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EM DEFESA DAS OBRAS DE ALLAN KARDEC E DE UM ESTUDO ESPÍRITA COERENTE

 


               De alguns anos para cá, o meio espírita tem sido tomado por um debate árido e silenciado por conveniências editoriais, que é a alteração dos textos de Allan Kardec observadas em algumas edições, especialmente da época da desencarnação do principal pesquisador dos fenômenos espíritas do século XIX.

            Primeiramente, Simone Privatto publicou uma pesquisa de peso trazendo uma denúncia, demonstrando que a obra A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo fora adulterada após a desencarnação de Kardec, com a adição de um original supostamente adulterado pelos novos dirigentes da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, sendo esta a 5ª edição. Posteriormente, Paulo Henrique de Figueiredo trouxe uma tradução a partir da 4ª edição, sendo esta considerada, por muitos, a original.

            Da mesma forma, Figueiredo trouxe outra denúncia de adulteração envolvendo a obra O Céu e o Inferno ou a Justiça Divina segundo o Espiritismo, apresentada no livro Nem Céu nem Inferno e complementada com uma nova tradução do mesmo autor a partir da 3ª edição, também sendo essa considerada original.

            Por outro lado, a Federação Espírita Brasileira e outros estudiosos da doutrina contestaram essas denúncias documentadas trazendo outras documentações, deixando claro que Kardec havia deixado documentos demonstrando que essas adulterações seriam alterações autorizadas ou, ao menos, delineadas como passíveis de modificação.

            O fato é que, desde a desencarnação de Kardec, houve uma dissidência dentro do movimento espírita, que levou a um debate que tem tornado árida a convivência entre os detentores dos direitos autorais das obras de Allan Kardec e prestígio – além de poder financeiro – e pesquisadores desvinculados dessas associações.

            Além disso, esse debate necessário tem sido silenciado pela Federação Espírita Brasileira e outros estudiosos, como se o episódio não tivesse deixado dúvidas sobre a legitimidade das edições que estejamos lendo. Se há problemas com traduções bíblicas, com pesquisadores debatendo em todo o mundo sobre o que seria original e coerente nas fontes utilizadas na composição de textos bíblicos e com a descoberta dos manuscritos de Nag Hammadi até hoje sem a devida popularização, podendo comprometer até mesmo as análises de Kardec em O Evangelho Segundo o Espiritismo, o que não dizer sobre obras cuja autenticidade é de mais fácil verificação, visto que ainda não se completaram nem dois séculos?

            Para completar, temos as cartas que estão sendo traduzidas pelo Projeto Allan Kardec, e que vêm sendo disponibilizadas aos poucos para que possamos compreender o pensamento desde antes de começar as pesquisas espíritas.

            A fim de estimular um debate saudável e oferecer aos estudiosos da doutrina um material de qualidade, seria importante que as editoras se debruçassem à criação de uma edição crítica das obras fundamentais.

            Para entendermos melhor, peguemos a definição de E-dicionário de Termos Literários:

 

         Publicação de um texto, de tradição ou génese complexas, segundo os métodos da crítica textual. A edição crítica de uma obra exige-se sobretudo para os textos cuja autenticidade seja discutível. Hoje em dia, tal problema quase deixou de se colocar, com a aplicação rigorosa dos direitos de autor e com os modernos processos de edição, que envolvem o respeito integral pela figura do autor-criador. Contudo, até há algumas décadas atrás, nem sempre o autor dispôs de todas as condições legais e técnicas para rever cuidadosamente a sua obra. Em muitos casos, os próprios autores deixaram a sua obra quase ou totalmente inédita (Cesário Verde, Fernando Pessoa, F. Kafka, por exemplo), o que obriga hoje a recorrer a um tipo de dição que seja cientificamente correcta, o mais próxima possível do estado original dos autógrafos. Uma edição crítica pode também ajudar a corrigir erros e deturpações introduzidos pelos editores à revelia dos próprios autores, como aconteceu, por exemplo, com a obra romanesca de Eça de Queirós. Nos textos antigos, as dificuldades aumentam por não existirem edições diversas do mesmo texto revisto pelo autor, pois a maior parte da bibliografia que constitui o legado clássico literário existe a partir de cópias que se acreditam ser autênticas tanto quanto possível. Uma edição crítica de textos antigos exige, naturalmente, apurados conhecimentos filológicos e históricos para que seja possível uma aproximação à versão original. 

