Pular para o conteúdo principal

FILOSOFIA DA FELICIDADE

 

 

 Por Jerri Almeida

 O que é efetivamente a felicidade? Como lográ-la? Tais questões vêm acompanhando o pensamento e o coração humano através dos tempos. No passado, levantou-se a filosofia para explicar o enigma da vida e da realidade humana. Pensadores diversos, principalmente na Grécia, apresentaram visões explicativas da felicidade humana, algumas impregnadas de negativismo, fruto natural dos conflitos pessoais daqueles que as formulavam. Outras, todavia, traziam perspectivas otimistas e enobrecedoras, visando a promoção da criatura humana.

A Doutrina Espírita, em sua ampla e dinâmica conceituação doutrinária, fazendo uma releitura da vida, através do prisma da imortalidade, oportuniza um novo olhar sobre os valores que envolvem a questão da felicidade. Nos propomos a uma breve reflexão sobre essa, sempre oportuna, temática.

O Hedonismo e a Doutrina Cínica

O termo hedonismo vem do grego (hedoné = prazer) e o seu sentido filosófico é aplicado às teorias que buscavam respostas para a seguinte indagação: qual a norma do bem viver? O epicurismo (Epicuro 341-270 a.C.), por exemplo, buscou responder essa pergunta afirmando que o “prazer” seria o móvel das ações humanas, isto é, a felicidade estaria consubstanciada no prazer “da carne e do ventre”.

O sentido inicial da concepção epicurista da felicidade, relacionada à satisfação sensível, não estava vinculado ao prazer desregrado e exclusivo. A felicidade estava na posse do bem satisfatório ou seja, no Ter, em sua justa medida. Assim, é bom o que agrada; é mau o que traz sofrimento. No entanto, deve-se fugir de determinados prazeres imediatos para se evitar sofrimentos consequentes no futuro.

Dessa forma, a razão passa a ser importante instrumento esclarecedor – em conjunto com as sensações – para a adoção de um comportamento cujas escolhas poderão conduzir à felicidade ou à desdita. A visão hedonista deturpou-se com o tempo. Hoje, o hedonismo é um termo quase pejorativo, ligado à busca do prazer na sensualidade e na erotização, como parte da cultura utilitarista contemporânea.

Não obstante, na Grécia, floresceu também a visão filosófica da felicidade vinculada à ideia de pobreza. Diógenes (413-323 a.C.) filósofo grego que viveu na cidade de Corinto, e em Atenas, sustentava que a felicidade se obtém pela satisfação das necessidades da maneira mais econômica e simples. Quem tem posses tem medo de perder o que tem, logo, o medo afasta a pessoa da felicidade. Quem não tem nada não tem medo da perda. Diógenes foi chamado de filósofo cínico e tornou-se uma figura peculiar, sendo-lhe atribuídas várias anedotas, dentre as quais, seu encontro com o grande conquistador macedônico Alexandre Magno. O grande conquistador se deteve ante o barril em que Diógenes morava e, fazendo-lhe sombra, perguntou-lhe o que desejava. Diógenes respondeu: “Que não me tires o que não me podes dar”. Referia-se à luz do sol.

Estoicismo e Cristianismo

Para Zenão de Cício (336-264 a.C.) a busca da felicidade consistia em uma proposta de se viver em harmonia com a natureza, aceitando-se corajosamente todas as suas leis e vicissitudes. A virtude é o bem supremo, e ela consiste na retidão. Assumir-se uma postura de equilíbrio perante o sofrimento é sinônimo de sabedoria.

Doenças, desprezo, infortúnios... para os estóicos deveriam ser vistos como “realidades indiferentes”. Diante de tais circunstâncias, assumir-se-ia uma postura de total apatia ou indiferença. De certa forma, percebemos a grande influência do estoicismo na cultura religiosa do Ocidente e do Oriente.

Na Bíblia, inúmeras passagens reportam-se a essa questão estóica vinculada à ideia de felicidade. Dentre elas, lemos em Tiago 5:11: “Eis que temos por bem-aventurados os que sofreram.” Em suas Bem-aventuranças, Jesus reporta-se àqueles que choram, e serão consolados. Cristo asseverou, entre outras coisas, que o seu reino não era desse mundo, portanto, disso concluiu-se que a felicidade, igualmente, não seria desse mundo “material”. Aqui entramos numa outra reflexão.

Muitos religiosos, a partir de uma interpretação simplista do pensamento cristão, passaram a estabelecer a inacessibilidade da felicidade na Terra. Aqui deveríamos somente sofrer para, na outra vida, sermos felizes. Ora, é bem verdade que Jesus não depositou a felicidade no mundo material, ou melhor, nas coisas materiais. Sempre que transferimos a nossa felicidade para as posses materiais, ela passa a ser frágil e inconstante. Entretanto, afirmar-se que a felicidade na Terra é uma utopia, parece-nos, no mínimo, um raciocínio equivocado. Mas então, de que “mundo” é essa felicidade? Sem dúvida, é do nosso “mundo interior”.

