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A FARSA DA HISTÓRIA NO CENTRO DO CAPITAL: "ONDE DORMIRÃO OS POBRES?"

  

Por Jorge Luiz

OS RECENTES EVENTOS NA VENEZUELA ANTECIPARAM A POSTAGEM DESTE ARTIGO, QUE JÁ ESTAVA CONCLUÍDO, MAS QUE AGORA SE TORNA AINDA MAIS NECESSÁRIO.

 

De Reagan a Leão XIV: A Batalha pelo Cristianismo de Libertação

Espero que Karl Marx esteja enganado quando afirmou que a história se repete “duas vezes” ao filósofo alemão Hegel, mas adicionou a sua própria conclusão sobre o caráter da repetição. A tragédia é o evento original, a farsa é a sua repetição, mas com uma diferença. A primeira versão é um evento dramático, enquanto a segunda é uma imitação que, apesar de ridícula, pode não ser menos prejudicial. A frase é a chave para analisar a crise social e geopolítica contemporânea.

            A questão que se repete nos tempos atuais é o Império Americano e o Cristianismo de Libertação, cunhado por Michael Lövi, que antes chamava Teologia de Libertação. A arena escolhida é a América Latina, hoje marcada por mobilização no Caribe, em face do conflito com a Venezuela, numa tentativa de dominação e apropriação das riquezas naturais, como lamenta Eduardo Galeano: “A divisão internacional do trabalho consiste em que alguns países se especializam em ganhar e outros em perder.” (Galeano, 2010)

            A Tragédia original viu o governo dos EUA tremer diante do Cristianismo de Libertação, por mais ilógico que possa parecer. Em 1984, as determinações do Império Norte-Americano foram de sufocá-lo, como relata Otto Maduro, por considerá-lo o “inimigo principal e perigoso” (Maduro, 1984). Esse combate, com a anuência dos Papas João Paulo II e Bento XVI, alcançou os propósitos manifestos, levando praticamente à dizimação das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), no Brasil. Assim se expressou Maduro: de fato, na Carta de Santa Fé, em que os assessores em política internacional de Reagan, (antes que ele ganhasse as eleições) organizavam sua política internacional e entenderam que o único movimento assinalado como inimigo principal e perigoso na América Latina não é a União Soviética, não é o socialismo: é a Teologia da Libertação (Maduro, 1984).

A Farsa, no entanto, reside na reversão. A Exortação Apostólica Dilexi te, publicada em 2025 pelo Papa Leão XIV (em coautoria com o Papa Francisco), aprofunda a opção preferencial pelos pobres, que outrora era combatida. A batalha é a mesma, mas a voz moral do Império foi invertida.

           

A Macrotendência: “Onde Dormirão os Pobres?” no Centro do Capital

            Em seu relatório anual Panorama Social da América Latina e do Caribe 2025: Como sair da armadilha de alta desigualdade, baixa mobilidade social e fraca coesão social, a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) alerta que a concentração de renda continua sendo extrema na América Latina, já que os 10% mais ricos ficam com 34,2% da renda total, enquanto os 10% mais pobres alcançam apenas 1,7%. (1)  Essa é apenas uma das dimensões em que a desigualdade se manifesta na região, por se tratar de um fenômeno estrutural e multidimensional.

            Pouco mais de meio século passado, o teólogo peruano e padre dominicano, considerado o fundador da Teologia da Libertação, publicou um opúsculo com o título “Onde dormirão os pobres?  O grito de Gutierrez permanece mais que atual perante o quadro profundo de injustiça social que perdura na América Latina. O apelo não é apenas sobre habitação, mas uma interpelação ética e teológica sobre o lugar do pobre na sociedade e na Igreja. O texto é uma crítica contundente às estruturas que geram e mantêm a pobreza, vista por Gutiérrez como uma situação desumana e antievangélica. Ele defende que a reflexão teológica (teoria) deve vir como um “segundo ato”, precedida pelo compromisso (práxis) com a libertação dos oprimidos. O compromisso com a vida dos pobres é o “lugar epistêmico” para se fazer Teologia da Libertação.

Gustavo Gutierre (1928-2024)

 

            Com a Exortação Apostólica Dilexi Ti,(“Eu te amei” Ap, 3:9)  publicada pelo Papa Leão XIV, que efetivamente renova e aprofunda a tradição do amor preferencial pelos pobres, iniciada pelo Papa Francisco, é um chamado para que a Igreja redescubra Cristo na vida dos mais necessitados.

