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O PENSAMENTO SOCIAL DA DOUTRINA ESPÍRITA

 


Por Doris Gandres

Deolindo Amorim, autor de inúmeros livros e artigos em jornais e revistas espíritas e laicos, fundador do Instituto de Cultura Espírita do Brasil e da Associação Brasileira de Jornalistas e Escritores Espíritas (ABRAJEE, hoje ABRADE), assegura, em seu livro O Espiritismo e os Problemas Humanos, capítulo Definição e Opção, que “o Espiritismo é, para nós, uma filosofia de vida, não é simplesmente uma crença”.  E continua afirmando, no capítulo II – Entre Deus e César, que: “o pensamento social da Doutrina Espírita ainda não foi descoberto em sua plenitude”.

Estas declarações encerram a mais pura verdade acerca da intenção e do escopo da Doutrina. Em particular, a terceira parte de O Livro dos Espíritos apresenta de forma transparente seu conteúdo profundamente social. Quando discute as leis de sociedade, de reprodução, de destruição, de igualdade, de liberdade, de justiça; quando discorre sobre o trabalho, o repouso, a propriedade; quando assegura que a desigualdade de condições sociais não é obra de Deus, mas sim dos homens 1, que todos somos iguais, com o mesmo princípio e a mesma destinação, a Doutrina dos Espíritos revela claramente o seu objetivo social.

Essa afirmativa de que todos somos iguais se apoia na mais absoluta justiça social, pois confere a cada criatura o direito de ter as mesmas oportunidades para atingir o mesmo objetivo: a completude em sua trajetória física, etapa extremamente importante para a efetivação de seu avanço intelectual e moral.

E mais ainda: ao estudá-la, percebemos a grande epidemia que se apoderou da humanidade – o interesse pessoal, classificado como o indício mais característico da nossa imperfeição. Efetivamente, esse sentimento egoístico, que faz com que em primeiro lugar se coloque a satisfação de anseios pessoais a qualquer custo, e em sua maioria de cunho material, tem sido a tônica de praticamente todas as atitudes assumidas pelo ser humano.

De acordo com a doutrina, é no interesse pessoal que se funda o egoísmo, “do qual se deriva todo o mal; estudai todos os vícios e vereis que no fundo de todos existe o egoísmo”. Mas, a doutrina também nos assegura que “o egoísmo se enfraquecerá com a predominância da vida moral sobre a material” 2.

Diante do atual quadro vivencial da humanidade e da estrutura social por nós estabelecida no decorrer dos séculos, em que a desigualdade social e a violência de todo tipo chegam a níveis assustadores, cabe fazermos uma reflexão acurada dessa terceira parte, onde Allan Kardec didaticamente catalogou e comentou o que ele denominou de “As Leis Morais”. Com essa reflexão, veremos que estas são plenamente concordes com os ensinamentos de Jesus, selecionados por Kardec para a elaboração de O Evangelho Segundo o Espiritismo.

Essas leis, que nada mais são do que as leis naturais, abrangem a complexidade das nossas relações de forma integral: a nossa relação com Deus, com o próximo, com toda a criação; por conseguinte, abrangem os nossos deveres e direitos e o que podemos entender como o nosso aprimoramento sócio-ético-moral como seres imortais universais.

“Que o princípio da caridade e da fraternidade seja a base das instituições sociais, das relações legais de povo para povo e de homem para homem, e este pensará menos em si mesmo”2.

Em decorrência disso tudo que já recebemos como esclarecimentos, não apenas através da nossa doutrina, mas de há muito tempo, sob outras formas e denominações, podemos compreender que efetivamente firmar nossos valores e escolhas sobre o interesse pessoal só poderá nos trazer resultados dolorosos em futuro próximo, e muitas vezes até mesmo neste estágio terreno.

No entanto, entre entender a teoria e a colocar em prática há uma distância que ainda precisamos vencer – um caminho difícil a ser percorrido que certamente vai requerer de nós, humanidade encarnada e desencarnada, um esforço persistente, individual e coletivo, para superarmos esse atavismo; e isso só conseguiremos por meio de uma educação esclarecida e continuada em todos os campos de ação e do conhecimento.

 

Notas bibliográficas

1- Allan Kardec. O Livro dos Espíritos, questão 806. FEB.

2- Allan Kardec. O Livro dos Espíritos, questões 913 a 917.

Comentários

  1. Parabéns por texto tão esclarecedor

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  2. Sim. É exatamente isso, todos vêem, mas não seguem essa orientação. Kardec não quis ser único, quis ser mais um nesta construção da Doutrina Espírita. Claro, sabemos do quanto foi seu protagonismo, mas não podemos embarcar na ideia de que tudo, a Codificação, esteja pronto, completa. O mesmo, deixou claro a completude de suas afirmações quando reconhece, humildemente, que é um "ser histórico", deixando a posterior que se complete os conflitos com a Ciência, conhecimento de sua época. Não quis Ele, dotar a Doutrina de um conhecimento eterno que conflitasse com as novas descobertas que, com certeza, adviriam com os novos tempos. A Ciência é filha de sua época. As informações havidas no século 19 são parciais, necessitam de completude, eis a essência da Codificação Espírita: seguir sempre atual, com seu tempo, abandonando aquelas postulações que não mais são aceitas cientificamente. E, mais importante, indicando às direções que a Ciência Positiva não alcança.

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  3. Gente, é "O mesmo, deixou claro a incompletude de suas afirmações quando reconhece

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    1. Grata Valéria por suas observações perfeitamente pertinentes. Doris.

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