova federativa convocou em 1948 o Congresso Brasileiro de Unificação Espírita, realizado de 31 de outubro a 5 de novembro, com a participação de 16 Estados, por conseguinte, um ano antes do “Pacto Áureo”. Percebe-se que a consolidação do “Pacto Áureo” foi antecedida por vários eventos, como a fundação da Liga Espírita (1926), fundação da USE (1947), Congresso Espírita Brasileiro de Unificação (1948), I Congresso de Mocidades Espíritas do Brasil (1948) e o II Congresso da CEPA (1949)

Decorridos várias décadas do estranhíssimo “Pacto Áureo”, ainda hoje se ouvem vozes coerentemente discordantes, motivo pelo qual retrocedemos ao evento histórico, a fim de identificarmos o ideal que animou aqueles espíritas de então na busca da unidade doutrinária. E para narrar algo do “Pacto”, não há como fugir de citar o episódio ocorrido no início de outubro de 1949, em que as delegações nacionais e estrangeiras (Argentina, Cuba, México, Porto Rico, Estados Unidos, Colômbia e Uruguai) estiveram reunidas no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro, participando da abertura do II Congresso Espírita Pan-Americano, que teria continuidade de suas sessões na Liga Espírita do Brasil.

Participavam desse evento alguns confrades que no congresso da USE defenderam a proposta da criação de uma “Confederação Espírita Brasileira”, pois se avaliava no contexto que as articulações doutrinárias da FEB nada mais eram do que de um Centrão-Laboratório, e não uma federativa aglutinadora. A intrigante sedução inconsciente do “Pacto Áureo” foi sendo estabelecida momentos antes da realização do II Congresso da CEPA. A rigor, foi resultante da decisão de alguns participantes desse conclave, que aproveitaram o ensejo a fim de visitarem a sede da Federação Espírita Brasileira. Visitação que culminaria na realização da “Grande Conferencia Espírita” sendo quase que imposta por Wantuil de Freitas uma proposta de agenda pré-elaborada, cuja anuência sem maior amadurecimento dos participantes, foi firmada a 5 de outubro de 1949.24

Um livro, uma tática, uma ambiguidade histórica

O “Acordo não DEBATIDO” foi uma agenda com dezoito itens, sendo que no primeiro constava: “Cabe aos espíritas do Brasil colocarem em prática a exposição contida no livro “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”. Aqui abrimos um parêntese por entendermos que neste dispositivo houve uma proposição passível de consequência indesejável, considerando o foco da unidade entre os espíritas. Até porque a mais razoável seria constar no primeiro item que os espíritas colocassem em prática a exposição contida no Evangelho Segundo o Espiritismo, de maneira a acelerar a marcha evolutiva do Espiritismo.

Os signatários do Pacto concluíram sem maior DEBATE e maturação de que o livro Brasil Coração do Mundo, Pátria do Evangelho continha dados interessantes e demonstrava qual seria a missão do Espiritismo no Brasil. Porém os que firmaram o “Pacto” não se preocuparam com os detalhamentos ufanistas e controversos do livro, talvez aí o “X” da questão. Não levantamos este ponto com aversão a alguns bons conteúdo da obra (os que não foram alterados por agentes externo ao texto original, aliás, a psicografia original foi incinerada pela FEB), muito pelo contrário – amamos a literatura de Humberto de Campos (sem as inserções febianas), entretanto urge apartar bem as coisas, pois a simples entronização de Roustaing pelo suposto “autor espiritual” contraria o pensamento de Kardec contido no Cap. XV da obra A Gênese.

Lamentavelmente, o livro de Roustaing chegara ao Brasil muito cedo, (via Luiz Olímpio Telles de Menezes, que tinha um pacto de revenda da obra no Brasil) quase ao mesmo tempo que os livros de Kardec. Os espíritas “místicos” à frente dos quais se achava– Bittencourt Sampaio – tomaram “Os Quatro Evangelhos” como vade-mécum e o levaram à altura de última palavra sobre a doutrina de Jesus.

