Pular para o conteúdo principal

HÁBITOS E VALORES

 

 


 

Por Doris Gandres

Atualmente, espíritas e espiritualistas em geral, bem como um bom número dos chamados “materialistas”, agnósticos e, ainda intelectuais e cientistas de várias áreas, já percebemos, já compreendemos, já sabemos, que somos criaturas portadoras de um potencial incomensurável – e, me aventuro a dizer, inesgotável – capaz de realizações e feitos os mais extraordinários face ao conhecimento generalizado compatível com o nível evolutivo comum à humanidade de forma geral.

A notável capacidade intrínseca no ser já nos foi comprovada, desde há muito, por muitos homens e mulheres, em todas as latitudes e longitudes, a norte e a sul, a leste e a oeste. Jesus de Nazaré, a nós espíritas indicado como modelo e guia, demonstrou no decorrer de sua passagem aqui entre nós o poder do conhecimento aliado ao amor. Assegurou-nos que “faríamos o que ele fez e muito mais”.

Mas o que nos deteve, o que nos prendeu na planície da ignorância, da incerteza, da insegurança, do medo, quando poderíamos já ter alçado voo rumo a altas paragens, a regiões cada vez mais elevadas?

Recentemente, li uma explicação para o fato de o elefante de circo permanecer parado e quieto, amarrado a uma corrente presa numa estaca de madeira de cerca de 1m e meio apenas, fincada alguns centímetros no chão – um animal com força suficiente para arrancar árvores e suas raízes ali permanece por anos a fio... Um auxiliar perguntou ao domador “por que ele não se solta, bem poderia...” E este respondeu: “nós o prendemos aí desde pequenino; nessa fase, ele tenta soltar-se, tenta, tenta, tenta e não consegue; até que se cansa e desiste; depois, se acomoda; passa o tempo, ele cresce, mas já não tenta porque não acredita que pode e porque se habituou à sua situação”. De uma certa forma, em certos casos, em certas circunstâncias e em certas condições, teremos sido, ou ainda somos eventualmente, como o elefantezinho?

Desde cedo presos a conceitos castradores, inibidores da nossa capacidade de pensar, questionar, discernir, decidir, domesticados e amestrados, seremos aqueles acomodados, sem expectativa, alma enfraquecida, derrotados antecipadamente pelo medo do fracasso, da dificuldade, inconscientes da imensa força, do incomensurável potencial que trazemos em nós, aquele que justamente despertará em nós os deuses poderosos mencionados pelo Mestre?

Contudo, um cientista – não um religioso nem um místico, mas um cientista, repito – declarou: “no centro da dificuldade, repousa a oportunidade” – foi Albert Einstein quem o disse, e o disse com muita propriedade, porque é exatamente isso: no enfrentamento da dificuldade, seja ela qual for, conquistamos a oportunidade da vitória, a oportunidade do crescimento mediante a lição bem aproveitada; e é com essa lição, ainda que duramente aprendida, que acabamos por superar, cedo ou tarde, qualquer dificuldade...

Mas, o que acontece ainda, em nosso estágio, é que a dificuldade nos assusta, nos acovarda, nos retém, nos paralisa...

Deolindo Amorim, querido e ilustre espírita, afirmou certa feita: “raramente a vida nos oferece a oportunidade para sermos heróis; mas, todos os dias, para não sermos covardes”. E, se refletirmos com carinho sobre essa afirmativa, concordaremos plenamente com seu significado.

Uma das grandes dificuldades da nossa trajetória é hesitarmos em assumir responsabilidade; essa, no entanto, é atitude indispensável para o nosso crescimento, é a chave para abrirmos a “caixa preta” onde encerramos nossa capacidade de raciocinar, de discernir e de tomar o controle das nossas decisões, de utilizar a nossa mente de modo independente, vencendo assim a força do hábito da dependência, de imaginar ser possível alguém ou outrem, quem quer que seja, realizar nosso progresso espiritual, nossa felicidade.

