Pular para o conteúdo principal

VOSSA EXCELÊNCIA, A HIPOCRISIA







                         Maldita Geni! Bendita Geni! A canção “Geni e o Zepelim”,(ouça) composição de Chico Buarque, para a trilha sonora da peça “Ópera do Malandro”, musical de 1977/1978, é uma crítica à hipocrisia e ao poder no período do governo dos militares.  Geni, uma travesti que, na verdade, é a heroína injustiçada do enredo. É o refrão que revela o preconceito e a hipocrisia de toda a cidade com a heroína prostituída e apedrejada. “Joga pedra na Geni/Joga pedra na Geni/Ela é feita pra apanhar/Ela é boa de cuspir... Maldita Geni!.. Bendita Geni!”


O Brasil, a crise e a hipocrisia

                        O Estado brasileiro padece a pior crise da sua história. As instituições ditas democráticas, agonizam.  Especialistas afirmam que o Brasil está doente (violência, crime organizado, milícias, partidarização do crime organizado). Outros, que a sociedade é que está doente (apartheid social). Apontam a corrupção como o maior mal das instituições e da sociedade. Todas as afirmações são verdadeiras. Todavia, o epicentro dessa crise não é a corrupção. A corrupção é um tumor de maior gravidade que se expôs no contexto da crise. A hipocrisia é a causa de todas as mazelas brasileiras. A hipocrisia institucionalizou-se no Brasil, e o tornou um Estado doente e delinquente, basta que se olhe as notícias do cotidiano para se constatar. O “politicamente correto”, importado dos Estados Unidos, aliciou-se com o “jeitinho brasileiro” e foi confirmado pelo mundo virtual, camuflando o vício maior do ser humano: a hipocrisia. A sinceridade nesse contexto, choca e provoca intolerância moralista.

A hipocrisia

                        A palavra hipocrisia vem do grego hypokrinein, que designava, na antiga Grécia, os atores de teatro, pois durante as apresentações eles fingiam ser outras pessoas. E o que eles faziam no palco era uma "hipocrisia" (do grego hypokhrinesthai), que significava “fingimento”, ou seja, é o ato de forjar sentimentos, comportamentos e virtudes os quais o indivíduo não as possui.
                        A construção estética da obra de Chico Buarque é rica e dá a ideia do que seja uma sociedade hipócrita. Clama e apedreja Geni de acordo com as conveniências pessoais e coletivas. Isso é bem representado na canção, quando o clamor passa pelo comandante, prefeito, bispo, banqueiro e a cidade em si. A canção é atualíssima.
                        Por ter nascido no palco, a hipocrisia é discursiva, o que possibilitou encontrar terreno fértil nos segmentos político e religioso. A análise da crítica do discurso enxerga nisso as manipulações das massas, pelos políticos e líderes religiosos, e que se concentra também nas organizações midiáticas.

Jesus e a hipocrisia

                        A Geni de Chico Buarque é a Maria de Madalena de Jesus.
                       Como grande psicólogo da alma, Jesus empreendeu uma verdadeira cruzada contra a hipocrisia, o que não impediu de ser julgado e morto por tribunal de hipócritas.


  •     Jesus condena a hipocrisia dos Fariseus e dos Mestres da Lei (Mt, 23); 
  •     Jesus condena a sonegação do tributo a César (Mc, 12:15);
  •   Jesus condena o “verniz social”, no fermento dos fariseus (Lc, 12:4) 
  •   A caridade sem ostentação. A prática da Justiça (Mt, 6);
  •    A oração sem afetação. A oração (Mt, 5). O Espíritos Superiores seguem à mesma   visão de Jesus quando condenam a adoração exterior no Cap. II, Lei de Adoração, questão 654 de “O Livro dos Espíritos”.
  • Alertou-nos da principal categoria propensa à hipocrisia. Guardai-vos dos falsos profetas (Mt, 7:15)
  •  Ensinou-nos o autoconhecimento como forma de superar a hipocrisia. Tira a trave do teu olho e não enxergues o cisco no olho do irmão (Mt, 7:5).

