sábado, 13 de junho de 2015

ENTREVISTA DO RECÉM ELEITO PRESIDENTE DA FEB¹





 Por Jorge Hessen (**)


A Federação Espírita Brasileira (FEB) elegeu no dia 21 de março de 2015 o novo presidente, trata-se do companheiro Jorge Godinho Barreto Nery (foto), membro efetivo do Conselho Superior da instituição.
Jorge Godinho presidiu o Centro Espírita Léon Denis, no Rio de Janeiro, na década de 1970. Profissionalmente, serviu por 48 anos à Força Aérea Brasileira (FAB), em que atingiu o posto de Tenente Brigadeiro, atualmente na reserva.
O presidente eleito discorre sobre vários assuntos, alguns deles claramente polêmicos (*), conforme entrevista publicada na íntegra.

Jorge Hessen (“A luz na mente”) – Os princípios institucionalizados (burocratizados) da Unificação inibem o ideário da “UNIÃO” espontânea entre os espíritas?

Jorge Godinho (“Presidente da FEB”) - O ideário da União, como afirmado, é espontâneo, ou seja, é opção da livre determinação do ser humano, especificamente, dos espíritas. Desta forma, cada um de nós expressamos este sentimento por opção, mas Jesus, nosso Mestre e Guia, convida aos que desejam ser seus discípulos à prática desse ideário da UNIÃO, quando nos recomenda: “Meus discípulos serão reconhecidos por muito se amarem.” Se auguramos ser discípulos do Cristo, então, o ideário de “UNIÃO” será mantido em qualquer circunstância.


Jorge Hessen (“A luz na mente”) - O modelo federativo é importante, porém boa parte dos dirigentes de casas espíritas nem sempre valorizam as ações dos órgãos de Unificação, atribuindo-lhes caráter meramente administrativo, burocrático, com pouco sentido prático. Considerando a sua experiência doutrinária, quais as ações que pretende desenvolver para aproximar a FEB das casas Espíritas?

Jorge Godinho (“Presidente da FEB”) – Antes, ressalto que a organização federativa não é só importante, é o programa ideal da Doutrina Espírita no Brasil. É para a grande obra de unificação que a FEB envida todos os seus esforços, objetivando a vitória de Ismael nos corações. Entretanto, respeitando a livre determinação individual, procuraremos sempre atenuar o vigor das dissensões esterilizadoras, para nos unirmos na tarefa impessoal e comum de educar o pensamento do homem no Evangelho.

Jorge Hessen (“A luz na mente”) - O “Pacto Áureo” ainda pode ser avaliado como o grande marco da Unificação?

Jorge Godinho (“Presidente da FEB”) - É o Pacto Áureo a expressão mais lúcida de entendimento e concórdia entre os espíritas, que podem divergir nas discussões das ideias, mas que não devem fazer da divergência motivo de discórdia, intolerância e incompreensão. O Pacto Áureo veio compatibilizar a vivência da Doutrina dentro do princípio da liberdade, sem jamais deixar de considerar o amor fraterno, a união e a Unificação. Ele foi e será sempre o grande marco da Unificação que consolidou os esforços iniciais de Bezerra de Menezes.

Jorge Hessen (“A luz na mente”) – O livro inspirador do “Pacto” -“Brasil coração do mundo…” conseguirá “UNIR” o Movimento Espírita Brasileiro ?

Jorge Godinho (“Presidente da FEB”) – O Livro “Brasil coração do mundo, pátria do evangelho” veio esclarecer as origens remotas da formação da Pátria do Evangelho com informações colhidas nas tradições do mundo espiritual e se destina a explicar a missão do Brasil no mundo moderno. Dessa forma, quando folheamos suas belas páginas e verificamos que o Brasil está destinado a suprir as necessidades materiais dos povos mais pobres do planeta e a facultar ao mundo inteiro uma expressão consoladora de crença e fé raciocinada fica a dedução lógica de que essa tarefa não pode ser uma obra individual ou de personalismos incabíveis, mas daqueles que se propõem a estarem unidos e unificados no Evangelho do Senhor. (*)

Jorge Hessen (“A luz na mente”) – Quais os grandes desafios vistos para o Movimento Espírita Brasileiro?