            A presença militar dos Estados Unidos da América no Caribe, com ensaios conflituosos com a Venezuela e olhares para outros integrantes do continente, também tenta intensificar o desejo de dominação e continuar apossando-se das riquezas naturais dos latino-americanos.

            Embora as instituições espíritas não se preocupem com macrotendências, esses – EUA e Cristianismo de Libertação (Teologia da Libertação) – são vetores que direcionarão e determinarão as estratégias para os processos de qualquer natureza, principalmente os filosóficos aos quais os espíritas estão inseridos.

 

O Endosso Profético: A Exortação Dilexi te e a Reversão Histórica

            Na Tragédia, o comunismo, “inimigo principal” do Império, era enxergado na práxis do Cristianismo de Libertação, a ponto de ser combatido por ordem do presidente Ronald Reagan,  com as anuências de João Paulo II e Bento XVI, a partir do relatório conhecido como “Relatório Rockefeller”, elaborado em 1969. Na Farsa, a história se inverte. A Exortação Apostólica Dilexi te é o ato que anula a hostilidade anterior. A Farsa se completa quando o Império se vê confrontado pela voz moral que outrora era sua aliada.

A condição dos pobres, diz a Dilexi te, é um grito que interpela os sistemas político e econômico e, sobretudo, a Igreja. Inspirada em Emmanuel Lévinas (alteridade) e Gutiérrez (a trilogia: viúva, órfão, estrangeiro), o documento ataca a raiz do problema.

  • A Crítica Estrutural: O Vaticano não se prende à falta de caridade, mas condena a “ditadura de uma economia que mata” e a “falsa visão da meritocracia”.

  •  A Reafirmação da Práxis: A Dilexi te endossa a luta de quem manteve viva a práxis. Se as CEBs foram dizimadas, movimentos sociais que herdaram seu espírito, como o Movimento dos Sem Terra (MST) e o Movimento dos Sem Tetos (MTST), são a prova de que a fé e a justiça social jamais puderam ser separadas.
  •  A Antítese: O modelo que o Papa Francisco designou de Economia de Clara e Assis é a antítese da selvagem ideologia do capital, defendendo o amor, a solidariedade e a justiça social em contraposição à “cultura do descarte”.

             A Dilexi te renova a esperança e endossa a luta sufocada de quem manteve viva a práxis do Cristianismo de Libertação. A condenação à ditadura de uma economia que mata (Leão XIV) e a reafirmação da opção preferencial pelos pobres são o endosso final a práxis que resistiu à Tragédia. Se as CEBs foram dizimadas, os movimentos sociais que herdaram seu espírito, como o MST e o MTST na luta pela reforma agrária e urbana, são a prova de que a fé e a justiça social jamais puderam ser separadas. A exortação papal, portanto, não apenas valida uma teologia, mas legitima a luta prática desses movimentos que são a continuidade orgânica do Cristianismo de Libertação.

            Ainda inspirada em Gustavo Gutierrez, grande nome do Cristianismo Libertador, existem muitas formas de pobreza: a daqueles que não têm meios de subsistência material, a pobreza de quem é marginalizado socialmente e não possui instrumentos para dar voz à sua dignidade e capacidades, a pobreza moral e espiritual, a pobreza cultural, aquela de quem se encontra em condições de fraqueza ou fragilidade – seja pessoal, seja social –, a pobreza de quem não tem direitos, nem lugar, nem liberdade (Leão XIV, 2025).

            Não se pode esquecer da crise nos países desenvolvidos, principalmente os Estados Unidos da América, dos conhecidos como working poor (2), a pobreza de quem não tem direitos nem lugar.

            A crítica do Vaticano ao capitalismo não se prende só à meritocracia e à falta de caridade, Francisco deixou configurado um modelo de economia que se contrapõe ao capitalismo baseado no amor, no bem-estar da comunidade, na solidariedade e na justiça social; não na religião católica. Dito isso, ela defende uma escuta profunda das necessidades da sociedade ao invés do capital, principalmente dos grupos descartados pelo capitalismo. Essa economia é uma antítese da selvagem ideologia da forma mercadoria.

