Pular para o conteúdo principal

INFANTICÍDIO NO CLAUSTRO UTERINO

 


Por Américo Nunes D. Filho

Allan Kardec pergunta à Espiritualidade Superior: - Constitui crime a provocação do aborto, em qualquer período da gestação? A resposta, pronta e objetiva: - Há crime sempre que transgredis a lei de Deus. Uma mãe, ou quem quer que seja, cometerá crime sempre que tirar a vida a uma criança antes do seu nascimento, por isso que impede uma alma de passar pelas provas a que serviria de instrumento o corpo que se estava formando"(1).

Para a Doutrina Espírita, a vida é um dom sagrado. Em não existindo o acaso, há uma razão para que de um amontoado de células surja a vida embrionária e fetal. Há a presença de uma planta de construção, um molde transcendental, um ser espiritual, que ali está presente, impulsionado por um motivo justo.

Portanto, ninguém engravida casualmente. Há sempre uma programação minuciosa, um planejamento realizado na Dimensão Espiritual, mesmo que o ser reencarnante não vá vingar ou viva apenas algumas horas.

Algumas pessoas, vivenciando forte atração pelo método abortivo, dizem que o aborto é um “avanço”, desde que, sendo realizado, salva a vida de muitos seres humanos não desejados, que serão abandonados e doados para adoção. Trata-se de pensamento completamente materialista, acreditando ser melhor matar o bebê, dentro de sua mãe, do que deixá-lo vir ao mundo, evitando que passe por situações de possível desamparo e consequente doação.

Incrível que acreditam ser melhor prevenir, assassinando o ser, do que ter que remediar depois, em amparo e adoções. Alguns comentários pró-aborto, verdadeiramente, nos surpreendem pelo seu conteúdo, seguramente, patológico e desumano.

Aliás, não nos espantemos, pois que, infelizmente, a Terra, segundo a Doutrina Espírita, é “um planeta ainda inferior, denominado de “Mundo de Provas e Expiações”, apresentando-se como um local onde predominam a desgraça e a desventura, estimuladas por muitas criaturas destituídas de compaixão e discernimento.

Interrupção de gravidez por estupro

O Código Penal Brasileiro, por exemplo, permite a prática abortiva quando a gravidez é decorrente de um estupro. Contudo, não é justo que um bebê seja vitimado por um ato brutal como o aborto, em face de outra ocorrência igualmente descomedida. Em verdade, violência gerando violência.

A criança que vem ao mundo por meio de um estupro não tem nenhuma culpa do ato bárbaro. Quem deve ser punido é o criminoso que violentou, de acordo com o Código Penal em vigor, nunca o bebê em formação. Há necessidade do apoio moral, financeiro e psicológico às gestantes por estupro.

Em caso de não desejar o filho, de forma alguma matá-lo, através da interrupção da gravidez. Pode o bebê rejeitado ser entregue à adoção e receber os cuidados maternos de uma outra genitora, a qual, certamente, o receberá com muito carinho e amor.

O Nascituro anencéfalo

O Código Penal Brasileiro permite a prática abortiva também na anencefalia do feto.

É bom frisar que, a despeito do que muitas pessoas acreditem, o anencéfalo não apresenta a cavidade craniana vazia, plenamente destituída de massa encefálica, porquanto pode apresentar o tronco cerebral atuando, com algumas funções vitais garantidas, dispondo dos mesmos reflexos primitivos de qualquer nascituro, respondendo a estímulos auditivos, vestibulares e dolorosos, podendo mamar, se mover e respirar naturalmente.

O bebê acometido é portador do tronco encefálico, da região talâmica e até mesmo das porções do córtex cerebral, responsáveis pelo controle automático das batidas cardíacas e da capacidade de respirar por si próprio, ao nascer.

Essa ocorrência acontece de uma a cada mil gestações, sendo o diagnóstico realizado por ultrassonografia, na 12ª semana de vida intrauterina. Metade dos fetos morre antes do parto, metade em minutos ou horas depois. Raríssimos sobrevivem em semanas.