Hoje, na verdade, já não podemos mais ou, pelo menos, não mais devemos, nos furtar a usar nosso pensamento para avaliar em profundidade e, de posse dos conhecimentos de que dispomos, ainda que iniciantes e precários, procurar fazer escolhas mais lúcidas e, consequentemente, provavelmente mais acertadas. Sabemos que hábitos, sobretudo os atávicos, milenares talvez, não são fáceis de serem abolidos, transformados em posturas que possam promover nossa renovação e libertação.

José Saramago escreveu: “vivemos para dizer quem somos”. Assim, títulos, poder autocrático, autoritarismos, arbitrariedades, convenções e convencionalismos não nos devem assustar porque aquilo que já conquistamos como seres pensantes da criação (LE q.76) – e é isso que somos – nos permite escolher, nos faculta não nos omitirmos, não nos “abafarmos”, não violentarmos os princípios morais e fraternos básicos impressos em nós pelo Criador, possibilitando-nos caminhar livremente e de forma mais tranquila e segura, senhores do nosso livre-arbítrio – mas logicamente sujeitos às consequências dessa opção, que certamente serão cada vez mais benéficas.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

QUANDO A VIDA TEM ROTEIRO: FATALIDADE, ESCOLHA E PLANEJAMENTO REENCARNATÓRIO

  Por Wilson Garcia Há perguntas que atravessam séculos com a mesma inquietação: existe destino? Somos conduzidos por um fio invisível que determina o fim de nossa história, ou caminhamos em terreno aberto, onde cada decisão pode alterar o curso dos acontecimentos? A questão 853 de O Livro dos Espíritos volta a frequentar esse debate com força. O texto descreve situações em que uma pessoa escapa de um perigo mortal apenas para cair em outro — e questiona: seria isso fatalidade? O termo, carregado de ressonâncias filosóficas e religiosas do século XIX, parece sugerir um destino inflexível.

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

TRÍPLICE ASPECTO: "O TRIÂNGULO DE EMMANUEL"

                Um dos primeiros conceitos que o profitente à fé espírita aprende é o tríplice aspecto do Espiritismo – ciência, filosofia e religião.             Esse conceito não se irá encontrar em nenhuma obra da codificação espírita. O conceito, na realidade, foi ditado pelo Espírito Emannuel, psicografia de Francisco C. Xavier e está na obra Fonte de Paz, em uma mensagem intitulada Sublime Triângulo, que assim se inicia:

UM POUCO DE CHICO XAVIER POR SUELY CALDAS SCHUBERT - PARTE II

  6. Sobre o livro Testemunhos de Chico Xavier, quando e como a senhora contou para ele do que estava escrevendo sobre as cartas?   Quando em 1980, eu lancei o meu livro Obsessão/Desobsessão, pela FEB, o presidente era Francisco Thiesen, e nós ficamos muito amigos. Como a FEB aprovou o meu primeiro livro, Thiesen teve a ideia de me convidar para escrever os comentários da correspondência do Chico. O Thiesen me convidou para ir à FEB para me apresentar uma proposta. Era uma pequena reunião, na qual estavam presentes, além dele, o Juvanir de Souza e o Zeus Wantuil. Fiquei ciente que me convidavam para escrever um livro com os comentários da correspondência entre Chico Xavier e o então presidente da FEB, Wantuil de Freitas 5, desencarnado há bem tempo, pai do Zeus Wantuil, que ali estava presente. Zeus, cuidadosamente, catalogou aquelas cartas e conseguiu fazer delas um conjunto bem completo no formato de uma apostila, que, então, me entregaram.