Em face de inexistirem maiores quantidade de livros para serem lidos à época, o livro de Roustaing apresentava para os quase neófitos de Kardec, o mesmo valor doutrinário de “O Livro dos Espíritos”, isto é, ambos atribuíam o que estava escrito a uma revelação ditada. Mas os rustanitas concebiam ter sobre a obra de Kardec uma “vantagem”, ou seja, todas as explicações dos quatro evangelhos eram dadas como advindas supostamente dos próprios “evangelistas”, assistidos pelos “Apóstolos”, e estes, a seu turno, assistidos por “Moisés”. Os rustenistas dispensaram em regra as provas, o bom senso, a lógica kardeciana. Contentaram-se com a presunção de boa-fé sob ausência de maior raciocínio.

O rustanismo conseguiu assim, graças a pouca discussão mais racional, ganhar adeptos entre os “místicos”. Se jamais os prepostos, e muito menos o seu líder, afirmaram que na obra de Roustaing estava o verdadeiro sentido da vida e doutrina de Jesus, também omitiram assertiva em contrário. Talvez, se tal fizessem, perderiam o tempo e apagariam a leve chama de uma fé doutrinariamente insipiente, que cumpre alimentar cuidadosamente. A obra de Roustaing concorreu e ainda concorre para dividir os espíritas (pelos menos dentro da própria FEB atual) e criar dificuldades invencíveis à desejada harmonia de vistas.

Como vemos, foi uma estratégia precipitada do “autor espiritual”, a nosso ver, citar o emblemático João Batista Roustaing como “organizador” do trabalho da “fé espírita” ao lado de um Léon Denis, que efetuaria o desdobramento filosófico; de Gabriel Delanne, que apresentaria a estrada científica e de Camille Flammarion, que abriria a cortina dos mundos. Óbvio que não houve critério mais acurado, segundo cremos. E afirmamos isso de forma pacífica e bem à vontade, pois Humberto de Campos é o responsável espiritual do grupo mediúnico que conduzimos há muitos anos.

O problema é que o suposto “Humberto de Campos” evoca “as tradições do mundo espiritual”, conforme o próprio autor espiritual assevera na Introdução do livro “Brasil, coração do mundo…”. Obviamente esse argumento de “tradições de além” não esclarece, e sequer abona, as ingerências da obra. E isso fica claro se compararmos o livro “Brasil, coração.do mundo…” com “Crônicas de Além-Túmulo” e “Boa Nova” de autoria do mesmo Espírito, nos quais Humberto de Campos utiliza de algumas informações obtidas das chamadas “tradições do mundo espiritual”, mas sem cometer os vários lapsos presentes em “Brasil, Coração do Mundo…”. A propósito da obra “Crônicas de Além-Túmulo” no capítulo 21 intitulado “O Grande Missionário”, publicado antes de “Brasil, coração.do mundo…”, são citados como colaboradores de Allan Kardec somente os missionários Camille Flammarion, Léon Denis e Gabriel Delanne, sem nenhuma menção a Roustaing. Isso indica interpolação ingênua na obra Brasil Coração do Mundo……

Há alguns anos entrevistamos o ponderado Cesar Perri, ex-presidente da FEB, e indagamos se diante da clara divisão que existe no Movimento Espírita, algumas vezes manifestada em posturas radicais, como a FEB deveria conduzir clara e publicamente o tema Roustaing. Que iniciativas faltavam para apaziguar ânimos? Perri esclareceu o seguinte: “Nós já vivemos momentos bastante delicados no Movimento Espírita, que eu acompanhei muito de perto. Sobrevieram momentos muito complicados em algumas gestões. Houve nessa interconexão um momento em que o presidente Thiesen decidiu junto com o CFN que a base dos trabalhos federativos é a obra de Allan Kardec, e isso tem sido seguido até hoje. Nessas condições, fica muito claro que o CFN em termos de movimento nacional trabalha com a obra de Allan Kardec.

