Pular para o conteúdo principal

O ESPIRITISMO FORTALECE A RELIGIÃO SEM SER RELIGIÃO. POR QUÊ?

 


Por Marcelo Henrique

“O Espiritismo é uma doutrina moral que fortalece os sentimentos religiosos em geral e se aplica a todas as religiões; ele é de todas, e não é de nenhuma em particular; por isso não diz a ninguém que a troque; deixa a cada um livre para adorar Deus à sua maneira e para observar as práticas que sua consciência lhe dita, pois Deus leva mais em conta a intenção do que o fato”.

Allan Kardec (“Revue Spirite”, fevereiro de 1862, “Resposta à mensagem dos espíritas lioneses por ocasião do Ano Novo”. Nossas marcações.).

Acordo, todos os dias, e ligo o meu telefone celular. Nele, comumente, estão mensagens dos amigos que cultivei nestes últimos anos. Muitos deles, logicamente, são espíritas, porque a atuação em atividades da Filosofia Espírita me pôs em contato com muitas pessoas, também declaradamente espíritas.

Delas recebo, então, mensagens, textos, artigos, links e tudo o mais, da mesma forma como, reciprocamente, também lhes envio sobretudo as “produções” do nosso “Espiritismo COM Kardec – ECK”.

Hoje, pela manhã, o meu querido amigo, atento e dedicado estudioso espírita, Sérgio Thiesen, me enviou esta frase que abre este singelo ensaio. Ela foi dita, não pelos Espíritos que trabalharam lado a lado com Kardec, mas pelo próprio Professor. Há que se dizer – para os que ainda não sabem ou para os que intentam diminuir a grandeza do responsável pela existência da Filosofia Espírita – que ele, Rivail, é o grande arquiteto, costureiro, engenheiro, filósofo ou jurista da Doutrina dos Espíritos.

Ainda que muitas informações, em suas 32 obras, venham por meio da mediunidade, em textos psicografados (à sua frente, na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, o primeiro centro espírita do mundo, que ele fundou, como enviadas por carta, dos mais diferentes lugares, entre 1857 e 1869), é literária e autoral a obra espírita como de Allan Kardec. E isto está manifestamente comprovado – além das infinitas perguntas contidas em várias de suas obras – como nos textos expressos em comentários, introduções, conclusões, notas explicativas e, mais destacadamente, em itens inteiros (como, exemplificativamente, o “Resumo Teórico sobre o Móvel das Ações Humanas”, no item 872, de “O livro dos Espíritos”.

A autoridade intelectual de Kardec como o legítimo “inventor” da Filosofia Espírita – contando com o “apoio” (participação) de inúmeras Inteligências Invisíveis, que lhes forneceram interessantes digressões sobre as questões espirituais – não pode ser negada nem minimizada.

Voltando ao texto introdutório deste artigo, contido na “Revue”, vemos toda a capacidade e a visão plural e ampliada de Kardec para entender que o Espiritismo poderia complementar as teorias já explicitadas pelas religiões em geral – ocidentais ou orientais – todas elas sustentadas em “revelações sobrenaturais” e, por isso, eivadas de tons místicos ou mitológicos, ao mesmo tempo em que se fundamentam em dogmas (verdades irreais, calcadas em “mistérios da fé”).

Nele, Rivail apresenta a Filosofia Espírita como o arcabouço teórico-prático que visa desconstituir elementos irracionais ou desprovidos de lógica racional, como, por exemplo, as teorias de Adão e Eva (Criação do elemento humano), da Trindade (Deus Pai, Filho e Espírito Santo), da virgindade e do corpo não-material de Jesus, da ressurreição (recomposição do corpo morto e inerte), entre muitas outras.

Mas, ao contrário do que possa, à primeira leitura, parecer ou significar, o Espiritismo não sepulta(rá) nenhuma religião sobre a face da Terra, nem será o que, ufanisticamente, muitos espíritas imaginam e desejam (“o futuro das – todas – religiões). Não. O próprio Kardec afirmou em alguns textos que os indivíduos poderiam conservar suas crenças (pessoais, familiares, sociais, tradicionais) e estudar (e se convencer) a realidade espiritual-espírita. É por isso que temos muito mais SIMPATIZANTES do que ADEPTOS (aqueles que se afirmam como) ESPÍRITAS.

O texto do discurso de Kardec – que pode ser lido, na íntegra, no fascículo de fevereiro da “Revue” – deve ser convenientemente entendido e estudado, inclusive por aqueles que insistem que o Espiritismo “seja uma religião” (ainda que filosófica, lembrando outro discurso de Rivail, por ocasião da “Sessão Anual Comemorativa dos Mortos” – “Revue Spirite, dezembro, 1868, que tem como subtítulo “O Espiritismo é uma religião”?).