Porém, o pragmatismo Capitalista-Ocidental, dentro de uma racionalidade econômica, estabeleceu um modelo de felicidade alicerçado no valor-propriedade. As propagandas, poderosos instrumentos de mídia, criam necessidades e convencem os menos previdentes que, para ter sucesso, é necessário adquirir esse ou aquele produto. Originando, daí, a geração do vir-a-ser.

A Geração do vir-a-ser

Após a Segunda Guerra Mundial, floresceu a denominada sociedade do consumo, fruto do admirável processo de industrialização do pós-guerra. Nesse contexto, a criatura humana, seduzida pelas ambições decorrentes da posse, do poder e gozos materiais, identificou-se com uma filosofia existencialista que pregava o prazer imediato. O poder, a riqueza e a juventude, consubstanciariam elementos indispensáveis à felicidade. O vírus da ansiedade espalhou-se pela Terra.

Inserido nessa racionalidade, o ser humano passa a ser escravo do que não possui, na ânsia frenética do consumo e, portanto, da felicidade. A visão do vir-a-ser (feliz) quando: comprar um automóvel, uma casa, passar no vestibular, se formar na universidade, estiver trabalhando, se casar, comprar uma casa de praia, tiver filhos, se aposentar... torna-se verdadeira obsessão.

Diante da negativa em qualquer um desses intentos, o pessimismo espalha-se e, com ele, a infelicidade, paradoxal. Logo, a felicidade não pode estar na aflição decorrente do vir-a-ser ou do vir-a-ter.

Nova visão da felicidade

A felicidade esteve sempre dentro de nós. O problema é que sempre a procuramos fora. Daí a dificuldade em encontrá-la. Com o Espiritismo, a felicidade deixa de ser uma conquista “a posteriori” para ser – mesmo dentro da relatividade da vida na Terra – uma proposta de vida para esse momento. É uma proposta-desafio, dentro de uma visão psicológica profunda da própria vida.

Na concepção espírita, a felicidade está vinculada à arte de amar. E, “amar”, é aquela condição em que a “felicidade” de outra pessoa é essencial à nossa própria felicidade. O amor produtivo é o fator capaz de suplantar os sofrimentos, gerando felicidade. Daí, o porquê da assertiva de Jesus: “Faça ao outro tudo o que gostaria que o outro lhe fizesse”. Quando nos envolvemos com o Bem, fazemos florescer em nosso íntimo uma sensação de paz , por estarmos em harmonia com a vida cósmica.

A felicidade não é uma utopia, é uma opção. A Doutrina Espírita ao apresentar angulações otimistas sobre a vida, assevera que o homem é o ser co-criador de seu próprio destino, através das escolhas que realiza em seu cotidiano. Somos, não o culpado, mas o responsável por nossa felicidade ou desdita. É uma nova visão da realidade.

 

Do livro: Filosofia da Convivência, de Jerri Almeida. Editora AGE, Porto Alegre, 2a. ed. 2006.

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

TRÍPLICE ASPECTO: "O TRIÂNGULO DE EMMANUEL"

                Um dos primeiros conceitos que o profitente à fé espírita aprende é o tríplice aspecto do Espiritismo – ciência, filosofia e religião.             Esse conceito não se irá encontrar em nenhuma obra da codificação espírita. O conceito, na realidade, foi ditado pelo Espírito Emannuel, psicografia de Francisco C. Xavier e está na obra Fonte de Paz, em uma mensagem intitulada Sublime Triângulo, que assim se inicia:

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

SOCIALISMO E ESPIRITISMO: Uma revista espírita

“O homem é livre na medida em que coloca seus atos em harmonia com as leis universais. Para reinar a ordem social, o Espiritismo, o Socialismo e o Cristianismo devem dar-se nas mãos; do Espiritismo pode nascer o Socialismo idealista.” ( Arthur Conan Doyle) Allan Kardec ao elaborar os princípios da unidade tinha em mente que os espíritas fossem capazes de tecer uma teia social espírita , de base morfológica e que daria suporte doutrinário para as Instituições operarem as transformações necessárias ao homem. A unidade de princípios calcada na filosofia social espírita daria a liga necessária à elasticidade e resistência aos laços que devem unir os espíritas no seio dos ideais do socialismo-cristão. A opção por um “espiritismo religioso” fundado pelo roustainguismo de Bezerra Menezes, através da Federação Espírita Brasileira, e do ranço católico de Luiz de Olympio Telles de Menezes, na Bahia, sufocou no Brasil o vetor socialista-cristão da Doutrina Espírita. Telles, ao ...