De modo óbvio, respeitamos perfeitamente e convivemos com pessoas que gostam e estudam a obra de Roustaing, mas não usamos isso como ponto de atrito ou desunião; procuramos buscar hoje o ponto de convergência, e esse eixo de estabilização do Movimento Espírita é a obra de Kardec. As obras de Roustaing, embora continuem sendo republicadas, e ainda constem do catálogo da FEB, não há mais sua divulgação, por exemplo, nas páginas da Revista Reformador, e essa foi uma decisão adotada em gestões anteriores, mas respeitamos aqueles que pensam ou que adotam as obras de Roustaing.25

Tornemos ao “Pacto Áureo”. Na cláusula segunda do Acordo ficou decidido que a FEB criaria um Conselho Federativo Nacional permanente, com a finalidade de executar, desenvolver e ampliar os planos da sua atual Organização Federativa. Com efeito, em janeiro do ano seguinte instalou-se o Conselho Federativo Nacional (CFN), congregando os representantes das Federações Espíritas Estaduais signatárias com o objetivo de promover e trabalhar pela “união” dos espíritas e pela unificação do Movimento Espírita.26

Caravana da “fraternidade”

Para a tentativa de união dos espíritas, durante a década de 1950, houve um trabalho de convencimento junto às entidades espíritas sobre a importância e as diretrizes da tarefa de organização e unificação do Movimento Espírita brasileiro. A tarefa coube ser realizada, principalmente, pela chamada “Caravana da Fraternidade”. Em 31 de janeiro de 1950, o grupo (27) partiu do Rio de Janeiro com destino a Salvador, e depois a todas as capitais dos 11 Estados do Nordeste e Norte do país. Dentre os planos da missão estavam as finalidades da maior aproximação dos espiritistas, visando o ideal da unificação social da Doutrina, da divulgação cultural do Espiritismo na sociedade laica e estímulo às obras de assistência social.

Os espíritas estamos unidos?

Dez anos após o pífio Pacto foram realizados Simpósios Regionais para tentativa de “união” e unificação do Movimento Espírita Brasileiro. Atualmente o CFN reúne-se ordinariamente uma vez por ano na sede da FEB em Brasília, durante três dias, para tratar burocraticamente de assuntos de interesse do Movimento Espírita Nacional, a fim de promover, realizar e aprimorar o estudo, a difusão e a prática do Espiritismo. É justo informar que todas as Entidades que, direta ou indiretamente integram o CFN (Entidades Federativas Estaduais, Entidades Especializadas de Âmbito Nacional, Centros e demais Sociedades Espíritas), não adotam as obras de Roustaing, mantêm a sua autonomia, independência e liberdade de ação (meno male– menos mal).

Em resumo

Óbvio que as ajuizadíssimas críticas ao “Pacto Áureo” têm seus fundamentos válidos. Não há como negar que foi constrangedor naquela época, e ainda hoje repercute, a maneira pela qual as cláusulas do documento tenham sido apresentadas e consagradas, diante de um número reduzido de dirigentes e “ad referendum” das instituições federativas, sem que tivesse havido mais cautelosa discussão racional e lógica e concordância pelas bases, sobretudo no que tange à apresentação do livro supostamente adulterado Brasil, Coração do Mundo e não as Obras Básicas.

P.S. É muito importante refletirmos sobre as advertências do além, em cujos Benfeitores permitiram a falência do parque gráfico febiano de São Cristóvão. Essa destruição é uma intervenção do Cristo. Hoje temos que lamentar e ver a publicação das obras de Kardec e Chico Xavier pela “Planeta”, uma editora (que não tem nenhum compromisso com o Evangelho), em empresa que pelo lucro publica qualquer livro, inclusive aqueles de ranços obscenos e pornográficos…Que degradação! Jesus, Kardec e Chico Xavier não mereciam isso!


Notas e referências bibliográficas:

1 Técnica terapêutica criada pelo médico vienense Franz Anton Mesmer (1734-1815), que consiste em utilizar o “magnetismo animal” como fonte de tratamento de saúde. Assemelha-se, como técnica, ao hipnotismo.

2 Xavier, Francisco Cândido. Brasil, Coração do mundo, Pátria do Evangelho, ditado pelo Espírito Humberto de Campos, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1938

3 Idem

4 Sobrinho e herdeiro de Napoleão Bonaparte. Foi o primeiro presidente francês eleito por voto direto. Suas primeiras tentativas de golpe de Estado falharam, mas, na sequência da Revolução de 1848, conseguiu estabelecer-se na política, sendo eleito deputado e, em seguida, presidente da República. Finalmente, o bem sucedido Golpe de 1851 pôs fim à Segunda República e permitiu a restauração imperial em favor de Luís. Seu reinado, inicialmente autoritário, progrediu de forma gradativa após 1859 para o chamado “Império Liberal”. Implementou durante seu reinado a filosofia política publicada em seus ensaios Idées napoléoniennes e L’Extinction du Paupérismeele – mistura de romantismo, liberalismo autoritário e socialismo utópico.

