Pular para o conteúdo principal

TRAPALHADAS "ESPÍRITAS" - ROLAM AS PEDRAS

 


Por Marcelo Teixeira

Pensei muito antes de escrever as linhas a seguir. Fiquei com receio de ser levado à conta de um arrogante fazendo troça da fé alheia. Minha intenção não é essa. Muito do que vou narrar neste e nos próximos episódios talvez soe engraçado. Meu objetivo, no entanto, é chamar atenção para a necessidade de estudarmos Kardec.

Alguns locais e situações que citarei não se dizem espíritas, mas espiritualistas ou ecléticos. Por isso, é importante que eu diga que também não estou dizendo que eles estão errados e que o movimento espírita, do qual faço parte, é que está certo. Seria muita presunção de minha parte. Mesmo porque, pelo que me foi passado, todos primam pela boa intenção. E isso é o que vale.

Contudo, como me disseram haver obras e citações a Allan Kardec e a outros autores espíritas em tais locais, além de muita gente se dizendo espírita, creio que um estudo sério das obras do Codificador e congêneres faria um grande bem.

Em 2000, D. Adélia, mãe de Rosana, apareceu com pedras na vesícula. Foi ao médico, fez exames e constatou-se a necessidade de cirurgia.

Semanas antes da operação, D. Adélia ficou sabendo que um médium de outro Estado, que ficara conhecido pelas curas que fizera, estaria na cidade, num ginásio de esportes, para atender aos interessados. Ela pediu que a filha a acompanhasse.

Lá chegando, de manhã cedo, havia centenas de pessoas. Foi feita uma triagem, uma rápida entrevista e, após horas de espera, chegou a vez de a mãe de Rosana ser atendida pelo médium curador. Ela e outros tantos subiram ao palco – que estava de cortinas fechadas – e se deitaram em macas. O médium, então, aproximou-se e aplicou um passe rápido em cada um.

Depois, recomendaram que ela e os demais ficassem sentados por um tempinho nas arquibancadas a fim de se recomporem. Foram passadas, também, algumas recomendações pós-atendimento.

Rosana avistou D. Izildinha, trabalhadora de um centro espírita da cidade. Ela vestia jaleco branco e portava um crachá. Aliás, era esse o uniforme de todos os assistentes. Muitos deles, provenientes de centros espíritas locais.

Izildinha aproximou-se de ambas. Cumprimentaram-se. Rosana disse que a mãe estava lá devido a uma pedra na vesícula. D. Izildinha, então, toda sorridente, disse: – Ah, vai expelir a pedra hoje à noite mesmo!

Mãe e filha não sentiram firmeza no trabalho do suposto médium de curas em momento algum. Foram para casa; vida normal, sem pedras expelidas.

Cerca de 30 dias depois, D. Adélia operava. Rosana a acompanhou novamente. Quando ela voltou da cirurgia, junto veio o frasco em que estava depositada a pedra. Um pedregulho imenso! Rosana ficou impressionada. O médico também ficara e não sabia como a vesícula havia aguentado, pois a paciente nunca apresentara qualquer desconforto. Mas felizmente tudo correu às mil maravilhas. Aliás, Rosana sentiu o amparo efetivo dos amigos espirituais desde o momento da internação.

Quando ela viu o tamanho da pedra que a mãe carregara por algum tempo e sem se dar conta, lembrou-se da frase proferida por D. Izildinha, cerca de um mês antes: Ah, vai expelir a pedra hoje à noite mesmo! Então, deu graças a Deus pela pedra ter ficado quietinha até o momento em que os médicos, decerto guiados pelos amigos espirituais, efetuaram a cirurgia.

Ambas nunca mais souberam daquele médium. Haviam ouvido falar dele por causa de um amigo que havia sido curado de um problema na uretra, anos antes. Creio que ele deve ter deixado a vaidade subir à cabeça e acabara mistificando o dom que recebera. Pena.

Rosana também lamentou como ainda existe gente desavisada no meio espírita. É só ouvirem falar que fulano cura, que um bando de gente se bandeia para junto dele sem pestanejar, sem atentar para os ensinamentos espíritas, que recomendam cautela nesses casos. Além disso, vestem jaleco, portam crachá e, lépidos e fagueiros, assumem a postura de assistentes do médium.