Espiritismo e hipocrisia
                      
                       Allan Kardec, na questão nº 102 de “O Livro dos Espíritos”, dissertando sobre a Terceira Ordem – Espíritos Imperfeitos - da Escala Espírita, ordem de Espíritos vinculados à Terra, destaca que a hipocrisia é uma das suas principais características. Quando trata da Natureza das Penas e Gozos Futuros, no Livro IV, questão nº 977”a” de “O Livro dos Espíritos”, Kardec destaca as dores do Espírito desencarnado ao ver as suas atitudes hipócritas desmascaradas.
                       Mensagem psicográfica do Espírito Lammenais, pelo médium Sr. Didier Filho, inserida na Revista Espírita, outubro de 1860, assinala:

“Hipocrisia! Hipocrisia! Deusa poderosa, quantos tiranos procriaste? Quantos ídolos fizeste adorar? (...)
A hipocrisia, entendi bem, é o vício de vossa época: e quereis fazer-vos de grandes pela hipocrisia! Em nome da liberdade, vos engradeceis; em nome da moral, vos embruteceis; em nome da verdade, mentis.”
                      
                       O Espírito Lázaro, em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, cap. IX:6, ensina-nos a forma de se vencer a hipocrisia. Diz ele: “a benevolência para com o semelhante, fruto do amor ao próximo, produz a afabilidade e a doçura, que são a sua manifestação.” E arremata:

“Não basta que os lábios destilem leite e mel, pois se o coração nada tem com isso, trata-se de hipocrisia. Aquele cuja afabilidade e doçura não são fingidas, jamais se desmente. É o mesmo para o mundo ou na intimidade, e sabe que se podem enganar os homens pelas aparências, não podem enganar a Deus.” 
       
                       Constata-se, no entanto, que apesar de todos os ensinamentos recebidos desde a vinda do Meigo Galileu, a hipocrisia ainda é marcante nas relações humanas. Resiste de tal forma que se pode afirmar que já alcançou status de excelência no constructo moral da personalidade humana, atravancando o progresso individual e coletivo da Humanidade.
                       O que se percebe é que o brasileiro está desorientado, angustiado e perplexo, ante o seu futuro, tamanha é a crise de hipocrisia que avassala o nosso País.

                       Contudo, faça-se como Paulo (II Cor, 4:8):

“Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados.”

REFERÊNCIAS

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o Espiritismo. São Paulo: LAKE, 2004.
___________. O livro dos espíritos. São Paulo: LAKE, 2004.
____________. Revista espírita. São Paulo: Edicel, outubro de 1860.

Comentários

  1. Os textos produzidos pelo autor são sempre ricos e fundamentados e ampla pesquisa. Parabéns.

    ResponderExcluir
  2. Hoje(6/8/2017) estou completando 65 anos que habito neste quadrante dos muitos mundos que sabemos existir. Recebo, graças a Deus, muita energia e inspiração, como as emanadas no artigo acima que ora comento. Vi e vejo nos dias atuais muita hipocrisia e vaidade, irmãs gêmeas da perdição, qualidade que matam o espírito e fazem brotar a matéria.
    A todos os hipócritas que pulverizam o nosso rico-pobre Brasil eu, sem hipocrisia, indago:
    Aonde vão com tanta perseguição, inveja, ódio e tanto dinheiro? Será que estão como Satanás e querem possuir todos os reinos da terra? Que fiquem com eles e nós neste Canteiro ficamos com a nossa ideia de que só o amor constrói e que a paz e a energia positiva vindas de Deus valem bem mais do que a fortuna de Satanás e de muitos Reis de ontem e de Hoje e dos bens que acumulam aqueles que assaltam os cofres públicos pelo mundo afora.
    Parabéns pelo artigo!