O que mais vemos – por aí, por aqui (ECK) e alhures – são pessoas ainda APEGADAS à necessidade de TER uma religião, ou de substituir a sua religião tradicional (de formação pessoal, de influência familiar ou de amizade, de cultura, de ensino tradicional, ou a partir das buscas de cada um) pelo Espiritismo.

Não, meus amigos! Kardec JAMAIS pretendeu fazer com que EXISTISSE uma religião espírita nem que as pessoas deixassem sua identidade religiosa para assumir a frequência em ambientes espíritas – como se fossem igrejas ou templos. Embora, é claro, a grande maioria dos que vão aos centros espíritas encare as reuniões (públicas) como “missas” ou “cultos”. E isto não se deve a Kardec, mas ao sincretismo religioso presente na sociedade brasileira – desde o início do século XX – e, fortemente, AQUILO QUE AS PESSOAS VÃO BUSCAR nos centros.

Distante desta “atmosfera” e “realidade” convém retornarmos ao pensamento original (Legado de Kardec) para afastar o religiosismo exacerbado e a postura igrejeira (lembremos que Herculano Pires sempre combateu) vigentes em grupos e instituições espíritas. E, em assim procedendo, NÃO ESTAMOS DESVALORIZANDO ou AFASTANDO a RELIGIOSIDADE (ESPIRITUALIDADE) de ninguém. Pelo contrário. Como Kardec asseverou, cada qual que VIVA A SUA RELIGIOSIDADE (ESPIRITUALIDADE) de MODO ÍNTIMO, sem a necessidade de qualquer exteriorização (cultos, ritos, posição subalterna, adoração de Espíritos, Médiuns, Expositores ou Dirigentes, e o comportamento de entender e substituir as “partes” de uma “missa” ou “culto” pelas vigentes nas reuniões espíritas: abertura, prece, palestra, prece, passe…).

Kardec, veja-se o texto destacado, assume uma postura totalmente distinta deste “Espiritismo à brasileira”. Ele afirma que o Espiritismo fortalece, porque a sua teoria explica de modo NATURAL, LÓGICO e RACIONAL, os temas afetos à religiosidade. E interpreta os temas espirituais para além do místico e do mítico.

Então, o Espiritismo não foi nem nunca será religião, conforme Kardec. Ele o é apenas para os que (ainda) dependem da bengala religiosa… Mas, um dia, eles também irão se libertar de tais bengalas…

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

SOCIALISMO E ESPIRITISMO: Uma revista espírita

“O homem é livre na medida em que coloca seus atos em harmonia com as leis universais. Para reinar a ordem social, o Espiritismo, o Socialismo e o Cristianismo devem dar-se nas mãos; do Espiritismo pode nascer o Socialismo idealista.” ( Arthur Conan Doyle) Allan Kardec ao elaborar os princípios da unidade tinha em mente que os espíritas fossem capazes de tecer uma teia social espírita , de base morfológica e que daria suporte doutrinário para as Instituições operarem as transformações necessárias ao homem. A unidade de princípios calcada na filosofia social espírita daria a liga necessária à elasticidade e resistência aos laços que devem unir os espíritas no seio dos ideais do socialismo-cristão. A opção por um “espiritismo religioso” fundado pelo roustainguismo de Bezerra Menezes, através da Federação Espírita Brasileira, e do ranço católico de Luiz de Olympio Telles de Menezes, na Bahia, sufocou no Brasil o vetor socialista-cristão da Doutrina Espírita. Telles, ao ...

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

CONVICÇÃO OU COAÇÃO?

    Por Doris Gandres           Neste momento em que vivemos, presenciando cotidianamente um bombardeio de informações massacrantes, informações de todo tipo, de origens as mais variadas, inclusive de pessoas e grupos considerados pelo que chamam “massa” como “inquestionáveis”, arquitetadas para doutrinar mentes de tal maneira a seu modo, pensando (?) e agindo conforme seus interesses pessoais de poder e domínio, me pergunto onde se enterrou a liberdade de pensamento, de questionamento, de análise, como a própria criatura se permitiu tal abuso e se entregou?             Terá existido na humanidade, em algum momento, uma convicção espontânea, sincera, nascida em seu íntimo, sem nenhuma influência externa, apenas fruto de observação atenta e crítica? Talvez à época mais rudimentar do ser humano, ainda rude e bruto, somente preocupado em sobreviver nas precárias condições de seu tempo – o que...

MORFOGÊNESE DO REINO: O "EN MARCHE!" DE CHOURAQUI E O MANIFESTO DE MYERS

  Imagens de IA   Por Jorge Luiz       O VERBO EM MARCHA: A Exegese de Chouraqui e a Morfogênese do Reino Este capítulo abandona a ideia de Reino como "lugar" e o apresenta como "processo biológico e social".             A polêmica joanina de que o “Verbo se fez carne” – João 1:1-14 –, que faz parecer, implicitamente, que há uma identificação entre Deus e Jesus, mereceu uma atenção especial de Allan Kardec, embora só tenha se tornada pública após a sua desencarnação.             Tão controversa que, somente no IV século uma parte da Igreja a adotou. Vê-se que, a decisão foi dos homens e não uma revelação divina, já que não foi o próprio Jesus que a considerou, tão somente, João, o evangelista.             Carlos Pastorino também a analisou azeitando ainda mais as considerações de Kardec,...