O fato de o neném, ao nascer, ter apenas vida vegetativa, não serve de pretexto para matá-lo no ventre materno. Assim fazendo, o ato se compara ao da eutanásia realizada em adultos ou crianças que se encontrem hospitalizadas, igualmente, em fase difícil de redução da satisfação de suas necessidades essenciais.

Não se justifica destruir uma vida, baseando-se no fato de ser alguém já condenado, sabendo que sua morte é inevitável. Um ser em formação, deficiente ou hígido, é independente, possui uma vida que tem de ser sempre respeitada e preservada. Sua morte tem que acontecer naturalmente. Sua destruição corresponde a um infanticídio.

Matar um neném desfigurado ou não, dentro do casulo materno, constitui moralmente o mesmo proceder ao de assassinar uma criança malformada ou não já crescida. A Doutrina Espírita ressalta que “se uma criança nasce com vida, está sempre predestinada a ter uma alma”. O anencéfalo não é sempre um natimorto. Conforme já dissemos acima, ele pode viver algumas horas e até dias.

De acordo com as transgressões e desvios das Leis Divinas, são maculadas as estruturas mais íntimas do psiquismo, acarretando desequilíbrios marcantes, necessitando reajustes e reparações. Daí o mecanismo reencarnatório oferecer ao homem a oportunidade de libertar-se da imposição penosa a que se deixou possuir, ensejando a bendita redenção espiritual.

Ensina o Espírito Emmanuel que “... faltas praticadas deixam azeda sucata de dores na consciência, pedindo reparação.... No túmulo, a alma, ainda vinculada ao crescimento evolutivo, entra na posse das alegrias e das dores que amontoou sobre a própria cabeça. No berço, acorda e retoma o arado da experiência, nos créditos que lhe cabe desenvolver e nos débitos que está compelida a resgatar” (3).

Em verdade, o acaso realmente não existe, conforme anuncia o Cristo Jesus: “Não cai um pardal em terra, sem o consentimento do Pai” (4). “Até os cabelos de vossa cabeça estão todos contados” (5).

Seja qual for a malformação diagnosticada, o que está em curso é uma alma, materializando-se na arena física, dando passos gigantescos, na estrada que a conduzirá à perfeição, descarregando suas mazelas armazenadas dentro de si, causa de dor na consciência, atormentada que está por atrozes remorsos.

Em sessão solene da Assembleia Legislativa do Estado de Goiás, o saudoso medianeiro Chico Xavier, assim, afirmou: “Quando perpetramos determinado delito e instalamos a culpa em nós, engendramos o caos adentro da própria alma e, regressando à Vida Maior, após a desencarnação, envolvidos na sombra do processo culposo, naturalmente padecemos em nós mesmos os resultados dos próprios atos infelizes” (6).

Preparando-se para encarnações frustras, muito importantes para seus espíritos imortais, em pleno processo expiatório, o ser espiritual pode restaurar os seus patrimônios espirituais, reabilitando-se diante de suas imortais consciências.

Importante destacar a oportunidade do início ou da continuação de um processo obsessivo enquadrando os espíritos da mãe e do filho abortado, desde que estavam ligados vibratoriamente em processo simbiótico, mesmo antes da gestação.

Interrupção da gravidez por risco de morte para a gestante

Para o Espiritismo, o procedimento abortivo só pode ser admitido em apenas uma hipótese, exatamente quando a mulher corre risco de vida no parto, o que cada vez mais se torna uma possibilidade remota, com o avançar da medicina obstétrica.

Cada ser é responsável pelos seus próprios passos. A responsabilidade é pessoal. O que parece barbaridade para o materialismo revela apenas uma verdade: tudo tem uma razão plausível e somos hoje o que construímos ontem e seremos amanhã o que fizermos agora.

