Pular para o conteúdo principal

DESROMANTIZANDO A REENCARNAÇÃO

 

Carolina Maria de Jesus - foto internet

A catadora de papel negra que vivia na favela agora é doutora Honoris Causa. Embora seja uma homenagem póstuma, a UFRJ reconheceu, com a concessão do título pelo Conselho Universitário (Consuni), pela luta e coragem de uma mulher estoica: Carolina Maria de Jesus. A aprovação da outorga da distinção foi unânime e por aclamação.

Filha de João Cândido e Dona Cota, ambos analfabetos, Carolina nasceu em 14 de março de 1914, em Sacramento, cidade próxima de Araxá e da região do Triângulo Mineiro. Aos sete anos ingressou no Colégio Allan Kardec, de orientação espírita, onde ficou até o 2º ano do ensino fundamental. Lá, ela abandonou o apelido de criança, “Bitita”, e aprendeu em pouco tempo a escrever e ler. Com o tempo, tomou gosto por ambos.

A honraria Honoris Causa, que significa “por causa de honra”, é concedida independentemente da instrução educacional a quem se destacou por suas virtudes, méritos ou atitudes. O agraciado passa a desfrutar dos mesmos privilégios daqueles que concluíram um doutorado acadêmico convencional.  No Brasil, cada instituição de ensino superior define pelo regimento interno quem receberá o título, tendo sido a UFRJ uma das primeiras instituições a concedê-lo, em 1921.

 

-x-x-

 

Iniciativa como essa é que eu defino como desromantização da reencarnação. É uma forma de se reconhecer as pesquisas desenvolvidas por Allan Kardec, que resultou na constituição da Doutrina Espírita e fundou a Era do Espírito.

Muito embora as potencialidades inatas de Carolina só viessem ser reconhecidas no pós-morte, não deixam de ser sinal daquilo que o reconhecimento da reencarnação, como lei biológica, promoverá no futuro.

As evidências científicas são patentes para que a reencarnação já seja aceita como lei natural, no contexto daquilo que Amit Goswami define como física da alma.

O Projeto Zero de Harward Gardner é dirigido ao aluno que ao compreender, possa pensar, agir e sentir a partir do que assimilou. Abraçando as individualidades do estudante, poder-se-á alcançar aprendizados significativos e contribuir para a formação de um cidadão preparado para os desafios do presente.

Os pesquisadores descobriram que, até a idade de quatro anos, quase todas as crianças se acham no nível de gênio em termos dos múltiplos esquemas de inteligência citados por Gardner – espacial, cinestético, musical, interpessoal, matemático, intrapessoal e linguístico. Por volta dos 20 anos, a percentagem de pessoas classificadas como gênio cai para 105 e, acima dessa idade, não vai além de 2%.

Os resultados não foram satisfatórios pela impossibilidade de uma tomada de consciência, que calasse A Voz do Julgamento, que somente pela pré-existência do ser favoreceria esse reconhecimento, naquilo que Platão advertiu: aprender é recordar.

Jesus tratou dessa Voz quando advertiu que ninguém é profeta em sua terra – Mt, XII:54-58.

Kardec, com a visão imortalista, trata desse assunto em A Gênese, ampliando essa visão de Jesus:

 

“Tal tem sido e tal será a história da humanidade, enquanto os homens não compreenderem sua natureza espiritual e não houverem alargado seu horizonte moral; também este preconceito é próprio dos espíritos estreitos e vulgares, que tudo medem por sua própria personalidade.”

 

            Compreende-se que no contato da vida privada se vê, demasiado o homem material, que nada distingue do vulgar. E Kardec sentencia: “O homem corporal, que impressiona os sentidos, apaga quase o homem espiritual, que apenas impressiona o Espírito; de longe, apenas se percebem os brilhos do gênio; de perto, vê-se o repouso do Espírito.”