    Toni Ferreira,
    Belém-PA - BRASIL

    ResponderExcluir
  3. ERRATA: Em nosso comentário anterior ONDE ESTÁ ESCRITO hipocrisia e vaidade, irmãs gêmeas da perdição, qualidade que matam o espírito e fazem brotar a matéria. LEIA-SE:
    ....hipocrisia e vaidade, irmãs gêmeas da perdição "qualidades" que matam o espírito e fazem brotar a matéria.

    Toni Ferreira,
    Belém-PA - BRASIL

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Toni!
      Agradecemos sempre a sua valiosa participação, tanto neste espaço, como no programa Antena Espírita.
      Navegar é preciso, como dizia o poeta, mas navegar contra a hipocrisia é duro. Nesses dias, então, tá brabo. Mas o amor vencerá, já sentimos o seu aroma e é o que nos fortalece na esperança.

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

A INVERSÃO DO QUERIGMA: BOLSONARISMO E NEOPENTECOSTALISMO COMO ANTÍTESES SOCIOPOLÍTICAS DO JESUS HISTÓRICO

    Por Jorge Luiz              O Escândalo do Banco Master como sintoma da inversão.             Em outro momento defini a relação entre o status político chamando eufemisticamente de extrema-direita, simbolizada aqui como bolsonarismo e o neopentecostalismo, como uma “simbiose promíscua”. O escândalo do Banco Master, oferece uma nova definição, resultante dessa simbiose, que agora defino-a como “escândalo ontológico” , por não se constituir em um mero desvio ético de indivíduos isolados. Para alguns, como Glair Arruda, essa simbiose pode ser interpretada como cristofascismo, fenômeno que não é novo, mas ganhou proeminência nos anos de recrudescimento de uma ideologia de extrema direita especialmente nos Estados Unidos e Brasil (Passos, 2025). A definição de Arruda, ela mesma reforça a conceituação, ao admitir que o líder que se autoproclama como o salvador da pát...

VISÕES NO LEITO DE MORTE¹

Especialista no tratamento de traumas e processo de superação, Dr Julio Peres, analisa as experiências no final da vida e o impacto das visões espirituais ao enfermo e sua família, assim como para os profissionais da saúde que atuam em cuidados paliativos. De acordo com Dr. Júlio Peres, pesquisas recentes demonstram que um grande número de pessoas de distintas culturas têm relatado experiências no final da vida – originalmente chamadas na literatura por end-of-life experiences – sob a forma de visões no leito de morte, sugestivas da existência espiritual. Esta linha de pesquisa tem trazido contribuições que interessam diretamente aos profissionais que atuam com cuidados paliativos e mais especificamente, aqueles que desenvolveram a Síndrome de Burnout decorrente do esgotamento, angústia e incapacidade perante a falta de recursos para lidar com as sucessivas mortes de seus pacientes.

DEÍSMO OU ATEÍSMO?

                      Entre as muitas escolas do pensamento algumas há que buscam discutir questões, cujas comprovações estão muito longe de ser determinadas pela Matemática ou qualquer ciência exata. Apesar dos esforços para tornar o debate enriquecido pelas equações da Física Moderna, tais temas haverão de trazer a polêmica para o campo de uma filosofia opinativa ou de viés religioso. Assim é quando se trata da discussão quanto a existência de Deus.

CORRIDA DESABALADA POR MAIS POSSUIR

  Por Orson P. Carrara                O significado da palavra desabalada , entre outros, é: o que parece não ter freios ou limites , ou o que se mostra excessivo e mesmo o que é desmedido, como uma paixão gigantesca, desenfreada, indicando falta de moderação e reflexão . Daí adjetivar a palavra corrida .             E referida corrida não fica restrita apenas ao mais possuir , pode ser ampliada ou enquadrada também para ser mais reconhecido, ser mais famoso, por mais aparecer, por ser mais destacado socialmente, mais seguido ou curtido , como se diria na linguagem das redes sociais, atualmente.