 

 

Essas narrativas fazem parte do livro –  Sem Açúcar e com Kardec – de Marcelo Teixeira

Comentários

  1. COMENTÁRIO ELABORADO PELA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - IA (GERMINI)
    O texto é um relato pessoal e instigante que questiona a abordagem de algumas práticas ditas "espíritas" ou "espiritualistas", destacando a importância do estudo sério e aprofundado da doutrina espírita.

    Comentário

    O autor, Marcelo Teixeira, usa a experiência da mãe de uma amiga, D. Adélia, para ilustrar um ponto crucial: a necessidade de discernimento e cautela diante de fenômenos mediúnicos de cura. A história da pedra na vesícula, que não foi expelida por "passe de cura" e precisou de uma cirurgia, serve como uma poderosa anedota. Ela mostra que a fé cega e o misticismo podem desviar as pessoas dos princípios racionais do Espiritismo, que valoriza a ciência e a medicina como instrumentos da providência divina.

    O comentário sobre a "vaidade" do médium e a "falta de aviso" dos trabalhadores que o auxiliaram reforça a crítica do autor. Ele não julga as pessoas, mas sim a falta de preparo e o endeusamento de médiuns, algo que, segundo o texto, contraria os ensinamentos de Allan Kardec. A narrativa se torna um lembrete de que a verdadeira ajuda espiritual muitas vezes se manifesta de forma menos espetacular, como no caso do sucesso da cirurgia médica, "guiada pelos amigos espirituais".

    Em essência, o texto é um chamado à racionalidade e ao estudo, convidando os leitores a aprofundarem seus conhecimentos nas obras de Kardec para evitar enganos e compreenderem a complexidade das interações entre os mundos material e espiritual.

    ResponderExcluir
  2. Falta de conhecimento de D. Izildinha, expelir pedra da vesícula...

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A AUDITORIA DA ALMA: VIDAS PRETÉRITAS, FORMA-MERCADORIA E A ÉTICA DO EU-TU

    Por Jorge Luiz   O Mito da Identidade Intacta             Antes mesmo de pronunciarmos a primeira palavra ou esboçarmos o primeiro pensamento reflexivo, já fomos batizados. O nome próprio — esse signo fundamental que carrega nossa existência jurídica e social — nos é atribuído pela expectativa, pelo gosto e pelas projeções do outro. Somos nomeados no escuro. Para muitos, no entanto, o amadurecimento da consciência traz consigo um estranhamento visceral diante desse rótulo herdado. Descobre-se que a roupagem simbólica recebida no berço não se ajusta à pele de quem nos tornamos, levando um número crescente de pessoas a recorrer ao Direito Civil para alterar aquilo que parecia ser a mais imutável das certezas: a própria alcunha.             Talvez houvesse um ganho civilizatório profundo se a consolidação do nome dependesse de uma validação posterior, um ...

A DEMOCRACIA DO TEMPO: A ÚNICA IGUALDADE QUE NINGUÉM PODE EVITAR

  Por Wilson Garcia Existe uma verdade diante da qual desaparecem todas as diferenças: a trajetória humana é finita, embora se desenrole dentro da infinitude.   Todos passam. Os cantores e os poetas. Os artistas e os artesãos. Os cientistas e os agricultores. Os presidentes e os operários. Os milionários e os pobres. Os anônimos e os famosos. Os homens e as mulheres que ocupam as manchetes dos jornais, assim como aqueles cujos nomes jamais serão registrados pela história. Há democracias construídas pelos homens. Há uma, porém, que independe de governos, leis ou ideologias: a democracia do tempo. Diante dela, todos comparecemos em absoluta igualdade.

O ESPIRITISMO É PROGRESSISTA

  “O Espiritismo conduz precisamente ao fim que se propõe todos os homens de progresso. É, pois, impossível que, mesmo sem se conhecer, eles não se encontrem em certos pontos e que, quando se conhecerem, não se deem - a mão para marchar, na mesma rota ao encontro de seus inimigos comuns: os preconceitos sociais, a rotina, o fanatismo, a intolerância e a ignorância.”   Revista Espírita – junho de 1868, (Kardec, 2018), p.174   Viver o Espiritismo sem uma perspectiva social, seria desprezar aquilo que de mais rico e produtivo por ele nos é ofertado. As relações que a Doutrina Espírita estabelece com as questões sociais e as ciências humanas, nos faculta, nos muni de conhecimentos, condições e recursos para atravessarmos as nossas encarnações como Espíritos mais atuantes com o mundo social ao qual fazemos parte.