            O caso de Carolina é um perfeito exemplo desse preconceito a que Jesus se expressa no seu contexto social, em referência à sua individualidade, que ainda permanece e só desaparecerá com o reconhecimento da reencarnação como lei natural. Entretanto, sinais animadores como os de Carolina – mesmo pós-morte –, não deixam de ser importantes e não passaram ao largo na análise de Kardec. Leia-se:

 

“A posteridade é um juiz desinteressado que aprecia a obra do Espírito, aceita-a sem entusiasmo cego se ela for boa, rejeita-a sem ódio se ela for má, feita abstração da individualidade que a produziu.”

 

No movimento espírita brasileiro (MEB) as coisas não são muito diferentes, até podem ocorrer de forma mais aguda. A romantização da reencarnação se situa em quem e o que se foi em uma existência pretérita. A absurda questão da alma gêmea e os condicionantes da lei de causa em efeito são limitados ao contexto familiar. Claro que algumas dessas situações não deixam de ser pertinentes.

As realizações dos eventos públicos com palestrantes se constituem uma verdadeira apologia aos conceitos academicistas. A Voz do Julgamento é patente e poderosa no MEB.

Qualquer ideia lançada por alguém, seja escrita, falada, defendida, mesmo doutrinária, no círculo do seu conhecimento, por mais original que seja, não é aceita, pois se um médium ou escritor espírita não a defendeu, ela não tem validade.

Determinada casa espírita na região Sul do País realizava eventos doutrinários para o público recorrendo aos expositores locais, inclusive da própria casa. e tinha públicos recordes devido os preços serem acessíveis ao público em geral. Com o boom dos megaeventos espíritas no Brasil a casa começou a importar palestrantes médiuns ou de renome o que elevou o preço e afastou o público já fidelizado, passando a frequência ser muito abaixo do que era antes, uma redução em torno de 45%. Vê-se que trouxe-se a cultura do mundo para o movimento espírita, quando deve ser o contrário. A reencarnação foi negada pelos próprios espíritas e a divulgação espírita prejudicada. Tanto na cidade como na própria promotora dos eventos dispunha e dispõem de bons expositores.

Recentemente uma federativa estadual lançou curso para lideranças espíritas orientado para a temática de diversidade de gênero e a responsabilidade social na inclusão de pessoas com deficiência nas casas espíritas. Ora, a reencarnação não já explica isso? Elencava os doutos facilitadores e todas as suas capacidades academicistas. 

Em outra direção tem-se as associações de médicos, magistrados, psicólogos, delegados espíritas, que na maioria não frequenta os centros espíritas por um suposto baixo nível cultural .

Tudo isso faz lembrar Allan Kardec ao se vangloriar que na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas o príncipe se sentava ao lado do operário.

A realidade do Espírito, como um ser imortal, pré-existente, viajor no tempo na esteira das vidas sucessivas, submete a uma inversão radical a escala de valores da Civilização.

Allan Kardec coloca em sua flâmula de vida a tríade: Trabalho, Solidariedade e Tolerância.

A tolerância, segundo Comte-Sponville, é a renúncia de uma parte do seu poder, de sua força e de sua cólera... A tolerância só vale contra si mesmo, e a favor de outrem. Por essa e outras definições, até para o próprio Kardec, tolerância se configura, no entender do articulista, como a virtude da reencarnação.

Ora, há seres mais melindrosos do que o espírita? O melindre campeia todas as relações tanto institucionais como sociais no contexto espírita.

O Espírito Emmanuel, no capítulo 36 da obra O Espírito da Verdade, classifica-a como alergia moral, expressão de má vontade e que transpira incoerência. Ele demonstra que o espírita, agindo com o melindre, que é filho do orgulho, julga-se mais importante que o Espiritismo. Ele cataloga situações corriqueiras vivenciadas nas instituições espíritas.

Nessa ruptura civilizatória entre conservadores e progressistas no contexto espírita, é uma demonstração inequívoca do desconhecimento, da parte de alguns, do que sejam os condicionantes progressistas que a reencarnação conduz. A pauta civilizatória a qual está pendente nessa divisão, como LGBT, racismo, xenofobia, misoginia, necropolítica, nacionalismo e família, aprofunda-se no meio social.