AFINAL, QUANDO O ESPIRITISMO SE TORNOU RELIGIÃO? UMA CONVERSA FRANCA SOBRE CULTURA, PODER E TRANSFORMAÇÃO NO ESPIRITISMO BRASILEIRO

  Por Wilson Garcia A Dissertação Espiritismo transnacional: poder, habitus e mitopráxis na configuração religiosa brasileira em décadas de perseguições, defendida na PUC-SP por Adair Ribeiro Júnior em 2026, tenta responder a uma pergunta que há décadas tira o sono de quem estuda ou vive o espiritismo: como e por que o espiritismo se tornou uma religião no Brasil?               A resposta que o autor apresenta é fundamentada, bem documentada, mas não é definitiva. E é justamente aí que mora seu valor. Ela nos obriga a pensar. Quem conhece Allan Kardec sabe: o projeto original não era religioso. Era um tripé — ciência, filosofia e moral — apoiado na investigação metódica dos fenômenos espirituais. Observação, comparação, controle das comunicações: um verdadeiro laboratório do invisível.             Mas aí essa ideia atravessou o Atlântico, desembarcou ...

O ESTUDO DA GLÂNDULA PINEAL NA OBRA MEDIÙNICA DE ANDRÉ LUIZ¹

Alvo de especulações filosóficas e considerada um “órgão sem função” pela Medicina até a década de 1960, a glândula pineal está presente – e com grande riqueza de detalhes – em seis dos treze livros da coleção A Vida no Mundo Espiritual(1), ditada pelo Espírito André Luiz e psicografada por Francisco Cândido Xavier. Dentre os livros, destaque para a obra Missionários da Luz, lançado em 1945, e que traz 16 páginas com informações sobre a glândula pineal que possibilitam correlações com o conhecimento científico, inclusive antecipando algumas descobertas do meio acadêmico. Tal conteúdo mereceu atenção dos pesquisadores Giancarlo Lucchetti, Jorge Cecílio Daher Júnior, Décio Iandoli Júnior, Juliane P. B. Gonçalves e Alessandra L. G. Lucchetti, autores do artigo científico Historical and cultural aspects of the pineal gland: comparison between the theories provided by Spiritism in the 1940s and the current scientific evidence (tradução: “Aspectos históricos e culturais da glândula ...

OS ESPÍRITAS E OS GASPARETTOS

“Não tenho a menor pretensão de falar para quem não quer me ouvir. Não vou perder meu tempo. Não vou dar pérolas aos porcos.” (Zíbia Gaspareto) “Às vezes estamos tão separados, ao ponto de uma autoridade religiosa, de um outro culto dizer: “Os espíritas do Brasil conseguiram um prodígio:   conseguiram ser inimigos íntimos.” ¹ (Chico Xavier )                            Li com interesse a reportagem publicada na revista Isto É , de 30 de maio de 2013, sobre a matéria de capa intitulada “O Império Espírita de Zíbia Gasparetto”. (leia matéria na íntegra)             A começar pelo título inapropriado já que a entrevistada confessou não ter religião e autodenominou-se ex-espírita , a matéria trouxe poucas novidades dos eventos anteriores. Afora o movimento financeiro e ...

A HISTÓRIA DA ÁRVORE GENEROSA

                                                    Para os que acham a árvore masoquista Ontem, em nossa oficina de educação para a vida e para a morte, com o tema A Criança diante da Morte, com Franklin Santana Santos e eu, no Espaço Pampédia, houve uma discussão fecunda sobre um livro famoso e belo: A Árvore Generosa, de Shel Silverstein (Editora Cosac Naify). Bons livros infantis são assim: têm múltiplos alcances, significados, atingem de 8 a 80 anos, porque falam de coisas essenciais e profundas. Houve intensa discordância quanto à mensagem dessa história, sobre a qual já queria escrever há muito. Para situar o leitor que não leu (mas recomendo ler), repasso aqui a sinopse do livro: “’...