Por Jorge Hessen
As dinâmicas federativas no movimento espírita brasileiro, especialmente aquelas intensificadas e reformuladas na era da internet, revelam-se progressivamente antiquadas, ineficazes e supérfluas.
Há muitos anos temos lembrado que tais estruturas, concebidas em um contexto histórico de desunião, escassez de informação e limites de comunicação, perderam sua função original diante do amplo acesso contemporâneo às fontes primárias ou secundárias da Doutrina Espírita.
Portanto, à luz da Codificação Kardeciana, impõe-se uma análise crítica quanto à necessidade e legitimidade doutrinária dessas instâncias “hierárquicas”. Aliás, Kardec foi explícito ao rejeitar qualquer modelo hierárquico ou centralizador no Espiritismo. Vejamos: em Obras Póstumas, ao tratar do projeto de organização do movimento espírita, afirma: “O Espiritismo não tem nem chefes, nem hierarquia; não impõe crenças, não cria cargos nem confere títulos.” (1)
Sabemos de casa “espírita” que pratica a denunciada e traidora mediunidade psicográfica com dados plagiados nas redes sociais — as chamadas “Cartas Consoladoras” que costumo chamar de Cartas Desoladoras — que, para obter a consagração geral do movimento Espírita , se apoia na aprovação de suposto “diretor” da FEB.
Que autoridade moral e doutrinária tem um diretor da FEB ou de qualquer federativa para chancelar “prática mediúnica”?
Tal declaração invalida, em sua essência, qualquer pretensão de organismos federativos que se coloquem como instâncias superiores de coordenação, orientação, supervisão ou validação doutrinária.
A Doutrina Espírita não se estrutura sobre relações de poder, mas sobre a autoridade moral do argumento racional. Na Revista Espírita, Kardec reforça que o Espiritismo não deve assumir feições institucionais hegemônicas: Até porque “o Espiritismo não deve constituir uma autoridade; ele deve ser uma convicção.” (2)
A convicção, segundo o método kardeciano, nasce do estudo, da observação e da razão crítica — não da adesão a resoluções administrativas, diretrizes federativas ou consensos decorrentes de debates artificiais. Qualquer tentativa de uniformização doutrinária por meio institucional contradiz o caráter essencialmente livre e progressivo do Espiritismo.
No Livro dos Médiuns, Kardec estabelece um dos princípios centrais da epistemologia espírita: “A fé espírita deve apoiar-se na razão, e não na autoridade.” (3)
Esse enunciado exclui, de modo categórico, a legitimidade de intermediários institucionais que se proponham a substituir o estudo direto das obras fundamentais por interpretações “oficiais” ou discursos autorizados. O espírita não é discípulo de homens ou de instituições, mas da razão esclarecida pelo ensino dos Espíritos.
Ainda no mesmo capítulo do Livro dos Médiuns, Kardec adverte contra qualquer noção de infalibilidade pessoal ou coletiva: “Não há, no Espiritismo, nenhum homem cuja opinião seja soberana.” (4)
Portanto, quando federações ou conselhos passam a agir como árbitros do que é ou não “doutrinariamente aceitável”, abandonam o terreno do Espiritismo e ingressam no campo da ortodoxia religiosa, modelo expressamente rejeitado por Kardec.
O Codificador anteviu os perigos da cristalização institucional da Doutrina ao alertar: “Se o Espiritismo tivesse de se apoiar em homens, em instituições ou em formas fixas, estaria perdido.”(5)
Reenfatizamos que, na era digital, em que o acesso às obras originais é imediato e o intercâmbio de ideias ocorre sem mediação, as estruturas federativas não apenas se tornam desnecessárias, como também frequentemente empobrecem o debate, sacralizam palestrantes e médiuns, engessam o pensamento crítico e afastam o Espiritismo de seu caráter científico-moral e filosófico.
Portanto, à luz da Codificação Espírita, conclui-se que o Espiritismo não necessita de federações para existir, sobreviver ou progredir. Seu verdadeiro fundamento reside no livre exame, na fidelidade às obras básicas e na responsabilidade moral da consciência individual.
Estruturas administrativas herdadas de um cenário de desuniões, portanto, num contexto histórico sobrepujado, não apenas carecem de respaldo doutrinário, como podem representar obstáculos ao progresso intelectual e moral do movimento espírita, presentemente bastante capenga.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
1 KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. 44. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2019, p. 356.
2 IDEM, Allan. Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos. Abril de 1866. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 3. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2018, p. 123.
3 IDEM, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 81. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2020, Introdução, item II, p. 19.
4 IDEM, Allan. O Livro dos Médiuns. Cap. XX, item 230. Tradução de Guillon Ribeiro. 81. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2020, p. 286.
5 IDEM, Allan. Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos. Dezembro de 1863. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 3. ed. Rio de Janeiro: FEB

COMENTÁRIO ELABORADO POR INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - IA (GEMINI)
ResponderExcluirO texto apresenta uma crítica contundente e fundamentada à estrutura institucional do Espiritismo brasileiro contemporâneo. Abaixo, elenco os pontos centrais para um comentário sucinto:
Análise Crítica do Artigo
Anacronismo Institucional: O autor argumenta que as federações perderam sua função prática com o advento da internet. Se antes eram necessárias para a circulação de informação, hoje o acesso direto às fontes primárias (Kardec) tornaria esses intermediários obsoletos.
Conflito com a Codificação: O argumento central baseia-se na contradição entre a prática federativa e as instruções de Allan Kardec. O artigo utiliza citações de Obras Póstumas e O Livro dos Médiuns para demonstrar que o Espiritismo foi concebido para ser uma convicção racional, e não uma religião com hierarquia ou cargos de comando.
Denúncia Ética: O texto levanta uma questão grave sobre a "validação" de práticas mediúnicas suspeitas (plágios em redes sociais) por parte de diretores de órgãos federativos. Isso destaca o risco de transformar o movimento em um sistema de "chancela oficial", o que fere o princípio do livre exame e da autoridade moral em detrimento da administrativa.
Descentralização e Liberdade: A conclusão reforça que a sobrevivência do Espiritismo depende do estudo individual e da responsabilidade moral, e não de "formas fixas" ou consensos artificiais que podem engessar o progresso científico-filosófico da doutrina.
Síntese: É um texto de tom reformista e racionalista, que convoca o movimento espírita a retornar às bases de Kardec, abandonando o modelo de "ortodoxia religiosa" em favor de uma autonomia intelectual facilitada pelas tecnologias de comunicação modernas.
Texto inteligente, sem amarras e ou vínculos com normas, cercadas por correntes.
ResponderExcluirTudo muito esclarecedor com a atualidade do movimento espírita.
Sugiro que leiam novamente os dois últimos parágrafos.
Mais claro impossível.