Pular para o conteúdo principal

SOBRE A INSISTÊNCIA EM QUERER CONTROLAR AS MULHERES

 

Gravura da série O Conto da Aia, disponível na Netflix


Por Maurício Zanolini

Mulheres precisam se casar com homens intelectualmente e financeiramente superiores a elas ou o casamento não vai durar. Para o homem, a esposa substitui a mãe nos cuidados que ele precisa receber (e isso inclui cozinhar, lavar, passar e limpar a casa). Ao homem, cabe o papel de prover para que nada falte no lar. O marido é portanto a cabeça do casal, enquanto a mulher é o corpo. Como corpo, a mulher deve ser virtuosa e doce, bela e recatada, sem nunca ansiar por independência. E para que o lar tenha uma atmosfera agradável, é importante que a mulher sempre cuide de sua aparência e sorria.

Esse é um resumo dos conselhos repetidos em diferentes encontros voltados exclusivamente para ajudar mulheres em seus relacionamentos, promovidos por diferentes igrejas de denominações neopentecostais como a Igreja Universal do Reino de Deus, Renascer em Cristo, Assembleia de Deus. Uma extensa reportagem da Agência Pública intitulada Mulheres Virtuosas mostra que, mais do que delimitar bem claramente as fronteiras entre os dois gêneros (lembrando que para eles só existem homens e mulheres heterossexuais), a exigência para as convertidas é se submeter a uma enxurrada de formas de controle. Da ingestão de carboidratos ao controle do peso, da depilação ao uso de maquilagem, do tipo de roupa apropriada ao padrão de homem ideal para um relacionamento, os pastores e pastoras, ministros e ministras que aconselham as fieis reforçam o binômio controle e submissão como forma de demonstrar fidelidade a Deus (e ao marido por extensão, já que o homem representa Jesus dentro desse discurso teológico).

 


Mas o neopentecostalismo é apenas a versão atual de uma tradição muito antiga. A história das religiões, especialmente (mas não apenas) as monoteístas que tem um Deus único representado por uma figura masculina, é recheada de opressão em relação às mulheres. E não importa se o modelo de mulher disseminado por essas religiões é o da santa ou o da pecadora. Os dois estereótipos são formas de controle. O problema é que com a separação da igreja e do Estado, com a consolidação de ideias como Direitos Humanos Universais, e mais recentemente com a globalização e a aproximação e influência entre diferentes culturas via internet e redes sociais, as ideias de controle foram sendo cada vez mais contestadas.

O século XX foi recheado de movimentos por liberdades civis com avanços e retrocessos. E sem dúvida o mais importante deles é o movimento feminista. O documentário Feministas: o que elas estavam pensando? (Netflix) entrevista algumas das participantes da chamada segunda onda do feminismo nos Estados Unidos no anos 1960. Nos depoimentos, fica clara a universalidade da luta por igualdade de direitos, pelo repúdio à guerra, assim como os conflitos internos do movimento que silenciava pautas identitárias de raça e gênero em nome “da causa”. Ainda que existam disputas e falta de compreensão dentro do movimento, o documentário aponta o legado dessa luta para os dias de hoje como o movimento Me Too, que vem denunciando o comportamento violento e predatório de homens milionários, que se consideram acima da lei.

Mas vivemos num mundo cheio de recalques, de saudosismos e ilusões de poder e fragilidades emocionais.  Um recente caso de feminicídio seguido de suicídio perpetrado por um policial durante uma discussão com a esposa é apenas mais um caso numa estatística que fica mais evidente (e só aumenta) a cada ano. Ainda que leis como a Maria da Penha, a obrigatoriedade de exame de DNA para confirmar paternidade, ou a classificação de inafiançável a prisão, para o calote no pagamento da pensão, a reação aos pequenos avanços em direção à igualdade de direitos entre homens e mulheres se escancarou a violência. E quanto mais escancarada é a violência, mais fica claro que não existe nenhuma justificativa para ela – no caso do feminicídio acima o motivo da discussão foi a esposa ter descoberto que o marido a traía.

Outro caso é a disparada no número de assassinatos de jovens mulheres no Ceará pela mão do tráfico de drogas. A exposição das adolescentes nas redes sociais e a rivalidade entre grupos de traficantes são fatores que explicam, mas não justificam, o grau de crueldade (cabelo raspado, seios cortados) e a banalidade das torturas seguidas de execução (seus corpos são expostos nas redes sociais). As justificativas para o sentenciamento  e a execução delas (decretação no jargão dos criminosos), vão de mudar a cor do cabelo (“vermelho é a cor da outra facção”), até por elas recusarem convites (para sair ou para entregar drogas). O discurso que mistura a justiça do olho por olho com moralismo cristão usado para “explicar” as decretações não consegue mascarar o ódio às mulheres.

