Pular para o conteúdo principal

TATAMES ESPÍRITAS

 

 Por Marcelo Henrique

Tatames representam lugares seguros, confortáveis, tranquilos, sem ameaças, para vivermos em nossas zonas de conforto. Neles, estão presentes algum indivíduo “mais estudioso”, pronto para lhe dar uma “mágica” explicação para os seus problemas, dando uma “razão palatável”, uma “tábua de salvação”, uma “pílula para dourar os dias”, fazendo com que as pessoas se conformem às condições desafortunadas, precárias, infelizes ou difíceis com que convivem.

***

O tatame, originalmente

Você sabe o que é um tatame, certo? Mesmo que não seja afeto a modalidades esportivas, como praticante, esportista ou mesmo telespectador de competições mundiais, como os jogos panamericanos ou as olimpíadas, quase sempre associado às lutas, você certamente conhece o objeto.

Mas, também tal componente, com outra composição e finalidade, geralmente trazendo motivos infantis (desenhos coloridos, letras, números…), serve para que crianças em tenra idade possam engatinhar e se sentar, deitar e rolar, sem risco de se machucarem, para brincar minutos e horas a fio.

Nos círculos presenciais e, mais notadamente na atualidade, nos virtuais, com ampla interação entre pessoas distantes fisicamente e espalhadas por cidades e até países muito distantes entre si, é comum encontrarmos essa “figura”: os tatames.

Nossos tatames cotidianos

Eles podem pertencer a segmentos muito específicos, como um grupo de familiares, amigos, colegas de trabalho ou membros de corporações ou ambientes corporativos (advogados, médicos, professores…). Os tatames, assim, representariam o entendimento majoritário, o senso comum, ou a visão (mais ou menos) uniforme e tradicional sobre determinadas temáticas. Um consenso preestabelecido que difícil ou raramente comporta discussões e alterações do entendimento patente e consagrado.

Você já não passou por isso? Isto é estar diante de “verdades consagradas” e indiscutíveis e imutáveis?

Até mesmo em círculos mais especializados, como os acadêmicos, profissionais e científicos, a ruptura com o padrão e a aceitação de novas ideias (teses) é um processo trabalhoso e difícil, justamente porque as crenças entronizadas e enraizadas nas mentes e nas convicções individuais são uma barreira (quase) intransponível.

Em outras palavras, é preciso tempo – produto, aliás, bem escasso na vida agitada do nosso cotidiano – e maturação consciente para que conceitos construídos e consolidados por anos e décadas sofram alguma mutação progressiva. E isto, claramente, só irá decorrer de uma decisão voluntária e pessoal em que o livre arbítrio e a consciência racional são dois elementos inafastáveis.

E não é porque seja em sede das ciências que vamos encontrar indivíduos prontamente abertos à revisão de seus posicionamentos. Em nossa larga e longa carreira acadêmico-profissional, em distintas universidades, programas e áreas, já convivemos com cientistas e professores, advogados e juízes, empresários e administradores públicos, bastante refratários a novas abordagens e à modificação de suas (cristalizadas) convicções. Não deveria ser, mas é. E ocorre bastante.

Os tatames espíritas

Chegamos, então, ao cenário espírita e à ambiência comum e tradicional, seja qual for a localidade, a organização social e a estrutura. E isso é preocupante!

Porque a Filosofia Espírita, tal qual concebeu Allan Kardec, não se presta a ser, nos grupos e instituições que se organizam em torno dela, um locus onde existam parâmetros definitivos e imutáveis, cláusulas pétreas ou crenças (entendimentos) dominantes e dogmáticos. Sem tatames, portanto.

Até é natural, pela forma como se consolidaram e se estabeleceram as associações espíritas, e como se popularizou o Espiritismo no Brasil, em torno do conceito e da vigência de uma RELIGIÃO – mesmo que sem a maioria das características comuns de uma igreja – e da prática religiosa (porque os espíritas em geral, ao serem perguntados sobre qual religião possuem, respondem Espiritismo), que fosse sendo estruturada e consolidada uma postura “engessada” em torno dos conceitos de “verdades” (no caso, aqui, verdades religiosas para além das científicas ou filosóficas).