5 Fundador e diretor do Colégio Francês no Rio de Janeiro, Em 1860, publicou a tradução, em língua portuguesa, das obras “Os tempos são chegados” (“”Les Temps sont arrivés”) e “O Espiritismo na sua mais simples expressão” (“Le Spiritisme à sa plus simple expression”).

6 Palmeira, Vivian. “Curiosas Histórias do Espiritismo”. in: “Universos Espírita”, nº 49, ano 5, 2008. pp. 8-12.

7 Eduardo Monteggia era um homem eclético

8 Xavier, Francisco Cândido. Brasil, Coração do mundo, Pátria do Evangelho, ditado pelo Espírito Humberto de Campos, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1938

9  Torteroli  nasceu  em Gênova(Itália) em 23 de setembro de 1849  e desencanado no  Rio de Janeiro em 11 de janeiro de 1928, há pesquisadores que citam o seu nascimento  no dia 2 de junho de 1849 no Rio de Janeiro.

10 O conteúdo da mensagem foi publicada no Reformador de julho de 1950 e republicada na mesma revista em novembro de 1977

11 Xavier, Francisco Cândido. Brasil, Coração do mundo, Pátria do Evangelho, ditado pelo Espírito Humberto de Campos, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1938

12 Publicação mensal de Estudos Psicológicos, nos moldes da “REVUE SPIRITE”, de AIIan Kardec

13 O Jornal do Commercio, tradicional periódico da então Capital brasileira, em artigo publicado em 23 de setembro de 1863 na seção “Crónicas de Paris”, abordou os espetáculos acerca dos espíritos então populares nos teatros de Paris e, em seguida, passava a tecer comentários em torno do Espiritismo. Esse artigo é citado pela “La Revue Spirite”, onde Allan Kardec comenta que o autor do artigo não se aprofundou no estudo do Espiritismo, de cuja parte teórica ignorava os processos.

14 Xavier, Francisco Cândido. Brasil, Coração do mundo, Pátria do Evangelho, ditado pelo Espírito Humberto de Campos, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1938

15 Idem

16 Em 1877 Um grupo de dissidentes da “Sociedade de Estudos Espíritas “Deus, Cristo e Caridade” funda a “Congregação Espírita Anjo Ismael”. Em 1878 outros componentes da mesma instituição reúnem-se no “Grupo Espírita Caridade”. Essas instituições, bem como o “Grupo Confúcio”, desaparecem em 1879.

17 Em 1875, Bezerra de Menezes lê, pela primeira vez, “O LIVRO DOS ESPÍRITOS”, que lhe fora oferecido por Joaquim Carlos Travassos, seu primeiro tradutor em língua portuguesa.

18 Xavier, Francisco Cândido. Brasil, Coração do mundo, Pátria do Evangelho, ditado pelo Espírito Humberto de Campos, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1938

19 Disponível em http://www.guia.heu.nom.br/no_rio_de_janeiro.htm, acesso em 22/08/2014

20 Xavier, Francisco Cândido. Brasil, Coração do mundo, Pátria do Evangelho, ditado pelo Espírito Humberto de Campos, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1938

21 A grande aspiração da quase totalidade dos espíritas brasileiros era a realização do congraçamento geral de todas as instituições espíritas do Brasil. Desde os primórdios da propaganda, manifestando-se em diferentes ocasiões, esse tema da união entre todos permaneceu na ordem do dia, sendo Bezerra de Menezes um dos seus paladinos.

22 A expressão “Pacto Áureo” é atribuída a Artur Lins de Vasconcellos Lopes

23 Resultado do acordo de união da “Liga Espírita do Estado de São Paulo”, “União Federativa Espírita Paulista”, “Federação Espírita do Estado São Paulo” e “Sinagoga Espírita Nova Jerusalém”.