Jorge Godinho (“Presidente da FEB”) – Consolidar a manutenção da União e da fraternidade.

Jorge Hessen (“A luz na mente”) - Diante da clara divisão que existe no Movimento Espírita, muitas vezes manifestada em posturas emocionalizadas e radicais, como a FEB deve conduzir objetiva e publicamente o tema Roustaing? Que iniciativas faltam para apaziguar ânimos?

Jorge Godinho (“Presidente da FEB”) – Não devemos esquecer que no Capítulo 22 do Livro “Brasil Coração do mundo pátria do evangelho”, o espírito Humberto de Campos narra que Jesus destacou um dos Seus grandes discípulos, Allan Kardec, para vir à Terra com a tarefa de organizar e compilar ensinamentos que seriam revelados, oferecendo um método de observação a todos os estudiosos do tempo e que o grande missionário, no seu maravilhoso esforço de síntese, contaria com a cooperação de uma plêiade de auxiliares da sua obra, designados particularmente para coadjuvá-lo, nas individualidades de João Batista Roustaing, que organizaria o trabalho da fé; de Léon Denis, que efetuaria o desdobramento filosófico; de Gabriel Delanne, que apresentaria a estrada científica e de Camille Flammarion, que abriria a cortina dos mundos, desenhando as maravilhas das paisagens celestes, cooperando assim na codificação kardeciana no Velho Mundo e dilatando-a com os necessários complementos. (*)

Jorge Hessen (“A luz na mente”) - As obras de Roustaing permanecerão sendo republicadas?

Jorge Godinho (“Presidente da FEB”) – Sim. Jamais a FEB deixou de publicá-las, desde a sua primeira edição. Não podemos olvidar que Allan Kardec, dentro da lucidez e do espírito de grandeza que o caracterizam afirmou: proibir a leitura de um livro é dar mostras de que o tememos. A Doutrina Espírita é, por natureza, a doutrina da liberdade, da livre-escolha, nada impõe, nada proíbe. O apóstolo Paulo já recomendava em seu tempo: lede tudo e retende o que for bom. (*)

Jorge Hessen (“A luz na mente”) – Como a Casa-Máter do Espiritismo deve enfrentar e proceder ante a proliferação de livros “doutrinários” de conteúdos confusos, especialmente pela Internet ?

Jorge Godinho (“Presidente da FEB”) – De acordo com o Evangelho. Respeitando, a liberdade de pensar e de agir, já que cada um é responsável pelos seus atos e pela sua administração.

Jorge Hessen (“A luz na mente”) - Considerando que sobre a FEB repousam muitas esperanças, mas também expectativas, como atuará para se aproximar dos espíritas carentes e pouco instruídos na educação formal, dado que representam expressivo estrato da sociedade brasileira?

Jorge Godinho (“Presidente da FEB”) - Pelo trabalho exercido com humildade e amor, na ação pacífica de educação das criaturas na prática genuína do bem e no exercício da caridade como entendia Jesus, conforme expresso na questão nº 886 de O Livro dos Espíritos: “Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas”.

Jorge Hessen (“A luz na mente”) - A inclusão digital apresenta-se como meio propício para que os conteúdos das obras básicas e obras complementares, veiculados pela internet, a fim de que cheguem aos espíritas carentes com evidentes benefícios. Como a FEB poderia auxiliar os Centros Espíritas de periferia nessa questão?

Jorge Godinho (“Presidente da FEB”) - Disponibilizando o acesso a essas obras pelas mais variadas mídias e meios de comunicação existentes e apoiando o Movimento espírita nas ações de auxílio e apoio aos Centros Espíritas.

Jorge Hessen (“A luz na mente”) - Será que livros gratuitos na internet gerariam impacto financeiro, em se tratando de uma prática comum atualmente?

Jorge Godinho (“Presidente da FEB”) – É um tema a ser apreciado. Esta iniciativa a FEB já tomou quando disponibiliza obras para download em seu portal.