PACTO ÁUREO?

Por  Jorge Hessen (*)   Outubro de 2014 - 65 anos do Pacto Áureo Os primórdios do “espiritismo” De conformidade com as fontes compulsadas, identificamos os primórdios do movimento “pré-espírita” brasileiro nas experiências dos partidários do mesmerismo (1). Dentre os seus adeptos, encontramos os médicos homeopatas Benoît Jules Mure (francês) e João Vicente Martins (português). Ambos chegaram ao Brasil em 1840. Havia mais apaixonados pela técnica de Mesmer, a exemplo de José Bonifácio de Andrada e Silva (o “Patriarca da Independência”), igualmente adepto à homeopatia, e Mariano José Pereira da Fonseca (Marquês de Maricá), este último publicou um livro de essência “pré-Codificação espírita, em 1844. O “Espírito” Humberto de Campos explanou em “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho” (*) que Benoît Jules Mure e João Vicente Martins “fariam da medicina homeopática verdadeiro apostolado. Muito antes da codificação espírita já conheciam os tran...

O CENTRO ESPÍRITA: O QUE PENSOU KARDEC

                         Representação gráfica de uma sessão na SPEE (créditos: CCDPE-ECM ) Por Jorge Luiz                  Em Salvador, 1865, foi fundado o primeiro centro espírita no Brasil, por Luis Olímpio Teles de Menezes, denominado Grupo Familiar do Espiritismo. Teles ficou conhecido pelas polêmicas travadas pelos representantes locais da Igreja Católica. Em 1866, Teles publicou O Espiritismo – Introdução ao estudo da doutrina espirítica, a partir de extratos de O Livro dos Espíritos. Somente sete anos depois (1873) irá surgir no Rio de Janeiro a segunda instituição espírita – O Grupo Confúcio, que foi o responsável pela primeira tradução das obras de Allan Kardec.

A RELIGIÃO DO CAPITAL: O ENRIQUECIMENTO DOS PASTORES E A ESTERILIDADE DA FÉ INSTITUCIONAL.

      Por Jorge Luiz   A “Teocracia do Capital”: A Ascensão das Organizações Religiosas no Brasil Moderno             Os números denunciam. Segundo o Censo de 2022, o Brasil tem mais estabelecimentos religiosos que superam a soma de hospitais e escolas. O número de organizações religiosas criadas por dia no Brasil varia de 17 a 25. Essas mesmas instituições movimentam mais de R$ 21 bilhões por ano, riqueza cujo retorno social institucionalizado é questionável. Esse montante, contudo, carece de um vetor social direto, uma vez que goza de imunidade tributária e não se reverte em investimentos em saúde ou educação. Tamanha pujança econômica permitiu, inclusive, que diversos pastores brasileiros figurassem na revista Forbes como detentores de fortunas bilionárias.             Em contrapartida a isso tudo, o Brasil vive uma anomia moral. Os escândalos de ...

GUERRA CULTURAL – COMO INVENTAR INIMIGOS E MANIPULAR PESSOAS

     Por Maurício Zanolini        O escritor George Orwell, pouco antes do final da II Guerra Mundial, criou uma fábula para contar a revolução bolchevique que implantou um comunismo na Rússia e seus desdobramentos. No livro A Revolução dos Bichos somos apresentados aos animais da Granja do Solar, que cansados da exploração dos humanos, fazem uma revolução proletária, que começa romântica, igualitária e fraterna, e vai ficando cada vez mais sombria, autoritária e violenta.

DESUMANIZAÇÃO NO MOVIMENTO ESPÍRITA¹

  O assunto é pesado, mas não podemos nos omitir em tecer algumas reflexões em torno de um episódio ocorrido na Federação Espírita do Estado de São Paulo (07/2017). Chequei a informação em diversas fontes, antes escrever esse texto. Resumindo, para quem não soube ou não leu nas redes sociais, um companheiro espírita, Claudio Arouca, ficou desaparecido mais de 48 horas e a última notícia que se tinha dele era de que ele estava na FEESP. A família, depois de algumas horas do desaparecimento, desesperada, procurou a instituição e, pelo que narraram, não foi acolhida, não lhe foram fornecidas as gravações das câmeras e ninguém procurou pelo desaparecido. Apenas 48 horas depois, receberam da própria FEESP um telefonema dizendo que o corpo tinha sido encontrado no banheiro. Mas nem assim, foram melhor tratados. Não puderam ter acesso imediato ao familiar que havia morrido de um enfarte, porque estava havendo uma festa na Federação.