24 Os protagonistas do “Pacto Áureo “foram: Antônio Wantuil de Freitas, presidente da Federação Espírita Brasileira; Arthur Lins de Vasconcellos Lopes, por si e pelo Sr. Aurino Barbosa Souto, presidente da Liga Espírita do Brasil; Francisco Spinelli, pela Comissão Executiva do Congresso Brasileiro de Unificação Espírita e pela Federação Espírita do Rio Grande do Sul; Roberto Pedro Michelena; Felisberto do Amaral Peixoto; Marcírio Cardoso de Oliveira; Jardelino Ramos; Oswaldo Mello, pela Federação Espírita Catarinense; João Ghignone, presidente e Francisco Raitani, membro do Conselho da Federação Espírita do Paraná; Pedro Camargo – Vinícius e Carlos Jordão da Silva, pela União Social Espírita de S. Paulo (USE); Bady Elias Curi, pela União Espírita Mineira; Noraldino de Mello Castro, presidente do Conselho Deliberativo da União Espírita Mineira.

25 Disponível em http://jorgehessenestudandoespiritismo.blogspot.com.br/2013/04/luz-na-mente-entrevistou-cesar-perri.html  acesso 29/08/2014

26 Atualmente o CFN é composto pelas Entidades Federativas espíritas de todos os Estados do Brasil e do Distrito Federal, bem como de um quadro de Entidades Especializadas de Âmbito Nacional

27 Os caravaneiros foram Artur Lins de Vasconcelos (PR), que regressou de Recife, sendo substituído por, Luiz Burgos Filho (PE), Ary Casadio (SP), Carlos Jordão da Silva (SP), Francisco Spinelli (RS) e Leopoldo Machado (RJ)

(*) Articulista com textos publicados na Revista Reformador da FEB, O Espírita de Brasília, O Médium de Juiz de Fora, Brasília Espírita, Mato Grosso Espírita, Jornal União da Federação Espírita do DF. Artigos publicados na Revista eletrônica O Consolador, no Jornal O Rebate, site da Federação Espírita Espanhola, site da Espiritismogi.com.br

4 comentários:

  1. Belo resgate histórico. Longo, mas necessário. Para uma melhor compreensão do leitor evitei publicar em partes, como costumo fazer.
    Boa leitura!

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  2. Elucidativo!
    Onde há trigo, mãos invigilantes lançam o joio.
    Tristes interpolações, supressões, adulterações, queima de originais.
    A pujança da Doutrina Espírita atrai adversários que, a pretexto de apoiá-la, trabalham para dilapidá-la, enganando as melhores mentes.
    Mas a verdade triunfa sempre.

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  3. Francisco Castro de Sousa16 de janeiro de 2016 11:47

    Por sugestão de Jorge Luiz, resolvi ler esse artigo até o final. Pelo que conheço do Movimento Espírita desde 1976, após ter participado da antiga União Espírita Cearense, da Aliança Espírita do Ceará e da Federação Espírita do Estado do Ceará e de ter participado de algumas reuniões do CFN e de alguns Encontros Zonais ou Regionais, ouso tecer alguns comentários ao texto do Confrade Jorge Hessen. Sobre a adoção do livro Coração do Mundo Pátria do Evangelho, penso que deve ter sido por duas razões, a primeira delas porque uma parte dos que discutiam essa questão queria adotar os Quatro Evangelhos, a segunda porque os partidários da CEPA não aceitavam e nem aceitam a obra de Kardec, o Evangelho Segundo O Espiritismo, portanto o livro de Humberto de Campos estava na linha de Centro e colocava ao Brasil uma posição central. Outra, é que a chamada Caravana da Fraternidade tinha como objetivo principal a implantação de órgãos federativos estaduais para a difusão da Doutrina Espírita, o que seria um importante instrumento com essa missão. Só para exemplificar, à época da celebração do chamado Pacto Áureo, quem representou o Ceará foi um cidadão que residia no Rio de Janeiro! Para concluir devo dizer que, embora as Federativas e a própria FEB não estejam cumprindo os papéis que o Movimento Espírita espera e merece, têm sido importantes instrumentos para a difusão da Doutrina Espírita, e isso é o mais importante na minha modesta opinião!

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  4. Olá, Castro,
    Vejo a situação no viés dos seus comentários. Os direcionamentos, mesmo no movimento espírita onde não deveria ter tal tipo de predomínio, ainda reina o personalismo refletido no egoísmo do Homem do Mundo, muito bem expresso na frase do anônimo? "Onde há trigo, mãos invigilantes lançam o joio" Belíssimas opiniões.

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