EDUCAÇÃO; INVESTIMENTO FUNDAMENTAL AO PROGRESSO

    Por Doris Gandres   Quando se pensa em educação, naturalmente lembramos dos professores, professores de todo tipo e de todas as áreas, as exatas, as humanas e, particularmente, as de cunho moral. Pelos séculos adentro, milênios mesmo, e pelo futuro afora, são os professores os construtores dos alicerces necessários ao progresso da humanidade, em todos os sentidos. E não nos faltaram, nem faltam, professores... De leste a oeste, de norte a sul, sob sol ou chuva, frio ou calor, com ou sem condições adequadas, lá estão eles, incansáveis, obstinados, devotados.

A CAPITALIZAÇÃO DA MENTIRA: DO DESMONTE DA ECONOMIA AO RESGATE DA CONSCIÊNCIA

    Por Jorge Luiz   A Anatomia de um Crime Econômico             A mentira, quando institucionalizada, deixa de ser um desvio ético para se tornar uma patologia econômica e social. O exemplo mais candente da última década brasileira é a Operação Lava-Jato. Sob a égide de um messianismo jurídico, articulou-se uma narrativa que, sob o pretexto de combater a corrupção, operou um desmonte sistêmico do patrimônio nacional. Os dados do DIEESE e das universidades UFRJ e Uerj são inequívocos: o custo dessa ‘verdade fabricada’ foi a aniquilação de 4,4 milhões de empregos e uma retração de 3,6% no PIB entre 2014 e 2017. Aqui, a mentira não apenas feriu reputações, como a do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva; ela asfixiou a massa salarial em R$ 85,8 bilhões e subtraiu R$ 172,2 bilhões em investimentos.             Em Freakonomics, Levitt & Dubner consi...

TEMOS FORÇA POLÍTICA ENQUANTO MULHERES ESPÍRITAS?

  Anália Franco - 1853-1919 Por Ana Cláudia Laurindo Quando Beauvoir lançou a célebre frase sobre não nascer mulher, mas tornar-se mulher, obviamente não se referia ao fato biológico, pois o nascimento corpóreo da mulher é na verdade, o primeiro passo para a modelagem comportamental que a sociedade machista/patriarcal elaborou. Deste modo, o sentido de se tornar mulher não é uma negação biológica, mas uma reafirmação do poder social que se constituiu dominante sobre este corpo, arrastando a uma determinação representativa dos vários papéis atribuídos ao gênero, de acordo com as convenções patriarcais, que sempre lucraram sobre este domínio.

DEUS¹

  No átimo do segundo em que Deus se revela, o coração escorrega no compasso saltando um tom acima de seu ritmo. Emociona-se o ser humano ao se saber seguro por Aquele que é maior e mais pleno. Entoa, então, um cântico de louvor e a oração musicada faz tremer a alma do crente que, sem muito esforço, sente Deus em si.

“EU VI A CARA DA MORTE!”

      Por Jerri Almeida Em 1972, quando ingressou na faculdade de medicina, o Dr. Raymond   A.   Moody Jr., já havia coletado um número significativo de relatos de pessoas que estiveram entre a fronteira da vida com a morte. Essas experiências – cerca de 150 casos – coletadas e investigadas pelo Dr. Moody, deram origem à denominação E.Q.M., ou Experiências de Quase Morte, cujos relatos foram catalogados em três situações distintas:   1) pessoas que foram ressuscitada depois de terem sido declaradas ou consideradas mortas pelos seus médicos; 2) pessoas que, no decorrer de acidentes ou doenças ou ferimentos graves, estiveram muito próximas da morte; 3)   pessoas que, enquanto morriam, contaram a outras pessoas que estavam presentes o conteúdo de suas experiências naquele momento.

A MEDIOCRIDADE NOSSA DE CADA DIA

“Quando orientas a proa visionária em direção a uma estrela, e desdobras as asas para atingir tal excelsitude inacessível, ansioso de perfeição rebelde à mediocridade, levas em ti o impulso misterioso de um ideal. É áscua sagrada, capaz de te preparar para grandes ações. Cuida-a bem; se a deixares apagar, jamais ela se reacenderá. E se ela morrer em ti, ficarás inerte: fria bazófia humana.” (José Ingenieros)           As etapas da vida são como as estações do ano. O crepúsculo da vida é comparado ao inverno, a estação fria, como se os cabelos brancos representassem a neve fria sobre a terra. É momento oportuno para se fazer reflexões filosóficas e delas se tirar aprendizados para consolidação do processo de conhecimento de si mesmo e de compartilhamento das experiências. Não se deve temê-la. Depois, os ciclos se renovam e virão novamente outros ciclos de estações, através de novas existências no corpo, sempre começando ...