É necessário se consolidar a cultura espírita sedimentada na imortalidade do Espírito e nas vidas sucessivas no contexto espírita e se assumir a condição de ser pensante; livre pensador como bem definiu Kardec. A partir da singularidade de cada ser, construirmos a unicidade do espírita consciente das suas responsabilidades no cenário brasileiro.

 

           

Referências:

CONTE-SPONVILLE, André. Pequeno tratado das grandes virtudes. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

GOSWAMI, Amit. A física da alma. São Paulo: ALEPH, 2005.

KARDEC, Allan. A gênese. São Paulo: LAKE, 2010.

SENGE; et al. Presença. São Paulo: Cultrix, 2007.

XAVIER, Francisco C. Espírito da verdade. Rio de Janeiro: FEB, 1961.

 

Site:

<https://vermelho.org.br/2021/02/26/carolina-maria-de-jesus-a-bitita-e-doutora/>.

 


Comentários

  1. Não sabia desses detalhes sobre a vida da Carolina de Jesus.

    De qualquer forma, realmente temos uma dificuldade com essa romantização da reencarnação por conta das histórias contadas por Chico, Divaldo, Yvonne, Zilda e outros médiuns, relatando alguns casos históricos - ainda que sobre algumas pairem dúvidas. É preciso entender o processo e a lei.

    ResponderExcluir
  2. Caro Filipe!
    A reencarnação provoca profundas transformações em todas as áreas do conhecimento humano. Veja que Ian Stevenson se dedicou a pesquisa sobre a reencarnação par promover a paz no mundo, obviamente, que essa paz é realizada no homem.Jorge Luiz

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

AS BETS E O JOGO DA VIDA

      Por Jorge Luiz                     A Encomenda da Esperança: A Captura do Imaginário             Muito recentemente, os símbolos da Pátria foram sequestrados por uma corrente partidária de extrema-direita. De repente, o imaginário do brasileiro foi dilacerado: o que era símbolo de pertencimento e brasilidade transmutou-se em sentimento de aversão por aqueles alinhados a ideologias progressistas. Com a camisa da Seleção Brasileira, o fenômeno não foi diferente. Esse episódio escancara algo fundamental: o imaginário é o campo onde se travam as disputas centrais da nossa época.             O imaginário, para Castoriadis (2012), não significa o fictício, o ilusório ou o especulativo, mas o elemento determinante — e não determinado — de novas formas e significações; uma criação autônoma que não se ...

A HISTÓRIA DE JERÔNIMO

  Por Jerri Almeida A história de Jerônimo é comovente. Nasceu no dia 1º de novembro de 1939 em Ituiutaba, Minas Gerais. Narra-se que sua infância foi a de uma criança normal. Frequentou escola até o início do ginasial antigo. Todavia, já na adolescência, começou a sentir os primeiros sinais de sua doença, através de dores nas articulações, especialmente nos joelhos e tornozelos, que passaram a inchar e, aos dezoitos anos, já andava com dificuldade.

QUANDO O ESPIRITISMO VIRA ARENA DE PRÁTICAS “DIFERENTONAS”

  Sala para realização de cirurgia espiritual no C.E.Casa de Oração Espírito de Luz Por Jorge Hessen Entre a codificação e a fantasia mediúnica, alguns parecem ter escolhido a segunda Há algo profundamente preocupante no movimento espírita brasileiro: a crescente transformação da mediunidade em laboratório de novidades. Cada grupo inventa sua fórmula, cada dirigente anuncia seu método, cada médium apresenta uma experiência particular, como se representasse a evolução da Doutrina. E, quando alguém pergunta onde está Kardec, responde-se com a palavra mágica: “caridade”. Não. Caridade não é salvo-conduto para a improvisação “diferentona”.