 

Bibliografia

Kardec, Allan, O Livro dos Espíritos, questão 358;

Idem, questão 336;

Emmanuel, psicografia de Chico Xavier, Leis de Amor;

Evangelho segundo Mateus, capítulo 10: versículo 29;

Evangelho segundo Lucas, capítulo 12: versículo 7;

Chico Xavier em Goiânia, publicada pela GEEM Editora.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

CONVICÇÃO OU COAÇÃO?

    Por Doris Gandres           Neste momento em que vivemos, presenciando cotidianamente um bombardeio de informações massacrantes, informações de todo tipo, de origens as mais variadas, inclusive de pessoas e grupos considerados pelo que chamam “massa” como “inquestionáveis”, arquitetadas para doutrinar mentes de tal maneira a seu modo, pensando (?) e agindo conforme seus interesses pessoais de poder e domínio, me pergunto onde se enterrou a liberdade de pensamento, de questionamento, de análise, como a própria criatura se permitiu tal abuso e se entregou?             Terá existido na humanidade, em algum momento, uma convicção espontânea, sincera, nascida em seu íntimo, sem nenhuma influência externa, apenas fruto de observação atenta e crítica? Talvez à época mais rudimentar do ser humano, ainda rude e bruto, somente preocupado em sobreviver nas precárias condições de seu tempo – o que...

MORFOGÊNESE DO REINO: O "EN MARCHE!" DE CHOURAQUI E O MANIFESTO DE MYERS

  Imagens de IA   Por Jorge Luiz       O VERBO EM MARCHA: A Exegese de Chouraqui e a Morfogênese do Reino Este capítulo abandona a ideia de Reino como "lugar" e o apresenta como "processo biológico e social".             A polêmica joanina de que o “Verbo se fez carne” – João 1:1-14 –, que faz parecer, implicitamente, que há uma identificação entre Deus e Jesus, mereceu uma atenção especial de Allan Kardec, embora só tenha se tornada pública após a sua desencarnação.             Tão controversa que, somente no IV século uma parte da Igreja a adotou. Vê-se que, a decisão foi dos homens e não uma revelação divina, já que não foi o próprio Jesus que a considerou, tão somente, João, o evangelista.             Carlos Pastorino também a analisou azeitando ainda mais as considerações de Kardec,...

TELEOLOGIA BIOSSOCIAL: A SOCIOBIOLOGIA DO REINO E A JORNADA DO ESPÍRITO

    Bota de Orwell   Jorge Luiz          A Escala da Consciência na Matéria Social A “bota pisando num rosto humano” é a famosa metáfora de George Orwell para apresentar uma visão sombria, pessimista e de pesadelo sobre o futuro da humanidade. No mundo de Orwell, não haveria emoções, mas tão somente medo, raiva, triunfo e humilhação. É o mundo de hoje. Por trás desse aparente caos, há uma harmonia que governa e se realiza a partir da tríade universal — Deus, Espírito e Matéria — como bem ensinam os Espíritos. Abraçando o elemento material, é necessário ajuntar o Fluido Cósmico Universal (FCU), conforme O Livro dos Espíritos (L.E.), questão nº 27. Do FCU, o Espírito elabora um invólucro semimaterial, vaporoso e sutil, que serve de ligação entre ele e o corpo físico; extraído do fluido universal do ambiente, ele dá forma ao Espírito, permitindo sua ação, percepção de sensações e manifestação (L.E., Q. 94), denominado por Ka...

GUERRA CULTURAL – COMO INVENTAR INIMIGOS E MANIPULAR PESSOAS

     Por Maurício Zanolini        O escritor George Orwell, pouco antes do final da II Guerra Mundial, criou uma fábula para contar a revolução bolchevique que implantou um comunismo na Rússia e seus desdobramentos. No livro A Revolução dos Bichos somos apresentados aos animais da Granja do Solar, que cansados da exploração dos humanos, fazem uma revolução proletária, que começa romântica, igualitária e fraterna, e vai ficando cada vez mais sombria, autoritária e violenta.