“CANALHA! CANALHA! CANALHA!”: O GRITO DE INDIGNAÇÃO CONTRA A CANALHICE ESTRUTURAL BRASILEIRA

    Por Jorge Luiz     O Grito da Canalhice: Uma Definição Multifacetada             “Assim sendo, declaro vaga a Presidência da República.” Com essas palavras,  o presidente do Senado, Auro Moura Andrade, anunciou a um tumultuado Congresso Nacional, na madrugada do dia 2 de abril de 1964, que João Goulart não era mais o presidente do Brasil. Jango estava em Porto Alegre. Na gritaria que se seguiu à fala de Auro, o deputado Almino Afonso ouviu Tancredo Neves, líder do governo na Câmara, gritar: “Canalha! Canalha! Canalha”. A frase é frequentemente citada por outros políticos em momentos de crise, como fez o senador Roberto Requião, em 2016, durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff, evocando a memória do ato de Moura Andrade e a reação de Tancredo.

ALUCINAÇÃO - UMA REVISÃO EM KARDEC

  Todas as vezes que me sento diante do computador para escrever algum artigo, penso seriamente naquilo que seria possível para mim, mas que, antes de tudo, poderia despertar algum sentido mais profundo para os que me leem. Naturalmente, a minha pretensão é grande, pois reconheço a minha pequenez para tal, no entanto, parto do princípio de que, se possível, eu possa escrever sobre um assunto que não seja corriqueiro. Entretanto, como psiquiatra, não consigo fugir muito aos assuntos ligados ao dia-a-dia da minha experiência profissional. Portanto, escolhi mais uma vez abordar um tema voltado à questão patológica: a alucinação. Contudo, desta vez, mais do que nunca, o meu referencial é Kardec.

A FARSA DA HISTÓRIA NO CENTRO DO CAPITAL: "ONDE DORMIRÃO OS POBRES?"

    Por Jorge Luiz OS RECENTES EVENTOS NA VENEZUELA ANTECIPARAM A POSTAGEM DESTE ARTIGO, QUE JÁ ESTAVA CONCLUÍDO, MAS QUE AGORA SE TORNA AINDA MAIS NECESSÁRIO.   De Reagan a Leão XIV: A Batalha pelo Cristianismo de Libertação Espero que Karl Marx esteja enganado quando afirmou que a história se repete “duas vezes” ao filósofo alemão Hegel, mas adicionou a sua própria conclusão sobre o caráter da repetição. A tragédia é o evento original, a farsa é a sua repetição, mas com uma diferença. A primeira versão é um evento dramático, enquanto a segunda é uma imitação que, apesar de ridícula, pode não ser menos prejudicial. A frase é a chave para analisar a crise social e geopolítica contemporânea.             A questão que se repete nos tempos atuais é o Império Americano e o Cristianismo de Libertação, cunhado por Michael Lövi, que antes chamava Teologia de Libertação. A arena escolhida é a América Latina, hoje ma...

PLATÃO E O ESPIRITISMO

  Por Jerri Almeida A filosofia nas suas origens gregas buscou interpretar o enigma da vida numa dimensão gnoseológica e ontológica. Das interpretações míticas iniciais, aos vôos consideráveis da razão, os filósofos gregos ampliaram os modelos explicativos da vida e da própria natureza humana.

EDUCAÇÃO CONTRA A VIOLÊNCIA

  Por Doris Gandres Atualmente somos bombardeados com notícias de violências de todos os tipos, crimes dos mais inesperados aos mais chocantes; violações de toda ordem; maus tratos até de familiares; guerrilhas de facções; confrontos entre policiais e bandidos; milícias clandestinas pretensamente justiceiras... E a violência mais covarde, a violência moral, encoberta por títulos e cargos que deveriam ser honrados por seus titulares, mas que lhes servem de ferramenta de abuso e exploração indébita... E existe ainda outra violência: a imposição de um sistema exacerbado de consumo, gerando uma escala de valores deturpada, onde o homem vale pela roupa de marca, pelo carro importado, pelo cartão bancário, pelo título, pelo poder através de seu cargo, de suborno, chantagem, ou pelo medo que espalha...