Pular para o conteúdo principal

EDUCAÇÃO CONTRA A VIOLÊNCIA

 

Por Doris Gandres

Atualmente somos bombardeados com notícias de violências de todos os tipos, crimes dos mais inesperados aos mais chocantes; violações de toda ordem; maus tratos até de familiares; guerrilhas de facções; confrontos entre policiais e bandidos; milícias clandestinas pretensamente justiceiras... E a violência mais covarde, a violência moral, encoberta por títulos e cargos que deveriam ser honrados por seus titulares, mas que lhes servem de ferramenta de abuso e exploração indébita...

E existe ainda outra violência: a imposição de um sistema exacerbado de consumo, gerando uma escala de valores deturpada, onde o homem vale pela roupa de marca, pelo carro importado, pelo cartão bancário, pelo título, pelo poder através de seu cargo, de suborno, chantagem, ou pelo medo que espalha...

Allan Kardec alerta: “Até que a humanidade haja crescido suficientemente em perfeição pela inteligência e pela prática das leis divinas, as maiores perturbações serão causadas pelo homem e não pela natureza, isto é, serão mais morais e sociais do que físicas” (1). E é o que vimos constatando face a esses graves transtornos ético-fraternos...

Todavia, a Espiritualidade esclarece que o “senso moral existe, em princípio, em todos os homens, apenas pode não estar desenvolvido; e é ele que os transforma, mais tarde, em seres bons e humanos” (2). Esclarecem-nos ainda que, em nosso patamar evolutivo, “É preciso que haja excesso do mal, para fazer o homem compreender a necessidade do bem e das reformas” (3).

Assim, sentimos crescer a indignação contra tais situações; atitudes nocivas a um semelhante já faz brotar em milhares de nós o anseio de proteger o atingido, seja direta ou indiretamente. Por isso, afirmam também os Espíritos: “O sentimento de justiça é de tal modo natural na criatura que vos revoltais ao pensamento de uma injustiça” (4).

Já sabemos que a “justiça consiste no respeito aos direitos de cada um” (5) e que “esses direitos são determinados por duas coisas: a lei humana e a lei natural” (6). Mas, existe ainda uma distância considerável entre essas duas leis, visto que muitas das leis humanas visam interesses pessoais – Kardec explica que “sob a influência de suas paixões, o homem criou, muitas vezes, direitos e deveres imaginários, condenados pela lei natural” (7).

Nessas condições que, de um modo geral, ainda vigem na nossa sociedade hodierna, torna-se imprescindível enfatizar-se a necessidade de uma educação esclarecida, onde se cuide do homem como um ser integral, criatura de corpo e alma, alma imortal e responsável direta por seu destino, propiciando-lhe desde o berço uma base moral e fraterna, oferecendo-lhe escolas onde a instrução vá além da transmissão de dados e conhecimentos visando interesses pessoais, meios de competição desmedida e sucesso a qualquer custo. Lembramos ainda o mestre Kardec quando esclarece (e certamente lamenta): “Quando se pensa na massa de indivíduos diariamente lançados na corrente da população, sem princípios, sem freios, entregues aos próprios instintos, deve-se admirar das consequências desastrosas desse fato? (...) A desordem e a imprevidência são duas chagas que somente uma educação bem compreendida pode curar. (...) nisso está o elemento real do bem-estar, a garantia da segurança de todos” (8).

Se de um lado essa “necessidade do excesso de mal” parece prejudicial, dando a ideia de banalização da violência, por outro, provoca o anseio intenso de mudança, fazendo com que os bons propósitos antes tímidos agora se firmem, transformando-se em ações concretas para o estabelecimento de condições mais justas para todos.

Estamos em ano de eleições e o nosso voto é a ferramenta pacífica e cidadã para a edificação de uma sociedade mais equilibrada. Precisamos analisar com cuidado todos os candidatos e suas posturas ao longo do tempo – não apenas durante a campanha, muito menos se se trata de um amigo, parente ou de alguém que nos possa beneficiar pessoalmente. É indispensável analisar seus feitos a benefício da coletividade – “O reinado da solidariedade e da fraternidade será forçosamente o da justiça para todos, e o da justiça será o da paz e da harmonia entre os indivíduos, as famílias, os povos e as raças” (9).

