Pular para o conteúdo principal

ESPIRITISMO LACRADOR NO SÉCULO XXI

 

Por Ana Cláudia Laurindo

Analisar sociedade é ofício inato dos que se constituíram cientistas sociais, entre os quais estou; e falo desde este lugar nem sempre grato em retornos imediatos, mas necessário à resistência do livre pensar.

Assim sendo forjada que fui pela história de sobrevivência em ambientes e relações hostis, sigo cumprindo este dever intelectual ao qual me associo por livre escolha, orientada por sistemas internos de valores que apontam para o comprometimento com a ciência em termos libertários, desvinculada dos tradicionalismos burgueses assim como dos liberalismos identitários dessa hora.

Se de uma perspectiva imediata e consumista muito perco, daquela outra resistente e livre, continuo ganhando, porque o ouro aqui é subjetivo, é a sobrevivência da pessoa pensante, sempre sob riscos.

Espiritismo: campo de amores doces e amargos, ao sabor das expectativas construídas e experimentadas em vivências. Como amo abrir os pensares feito asas, e flanar sem medo pelas revelações, encontros e reencontros afetivos, na busca de amadurecer diálogos, nem sempre fáceis.

Como fenômeno social em território histórico, muito já foi dito sobre a contaminação do seu legado através das exposições inevitáveis aos momentos políticos humanos, em sociedades intencionalmente mantidas pelo giro do poder.

Críticas válidas. Embasadas nas teorias de reproduções culturais e lógicas de manutenção da força de coesão dos sistemas dominantes.

Contudo, ouso apontar a mesma vulnerabilidade do pensamento espírita diante dos movimentos liberais da contemporaneidade.

Se já foi o Espiritismo afetado pelo positivismo, pelo humanismo iluminado, pelas multifaces do sistema capitalista em todos os tempos modernos, e serviu de cortina para a percepção do mal em suas performances políticas de manutenção das desigualdades e crimes de predação humana, estará também, neste dado instante, exposto ao fenômeno liberal (violento) desta era, que a partir das redes sociais podemos identificar como “identitarismo” e “lacração”.

Já adianto que abordar este tema é enfrentar um dos maiores tabus de agora, pois o mesmo é encampado por variados atores, desde lugares distintos, afinados com convicções progressistas, mas esfaimados para “cancelar” quem deles discordar.

Da minha parca, mas humilde segurança existencial, porém, reafirmo que minhas contribuições intelectuais não almejam o agrado nem o desagrado, mas a honestidade do meu livre pensar. Por isso mesmo estou aqui a afirmar que existe um “Espiritismo lacrador” silenciando vozes espíritas, por repetição ontológica de mecanismo liberais intolerantes.

Onde encontrar o equilíbrio, quando de repente nos percebemos encantados com os discursos que parecem romper barreiras, mas na verdade, criam cortinas que encobrem elementos cruciais, como por exemplo, a luta de classes como a verdadeira geradora de desigualdades sociais e históricas?

De repente, o amor aos empobrecidos vitimados pela crueldade do capitalismo, foi transferido para o amor a segmentos humanos distintos em suas lutas setorizadas, bastando para isso a adesão comovida de quem não precisa mais estudar sobre sociedade e sistemas políticos, para entender a dinâmica deste mundo.

Luta que fragmenta. Que parece bastar em si mesma. Mas na verdade, tem sido fomentada e alinhada aos interesses do mais sagaz sistema que a contemporaneidade enfrenta sem preparo, sem tônus vital, sem formação política adequada: liberalismo identitário, o coveiro da luta de classes.

Obviamente estamos em análises constantes deste fenômeno, e sabemos que muitos podem estar lucrando com ele, afinal, é um tentáculo do capitalismo, sistema que induz ao ganho sob qualquer circunstância. Mas nossa reflexão não busca rastrear lucros microscópicos de última hora, o objetivo é manter a seriedade do pensamento crítico e libertário.

Pois nada se tornou mais fácil do que criticar o capitalismo arcaico e suas versões extremistas. Difícil e até perigoso hoje é criticar o liberalismo lacrador, que substituiu a guilhotina e a emboscada pelo cancelamento, isolando e silenciando pessoas abertamente.

Sem intenção de esgotar essa análise, partilhamos este pensar na compreensão de que a lacração no Espiritismo não é um elemento progressista, como alguns insistem. É apenas liberalismo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

TRÍPLICE ASPECTO: "O TRIÂNGULO DE EMMANUEL"

                Um dos primeiros conceitos que o profitente à fé espírita aprende é o tríplice aspecto do Espiritismo – ciência, filosofia e religião.             Esse conceito não se irá encontrar em nenhuma obra da codificação espírita. O conceito, na realidade, foi ditado pelo Espírito Emannuel, psicografia de Francisco C. Xavier e está na obra Fonte de Paz, em uma mensagem intitulada Sublime Triângulo, que assim se inicia:

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

“EU VI A CARA DA MORTE!”

