quinta-feira, 21 de maio de 2015

O PLANETA ESTÁ DENTRO DE NÓS¹




 Por André Trigueiro (*)



Somos feitos rigorosamente dos mesmos elementos que constituem o planeta. A palavra homem, de onde vem Humanidade, tem origem no latim húmus. A palavra Adão, que aparece simbolicamente no Velho Testamento como a primeira criatura humana, significa terra fértil em hebraico. Essa mesma terra – que empresta o nome ao planeta e à nossa espécie – se revela no mais rudimentar dos exames de sangue, quando descobrimos que por nossas veias transportamos minérios que jazem nas profundezas do solo. Ferro, zinco, cálcio, selênio, fósforo, manganês, potássio, magnésio e outros elementos são absolutamente fundamentais à nossa saúde e bem-estar. Se descuidamos da ingestão desses nutrientes – presentes em boa parte dos alimentos – nosso metabolismo fica exposto a diferentes gêneros de desequilíbrio e doenças.
O mesmo ocorre em relação à água. As primeiras estruturas microscópicas de vida do planeta apareceram nas águas salgadas e quentes dos mares primitivos. Também quente é o líquido que nos envolve durante todo o período de gestação no útero materno. O soro fisiológico – bem como o soro caseiro – salva vidas quando recompõe a tempo nossa necessidade deste precioso líquido. Por um capricho divino, a proporção de água no planeta (70%) é a mesma com que esse elemento compõe o nosso corpo físico. Precisamos ingerir pelo menos 2,5 litros de água por dia para assegurar o bom funcionamento do metabolismo, irrigando células, glândulas, órgãos, tecidos. Também precisamos de uma quantidade mínima de água no ar que respiramos. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), se a umidade relativa do ar oscilar entre 20% e 30%, deve-se considerar estado de atenção; entre 12% e 20%, é estado de alerta; abaixo de 12%, é estado de emergência. É absolutamente desagradável – e ameaça a saúde – repirar num ambiente com pouco vapor d’água misturado ao ar.

O elemento fogo se revela simbolicamente em diferentes fenômenos fundamentais à manutenção da vida. Vem do Sol a energia que sutenta todas as estruturas vitais do planeta, cujo núcleo é composto de uma grande massa de magma incandescente. O que se convencionou chamar de EFEITO ESTUFA é a capacidade de a atmosfera reter parte do calor irradiado pelo Sol. Trata-se de um fenômeno natural, que assegura a manutenção da temperatura média do globo na faixa de 15C. Não fosse possível reter esse calor através dos gases que compõem a atmosfera, a temperatura média do planeta seria de 23C negativos, reduzindo-se drasticamente a presença da vida na Terra. O aquecimento global é o agravamento do efeito estufa, causado principalmente pela queima progressiva de petróleo, carvão e gás, que gera inúmeros problemas à Humanidade por meio de mudanças climáticas. Por fim, somos animais de sangue quente graças ao trabalho ininterrupto de um poderoso músculo do tamanho de uma mão fechada, que irriga vida para todas as partes do corpo humano. O coração é a grande usina de calor do organismo, símbolo maior do amor e da nossa capacidade de doar, de nos entregar e de manifestar os mais nobres sentimentos.
O ar é o elemento mais urgente para nossa existência. Podemos passar vários dias sem ingerir alimentação sólida, um número menor de dias sem líquidos, mas apenas alguns poucos instantes sem ar. Na milenar tradição mística da Índia, o prana – ou força vital – é absorvido pela respiração. Numerosas práticas de meditação preconizam a necessidade de respiramos com consciência, entendendo a inspiração e a expiração como importante ferramenta de troca de energia com o meio que nos cerca. A respiração profunda regula o batimento cardíaco, harmoniza os centros de força (ou chacras) que acumulam e distribuem a energia vital, ajuda a clarear o raciocínio e apaziguar as emoções.
Considerando a importância estratégica de todos esses elementos para nossas vidas, é forçoso reconhecer que sem água potável, terra fértil, ar respirável e incidência adequada de luz e calor nosso projeto evolutivo encontra-se ameaçado.
As condições cada vez menos acolhedoras de nossa casa (oikos) tornam o ambiente hostil à vida humana por nossa própria imperícia, imprudência ou negligência. Sofremos as consequências dos estragos que determinamos ao meio que nos cerca porque, na verdade, o que está fora também está dentro. Não e mais possível separar a Humanidade do planeta. “O meio ambiente começa no meio da gente”.(1)
No capítulo X de A Gênese, Allan Kardec ratifica este princípio comum ao dizer que “são os mesmos elementos constitutivos dos seres orgânicos e inorgânicos, que os sabemos a formar incessantemente, em dadas circunstâncias, as pedras, as plantas e os frutos”.(2) O que vale para o corpo físico também vale para a substância que envolve o Espírito, como aparece explicado no primeiro capítulo de O Livro dos Espíritos. É o que na Doutrina se convencionou chamar de perispírito.

– De onde tira o Espírito o seu invólucro semimaterial?
– Do fluído universal de cada globo, razão por que não é idêntico em todos os mundos, Passando de um mundo a outro, o Espírito muda de envoltório, como mudais de roupa.
– Assim, quando os Espíritos que habitam mundos superiores vêm ao nosso meio, tomam um perispírito mais grosseiro?
– É necessário que o revistam da vossa matéria, já o dissemos.(3)

Esse fluído cósmico universal – matéria-prima de tudo o que existe – assume diferentes formas e texturas na exuberante rede de sistemas que se desdobram pelo Universo. Somos todos, essencialmente, feitos da mesma coisa. A compreensão dessa realidade poderá determinar o aparecimento de uma nova ética existencial, na qual nos reconheçamos como parte do Todo, e a razão pela qual o Universo existe.

(1) Frase do poeta e jornalista brasiliense Tetê Catalão.
(2) Kardec, Allan. A Gênese, capítulo X, ítem 15.
(3) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, questão 94.


(1) Frase do poeta e jornalista brasiliense Tetê Catalão.
(2) Kardec, Allan. A Gênese, capítulo X, ítem 15.
(3) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, questão 94.


(*) jornalista com pós-graduação em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ, criador e professor da disciplina “Jornalismo Ambiental” no curso de Comunicação Social da PUC/RJ, autor, além deste, do livro “Mundo Sustentável” – abrindo espaço na mídia para um planeta em transformação (Ed. Globo, 2005). Coordenador e um dos autores do livro “Meio Ambiente no Século 21″ (Ed. Sextante, 2003; em 5ª edição pela Ed. Autores Associados, 2008).

¹ Fonte: Espiritismo e Ecologia, André Trigueiro.


2 comentários:

  1. Somos feitos da mesma coisa.....grande esclarecimento!
    Isso nos serve de zelo, não temos condições de nos olharmos melhor do quê ninguém.

    Márcia.

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  2. Francisco Castro de Sousa24 de maio de 2015 09:50

    Excelente texto! Recomendo! Vale a pena gastar uns poucos minutos para sua leitura e divulgação! Parabéns Canteiro!

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