Pular para o conteúdo principal

TRAGÉDIAS NATURAIS - PREVISÍVEIS OU INEVITÁVEIS?

 


O mês de fevereiro foi marcado por mais um triste evento, entre tantos outros, considerado praticamente como um flagelo natural, originado pelo acúmulo de água no solo das encostas e também de outros locais, após vários dias de chuva culminando com uma prolongada e forte chuva.

A mídia em geral noticiou largamente, divulgando cenas e depoimentos os mais dolorosos, durante muitos dias... E o que se viu e se soube foi que, logo que possível, muitas pessoas daqueles locais tão drasticamente atingidos, inclusive sobreviventes, começaram a procura por seus familiares, por seus amigos, chamando e tentando afastar lama e pedras com as mãos, na esperança de salvar alguns deles, juntando-se às equipes de bombeiros que logo acorreram...

Contudo, tem-se visto acontecer tristes incidentes como esse há bastante tempo, em várias regiões do nosso país (e de outros países também). Regiões com locais de risco evidente, onde, no entanto, instalam-se centenas ou mais casas. Regiões nas quais técnicos e especialistas facilmente podem constatar a visível possibilidade de eventos drásticos da natureza.

E então, quando dos incidentes, ouve-se pessoas argumentando “mas porque essas criaturas construíram e se alojaram ali naqueles locais perigosos” – daí cabe uma reflexão: será que teriam outra opção acessível às suas possibilidades materiais e financeiras? Será que optam conscientemente por se expor a catástrofes muitas vezes fatais? Será que dispõem das necessárias informações, do claro conhecimento do risco a que estão sujeitos?

Há, porém, algo mais a ser analisado: uma vez instaladas essas moradias, que abrigam muitas vezes famílias numerosas em casas precárias, porque não foram tomadas as devidas e imprescindíveis medidas pelas autoridades competentes (ou incompetentes!) para a contenção de encostas, constantes dragagens de rios e riachos, revisão e limpeza de canais e dutos de escoamento e até remoção dessas famílias para locais seguros? Muito provavelmente técnicos especializados nesses problemas puderam perceber por meio de seus estudos e análises o grave risco desses locais – e, em alguns casos, até notificaram tais avaliações aos respectivos órgãos responsáveis pela tomada das necessárias medidas correspondentes.

No Livro dos Espíritos, o capítulo referente à Lei de Destruição, ao tratar dos Flagelos Destruidores, apresenta claramente observações para nossa reflexão. Na q.739 (1) Kardec pergunta se esses flagelos destruidores têm alguma utilidade do ponto de vista físico, malgrado os males que ocasionam; e a resposta é que “sim, eles modificam algumas vezes o estado de uma região, mas o bem que deles resulta não é geralmente sentido senão pelas gerações futuras”. Na q.740 (2), tem-se o esclarecimento de que servem também como provas morais e intelectuais.

Mas é na q.741 (3) que temos material para sérias reflexões, quando Kardec pergunta se é possível ao homem conjurar (prever, evitar, minorar) tais flagelos e a resposta nos atinge em cheio: “Sim, em parte, mas não como geralmente se pensa. Muitos flagelos são a consequência de sua própria imprevidência; à medida que adquire conhecimentos e experiências pode conjurá-los, quer dizer preveni-los, se souber pesquisar-lhes as causas”. Está ainda aí afirmado que entre esses flagelos há os que são de natureza geral e que estão na ordem natural das coisas – mas ainda que os males por eles causados são geralmente agravados pela indolência do homem!

Mais uma vez essa doutrina da razão, da lógica e do bom-senso nos alerta quanto à nossa responsabilidade, quanto ao fato de não podermos delegar tudo à lei de causa e efeito, não podermos atribuir tudo “aos desígnios de Deus”... Estamos encarnados e reencarnados neste mundo com faculdades e possibilidades para cumprir com nossas atribuições e atividades no sentido de promover o nosso progresso e o progresso intelectual, moral e social da coletividade em que estamos inseridos, bem como trabalhar para a melhoria das condições e situações do mundo físico – a fuga às nossas responsabilidades, a omissão, sejam umas e outra quais forem, é pesado compromisso consciencial, que se fará sentir mais cedo ou mais tarde, para então nos tornarmos verdadeiramente os “co-partícipes na obra da criação” (4).