Portanto, para garantir que os homens continuem no poder, continuem sendo servidos, sendo admirados e colocados numa posição de superioridade pela sociedade (em resumo – que possam fazer o que bem quiserem sem que tenham que se responsabilizar pelas consequências que seus atos impõem às vidas daqueles e daquelas que os rodeiam), é imprescindível controlar as mulheres. E isso é feito de muitas formas. Controlamos as mulheres quando nos referimos à elas como “meninas”, quando impomos um padrão de beleza pré-adolescente (depilação, maquiagem, controle do peso), quando passamos legislação que determina como elas devem se comportar no ato sexual, na escolha do método contraceptivo e da gravidez (por aqui o governo federal vai fazer campanha pela abstinência, para não magoar Jesus), quando repetimos à exaustão narrativas de amor romântico e príncipes encantados. As igrejas impõem o controle usando argumentos teológicos, e a sociedade faz o mesmo usando argumentos que descredibilizam o politicamente correto, que apelam para o senso comum baseado em ideias conservadoras de papel de gênero.

O outro lado dessa moeda é que esse modelo que insiste em não morrer é igualmente prejudicial para os homens. E cada vez mais homens se dão conta disso (já falei sobre isso aqui). A pressão para ser o provedor que não vai deixar nada faltar para a esposa recatada e do lar em tempos de recessão econômica, desemprego e desmonte das leis de proteção social, é uma panela de pressão. A frustração e a raiva que esse contexto alimenta será canalizada de uma forma ou de outra – depressão e doença mental, abandono parental, violência doméstica, escalada do crime, suicídio.

Por tudo isso, é essencial que esse assunto seja debatido. Para aqueles que já entenderam que a estrutura da nossa sociedade reforça e perpetua o controle sobre as mulheres é preciso lutar contra isso. Não importa se a luta é por direitos sociais, pelo fim do encarceramento, contra o racismo, contra a xenofobia ou contra o capitalismo, qualquer uma dessas pautas (e de outras tantas) é influenciada pelo machismo e portanto precisa ser olhada pelo viés da busca pela igualdade entre todos em todos os níveis (que é essencialmente o que significa feminismo). Para aqueles que insistem em dizer que falar sobre isso é vitimismo, ou que feminismo é ideologia comunista, procurem ajuda profissional. O quanto antes!

Comentários

  1. COMENTÁRIO ELABORADO PELA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - IA (GEMINI)
    O artigo faz uma crítica contundente à persistência de ideais de controle e submissão feminina na sociedade contemporânea, exemplificados pelo discurso de igrejas neopentecostais que promovem papéis de gênero rígidos.

    O texto argumenta que essa mentalidade não é nova, sendo uma tradição opressiva presente em religiões monoteístas, mas que colide com os avanços dos Direitos Humanos e do movimento feminista.

    Ao conectar a imposição desses papéis (controle do corpo, submissão ao marido/provedor) com o aumento da violência contra a mulher (feminicídio, assassinatos relacionados ao tráfico), o autor demonstra que a reação aos pequenos avanços de igualdade se manifesta de forma brutal.

    O comentário conclui que o controle sobre as mulheres é mantido por múltiplos meios (religiosos, sociais, legislativos, culturais) para garantir o poder masculino, mas alerta que esse modelo também é prejudicial aos homens, gerando pressão e frustração. A busca pela igualdade em todas as pautas sociais é apresentada como a solução essencial.

    ResponderExcluir
  2. Leonardo Ferreira Pinto23 de outubro de 2025 às 21:33

    Texto muiiiiiito necessário

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

A ESTUPIDEZ DA INTELIGÊNCIA: COMO O CAPITALISMO E A IDIOSSUBJETIVAÇÃO SEQUESTRAM A ESSÊNCIA HUMANA

      Por Jorge Luiz                  A Criança e a Objetividade                Um vídeo que me chegou retrata o diálogo de um pai com uma criança de, acredito, no máximo 3 anos de idade. Ele lhe oferece um passeio em um carro moderno e em um modelo antigo, daqueles que marcaram época – tudo indica que é carro de colecionador. O pai, de maneira pedagógica, retrata-os simbolicamente como o amor (o antigo) e o luxo (o novo). A criança, sem titubear, escolhe o antigo – acredita-se que já é de uso da família – enquanto recusa entrar no veículo novo, o que lhe é atendido. Esse processo didático é rico em miríades que contemplam o processo de subjetivação dos sujeitos em uma sociedade marcada pela reprodução da forma da mercadoria.

UM POUCO DE CHICO XAVIER POR SUELY CALDAS SCHUBERT - PARTE II

  6. Sobre o livro Testemunhos de Chico Xavier, quando e como a senhora contou para ele do que estava escrevendo sobre as cartas?   Quando em 1980, eu lancei o meu livro Obsessão/Desobsessão, pela FEB, o presidente era Francisco Thiesen, e nós ficamos muito amigos. Como a FEB aprovou o meu primeiro livro, Thiesen teve a ideia de me convidar para escrever os comentários da correspondência do Chico. O Thiesen me convidou para ir à FEB para me apresentar uma proposta. Era uma pequena reunião, na qual estavam presentes, além dele, o Juvanir de Souza e o Zeus Wantuil. Fiquei ciente que me convidavam para escrever um livro com os comentários da correspondência entre Chico Xavier e o então presidente da FEB, Wantuil de Freitas 5, desencarnado há bem tempo, pai do Zeus Wantuil, que ali estava presente. Zeus, cuidadosamente, catalogou aquelas cartas e conseguiu fazer delas um conjunto bem completo no formato de uma apostila, que, então, me entregaram.