O CENTRO ESPÍRITA: O QUE PENSOU KARDEC

                         Representação gráfica de uma sessão na SPEE (créditos: CCDPE-ECM ) Por Jorge Luiz                  Em Salvador, 1865, foi fundado o primeiro centro espírita no Brasil, por Luis Olímpio Teles de Menezes, denominado Grupo Familiar do Espiritismo. Teles ficou conhecido pelas polêmicas travadas pelos representantes locais da Igreja Católica. Em 1866, Teles publicou O Espiritismo – Introdução ao estudo da doutrina espirítica, a partir de extratos de O Livro dos Espíritos. Somente sete anos depois (1873) irá surgir no Rio de Janeiro a segunda instituição espírita – O Grupo Confúcio, que foi o responsável pela primeira tradução das obras de Allan Kardec.

O FUNDAMENTALISMO E A EXTREMA DIREITA¹

  Por Dora Incontri A breve entrevista com as senhoras apoiadoras de Bolsonaro no domingo, publicada e comentada por meio mundo, e que teve a incrível fala – “apoio Israel porque sou cristã” – diz muito sobre a extrema direita e o fundamentalismo religioso. Tal fundamentalismo – que é sinônimo de fanatismo – tem algumas características constantes, presentes em todas as religiões. O seu apego à letra e não ao espírito, de uma tradição espiritual, portanto, leitura literal, sem interpretação de texto, sem contextualização, acrítica. A escolha e até a adaptação dessa leitura ao que há de mais opressor, conservador e por isso destoante de uma visão aberta, acolhedora, fraterna, compassiva. O fundamentalismo é alimentado por líderes perversos, interesseiros e hipócritas e aceito e multiplicado por pessoas simplórias, emocionalmente vulneráreis, sem base cultural – como essas senhorinhas da citada entrevista. Oportunismo e perversidade de um lado, ingenuidade e ignorância de outro.

PACTO ÁUREO?

Por  Jorge Hessen (*)   Outubro de 2014 - 65 anos do Pacto Áureo Os primórdios do “espiritismo” De conformidade com as fontes compulsadas, identificamos os primórdios do movimento “pré-espírita” brasileiro nas experiências dos partidários do mesmerismo (1). Dentre os seus adeptos, encontramos os médicos homeopatas Benoît Jules Mure (francês) e João Vicente Martins (português). Ambos chegaram ao Brasil em 1840. Havia mais apaixonados pela técnica de Mesmer, a exemplo de José Bonifácio de Andrada e Silva (o “Patriarca da Independência”), igualmente adepto à homeopatia, e Mariano José Pereira da Fonseca (Marquês de Maricá), este último publicou um livro de essência “pré-Codificação espírita, em 1844. O “Espírito” Humberto de Campos explanou em “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho” (*) que Benoît Jules Mure e João Vicente Martins “fariam da medicina homeopática verdadeiro apostolado. Muito antes da codificação espírita já conheciam os tran...

CENTRO ESPÍRITA NÃO É E JAMAIS DEVERÁ SER PALANQUE DE PODER

                 Por Jorge Hessen                  A instituição espírita nasceu para ser escola de almas, oficina de trabalho no bem e  posto avançado de fraternidade . Sua finalidade não é a  conquista de posições de chefia ,  prestígio ou autoridade administrativa , mas a  transformação moral  dos frequentadores  à luz do Evangelho do Cristo.             Entretanto, não raras vezes, observa-se o surgimento de aborrecíveis disputas por cargos, movimentos de bastidores, articulações silenciosas ( maledicência ) e verdadeiras campanhas eleitorais antecipadas em torno de futuras diretorias e presidências. Trata-se de um fenômeno deplorável que revela o quanto ainda estamos distantes dos valores que supostamente abraçamos.