 

(1 (1)   – (2) – (3) – (4) O Livro dos Espíritos, qs. 739, 740, 741 e 132.

 

Doris Gandres, atualmente residente em Teresópolis/RJ, é a nova colaboradora do Canteiro de Ideias. Desde 1997 em matérias publicadas em alguns jornais espíritas, tais como Jornal Espírita/SP, Correio Fraterno do ABC, Revista Internacional de Espiritismo, Correio Espírita/RJ e outros.

Seja bem-vinda, Doris!

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

FÉ E CONSCIÊNCIA DE CLASSE: UMA ANÁLISE SOCIOLÓGICA DA LUTA ENTRE OPRESSORES E OPRIMIDOS NOS EVANGELHOS.

    Por Jorge Luiz   Para Além do Chão da Fábrica: A Luta de Classes na Contemporaneidade Até hoje, a história de todas as sociedades é a história das lutas de classes. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor feudal e servo, mestre de corporação e aprendiz; em resumo, opressores e oprimidos, estiveram em constante antagonismo entre si, travando uma luta ininterrupta, ora aberta, ora oculta — uma guerra que terminou sempre ou com uma transformação revolucionária de toda a sociedade ou com a destruição das classes em luta. Assim, Karl Marx e Friedrich Engels iniciam o desenvolvimento das ideias que comporão o Manifesto do Partido Comunista (Marx & Engels, ebook). As classes determinadas por Marx – burguesia e proletariado – não surgem de um tratado sociológico, são consideradas a partir das relações da reprodução da forma da mercadoria, frente os antagonismos e as contradições entre os opressores e oprimidos, a partir da apropriação do excedente da produç...

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

SILÊNCIO, PODER E RESPONSABILIDADE MORAL: A JUSTIÇA ESPÍRITA E A ÉTICA DA PALAVRA NÃO DITA

  Por Wilson Garcia   Há silêncios que protegem. Há silêncios que ferem. E há silêncios que governam. No senso comum, o ditado “quem se cala consente” traduz uma expectativa moral básica: diante de uma interpelação legítima, o silêncio sugere concordância, incapacidade de resposta ou aceitação tácita. O direito moderno, por sua vez, introduziu uma correção necessária a essa leitura, ao reconhecer o silêncio como garantia individual — ninguém é obrigado a produzir provas contra si. Trata-se de um avanço civilizatório, pensado para proteger o indivíduo vulnerável frente ao poder punitivo do Estado. O problema começa quando esse direito — concebido para a assimetria frágil — é apropriado por indivíduos ou instituições fortes, que não se encontram em situação de coerção, mas de conforto simbólico. Nesse contexto, o silêncio deixa de ser defesa e passa a ser estratégia. Não responde, não esclarece, não corrige — apenas espera. E, ao esperar, produz efeitos.

EXPRESSÕES QUE DENOTAM CONTRASSENSO NA DENOMINAÇÃO DE INSTITUIÇÕES ESPÍRITAS

    Representação gráfica de uma sessão na SPEE (créditos: CCDPE-ECM )                                                     Por Jorge Hessen     No movimento espírita brasileiro, um elemento aparentemente periférico vem produzindo efeitos profundos na percepção pública da Doutrina Espírita. Trata-se da escolha dos nomes das instituições.  Longe de constituir mero detalhe administrativo ou expressão cultural inofensiva , a nomenclatura adotada comunica valores, orienta expectativas e, não raro,  induz a equívocos graves quanto à natureza do Espiritismo . À luz da codificação kardequiana, o nome de um centro espírita jamais é neutro; ele é, antes, a primeira  síntese doutrinária oferecida ao público . Desde sua origem, o Espiritismo foi definido por Allan Kardec como uma doutrina de tríplice aspecto...