Jorge Hessen (“A luz na mente”) – Será que os livros virtuais não dariam maior visibilidade ao portal da FEB, ou seja, não tornaria o site uma robusta ferramenta de divulgação da Nova Luz para o mundo?

Jorge Godinho (“Presidente da FEB”) – Este é um assunto em estudo na FEB e que merece atenção, porque vem ao encontro da sua finalidade: estudar, vivenciar e divulgar a Doutrina Espírita. Para maiores esclarecimentos, a FEB já mantém um catálogo de e-books de mais de 120 títulos, que será ampliado a cada semana, com a disponibilização de outros títulos, como forma alternativa de acessibilidade ao conteúdo espírita.

Jorge Hessen (“A luz na mente”) - Allan Kardec comenta no item 334, cap. XXIX, d´O Livro dos Médiuns, que a formação do núcleo da grande família espírita um dia consorciaria todas as opiniões e uniria os homens por um único sentimento: o da fraternidade. Estaria aqui o Codificador formulando alguma programação doutrinária visando à unidade dos espíritas por intermédio de instituições colegiadas?

Jorge Godinho (“Presidente da FEB”) – Entendo que o Codificador, nesse ponto, traz o cunho da caridade cristã, ao alertar os espíritas desejosos de se instruírem e vivenciarem os ensinos dos Espíritos a se unirem pelo sentimento de fraternidade, formando um núcleo da grande família espírita pelos laços da caridade.

Jorge Hessen (“A luz na mente”) – Na condição de recém-eleito presidente da FEB, considerando o desígnio da “UNIÃO”, e compreendendo que vários membros do CFN tinham a esperança da reeleição do Antônio Cesar Perri, quais as estratégias a serem adotados visando asserenar e aglutinar tais membros do CFN?

Jorge Godinho (“Presidente da FEB”) - Paciência e serenidade; humildade e amor; sacrifício e devotamento; paz e resignação.

Jorge Hessen (“A luz na mente”) – A saída do ex-presidente da FEB comprometerá a coordenação do projeto do CEI? Os novos dirigentes estão em sintonia com o trabalho que o CEI vem realizando?

Jorge Godinho (“Presidente da FEB”) - As instituições permanecem com seus objetivos e finalidades, as pessoas são transitórias e, portanto, os novos dirigentes conscientes desta realidade procurarão a sintonia com o trabalho que vem sendo desenvolvido.

Jorge Hessen (“A luz na mente”) – O irmão pretende partilhar com a comunidade espírita, na forma de consultas, audiências ou outros canais de comunicação, com o intuito de colher subsídios para tratar de matérias e temas importantes para o Movimento Espírita, além, obviamente, dos canais e mecanismos formais já existentes?

Jorge Godinho (“Presidente da FEB”) - Estaremos sempre abertos às contribuições que tratem de temas importantes emanadas de todos aqueles que desejam traze-las pessoalmente ou por intermédio dos meios disponíveis de comunicação.

Jorge Hessen (“A luz na mente”) - Como a FEB deve administrar as questões filosóficas e científicas dos fenômenos metafísicos junto às academias e a outras fontes de conhecimento da atualidade?

Jorge Godinho (“Presidente da FEB”) - Não interferindo, nem cerceando a liberdade de pensar e agir de quem quer que seja.

Jorge Hessen (“A luz na mente”) - Com o crescente surgimento dessas entidades especializadas (Associação espírita de médicos, juízes, jornalistas, psicólogos etc.) como deve se posicionar a FEB, considerando o aspecto restritivo e até elitista dessas entidades? Aceitar e incentivar, acreditando que se trata de um evento imprescindível?

Jorge Godinho (“Presidente da FEB”) – Quanto a este aspecto a FEB tem posição clara e definida em seu Estatuto ao contemplar dispositivo que abriga as entidades especializadas de âmbito nacional no Conselho Federativo Nacional – CFN, e, como decorrência do crescente aumento, aprovou, em 2014, a criação do Conselho Nacional das Entidades Espíritas Especializadas da Federação Espírita Brasileira – CNE-FEB, como órgão de apoio técnico ao Movimento Espírita Brasileiro.

