Pular para o conteúdo principal

A DIFÍCIL ABORDAGEM SOBRE O SUICÍDIO


Por Ana Cláudia Laurindo

 

O suicídio é um tema tabu, mesmo que acompanhe a humanidade de maneira atemporal, tem sido menos discutido do que sentimos necessidade. Talvez por ter sido abarcado pela religião como algo proibido, no esquema de remessas de medo como probabilidade de contenção do ser, ele ronda o mundo em silêncio, para surgir repentinamente, cortando a normalidade visível.

Todas as pessoas que conheci e se tornaram suicidas, não aparentavam que o fariam.

Em 1897 o sociólogo francês Émile Durkheim trouxe à lume O Suicídio, livro basilar de todos os estudos sociológicos. Para os estudos que fez naquele tempo histórico, três qualificações foram construídas: Suicídio egoísta, resultado da quebra de laços sociais; suicídio altruísta, que realçava ligamento extremo do indivíduo para com a sociedade e o suicídio anômico, que resulta do termo anomia, e deveria significar que este ocorre quando o indivíduo aspira mais do que pode, tendo demandas muito acima de suas possibilidades reais, chegando por isso ao desespero.

No Espiritismo, meio ao qual estou ligada por laços de comunhão profunda, embora esteja hoje baseada nas compreensões laicas, o suicídio é carregado de associações imagéticas assemelhadas a ideias de geena e fornalhas ardentes, um ponto quase sensorial de punições pós-vida material.

O suicida se torna único responsável pelo destino de dor.

Do livro O Suicídio, analisamos pequeno trecho:

“Como bem destacou Steven Lukes, no ensaio Alienation and Anomie, ‘a anomia é a patologia peculiar do homem moderno industrial, ‘santificada’ tanto pela economia ortodoxa, como pelos socialistas extremistas. A indústria ‘em vez de ser considerada como um meio para o logro de um fim que a transcenda, tornou-se o fim supremo igualmente dos indivíduos e das sociedades.’ A anomia é aceita como algo normal, sendo vista de fato como ‘uma marca de distinção moral’, e ‘é permanentemente repetido que faz parte da natureza humana encontrar-se eternamente insatisfeita, estar sempre avançando, sem descanso ou parada, em direção a uma indefinida meta’.”

Talvez falte às religiões e filosofias holísticas baixarem um pouco mais o olhar para o chão onde a humanidade pisa, para perceber os que são pisados, e, na mesma proporção fixarem olhar de busca naqueles que pisam sobre as necessidades de todos.

O Suicídio de Durkheim pesca o transtorno social para as ciências da sociedade.

As doutrinas fixam rótulos sobre os autocidas.

Cada um de nós sabe as restrições que carrega, os medos, as angústias que determinados ângulos da existência se nos apresentam.

Mais debate sobre este tema pode nos ajudar a conhecer os caminhos humanos com mais honestidade, se conseguirmos nos despir das togas que a cultura asséptica de fundo capitalista produtivista nos delega, e liberarmos a nossa capacidade de não julgar ao ponto extremo de sermos benevolentes com todos, incluindo nós mesmos.

Não serão as faixas amarelas os únicos recursos para a prevenção do suicídio, se a sociedade não parar para interpretar os códigos do seu tempo e as vinculações com o passado. As sociedades opressoras continuam oprimindo. As brechas de satisfação e grandes necessidades, são renovadas periodicamente, e no fundo permanecem os panoramas excludentes, geradores de dores normalizadas, para a manutenção incólume do sistema vencedor.

Não há pódio para mais de três.

Onde ficam os incontáveis destinos?

A compreensão política da vida é base para todas as possíveis transformações. Ninguém consegue ser bom o suficiente sem entender quem criou os conceitos e para quê eles servem.

Precisamos estudar mais.

Comentários

  1. COMENTÁRIO ELABORADO PELA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - IA (GEMINI)
    O artigo apresenta uma reflexão profunda sobre o suicídio, transcendendo a visão simplista e tabu para abordá-lo como um fenômeno complexo, com raízes sociais, psicológicas e até mesmo espirituais.

    O texto inicia destacando o tabu que envolve o suicídio, apesar de sua presença atemporal na história humana. A autora questiona a falta de discussão, sugerindo que a religião e o medo podem ter contribuído para esse silêncio. A experiência pessoal da autora, de conhecer pessoas que cometeram suicídio sem demonstrar sinais, ressalta a dificuldade de identificar o problema.