Sim, porque as filosofias e ciências – diversamente das religiões – embora todas elas sejam, sem exceção, CONSTRUÇÕES HUMANAS, estão mais propícias à revisão de suas estruturas, ideias e conceitos, permanecendo, no entanto, aquilo que chamados de princípios essenciais ou fundamentos axiológicos. E o Espiritismo, encarado, aceito e vivenciado como religião, possui enormes e abissais dificuldades de repensar conceitos e se reinventar.

O porto seguro inexistente

Com isso, o meio espírita vai continuando a cativar e manter adeptos que buscam um “porto seguro”, ou, como ilustra o título de nosso ensaio, um tatame, lugar confortável, seguro, circunscrito, sem ameaças e ideal para as conformações do viver – por vezes chamados de consolos – baseados na (única e indiscutível) opinião sobre os atos da existência. Uma verdadeira zona de conforto!

Assim, por exemplo, uma criança nasceu com alguma deficiência? Vem o “Espiritismo” e “explica” que ela pode ter feito algo muito ruim no “passado” – como agredir e provocar danos físicos a alguém – e retorna para “compensar” esse fato, na própria pele. E se alguém perdeu o emprego? É porque em “outra vivência pregressa”, “abusou” do dinheiro e agora vem com essa “paga”. Se fez um casamento “ruim”, com um cônjuge difícil, é porque “tratou mal” seu(ua) companheiro(a) na “vida anterior”. Se tem um filho, irmão, pai, mãe cujo relacionamento é “complicado”, isto deriva de, “numa outra encarnação”, os papéis estiveram invertidos e o que hoje experimenta, causou dissabores para outrem.

E assim seguem as “crenças” (ditas) espíritas…

Perceba: no seu grupo ou instituição espírita sempre haverá um “mais estudioso”, um dirigente, um palestrante, um médium que lhe trará uma “mágica” explicação para os seus problemas, dando uma “razão palatável”, uma “tábua de salvação”, uma “pílula para dourar os dias”, fazendo com que as pessoas se conformem às condições desafortunadas, precárias, infelizes ou difíceis com que convivem. Não é?

Não é – e não pode ser – assim! O indivíduo não vem para mais uma experiência encarnatória com um “guizo”, uma “tabuleta”, um “plano de voo”, um “roteiro existencial” totalmente pré-traçado e imutável. Do contrário, mesmo que hajam situações anteriores, desta vida ou das que já se encerraram, que possam ser utilizados na composição das situações da vigente encarnação, projetando aquilo que a Filosofia Espírita conceitua como “expiações”, “provas” ou “missões”, não há nenhum “trilho de trem” obrigatório e definitivo por onde irão transitar as almas.

Não existem, portanto, tatames espíritas, capazes de fortalecer, embasar e vincular restritivamente a lógica pensante e argumentativa sobre os atos da vida, as relações interpessoais e as experiências humanas. Longe disso.

 O bom da vida

Os dias se sucedem como oportunidades ímpares, únicas, inigualáveis. E, em cada um deles, infinitas situações se nos apresentam, não para nos condicionarmos numa “zona de conforto”, num “cercadinho”, num “casulo” ou numa “redoma de vidro”, composta por nossas crenças vinculantes, por ideários sugeridos por outrem (pode até ser a explicação contida no romance tal, assinado por um venerável Espírito ou a fala de um empolgado e reconhecido palestrante) e por explicações “fáceis” e padronizadas para as “dores” humanas.

Para viver é preciso… correr riscos! Exercitar o raciocínio aplicado, vincular a teoria espírita à prática cotidiana – sem qualquer “medo” de descobrir que um texto escrito na parte final do Século XIX, esteja “defasado”, “superado”, “descontextualizado” para o presente, ou o mundo, as sociedades e as pessoas tenham progredido. Este é o bom da vida!

O Espiritismo o que é, então?