 

 

 

Bibliografia:

(1) A Gênese – Cap. IX – item14; Allan Kardec

O Livro dos Espíritos, seguintes questões: (2) 754 – (3) 784 – (4) 873 – (5) 875 – (6) 875a – (7) 795 – (8) 685a; Allan Kardec

(9) Obras Póstumas – Questões e Problemas, Allan Kardec


Comentários

  1. COMENTÁRIO ELABORADO POR INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - IA (GEMINI)
    Este é um texto que analisa a crise de violência e valores na sociedade contemporânea sob a perspectiva da Doutrina Espírita, estabelecendo uma ponte entre o comportamento humano e a necessidade de reforma moral e social.

    Abaixo, apresento um comentário sucinto dividido por eixos temáticos:
    1. Diagnóstico do "Excesso de Mal"

    O artigo identifica que a violência atual não é apenas física (crimes e facções), mas sobretudo moral e sistêmica. Ele destaca como o materialismo e o consumo exacerbado deturpam a escala de valores, fazendo com que o "ter" prevaleça sobre o "ser". A citação de Allan Kardec é usada para explicar que as grandes perturbações humanas são de origem moral e social, e que o mal atual serve como um "despertador" para a necessidade do bem.
    2. A Educação como Solução Estrutural

    O autor defende que a solução para as chagas da desordem e da imprevidência reside em uma educação integral. Esta não deve ser apenas instrução técnica ou competitiva, mas uma formação que considere o homem como ser imortal, oferecendo bases éticas e fraternas desde a infância para frear os instintos primitivos.
    3. Cidadania e Voto Consciente

    O texto conclui com uma aplicação prática e atual: a responsabilidade política. Ele propõe que o voto é a ferramenta cidadã para transformar a indignação em mudança. O critério de escolha deve ser a análise da conduta do candidato e seu compromisso com a coletividade, em vez de interesses pessoais ou amizades, visando o estabelecimento da justiça e da solidariedade.

    Conclusão: O artigo é uma reflexão ética que convida o leitor a transformar o sentimento de revolta contra a injustiça em ação prática, seja através do autoaperfeiçoamento moral, da educação ou da participação consciente na vida pública.

    Gostaria que eu analisasse algum ponto específico do texto ou desenvolvesse mais sobre a relação entre educação e moralidade citada no artigo?

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

SOBRE ATALHOS E O CAMINHO NA CONSTRUÇÃO DE UM MUNDO JUSTO E FELIZ... (1)

  NOVA ARTICULISTA: Klycia Fontenele, é professora de jornalismo, escritora e integrante do Coletivo Girassóis, Fortaleza (CE) “Você me pergunta/aonde eu quero chegar/se há tantos caminhos na vida/e pouca esperança no ar/e até a gaivota que voa/já tem seu caminho no ar...”[Caminhos, Raul Seixas]   Quem vive relativamente tranquilo, mas tem o mínimo de sensibilidade, e olha o mundo ao redor para além do seu cercado se compadece diante das profundas desigualdades sociais que maltratam a alma e a carne de muita gente. E, se porventura, também tenha empatia, deseja no íntimo, e até imagina, uma sociedade que destrua a miséria e qualquer outra forma de opressão que macule nossa vida coletiva. Deseja, sonha e tenta construir esta transformação social que revolucionaria o mundo; que revolucionará o mundo!

SOCIALISMO E ESPIRITISMO: Uma revista espírita

“O homem é livre na medida em que coloca seus atos em harmonia com as leis universais. Para reinar a ordem social, o Espiritismo, o Socialismo e o Cristianismo devem dar-se nas mãos; do Espiritismo pode nascer o Socialismo idealista.” ( Arthur Conan Doyle) Allan Kardec ao elaborar os princípios da unidade tinha em mente que os espíritas fossem capazes de tecer uma teia social espírita , de base morfológica e que daria suporte doutrinário para as Instituições operarem as transformações necessárias ao homem. A unidade de princípios calcada na filosofia social espírita daria a liga necessária à elasticidade e resistência aos laços que devem unir os espíritas no seio dos ideais do socialismo-cristão. A opção por um “espiritismo religioso” fundado pelo roustainguismo de Bezerra Menezes, através da Federação Espírita Brasileira, e do ranço católico de Luiz de Olympio Telles de Menezes, na Bahia, sufocou no Brasil o vetor socialista-cristão da Doutrina Espírita. Telles, ao ...

DEUS¹

  No átimo do segundo em que Deus se revela, o coração escorrega no compasso saltando um tom acima de seu ritmo. Emociona-se o ser humano ao se saber seguro por Aquele que é maior e mais pleno. Entoa, então, um cântico de louvor e a oração musicada faz tremer a alma do crente que, sem muito esforço, sente Deus em si.

