Pular para o conteúdo principal

A CARIDADE NA JUSTIÇA

 


  Por Doris Gandres

Santo Agostinho afirmava que “onde não há caridade não pode haver justiça”. Que grande e profunda afirmação, digna da nossa mais séria reflexão, sobretudo nos tempos atuais em que enxameiam os comportamentos severamente equivocados e negativos de um lado, e de outro, infestam as atitudes pretensamente capacitadas para julgar, determinar e sentenciar as criaturas envolvidas nesses eventos nefastos, provocadores de tanto sofrimento e assombro na grande maioria sujeita ao resultado desses procedimentos.

Atualmente se constata a cada dia mais um caso, ou vários, de desvio moral nas mais diversas atividades, nas instituições que deveriam primar por seus valores ético-morais, e entre pessoas que, há algum tempo atrás, julgávamos merecedoras do nosso respeito e, principalmente, confiança. As denúncias fazem aflorar os mais vergonhosos e tristes feitos, imorais e amorais, muitos deles ocorrendo desde longa data, em praticamente todas as áreas da atividade humana.

Contudo, é sempre necessário termos em mente que nada acontece sem um propósito; sem que, de alguma forma, todos nós tenhamos, ainda que por omissão, contribuído para isso. N’O Livro dos Espíritos, dentro do contexto da Lei de Progresso, na questão 783, os Espíritos responderam a Kardec que: “Há o progresso regular e lento que resulta da força das coisas; mas, quando um povo não avança bastante rápido, Deus lhe provoca de tempos em tempos um abalo físico ou moral que o transforma. ” E, ao que tudo indica, chegamos a esse ponto.

Em Obras Póstumas, há um estudo bastante aprofundado sobre a questão das expiações coletivas, as quais, no entanto, não excluem as nossas expiações individuais; que somos responsáveis, enquanto encarnados, por três situações: como indivíduo propriamente dito, ou seja, quanto às opções e escolhas pessoais; como membro de uma família e como cidadão, participante, seja como for, de um grupo, de uma coletividade, menor ou maior.

É ao longo das ações nessas três condições que construímos a nossa inserção nesta ou naquela situação futura. Lamentavelmente sabemos que, de um modo geral, não vimos realizando boas construções no decorrer do tempo...

O progresso é lei natural, nada o pode impedir; entretanto, muitas vezes podemos atrapalhar o seu bom andamento e, assim, nos colocarmos à mercê da “força das coisas” como bem designava Allan Kardec tais situações. Todavia, essa “força das coisas” é regida por uma lei maior, a Lei de Justiça, Amor e Caridade. Porque ai de nós se assim não fosse...

Penso que Santo Agostinho, ao fazer essa afirmativa da necessidade de se aplicar a caridade no julgamento, já conhecia essa lei divina da justiça com amor e caridade. Espírito do seu gabarito, que nos traz recomendações tão valiosas na q. 919 d’O Livro dos Espíritos, quanto ao método para nos conhecermos e melhor avaliar nossas atitudes cotidianas, certamente já possuía grandeza de alma suficiente para compreender o que afirmava.

São Luiz, n’O Livro dos Médiuns, Capítulo XXIV, esclarece que “para julgar os Espíritos, como para julgar os homens, é necessário antes saber julgar-se a si mesmo”. Por questões de contexto dentro do livro, São Luiz faz a distinção entre desencarnados e encarnados; todavia, tanto uns como outros, somos Espíritos, simplesmente em diferentes dimensões de vida, mas sujeitos às mesmas leis naturais.

Naturalmente compreendemos que isto não significa conivência e cumplicidade com os erros e desacertos cometidos de forma geral. O próprio São Luiz nos faz recomendações preciosas sobre isso no Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo X, itens 19, 20 e 21. É necessário, porém, sempre muito cuidado e inclusive respeito para com aquele sendo julgado. Quando se trata de uma intenção útil, a benefício do progresso de todos, ele ainda afirma que “é um dever que a caridade manda cumprir com todas as cautelas possíveis”.

Podemos inferir que, face às questões terrenas, a caridade na justiça significa observância criteriosa das leis, isenção de parcialidades e privilégios; extinção da impunidade, mas penalidades visando, sobretudo, o despertamento e a reeducação; casas de detenção que ofereçam condições adequadas ao refazimento do ser humano em resgate de suas faltas, assegurando, tanto quanto possível, sua reinserção na sociedade.