Mesmo que a Doutrina seja dita como “dos Espíritos”, porque representou a associação entre os conceitos dos desencarnados e dos encarnados – em especial, o autor das obras, Allan Kardec – ela representou, naquele ponto originário, o ponto de vista pessoal (opinião) de uns e de outros para dados contextos). E segue sendo assim, com as contribuições atuais de escritores, médiuns e dos Espíritos que transmitem suas mensagens. Não foi, o Espiritismo, concebido para ser imutável, perfeito nem definitivo. Ele se constrói todos os dias, principalmente pelo uso da inteligência racional e do bom senso para analisar a si mesmo, os outros e a Humanidade.

O Espiritismo segue como uma indicação, uma proposta de autoexame e de análise das situações da vida, uma perspectiva a ser racionalmente estudada e compreendida, associando as teorias com as vivências. E, também, compreendendo as duas ambiências, a física e a espiritual, a dos encarnados e a dos desencarnados, em permanente sinergia e interrelação.

Sem meias nem definitivas verdades. Um processo permanentemente em construção, com as “ferramentas” de que dispomos para viver a vida plenamente.

Que tal sair do tatame?

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

SER HUMANO: ZONA DE INTERESSES – DA COISIFICAÇÃO DA VIDA AO NEGÓCIO DA MORTE

    Por Jorge Luiz O Sujeito como Território de Caça  Thomas Hobbes, em sua festejadíssima obra Leviatã (1651), sentenciou que o “homem é o lobo do homem”. Para ele, a ausência de uma autoridade central condenaria a humanidade a uma vida “solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta”. O remédio hobbesiano é o Contrato Social de submissão: a entrega irreversível do poder ao Soberano (Estado) em troca de segurança. Hobbes rompe com o pensamento puramente religioso ao defender o Erastismo — a subordinação da Igreja ao poder civil —, sob a premissa de que não pode haver dois senhores disputando a obediência do súdito. Contudo, o Leviatã de Hobbes não anteviu a mutação do Estado-Nação sob o capitalismo. O sistema, consolidado entre os séculos XVIII e XIX, transitou do mercantilismo para o liberalismo industrial, onde o Estado parece diminuir sua intervenção, mas se agiganta na construção das subjetividades. Como propõe Louis Althusser , o Estado realiza-se através de s...

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

'SELFIES" ALIENANTES

Por Jorge Hessen (*) As tecnologias pessoais, sobretudo os smartphones, revolucionaram o formato com que as pessoas se expressam no dia-a-dia na atualidade, e a selfie faz parte dessa transformação. Experimenta-se a neurose do selfie (derivada do termo inglês self (eu) junto ao sufixo “ie” – um tipo de fotografia), para indicar uma espécie de autorretrato, tradicionalmente exposto na rede social que tem contagiado a muitos, principalmente no Instagram e Facebook. O indivíduo aponta o smartphone para o próprio rosto e busca o melhor ângulo para tirar uma fotografia esmerada. Pode ser na praia, na festa, no parque, no restaurante ou em situação de alto risco de vida. A obsessão é tamanha que neste último caso chega a causar acidentes fatais. Quando falamos em selfies aqui, os números não são nem de longe inexpressivos, ou seja, nada menos que 880 bilhões de fotos foram feitos apenas em 2014. Uma parcela relevante de auto-exposição na forma de autorretratos. Tais imag...

O ABORTO E A GRATIDÃO POR TER NASCIDO

Minha mãe e eu, 54 anos atrás Hoje, no dia do meu aniversário, uma data que sempre me alegra, pois gosto de ter nascido, resolvi escrever algumas considerações sobre esse tema tão controvertido: o aborto. Se estou comemorando meu aniversário e vivendo uma vida plena de sentido, é porque minha mãe permitiu que eu nascesse. Me recebeu e me acolheu, com a participação de meu pai. Então, é bastante pertinente falar sobre esse tema, nesse dia. Meu dia de entrada nessa vida. Penso que esse debate sempre caminha por lados opostos, com argumentos que não tocam o cerne da questão.