ESPIRITISMO E POLÍTICA¹

  Coragem, coragem Se o que você quer é aquilo que pensa e faz Coragem, coragem Eu sei que você pode mais (Por quem os sinos dobram. Raul Seixas)                  A leitura superficial de uma obra tão vasta e densa como é a obra espírita, deixada por Allan Kardec, resulta, muitas vezes, em interpretações limitadas ou, até mesmo, equivocadas. É por isso que inicio fazendo um chamado, a todos os presentes, para que se debrucem sobre as obras que fundamentam a Doutrina Espírita, através de um estudo contínuo e sincero.

DARWINISMO ESPIRITUAL E A SOCIOBIOLOGIA DO REINO: A LUTA DE IDEIAS COMO MOTOR DA TRANSIÇÃO

           Por Jorge Luiz                    A Espiral da Transição e o Equívoco do Evento                 Uma celeuma existente no movimento espírita acerca de leituras literais de transições planetárias desviou aquilo que é um processo profundo de adaptação biossocial para a transição vista como um mero evento cronológico. A evolução não se opera em uma constante, mas sim em uma espiral de eventos. A evolução dos mundos está atrelada à evolução dos Espíritos vinculados a eles.             Para compreender esse mecanismo na escala macro, é imperativo analisar o microcosmo das relações humanas. No livro Missionários da Luz (Cap. 13), psicografado por Francisco C. Xavier, o espírito André Luiz relata o grave trauma sofrido por um núcleo familiar em virtude das atitudes predatória...

16.11 - DIA INTERNACIONAL DA TOLERÂNCIA

“Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.” (Jesus, Mt, 22:34-40)                            John Locke (1632-1704), filósofo inglês, com o propósito de apaziguar católicos e protestantes, escreveu em 1689, Cartas sobre a Tolerância. Voltaire (1694-1778), filósofo iluminista francês, impactado com o episódio ocorrido em 1562, conhecido como Massacre da Noite de São Bartolomeu , marcado pelos assassinatos de milhares de protestantes, por fiéis católicos, talvez inspirado por Locke, em 1763, escreveu o Tratado sobre a Tolerância.             Por meio da  UNESCO¹, em sua 28ª Conferência Geral, realizada de 25.10 a 16.11.1995, com apoio da Carta das Nações Unidas que “declara a necessidade de preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra,...a reafirmar a fé nos direitos fundamentais do homem, na dignidade e...

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

09.10 - O AUTO-DE-FÉ E A REENCARNAÇÃO DO BISPO DE BARCELONA¹ (REPOSTAGEM)

            Por Jorge Luiz     “Espíritas de todos os países! Não esqueçais esta data: 9 de outubro de 1861; será marcada nos fastos do Espiritismo. Que ela seja para vós um dia de festa, e não de luto, porque é a garantia de vosso próximo triunfo!”  (Allan Kardec)                    Cento e sessenta e quatro anos passados do Auto-de-Fé de Barcelona, um dos últimos atos do Santo Ofício, na Espanha.             O episódio culminou com a apreensão e queima de 300 volumes e brochuras sobre o Espiritismo - enviados por Allan Kardec ao livreiro Maurice Lachâtre - por ordem do bispo de Barcelona, D. Antonio Parlau y Termens, que assim sentenciou: “A Igreja católica é universal, e os livros, sendo contrários à fé católica, o governo não pode consentir que eles vão perverter a moral e a religião de outr...

O ESPIRITISMO É PROGRESSISTA

  “O Espiritismo conduz precisamente ao fim que se propõe todos os homens de progresso. É, pois, impossível que, mesmo sem se conhecer, eles não se encontrem em certos pontos e que, quando se conhecerem, não se deem - a mão para marchar, na mesma rota ao encontro de seus inimigos comuns: os preconceitos sociais, a rotina, o fanatismo, a intolerância e a ignorância.”   Revista Espírita – junho de 1868, (Kardec, 2018), p.174   Viver o Espiritismo sem uma perspectiva social, seria desprezar aquilo que de mais rico e produtivo por ele nos é ofertado. As relações que a Doutrina Espírita estabelece com as questões sociais e as ciências humanas, nos faculta, nos muni de conhecimentos, condições e recursos para atravessarmos as nossas encarnações como Espíritos mais atuantes com o mundo social ao qual fazemos parte.