Jorge Hessen (“A luz na mente”) – Numa sociedade mercadológica/mercantil em que eventos espíritas “grandiosos” e pagos em geral se apresentam em números cada vez maiores, qual deve ser a atitude da FEB?

Jorge Godinho (“Presidente da FEB”) –  A de prudência e respeito, sem conivência, mas orientada pelo Evangelho.

Jorge Hessen (“A luz na mente”) - Suas palavras finais.

Jorge Godinho (“Presidente da FEB”) –  Agradeço a oportunidade, desejando que estejamos sempre irmanados numa doce aliança de fraternidade e paz inabaláveis sob o amparo de Ismael e de Jesus.

(*) Nota do entrevistador: a posição do atual presidente da FEB no tocante à obra de Roustaing, s.m.j., não é aprovada pela ampla maioria dos espíritas brasileiros que a conhece e sequer é adotada pelo Conselho Federativo Nacional da FEB e pelo Conselho Nacional de Entidades Especializadas da FEB.

¹entrevista realizada para publicação na revista Luz na Mente. www.aluznamente.com.br

(**) escritor e articulista espírita. Livros publicados: Lua na Mente e Praeiro, um peregrino nas terras do pantanal. Articulista da revista "O Reformador"

6 comentários:

  1. Francisco Castro de Sousa13 de junho de 2015 14:52

    Oportuna a publicação da entrevista ao Presidente recém eleito para dirigir a FEB. Na questão sensível sobre os 4 evangelhos, a posição do entrevistado não poderia ser outra, posto que, se pensasse diferente, não poderia ser eleito pelo Conselho Diretor da FEB! A nossa Constituição tem suas cláusulas pétreas, o estatuto da FEB também, e essa é uma delas! Percebe-se que o Confrade eleito Presidente da FEB é um homem preparado, tanto doutrinária como Febianamente! Parabéns ao Canteiro pela publicação da entrevista!

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    1. Febianamente! Gostei, amigo Castro! O confrade Godinho só se utilizou de Kardec para justificar a publicação das obras de Roustaing. Na primeira, apoiada na opinião solitária do Espírito Humberto de Campos. E na segunda, esqueceu que Kardec afirmou que não devemos temer a leitura. Temer a leitura, é espacialmente distante de publicá-la. E Paulo, "lede tudo, e retende o que é bom". E não, publicas tudo, e lede o que é bom. Contra-senso! Fico com o bom-senso de Kardec!

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    2. Se a FEB parar de publicar as obras de Roustaing, em pouco tempo todos saberão que existe um livro misterioso escrito à época de Kardec que foi retirado das livrarias. Vai chover de curiosos, assim como aconteceu em Barcelona quando queimaram as obras de Kardec, acontecimento esse que deixou o codificador incomodado, para em seguida, receber um aprendizado do Espírito da Verdade que disse que o feito traria consequências boas para a doutrina.

      A melhor forma de incutir em alguém a vontade de ler um livro é proibir a sua leitura. Deixe estar, poucos conhecem, poucos se interessam. Como Kardec disse, uma obra sem consistência morre por si mesma, ninguém precisa provocar seu enterro.

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  2. Francisco Castro de Sousa14 de junho de 2015 12:30

    Caro Marcelo Lait, concordo em parte com você, uma editora publicar uma obra é uma coisa, mas manter uma reunião específica há vários anos é outra coisa meu caro! Veja a programação de reuniões da FEB e procure ver o que se estuda às terças-feiras! Isso há mais de um século!

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    1. Olá Francisco, concordo inteiramente. Mencionei apenas a questão das publicações, que não vejo qualquer problema em continuar sujando as prateleiras das livrarias. Quanto a aceitação dessas obras pela FEB é de fato deplorável, um insulto ao codificador.

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  3. Olá, Marcelo,
    Clarificou sua opinião.
    Abraço!

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