UM HOMEM, UMA HISTÓRIA RESIGNIFICANDO O VÍNCULO SOLIDÁRIO

  Objetivando transmitir uma mensagem de “alento” e “esperança” a pessoas em desespero, John Edwards, de 61 anos, um ex-dependente de drogas e ex-alcóolatra (sóbrio há mais de duas décadas) inexplicavelmente se voluntariou deitar em um caixão que foi fechado e enterrado no terreno de uma igreja de Belfast, na Irlanda do Norte. Obviamente o ataúde foi especialmente adaptado para que Edwards “sobrevivesse” por três dias (quando fosse desenterrado) e pudesse transmitir a experiência ao vivo pelas redes sociais. No passado Edwards enfrentou abuso sexual, viveu na rua, recebeu tratamentos para distúrbios mentais, sobreviveu a várias overdoses e “perdeu” mais de 20 amigos por conta de abuso de drogas, álcool e suicídios. Sobreviveu a dois cânceres e a um transplante de fígado após desenvolver hepatite C por causa de uma agulha contaminada.

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

É HORA DE ESPERANÇARMOS!

    Pé de mamão rompe concreto e brota em paredão de viaduto no DF (fonte g1)   Por Alexandre Júnior Precisamos realmente compreender o que significa este momento e o quanto é importante refletirmos sobre o resultado das urnas. Não é momento de desespero e sim de validarmos o esperançar! A História do Brasil é feita de invasão, colonização, escravização, exploração e morte. Seria ingenuidade nossa imaginarmos que este tipo de política não exerce influência na formação do nosso povo.

LOBISOMEM: MITO OU REALIDADE?

    Por Americo N. Domingos Filho   Na tradição oral, em âmbito mundial, há o relato fantástico de um ser que se converte em lobo, em noites de lua cheia, e, sedento de sangue, sai em busca de suas vítimas para sugá-las. Ao amanhecer, assume de novo as características de uma pessoa comum. Essa lenda revela um ser amaldiçoado, que se torna parte homem e parte lobo, produzindo muito temor, principalmente nas crianças e, igualmente, em muitos adultos, especialmente os moradores de áreas rurais.

SIMPLESMENTE JESUS¹

Esqueçamos as circunstâncias do nascimento, o período dos 03 aos 30 anos, as ações reconhecidas como milagres, a cruz, a morte, a ressurreição. Foquemos no homem que esteve entre nós há dois mil anos e continua motivo de discussões e retóricas tanto tempo depois. Quem é Jesus e o que representa em nossas vidas, ou melhor, na vida de cada um de nós, quando estamos na solidão testemunhada apenas pelo espelho? Longe do discurso que bradamos para que os outros nos escutem com aplausos, qual é de verdade a importância de Jesus no plano de nossas existências?         Definitivamente se esperamos encontrá-lo nos bancos ou no púlpito das igrejas, ainda delirantes quanto ao seu retorno em majestosa nuvem cercado de um séquito de anjos para nos proclamar filhos diletos de Deus; se julgamos que o fato de ter servido a agremiações religiosas tais ou quais nos confere assento a sua mesa de bodas; se aguardamos que as nossas doações de bens e gêneros exclusiv...

O ESPIRITISMO NECESSITA RETORNAR ÀS SUAS ORIGENS PRIMORDIAIS

  Após a desencarnação de Allan Kardec o Movimento Espírita francês e mundial sucumbiu, devido à imaturidade doutrinária de Pierre G. Leymarie. A ele foi incumbida a administração do espólio da família de Kardec, assumindo a obrigação de sustentar a propagação do Espiritismo, mas em vez disso mistificou a propaganda doutrinária, e para descrédito do Espiritismo teve que amargar uma cadeira por comprovadas fraudes veiculadas na Revista Espirita. Leymarie era um apaixonado praticante da Teosofia de Blavatsky e defendia as ridículas obras de J.B. Roustaing e para variar era deslumbrado pela maçonaria. Ora, com tal “curriculum vitae”, as suas atuações suscitaram o desfalecimento do Movimento Espírita mundial.