TRÍPLICE ASPECTO: "O TRIÂNGULO DE EMMANUEL"

                Um dos primeiros conceitos que o profitente à fé espírita aprende é o tríplice aspecto do Espiritismo – ciência, filosofia e religião.             Esse conceito não se irá encontrar em nenhuma obra da codificação espírita. O conceito, na realidade, foi ditado pelo Espírito Emannuel, psicografia de Francisco C. Xavier e está na obra Fonte de Paz, em uma mensagem intitulada Sublime Triângulo, que assim se inicia:

A CIÊNCIA DESCREVE O “COMO”; O ESPÍRITO RESPONDE AO “QUEM”

    Por Wilson Garcia       A ciência avança em sua busca por decifrar o cérebro — suas reações químicas, seus impulsos elétricos, seus labirintos de prazer e dor. Mas, quanto mais detalha o mecanismo da vida, mais se aproxima do mistério que não cabe nos instrumentos de medição: a consciência que sente, pensa e ama. Entre sinapses e neurotransmissores, o amor é descrito como fenômeno neurológico. Mas quem ama? Quem sofre, espera e sonha? Há uma presença silenciosa por trás da matéria — o Espírito — que observa e participa do próprio enigma que a ciência tenta traduzir. Assim, enquanto a ciência explica o como da vida, cabe ao Espírito responder o quem — esse sujeito invisível que transforma a química em emoção e o impulso biológico em gesto de eternidade.

ALLAN KARDEC, O DRUIDA REENCARNADO

Das reencarnações atribuídas ao Espírito Hipollyte Léon Denizard Rivail, a mais reconhecida é a de ter sido um sacerdote druida chamado Allan Kardec. A prova irrefutável dessa realidade é a adoção desse nome, como pseudônimo, utilizado por Rivail para autenticar as obras espíritas, objeto de suas pesquisas. Os registros acerca dessa encarnação estão na magnífica obra “O Livro dos Espíritos e sua Tradição História e Lendária” do Dr. Canuto de Abreu, obra que não deve faltar na estante do espírita que deseja bem conhecer o Espiritismo.

"FOGO FÁTUO" E "DUPLO ETÉRICO" - O QUE É ISSO?

  Um amigo indagou-me o que era “fogo fátuo” e “duplo etérico”. Respondi-lhe que uma das opiniões que se defende sobre o “fogo fátuo”, acena para a emanação “ectoplásmica” de um cadáver que, à noite ou no escuro, é visível, pela luminosidade provocada com a queima do fósforo “ectoplásmico” em presença do oxigênio atmosférico. Essa tese tenta demonstrar que um “cadáver” de um animal pode liberar “ectoplasma”. Outra explicação encontramos no dicionarista laico, definindo o “fogo fátuo” como uma fosforescência produzida por emanações de gases dos cadáveres em putrefação[1], ou uma labareda tênue e fugidia produzida pela combustão espontânea do metano e de outros gases inflamáveis que se evola dos pântanos e dos lugares onde se encontram matérias animais em decomposição. Ou, ainda, a inflamação espontânea do gás dos pântanos (fosfina), resultante da decomposição de seres vivos: plantas e animais típicos do ambiente.

RECORDAR PARA ESQUECER

    Por Marcelo Teixeira Esquecimento, portanto, como muitos pensam, não é apagamento. É resolver as pendências pretéritas para seguirmos em paz, sem o peso do remorso ou o vazio da lacuna não preenchida pela falta de conteúdo histórico do lugar em que reencarnamos reiteradas vezes.   *** Em janeiro de 2023, Sandra Senna, amiga de movimento espírita, lançou, em badalada livraria de Petrópolis (RJ), o primeiro livro; um romance não espírita. Foi um evento bem concorrido, com vários amigos querendo saudar a entrada de Sandra no universo da literatura. Depois, que peguei meu exemplar autografado, fui bater um papo com alguns amigos espíritas presentes. Numa mesa próxima, havia vários exemplares do primeiro volume de “Escravidão”, magistral e premiada obra na qual o jornalista Laurentino Gomes esmiúça, com riqueza de detalhes, o que foram quase 400 anos de utilização de mão de obra escrava em terras brasileiras.

POR QUE SOMOS CEGOS DIANTE DO ÓBVIO?

  Por Maurício Zanolini Em 2008, a crise financeira causada pelo descontrole do mercado imobiliário, especialmente nos Estados Unidos (mas com papéis espalhados pelo mundo todo), não foi prevista pelos analistas do Banco Central Norte Americano (Federal Reserve). Alan Greenspan, o então presidente da instituição, veio a público depois da desastrosa quebra do mercado financeiro, e declarou que ninguém poderia ter previsto aquela crise, que era inimaginável que algo assim aconteceria, uma total surpresa. O que ninguém lembra é que entre 2004 e 2007 o valor dos imóveis nos EUA mais que dobraram e que vários analistas viam nisso uma bolha. Mas se os indícios do problema eram claros, por que todos os avisos foram ignorados?