    A análise se aprofunda ao trazer o trabalho de Émile Durkheim em sua obra "O Suicídio" (1897), um marco nos estudos sociológicos. A autora explica as três categorias de suicídio propostas por Durkheim: egoísta, altruísta e anômico, com foco especial na anomia, que descreve o desespero de indivíduos com aspirações inatingíveis.

    O artigo contrapõe essa análise sociológica com a visão do Espiritismo, que, segundo a autora, trata o suicídio com uma carga de punições pós-vida, atribuindo a responsabilidade unicamente ao indivíduo. Essa crítica sugere que as doutrinas espirituais e religiosas precisam de uma visão mais empática e menos punitiva.

    A autora defende que é essencial um debate mais honesto sobre o suicídio, despido de julgamentos e da superficialidade de uma cultura capitalista e produtivista. Ela argumenta que a prevenção vai além de campanhas como o Setembro Amarelo, exigindo que a sociedade compreenda suas próprias opressões e exclusões, que geram sofrimento "normalizado".

    A conclusão do texto é um chamado para a ação: estudar mais e adotar uma compreensão política da vida. A autora sugere que, para promover transformações reais, é necessário questionar quem cria os conceitos de "bem" e para quem eles servem, em um mundo onde "não há pódio para mais de três".

    Em suma, o artigo é um convite à reflexão e à empatia, desafiando tabus e visões simplistas para enxergar o suicídio como um sintoma de problemas sociais e individuais que exigem atenção, estudo e uma profunda mudança cultural.


    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

O CAMBURÃO E A FORMA-MERCADORIA: A ANATOMIA DE UMA EXCLUSÃO ÉTICA

      Por Jorge Luiz   A Estética do Terror O racismo estrutural não é um ato isolado, mas uma relação social que estrutura o Brasil. Quando a sociedade aceita que "bandido bom é bandido morto" , ela está, na verdade, validando que a vida de um homem negro periférico tem menos valor. Pesquisas indicam que, apesar de a maioria dos brasileiros reconhecer o racismo, a aplicação da frase seletiva perpetua desigualdades históricas de raça e classe, com a mídia e o sistema de segurança muitas vezes reforçando essa lógica. Um caso chamou a atenção da sociedade brasileira, vista nos órgãos de imprensa e redes sociais, de D. Jussaara, uma diarista que foi presa e contida de forma violenta pela Polícia Militar na Avenida Paulista, em São Paulo, após ir ao local cobrar diárias de trabalho que não haviam sido pagas por antigos patrões. O caso gerou grande indignação nas redes sociais. A trabalhadora recebeu apoio e foi recebida no Palácio do Planalto após o ocorrido.

ENCANTAMENTO

  Por Doris Gandres Encanta-me o silêncio da Natureza, onde, apesar disso, com atenção, podem-se perceber ruídos sutis e suaves cantos, quase imperceptíveis, das folhas e das aves escondidas. Encanta-me o silencioso correr dos riachos e o ronco contido de pequenas quedas d’água.

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

16.11 - DIA INTERNACIONAL DA TOLERÂNCIA

“Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.” (Jesus, Mt, 22:34-40)                            John Locke (1632-1704), filósofo inglês, com o propósito de apaziguar católicos e protestantes, escreveu em 1689, Cartas sobre a Tolerância. Voltaire (1694-1778), filósofo iluminista francês, impactado com o episódio ocorrido em 1562, conhecido como Massacre da Noite de São Bartolomeu , marcado pelos assassinatos de milhares de protestantes, por fiéis católicos, talvez inspirado por Locke, em 1763, escreveu o Tratado sobre a Tolerância.             Por meio da  UNESCO¹, em sua 28ª Conferência Geral, realizada de 25.10 a 16.11.1995, com apoio da Carta das Nações Unidas que “declara a necessidade de preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra,...a reafirmar a fé nos direitos fundamentais do homem, na dignidade e...