E não devemos, nós espíritas, esquecer a bandeira desfraldada pelo mestre lionês Allan Kardec, sob a qual todos os seres podem se abrigar: Fora da Caridade não há Salvação! Ainda n’O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo XI, item 15, o Espírito Elizabeth de França nos incentiva a orar pelo criminoso de todo tipo porque “é vosso próximo, como o melhor dos homens. Sua alma, transviada e revoltada, foi criada como a vossa, para se aperfeiçoar. Ajudai-o, pois, a sair do lamaçal, e orai por ele!” .

 

OBS – Para quem ainda não viu, sugiro assistir o DVD Os Últimos Passos de um Homem – a história de uma freira que acompanha os últimos dias de um criminoso condenado à pena de morte nos USA.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

DIVERSIDADE NÃO JUSTIFICA DESIGUALDADE

  Por Alexandre Júnior                A justiça não se estabelece por si só. É necessário que a façamos. Quando nos negamos a combater, debater, encarar, perceber e estudar as desigualdades sociais, menos estaremos aptos a produzir, de forma consciente e politicamente, ações de enfrentamento às injustiças, bem como posturas afirmativas de produção de igualdade e justiça social. Em que pese a insistência nefasta de toda uma estrutura social hegemônica, que, de forma opressora, transforma diversidade em desigualdade.

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

SOCIALISMO E ESPIRITISMO: Uma revista espírita

“O homem é livre na medida em que coloca seus atos em harmonia com as leis universais. Para reinar a ordem social, o Espiritismo, o Socialismo e o Cristianismo devem dar-se nas mãos; do Espiritismo pode nascer o Socialismo idealista.” ( Arthur Conan Doyle) Allan Kardec ao elaborar os princípios da unidade tinha em mente que os espíritas fossem capazes de tecer uma teia social espírita , de base morfológica e que daria suporte doutrinário para as Instituições operarem as transformações necessárias ao homem. A unidade de princípios calcada na filosofia social espírita daria a liga necessária à elasticidade e resistência aos laços que devem unir os espíritas no seio dos ideais do socialismo-cristão. A opção por um “espiritismo religioso” fundado pelo roustainguismo de Bezerra Menezes, através da Federação Espírita Brasileira, e do ranço católico de Luiz de Olympio Telles de Menezes, na Bahia, sufocou no Brasil o vetor socialista-cristão da Doutrina Espírita. Telles, ao ...

REFORMAR OU TRANSFORMAR? REFORMA ÍNTIMA OU TRANSFORMAÇÃO ESPIRITUAL?

        Por Marcelo Henrique   O conjunto de elementos que impregnam o conceito de “reforma íntima” repete muitos chavões de culturas e abordagens não espíritas, pertencentes a ideologias religiosas em que há a “obrigação” de seguir certas prescrições, sob pena de… É a cultura do temor, do medo e da culpa. *** Alguns conceitos são entronizados e se enraízam de tal modo em Filosofias que é difícil, depois, retirá-los ou entendê-los na sua real essência. No caso do Espiritismo, eles surgem a partir de alguma declaração – seja de um encarnado, médium ou dirigente, seja de um desencarnado – e vão ficando, ficando… Passam a ser retórica tradicional e, não raro, viram “figurinha fácil” no álbum das condutas humanas. Falemos, pois, de uma delas: a decantada reforma íntima. Onde surgiu? Quem foi o primeiro a mencionar? Em que contexto foi dito? Qual era o alcance? Que objetivos se tinha? Qual a relação deste conceito com o Espiritismo?

UMA PROSA COM DIVALDO

“E uns soldados o interrogaram também, dizendo: E nós que faremos? E ele lhes disse: A ninguém trateis mal nem defraudeis, e contentai-vos com o vosso soldo”. – (Lucas, 3:14). Ao longo dos nossos estudos evangélico-doutrinários, percebemos que a história do Cristianismo, bem como a do Espiritismo, são ricas de passagens significativas relacionadas a militares. E estes, mesmo empunhando uma arma como instrumento profissional, mantiveram, acima de tudo, a sua fé em Deus e confiança em Jesus, Modelo e Guia de todos os cristãos sinceros, independente das suas atribuições. Percebemos também que o militar espírita, longe de se enganar como sendo um privilegiado possuidor de poderes temporais, diferenciado das demais pessoas, estará sempre atento para com as suas responsabilidades respeitando, acima de tudo, as Superiores Leis da Vida, pelas quais se orienta. Retirando toda e qualquer pretensão e ostentação, respeitando os vultos conhecidos e desconhecidos da his...