         O texto editado criticamente pode ser um original (o autógrafo ou texto manuscrito ou digitado efectivamente por um autor), um arquétipo (o texto tal como que nos foi legado, conhecendo a sua identidade ou não — particularmente significativo nos textos clássicos e arcaicos, cujos arquétipos são tardios, entre o século I a.C. e o século V d.C.) ou um pré-arquétipo (um novo texto que precede no tempo o exemplar conhecido e datado até ao momento). Uma edição crítica segue diferentes fases, que incluem 1) a recolha de todos os elementos disponíveis pela chamada tradição diplomática, isto é, o conjunto de manuscritos ou impressos que permitiram a transmissão do texto editado (recensio); 2) comparação de todos esses elementos disponíveis (collatio); 3) localização e eliminação de todas as versões de que se comprova serem apenas cópias (eliminatio); 4) organização dos elementos válidos de forma a reconstituir o original (classificação); 5) correcção dos erros paleográficos e caligráficos que se encontram no texto (emendatio). Como o objectivo de uma edição crítica é a reprodução do texto original, é necessário, quando este não existir, reconstruir a árvore genealógica ou Stemma de todas as versões legítimas, para se conseguir aquilo que seria o arquétipo dos textos existentes.

 

            A edição crítica poderia suscitar novos debates; no entanto, não estaríamos mais lidando com situações áridas, pois teríamos todos os textos à mão e devidamente comparados.

            Outro ponto importante seria essas edições críticas acompanhadas também de seus originais em francês, possibilitando mais do que o esclarecimento de todas as dúvidas, mas também a possibilidade de percebermos se os tradutores não tiveram a possibilidade de “corrigir” Kardec – em diversas transmissões ao vivo, Sérgio Aleixo destacou como os tradutores tentaram trazer, por meio de substituições, o uso de vocábulos que seriam mais apropriados a textos espíritas em vez de serem fiéis a o que o autor disse, como substituição de “morte” por “desencarnação”, bem como colocação de impressões pessoais.

            Comecemos também pela edição de O Livro dos Espíritos: diversos palestrantes ignoram que estudamos a partir da 2ª edição, de 1860, que é bem diferente da edição de 1857. Pela internet, circula a versão de Canuto Abreu, que já trazia também o texto em francês, permitindo esclarecimento de dúvidas sobre a tradução e sobre informações que podemos considerar diferentes da 2ª edição.

            Sobre O Livro dos Médiuns e O Evangelho Segundo o Espiritismo, por enquanto, ainda não foram colocadas dúvidas nem denúncias de adulterações; no entanto, creio que as editoras poderiam disponibilizar esse estudo, levando em conta outro ponto delicado: quando faço comparações com edições bíblicas, noto diferenças de referências dos textos bíblicos, além de lidarmos com outro ponto delicado: o texto de Kardec está baseado na tradução bíblica francesa de Sacy, o que dificulta um estudo sério de todo o trabalho envolvendo a obra mais popular no Brasil.

            Por fim, outro ponto essencial para um estudo sério das obras de Kardec: a ciência avançou em diversos pontos. Existem diversas associações classistas, como de medicina, magistrados e físicos, que poderiam trazer aspectos complementando as novas descobertas científicas, permitindo acréscimo de notas, facilitando a vida dos estudiosos espíritas, especialmente quando não temos totais condições de distinguir fontes fidedignas e amadoras. Algumas sugestões: notas esclarecendo, por exemplo, que a geração espontânea é uma teoria não mais aceita pela comunidade científica, sendo atualmente considerada a mais plausível a hipótese de Oparin e Haldane; as novas descobertas astronômicas, bem como as teorias sobre a origem do universo, que diferem dos textos colocados em O Livro dos Espíritos e A Gênese; os estudos acadêmicos envolvendo o Jesus Histórico, como as obras de André Chevitarese, Lair Amaro e Juliana Cavalcanti, entre outros, especialmente em publicações como a Revista Jesus Histórico e a editora Kliné; por fim, como podemos encarar atualmente a ideia do Fluido Cósmico Universal, costumeiramente ridicularizada por físicos, mas ainda ensinadas sem a devida contextualização, além do racismo, proveniente do contexto científico do século XIX, e que vem dificultando um diálogo saudável com o movimento negro na atualidade.