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

DIVERSIDADE NÃO JUSTIFICA DESIGUALDADE

  Por Alexandre Júnior                A justiça não se estabelece por si só. É necessário que a façamos. Quando nos negamos a combater, debater, encarar, perceber e estudar as desigualdades sociais, menos estaremos aptos a produzir, de forma consciente e politicamente, ações de enfrentamento às injustiças, bem como posturas afirmativas de produção de igualdade e justiça social. Em que pese a insistência nefasta de toda uma estrutura social hegemônica, que, de forma opressora, transforma diversidade em desigualdade.

É HORA DE ESPERANÇARMOS!

    Pé de mamão rompe concreto e brota em paredão de viaduto no DF (fonte g1)   Por Alexandre Júnior Precisamos realmente compreender o que significa este momento e o quanto é importante refletirmos sobre o resultado das urnas. Não é momento de desespero e sim de validarmos o esperançar! A História do Brasil é feita de invasão, colonização, escravização, exploração e morte. Seria ingenuidade nossa imaginarmos que este tipo de política não exerce influência na formação do nosso povo.

CARPE DIEM!

“Deus pede hoje estrita conta do meu tempo E eu vou, do meu tempo dar-lhe conta. Mas como dar, sem tempo, tanto conta Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo? Frei Antonio das Chagas (1631-1682) Por Jorge Luiz (*)               O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) divulgou no dia 18 último, resultado de pesquisa que revela que em uma escala de 0 a 10, os brasileiros dão em média 7,1 para suas vidas. Esse nível colocaria o Brasil em 16º entre os 147 países pesquisados pela Gallup World Poll, que apontava uma felicidade média de 6,8 no Brasil em 2010.             O Nordeste é a região mais feliz do Brasil, com nota média de 7,38. Se fosse considerado um país, nós nordestinos ficaríamos em 9º na classificação global, entre belgas e finlandeses. Apesar de ser considerada a região mais rica do Brasil, o Sudoeste foi con...

A HISTÓRIA DA ÁRVORE GENEROSA

                                                    Para os que acham a árvore masoquista Ontem, em nossa oficina de educação para a vida e para a morte, com o tema A Criança diante da Morte, com Franklin Santana Santos e eu, no Espaço Pampédia, houve uma discussão fecunda sobre um livro famoso e belo: A Árvore Generosa, de Shel Silverstein (Editora Cosac Naify). Bons livros infantis são assim: têm múltiplos alcances, significados, atingem de 8 a 80 anos, porque falam de coisas essenciais e profundas. Houve intensa discordância quanto à mensagem dessa história, sobre a qual já queria escrever há muito. Para situar o leitor que não leu (mas recomendo ler), repasso aqui a sinopse do livro: “’...

DEUS¹

  No átimo do segundo em que Deus se revela, o coração escorrega no compasso saltando um tom acima de seu ritmo. Emociona-se o ser humano ao se saber seguro por Aquele que é maior e mais pleno. Entoa, então, um cântico de louvor e a oração musicada faz tremer a alma do crente que, sem muito esforço, sente Deus em si.

09.10 - O AUTO-DE-FÉ E A REENCARNAÇÃO DO BISPO DE BARCELONA¹ (REPOSTAGEM)

            Por Jorge Luiz     “Espíritas de todos os países! Não esqueçais esta data: 9 de outubro de 1861; será marcada nos fastos do Espiritismo. Que ela seja para vós um dia de festa, e não de luto, porque é a garantia de vosso próximo triunfo!”  (Allan Kardec)                    Cento e sessenta e quatro anos passados do Auto-de-Fé de Barcelona, um dos últimos atos do Santo Ofício, na Espanha.             O episódio culminou com a apreensão e queima de 300 volumes e brochuras sobre o Espiritismo - enviados por Allan Kardec ao livreiro Maurice Lachâtre - por ordem do bispo de Barcelona, D. Antonio Parlau y Termens, que assim sentenciou: “A Igreja católica é universal, e os livros, sendo contrários à fé católica, o governo não pode consentir que eles vão perverter a moral e a religião de outr...