OS ESPÍRITAS FAZEM PROSELITISMO?

  Por Francisco Castro (*) Se entendermos que fazer proselitismo é montar barracas em praça pública, fazer pessoas assinar fichinha, ou ter que fazer promessa de aceitar essa ou aquela religião? Por outro lado, se entendermos que fazer proselitismo significa fazer visitação porta a porta no sentido de convencer alguém, ou de fazer com que uma pessoa tenha que aceitar essa ou aquela religião? Ou, ainda, de dizer que essa ou aquela religião é a verdadeira, ou de que essa ou aquela religião está errada? Não. Não, os Espíritas não fazem proselitismo! Mas, se entendermos que fazer divulgação da existência da alma, da reencarnação, da comunicabilidade dos Espíritos, da Doutrina dos Espíritos, do Ensino Moral de Jesus e de que ele é modelo e guia da humanidade e não de certa parcela de uma nacionalidade ou de uma religião? A resposta é sim! Os Espíritas fazem proselitismo sim! Qual seria então a razão de termos essa grande quantidade de jornais e revistas espírita...

09.10 - O AUTO-DE-FÉ E A REENCARNAÇÃO DO BISPO DE BARCELONA¹ (REPOSTAGEM)

            Por Jorge Luiz     “Espíritas de todos os países! Não esqueçais esta data: 9 de outubro de 1861; será marcada nos fastos do Espiritismo. Que ela seja para vós um dia de festa, e não de luto, porque é a garantia de vosso próximo triunfo!”  (Allan Kardec)                    Cento e sessenta e quatro anos passados do Auto-de-Fé de Barcelona, um dos últimos atos do Santo Ofício, na Espanha.             O episódio culminou com a apreensão e queima de 300 volumes e brochuras sobre o Espiritismo - enviados por Allan Kardec ao livreiro Maurice Lachâtre - por ordem do bispo de Barcelona, D. Antonio Parlau y Termens, que assim sentenciou: “A Igreja católica é universal, e os livros, sendo contrários à fé católica, o governo não pode consentir que eles vão perverter a moral e a religião de outr...

POR UM MOVIMENTO ESPÍRITA SUBVERSIVO

 “A revolução foi proposta por Kardec, foi ensaiada por esses cientistas (Crookes, Bozzano, Aksakof, Richet, Rochas e outros) mas ainda não foi realizada na civilização ocidental – onde se enraíza – e não foi nem mesmo compreendida pelos espíritas.” (Dora Incontri, “Para Entender Allan Kardec.”) Jesus, no Sermão das Montanhas (representação)             É provável que o leitor esteja intrigado com o título do artigo, pelo uso da palavra subversivo. Não é de se estranhar, até por que é esse o propósito. Entretanto, a etimologia de subversivo, vem do latim ( sub =abaixo) e ( vertere =dar voltas) + ( ivo =efetividade, capacidade). De subverter = verter por baixo; executar atos visando à transformação ou derrubada da ordem estabelecida; revolucionário.             Se se estudar a semântica histórica ou diacrônica (que estuda as mud...

REFLEXÕES PARA O ANO QUE SE ANUNCIA...

  Sinta, chega o tempo de enxugar o pranto dos homens. Se fazendo irmão e estendendo a mão... Venha, já é hora de acender a chama da vida e fazer a Terra inteira feliz! (A Paz. Homenagem a Paulinho/Roupa Nova)   É bem comum, a cada final de ano, pensarmos sobre o ano que finda e projetarmos expectativas, sonhos e planos para o ano vindouro. Fazer isso é bom! Afinal, pensar sobre o que fizemos, avaliar o que houve de bom e o que precisa ser melhorado pode nos ajudar a depurar nossas ações, para tentarmos ser melhores e, consequentemente, fazer um ano melhor. Santo Agostinho nos ensinou esse exame de consciência. Toda noite, ele passava o dia a limpo, observando seus atos e pensando a melhor maneira de corrigir seus erros e chegar mais perto de Deus.

É ASSIM!

  Por Alexandre Júnior É assim que transborda! A música ecoa no litoral da alma, mansamente avança pelos recôncavos mais íntimos de nossos convexos, é assim que a alma treme, a sensibilidade pulula festejando o encontro do eu com a arte! É assim que conseguimos de alguma forma avançarmos vivendo, sentindo o efeito do tempo, que implacável, interroga todas as nossas certezas, nada esta estabelecido, não há mais convicções imortais, o tempo se encarrega de fazer ruir as mais concretas das arrogâncias.