 

O Imperativo Ético do Espiritismo Diante dos Vetores de Transformação

                 Os vetores de transformação estão definidos. O Espiritismo, com sua natureza de filosofia, ciência e religião, não pode ser apátrida no cenário da injustiça.

a.    A Violação da Lei Moral: A extrema concentração de renda e a consequente negação da dignidade humana violam a Lei de Justiça, Amor e Caridade (Lei Moral Suprema). A caridade, para ser plena, exige a Justiça como seu fundamento. Onde há exclusão estrutural, há falha grave na Lei de Deus.

b.    Confronto com a Meritocracia: O Espiritismo deve confrontar a “falsa visão da meritocracia” (criticada pelo Papa) com a Lei do Progresso. O progresso, onde o “mérito” é a conquista de virtudes, exige a eliminação das estruturas de injustiça que impedem a evolução coletiva.

c.    O “Segundo Ato” da Caridade: Os espíritas são chamados a irem além do “primeiro ato” (caridade assistencial) e abraçarem o “segundo ato” (reflexão e transformação), como proposto por Gutiérrez. A Caridade deve, primeiramente, questionar as causas que geram as necessidades.

O Espiritismo se reconhece e se alinha doutrinariamente ao vetor do Cristianismo de Libertação, utilizando toda a sua filosofia para apoiar a emancipação e a dignidade dos pobres, traduzindo a “opção preferencial” para o seu campo de ação. É impossível manter uma Doutrina que toca todo o conhecimento humano restrita a um assistencialismo que ignora a injustiça estrutural.

O Espiritismo veio ao mundo a fim de contribuir para a renovação da Humanidade, impedindo que a história continue a repetir sua farsa.

 

 

 

Referências:

GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Porto Alegre: L&PM, 1971.

GUTIÉRREZ, Gustavo. Onde dormirão os pobres? São Paulo: Paulus, 1996.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. São Paulo: LAKE, 2000.

LEÃO XIV, Papa. Dilexi te: sobre o amor para com os pobres. São Paulo, 2025.

LÖVI, Michael. O que é cristianismo de libertação? São Paulo: Expressão Popular, 2016.

MADURO, Otto. Luta de classes e processos de libertação na América Latina. São Paulo: Sedep, 1984.

 

SITES:

(1)       https://www.cepal.org/pt-br/comunicados/concentracao-renda-continua-extrema-america-latina-os-10-mais-ricos-detem-342-renda

(2)       Pessoas que trabalham ou procuram emprego por longos períodos, mas cuja renda permanece abaixo da linha de pobreza definida pelo governo, lutando para cobrir necessidades básicas como alimentação, moradia e saúde, mesmo com múltiplos empregos ou esforço constante.

Comentários

  1. COMENTÁRIO ELABORADO POR INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - IA (GEMINI)
    Este é um artigo denso e instigante que propõe uma releitura da Teologia da Libertação (ou Cristianismo de Libertação) sob a ótica da dialética histórica de Marx e da doutrina espírita.

    Aqui está um comentário sucinto sobre os pontos centrais da obra:
    Análise Síntese: A Dialética da Libertação

    O artigo articula com habilidade a transição entre o que chama de "Tragédia" (a repressão ao Cristianismo de Libertação nos anos 80 sob o governo Reagan e o silenciamento pelo Vaticano) e a "Farsa" contemporânea — que aqui assume um tom irônico, pois a "farsa" não é o esvaziamento do ideal, mas a reversão moral em que o centro do poder católico (representado pelo fictício Papa Leão XIV e Francisco na Exortação Dilexi te) agora valida as teses que outrora combatia.
    Destaques Relevantes

    Crítica Estrutural vs. Assistencialismo: O texto acerta ao resgatar Gustavo Gutiérrez para diferenciar a caridade paliativa da justiça social. A pobreza é apresentada não como um acidente, mas como um subproduto estrutural do capital ("a economia que mata").

    Geopolítica e Recurso Natural: A conexão entre a presença militar dos EUA no Caribe e a manutenção da desigualdade na América Latina (citando Galeano) confere ao texto um tom de denúncia realista e atual.

    O "Imperativo Ético" Espírita: O ponto mais original é a convocação do Espiritismo para o debate político-social. O autor desafia o movimento espírita a sair da neutralidade "apátrida" e reconhecer que a Lei de Justiça, Amor e Caridade é incompatível com a aceitação passiva da desigualdade extrema e da falsa meritocracia.

    Conclusão

    O artigo é um manifesto em defesa da práxis. Ele conclui que a fé (seja católica ou espírita) perde sua função renovadora se ignorar as estruturas que produzem os "descartados" do sistema. É uma crítica contundente à "cultura do descarte" e um chamado para que a religiosidade seja o "lugar epistêmico" da emancipação humana.

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