SILÊNCIO, PODER E RESPONSABILIDADE MORAL: A JUSTIÇA ESPÍRITA E A ÉTICA DA PALAVRA NÃO DITA

  Por Wilson Garcia   Há silêncios que protegem. Há silêncios que ferem. E há silêncios que governam. No senso comum, o ditado “quem se cala consente” traduz uma expectativa moral básica: diante de uma interpelação legítima, o silêncio sugere concordância, incapacidade de resposta ou aceitação tácita. O direito moderno, por sua vez, introduziu uma correção necessária a essa leitura, ao reconhecer o silêncio como garantia individual — ninguém é obrigado a produzir provas contra si. Trata-se de um avanço civilizatório, pensado para proteger o indivíduo vulnerável frente ao poder punitivo do Estado. O problema começa quando esse direito — concebido para a assimetria frágil — é apropriado por indivíduos ou instituições fortes, que não se encontram em situação de coerção, mas de conforto simbólico. Nesse contexto, o silêncio deixa de ser defesa e passa a ser estratégia. Não responde, não esclarece, não corrige — apenas espera. E, ao esperar, produz efeitos.

O OUTRO

A individualidade é a certeza de que ninguém está na mesma posição física ou espiritual de outrem, essa verdade não deve ser esquecida, senão incorreremos em falhas de observação prejudiciais às avaliações que antecedem o relacionamento humano e nos permitem estabelecer convivência saudável, decorrente de identificação adequada da personalidade de nossos pares. O próximo não é mais do que nosso semelhante, só nos é igual na potencialidade recebida e no destino reservado, tem o mesmo conjunto de germes perfectíveis contemplados pelo Alto, porém o desenvolvimento dessa poderosa capacidade justiçosa é trabalho de cada qual com colocação única na caminhada evolutiva, não é diferente da constatação concluída pela ciência humana, dois ou mais corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço. 

EXPRESSÕES QUE DENOTAM CONTRASSENSO NA DENOMINAÇÃO DE INSTITUIÇÕES ESPÍRITAS

    Representação gráfica de uma sessão na SPEE (créditos: CCDPE-ECM )                                                     Por Jorge Hessen     No movimento espírita brasileiro, um elemento aparentemente periférico vem produzindo efeitos profundos na percepção pública da Doutrina Espírita. Trata-se da escolha dos nomes das instituições.  Longe de constituir mero detalhe administrativo ou expressão cultural inofensiva , a nomenclatura adotada comunica valores, orienta expectativas e, não raro,  induz a equívocos graves quanto à natureza do Espiritismo . À luz da codificação kardequiana, o nome de um centro espírita jamais é neutro; ele é, antes, a primeira  síntese doutrinária oferecida ao público . Desde sua origem, o Espiritismo foi definido por Allan Kardec como uma doutrina de tríplice aspecto...

10.12 - 140 ANOS DE NASCIMENTO DE VIANNA DE CARVALHO

Por Luciano Klein (*) Manoel Vianna de Carvalho (1874-1926) Com entusiasmo e perseverança, há duas décadas, temos procurado rastrear os passos luminosos de Manoel Vianna de Carvalho, alma preexcelsa, exemplo perfeito de inclinação missionária, baluarte de um trabalho incomparável na difusão dos postulados espíritas, por todo o País. Entre os seus pósteros, todavia, bem poucos conhecem a dimensão exata de seu labor inusitado, disseminando os princípios de uma verdade consoladora: a doutrina sistematizada por Allan Kardec.             Não nos passa despercebido, nos dias atuais, o efeito benéfico dos serviços prestados ao Movimento Espírita por Divaldo Pereira Franco. Através desse médium admirável, ao mesmo tempo um tribuno consagrado, Vianna de Carvalho se manifesta com frequência, inspirando-o em suas conferências fenomenais que aglutinam multidões.

A VERDADEIRA HONESTIDADE

                          José Brê faleceu em 1840. Dois anos depois, numa reunião mediúnica, em Bordéus, foi evocado por sua neta, em manifestação registrada no livro O Céu e o Inferno, de Allan Kardec. O diálogo entre ambos é um repositório marcante de ensinamentos que merecem nossa reflexão.             – Caro avô, o senhor pode dizer-me como vos encontrais no mundo dos Espíritos e dar-me quaisquer pormenores úteis ao meu progresso?             – Tudo o que quiser, querida filha. Eu expio a minha descrença, porém grande é a bondade de Deus, que atende às circunstâncias. Sofro, mas não como poderias imaginar. É o desgosto de não ter melhor aproveitado o tempo aí na Terra.           ...