      Por Jerri Almeida Em 1972, quando ingressou na faculdade de medicina, o Dr. Raymond   A.   Moody Jr., já havia coletado um número significativo de relatos de pessoas que estiveram entre a fronteira da vida com a morte. Essas experiências – cerca de 150 casos – coletadas e investigadas pelo Dr. Moody, deram origem à denominação E.Q.M., ou Experiências de Quase Morte, cujos relatos foram catalogados em três situações distintas:   1) pessoas que foram ressuscitada depois de terem sido declaradas ou consideradas mortas pelos seus médicos; 2) pessoas que, no decorrer de acidentes ou doenças ou ferimentos graves, estiveram muito próximas da morte; 3)   pessoas que, enquanto morriam, contaram a outras pessoas que estavam presentes o conteúdo de suas experiências naquele momento.

SOCIALISMO E ESPIRITISMO: Uma revista espírita

“O homem é livre na medida em que coloca seus atos em harmonia com as leis universais. Para reinar a ordem social, o Espiritismo, o Socialismo e o Cristianismo devem dar-se nas mãos; do Espiritismo pode nascer o Socialismo idealista.” ( Arthur Conan Doyle) Allan Kardec ao elaborar os princípios da unidade tinha em mente que os espíritas fossem capazes de tecer uma teia social espírita , de base morfológica e que daria suporte doutrinário para as Instituições operarem as transformações necessárias ao homem. A unidade de princípios calcada na filosofia social espírita daria a liga necessária à elasticidade e resistência aos laços que devem unir os espíritas no seio dos ideais do socialismo-cristão. A opção por um “espiritismo religioso” fundado pelo roustainguismo de Bezerra Menezes, através da Federação Espírita Brasileira, e do ranço católico de Luiz de Olympio Telles de Menezes, na Bahia, sufocou no Brasil o vetor socialista-cristão da Doutrina Espírita. Telles, ao ...

EDUCAÇÃO; INVESTIMENTO FUNDAMENTAL AO PROGRESSO

    Por Doris Gandres   Quando se pensa em educação, naturalmente lembramos dos professores, professores de todo tipo e de todas as áreas, as exatas, as humanas e, particularmente, as de cunho moral. Pelos séculos adentro, milênios mesmo, e pelo futuro afora, são os professores os construtores dos alicerces necessários ao progresso da humanidade, em todos os sentidos. E não nos faltaram, nem faltam, professores... De leste a oeste, de norte a sul, sob sol ou chuva, frio ou calor, com ou sem condições adequadas, lá estão eles, incansáveis, obstinados, devotados.

PERVERSAS CARTAS “CONSOLADORAS” E A NECESSIDADE DE RESPONSABILIDADE À LUZ DA LEGISLAÇÃO BRASILEIRA

  Por Jorge Hessen No Brasil há um fenômeno perturbador: mães enlutadas, devastadas pela perda de filhos, sendo iludidas por supostas comunicações mediúnicas produzidas por pessoa que se apresenta  como “intermediária” do além, mas que, na realidade, utiliza informações obtidas em redes sociais e bancos de dados digitais para simular mensagens espirituais.             Trata-se de prática moralmente repugnante e juridicamente questionável , que pode ser compreendida como verdadeiro estelionato do luto , pois explora o sofrimento extremo para obtenção de fama, prestígio ou vantagens materiais. É verdade que a Constituição Federal brasileira assegura a liberdade religiosa (art. 5º, VI), garantindo o livre exercício dos cultos e das crenças. Mas tal garantia não pode ser confundida com autorização para fraude . A própria ordem constitucional estabelece que ninguém está acima da lei e que a liberdade termina quando começa o direito do outro,...

TEMOS FORÇA POLÍTICA ENQUANTO MULHERES ESPÍRITAS?

  Anália Franco - 1853-1919 Por Ana Cláudia Laurindo Quando Beauvoir lançou a célebre frase sobre não nascer mulher, mas tornar-se mulher, obviamente não se referia ao fato biológico, pois o nascimento corpóreo da mulher é na verdade, o primeiro passo para a modelagem comportamental que a sociedade machista/patriarcal elaborou. Deste modo, o sentido de se tornar mulher não é uma negação biológica, mas uma reafirmação do poder social que se constituiu dominante sobre este corpo, arrastando a uma determinação representativa dos vários papéis atribuídos ao gênero, de acordo com as convenções patriarcais, que sempre lucraram sobre este domínio.

PERDA LETAL DO DNA DA CIVILIDADE AMEAÇA O GLOBO

                                          Por Ana Cláúdia Laurindo Fenômenos climáticos estão gerando tempestades em partes do globo, e estas modificam paulatinamente algumas regiões da Terra. Cientistas observam, alertam. Animais migram e ameaçam o habitat de outras espécies. Plantas tóxicas são arrancadas e espalhadas para além do seu nicho conhecido. Novos comportamentos de cuidados são sugeridos ao ser humano. No entanto, a hecatombe cultural humana também espalha veneno e ameaça a espécie. O DNA da civilidade está sendo modificado.

DEUS¹

  No átimo do segundo em que Deus se revela, o coração escorrega no compasso saltando um tom acima de seu ritmo. Emociona-se o ser humano ao se saber seguro por Aquele que é maior e mais pleno. Entoa, então, um cântico de louvor e a oração musicada faz tremer a alma do crente que, sem muito esforço, sente Deus em si.