O ESPIRITISMO ENTRE A FILOSOFIA E A RELIGIÃO: AS DIFERENÇAS DE SENSIBILIDADE ENTRE KARDEC, HERCULANO PIRES E CHICO XAVIER

       Por Wilson Garcia      A comparação entre Allan Kardec e Chico Xavier talvez seja uma das mais delicadas do movimento espírita brasileiro. Ela toca não apenas em personalidades históricas, mas em dois modos profundamente distintos de compreender o próprio Espiritismo. E, de fato, há diferenças muito evidentes entre ambos — de formação intelectual, de sensibilidade religiosa, de linguagem, de método e até de projeto cultural.   A hipótese de que Chico seria a reencarnação de Kardec ganhou força mais pelo imaginário afetivo do movimento espírita do que por evidências concretas de continuidade intelectual. Quando observamos os dois racionalmente, o contraste salta aos olhos.

FRONTEIRAS ENTRE O REAL E O IMAGINÁRIO

  Por Jerri Almeida                A produção literária, desde a Grécia Antiga, vem moldando seus enredos e suas tramas utilizando-se de contextos e fatos históricos. Os romances épicos, que em muitos casos terminam virando, contemporaneamente, filmes ou novelas de grandes sucessos, exploram os aspectos de época, muitas vezes, adicionando elementos mentais e culturais de nosso tempo. Essa é uma questão perigosa, pois pode gerar os famosos anacronismos históricos. Seria algo como um romance que se passa no Egito, na época de um faraó qualquer, falar em “burguesia egípcia”. Ora, “burguesia” é um conceito que começa a ser construído por volta dos séculos XII-XIII, no Ocidente Medieval. Portanto, romances onde conceitos ou ideias são usados fora de seu contexto histórico, tornam-se anacrônicos.

O ESTUDO DA GLÂNDULA PINEAL NA OBRA MEDIÙNICA DE ANDRÉ LUIZ¹

Alvo de especulações filosóficas e considerada um “órgão sem função” pela Medicina até a década de 1960, a glândula pineal está presente – e com grande riqueza de detalhes – em seis dos treze livros da coleção A Vida no Mundo Espiritual(1), ditada pelo Espírito André Luiz e psicografada por Francisco Cândido Xavier. Dentre os livros, destaque para a obra Missionários da Luz, lançado em 1945, e que traz 16 páginas com informações sobre a glândula pineal que possibilitam correlações com o conhecimento científico, inclusive antecipando algumas descobertas do meio acadêmico. Tal conteúdo mereceu atenção dos pesquisadores Giancarlo Lucchetti, Jorge Cecílio Daher Júnior, Décio Iandoli Júnior, Juliane P. B. Gonçalves e Alessandra L. G. Lucchetti, autores do artigo científico Historical and cultural aspects of the pineal gland: comparison between the theories provided by Spiritism in the 1940s and the current scientific evidence (tradução: “Aspectos históricos e culturais da glândula ...

O PERÍODO DOS "GRANDES MÉDIUNS" JÁ PASSOU!

    Por Jerri Almeida   Allan Kardec foi sempre muito cuidadoso na preservação dos médiuns com os quais manteve contato, e que colaboraram em suas investigações. Poucas são as citações ou referências aos nomes desses médiuns no conjunto de sua obra. Parece evidente, que Kardec se preocupava muito mais com o conteúdo das informações e das ideias apresentadas do que, propriamente, com os médiuns e Espíritos que as comunicavam.

PRECE DO EDUCADOR

Por Dora Incontri (*) Senhor, Que eu possa me debruçar sobre cada criança, e sobre cada jovem, com a reverência que deve animar minha alma diante de toda criatura Tua! Que eu respeite em cada ser humano de que me aproximar, o sagrado direito de ele próprio construir seu ser e escolher seu pensar! Que eu não deseje me apoderar do espírito de ninguém, imprimindo-lhe meus caprichos e meus desejos pessoais, nem exigindo qualquer recompensa por aquilo que devo lhe dar de alma para alma!