            Chama a atenção também o silêncio que existe de pontos em que Kardec modificou ao longo da publicação das obras fundamentais, como o assunto possessão. Em O Livro dos Espíritos (2ª parte, Capítulo IX, itens 473 a 480) e O Livro dos Médiuns (2ª parte, Capítulo XXIII, item 241), Kardec é categórico em dizer que esse fenômeno não existia; no entanto, em A Gênese (2ª parte, Capítulo XIV, itens 45 a 49), ele não somente diz que existe como traz aspectos de diferentes formas de possessão. Uma mera nota de editora ajudaria o estudioso a pesquisar melhor esse tema, evitando equívocos doutrinários e debates áridos, como um com o qual me deparei exatamente porque esse ponto havia passado despercebido por um colega de estudos. Nesse ponto, ressalte-se a importância do sítio Kardecpédia, que tem permitido, inclusive, perceber a origem de diversos textos publicados na Revista Espírita antes de serem incorporados aos livros.

            Em vez de guerra de egos transformada em fogueira de vaidades, precisamos de estudos coerentes para entendermos melhor a obra de Kardec e permitir que possamos ter acesso de forma adequada ao grande trabalho do nosso pesquisador-mor: Hippolyte Léon Denizard Rivail, dando continuidade a esse trabalho de peso e mostrando que somos coerentes com a proposta de estudos por ele mesmo delineada.

 

Referência

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE MAGISTRADOS ESPÍRITAS. Disponível em <https://abrame.org.br/>. Acessado em 15 ago. 2021.

 

ASSOCIAÇÃO DE FÍSICA E ESPIRITISMO. Disponível em <https://www.aferio.org/>. Acessado em 15 ago. 2021.

 

ASSOCIAÇÃO MÉDICO-ESPÍRITA DO BRASIL. Disponível em <https://amebrasil.org.br/>. Acessado em 15 ago. 2021

 

Bíblia de Jerusalém. 1ª edição. São Paulo: Paulus, 2002.

 

CEIA, Carlos. E-Dicionário de Termos Literários. Disponível em <https://edtl.fcsh.unl.pt/encyclopedia/edicao-critica/> Acessado em 15 ago. 2021.

 

FIGUEIREDO, Paulo Henrique & SAMPAIO, Lucas. Nem Céu Nem Inferno: as leis da alma segundo o Espiritismo. Guarulhos (SP): FEAL, 2020.

 

GOIDANICH, Simoni Privatto. O legado de Allan Kardec. São Paulo: USE, 2018.

 

KARDEC, Allan. A Gênese, os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo. 2ª edição. Guarulhos (SP): FEAL, 2018.

 

_____. O Céu e o Inferno ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo. Guarulhos (SP): FEAL, 2021.

 

KARDECPEDIA. Disponível em <https://kardecpedia.com/>. Acessado em 15 ago. 2021.

 

PROJETO ALLAN KARDEC. Disponível em <https://projetokardec.ufjf.br/>. Acessado em 15 ago. 2021.

 

EDITORA KLINÉ. Revista Jesus Histórico. Disponível em <https://klineeditora.com/revistajesushistorico/index.htm>. Acessado em 15 ago. 2021.

 

WIKIPEDIA. Hipótese de Oparin e Haldane. Disponível em <https://pt.wikipedia.org/wiki/Hipótese_de_Oparin_e_Haldane >. Acessado em 15 ago. 2021.

 

 

Comentários

  1. A questão do livro A Gênese me parece que já foi solucionada. O Carlos Seth, do CSI do Espiritismo conseguiu localizar o registro da 5ª edição feito pelo próprio Kardec antes da sua desencarnação. A edição só veio a público depois, mas ficou comprovado que as alterações foram mesmo feitas por ele. O que já estava bastante evidente pelo próprio teor das alterações, que em nada comprometia as ideias contidas no livro.

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