TRÍPLICE ASPECTO: "O TRIÂNGULO DE EMMANUEL"

                Um dos primeiros conceitos que o profitente à fé espírita aprende é o tríplice aspecto do Espiritismo – ciência, filosofia e religião.             Esse conceito não se irá encontrar em nenhuma obra da codificação espírita. O conceito, na realidade, foi ditado pelo Espírito Emannuel, psicografia de Francisco C. Xavier e está na obra Fonte de Paz, em uma mensagem intitulada Sublime Triângulo, que assim se inicia:

O ESTUDO DA GLÂNDULA PINEAL NA OBRA MEDIÙNICA DE ANDRÉ LUIZ¹

Alvo de especulações filosóficas e considerada um “órgão sem função” pela Medicina até a década de 1960, a glândula pineal está presente – e com grande riqueza de detalhes – em seis dos treze livros da coleção A Vida no Mundo Espiritual(1), ditada pelo Espírito André Luiz e psicografada por Francisco Cândido Xavier. Dentre os livros, destaque para a obra Missionários da Luz, lançado em 1945, e que traz 16 páginas com informações sobre a glândula pineal que possibilitam correlações com o conhecimento científico, inclusive antecipando algumas descobertas do meio acadêmico. Tal conteúdo mereceu atenção dos pesquisadores Giancarlo Lucchetti, Jorge Cecílio Daher Júnior, Décio Iandoli Júnior, Juliane P. B. Gonçalves e Alessandra L. G. Lucchetti, autores do artigo científico Historical and cultural aspects of the pineal gland: comparison between the theories provided by Spiritism in the 1940s and the current scientific evidence (tradução: “Aspectos históricos e culturais da glândula ...

DEUS¹

  No átimo do segundo em que Deus se revela, o coração escorrega no compasso saltando um tom acima de seu ritmo. Emociona-se o ser humano ao se saber seguro por Aquele que é maior e mais pleno. Entoa, então, um cântico de louvor e a oração musicada faz tremer a alma do crente que, sem muito esforço, sente Deus em si.

EDUCAÇÃO; INVESTIMENTO FUNDAMENTAL AO PROGRESSO

    Por Doris Gandres   Quando se pensa em educação, naturalmente lembramos dos professores, professores de todo tipo e de todas as áreas, as exatas, as humanas e, particularmente, as de cunho moral. Pelos séculos adentro, milênios mesmo, e pelo futuro afora, são os professores os construtores dos alicerces necessários ao progresso da humanidade, em todos os sentidos. E não nos faltaram, nem faltam, professores... De leste a oeste, de norte a sul, sob sol ou chuva, frio ou calor, com ou sem condições adequadas, lá estão eles, incansáveis, obstinados, devotados.

COMPULSÃO SEXUAL E ESPIRITISMO

  Certamente, na quase totalidade dos distúrbios na área da sexualidade, a presença da espiritualidade refratária à luz está presente ativamente, participando como causa ou mesmo coadjuvante do processo. O Livro dos Espíritos, na questão 567, é bem claro, ensinando-nos que espíritos vulgares se imiscuem em nossos prazeres porquanto estão incessantemente ao nosso redor, tomando parte ativamente naquilo que fazemos, segundo a faixa vibratória na qual nos encontramos. Realmente, na compulsão sexual ou ninfomania, a atuação deletéria de seres espirituais não esclarecidos é atuante, apresentando-se como verdadeiros vampiros, sugando as energias vitais dos doentes. O excelso sistematizador da Doutrina Espírita, Allan Kardec, em A Gênese, capítulo 14, define a obsessão como "(...) a ação persistente que um mau espírito exerce sobre um indivíduo". Diz, igualmente, que "ela apresenta características muito diferentes, que vão desde a simples influência moral, sem sin...