Pular para o conteúdo principal

O ETERNO ÓDIO PELO DIFERENTE

 

Por Mário Portela (*)

Foi durante uma exposição de cães. Havia representantes de diversas linhagens, cores e pelagens. Todos estavam belos.

Um Foxhound Inglês, aproveitando a presença de todos, indagou:

- Vocês não acham um absurdo termos que dividir a festa com gatos? Nós somos superiores a eles.

O Spitz Alemão, todo imponente e envaidecido com seu pelo escovado, disse:

- Vamos persegui-los. Gatos jamais serão como cães. Nós somos os mais inteligentes, temos habilidades e servimos fielmente ao homem.

Um Afghan Hound, aparentando nobreza, elegância, forte expressão "oriental" e imponência, pronunciou-se: - É realmente um absurdo! Não devemos tolerar tal insulto.

Nesse momento, fez-se barulho no recinto. Todos os cães estavam dominados pela raiva gratuita contra os gatos. Um Rottweiler babava de tão revoltado. Só pensava em como destruir a espécie “adversária”.

Foi quando, em meio aos latidos e uivos, um cão se pronunciou. Era um vira-lata. Estava ali não para ser exposto, mas para tentar ser adotado. Com ar de serenidade e sofrimento, o cãozinho disse:

- Por que odiamos os gatos? Não são eles serem vivos como nós? Não fazemos parte de um mesmo Criador? Ademais, eles nem concorrem conosco, muito menos fazem parte da nossa cadeia alimentar. Penso que podemos ser fraternos com todos e aprendermos juntos.

Fez-se silêncio no recinto. Aproveitando, o vira-lata bradou:

- Se cultivamos o ódio e a indiferença pelas demais espécies, não somos dignos do posto que desfrutamos por natureza: o de amigo sincero e dedicado.

 ***

A questão da sexualidade permanece como tabu em nossa sociedade. Quando o assunto é sexo, tratamos a questão como algo delicado, e em nossa cultura, coisas delicadas são complicadas para serem analisadas. Por trás dessa ideia desculpista, presa a eufemismos, surge o preconceito, filho dileto de um puritanismo velado e hipócrita alimentado pela mente atrofiada das religiões. Certamente, não é, e nunca será, fugindo da realidade que entenderemos a diversidade de comportamentos ligados ao sexo.

Nossos padrões de entendimento da sexualidade encontram-se ultrapassados e, por conseguinte, não atentem mais à demanda do ser pensante. É preciso, pois, que quebremos os paradigmas religiosos, guiados por dogmas e crenças, e passemos a analisar a questão à luz do entendimento científico, capaz de promover o esclarecimento através do conhecimento intelectual. No passado, os papéis sexuais eram presos, e qualquer pessoa que ousasse a sair do trilho era considerada como portadora de desvios de conduta e pecadora. Isso castrava mentalmente os indivíduos que, invadidos pelo medo, não questionavam seus direitos.

Assim como os cães da crônica, muitas pessoas se acham superiores e donas da verdade pela simples condição de serem heterossexuais e optam por renegar a homossexualidade, alegando que esse seguimento alimenta a devassidão no mundo.

Não se foge à realidade daquilo que se sente na intimidade, no imo do próprio ser. Leis puritanas excluem e maltratam os seres. O psiquiatra suíço Carl Gustav Jung entendia que “não se pode mudar aquilo que interiormente não se aceitou. A condenação moral não liberta; ela oprime e sufoca. Se eu condeno alguém, não sou seu amigo e não compartilho de seus sofrimentos, sou o seu opressor.”(1)

Jesus nos pede, através de sua postura doce e serena, que amemos uns aos outros assim como Ele nos ama (João 13:34). Ele não espera papéis preestabelecidos, mas sim, que homem e mulheres O revivam por intermédio de experiências íntimas, pouco importando o gênero e/ou identidade sexual, já que o primordial é que sejamos humanos, unidos pela força benfazeja do amor. A sabedoria do evangelho nos convida à renovação diária de consciência, a fim de que desenvolvamos o respeito mútuo.

O primatólogo Frans de Wall, maior referência no campo cientifico na área, narra em sua obra que “a homossexualidade, em vez de ser uma “ preferência”, como alguns conservadores afirmam com segurança, ocorre de modo natural para certos indvíduos; é inerente a quem eles são. Em certas culturas são livres para expressá-la; em outras, precisam ocultá-la. Como não existe povo sem cultura, é impossível saber como se manifestaria a nossa sexualidade na ausência dessas influências sócio-culturais incutidas ao logo dos tempos.” (2)

O comportamento homofóbico de alguns religiosos gera graves feridas sociais, por serem movidos por uma violência gratuita e envoltos em uma enorme crueldade. Gays e lésbicas são de três a sete vezes mais propensos a cometerem suicídio. A cada cinco horas um adolescente homossexual se mata. Para cada adolescente que tira sua vida, há outros vinte que tentam o mesmo. Um dos principais motivos dessa fatalidade é a questão religiosa. Incompreendidos, sentem que não há lugar para eles perto de Deus, porque nós, enquanto pais, amigos, irmãos, líderes espirituais, os afastamos desse Deus criado a nossa imagem e totalmente antagônico ao Pai ensinado por Jesus. O jovem cresce vivendo o conflito com o mundo que o cerca, gerando um sentimento de aversão a si mesmo, criando dentro si um ambiente composto de julgamento e condenações. O medo de serem excluídos do convívio daqueles a quem mais ama os leva à ensandecida atitude de atentar contra a própria vida.

Se existe alguém doente, esse alguém é aquele que vive incapaz de perceber que, mesmo diferentes, podemos ser irmãos, unos. Essa unidade é o que nos conecta ao divino. Respeito é o mínimo que o cristão deve ter, se quiser ser como o Cristo. Infelizmente, há muitos cristãos sem Cristo. Temos muito a aprender com a história de vida dos outros. Mesmo as mais diferentes podem nos dar lições grandiosas.

É preciso compreender que a fé cega nos mantém de mente fechada e que o amor é incapaz de florescer em terreno tão árido. A intolerância e o preconceito têm origem na ignorância. Calcula-se que quase metade das espécies vivas no planeta vai além das conhecidas categorias de macho e fêmea. Homossexuais, assim como heterossexuais e demais orientações, são obra do próprio Deus e filhos de um mesmo Pai.

Podemos comparar a intolerância à diversidade ao preconceito que existia, e ainda vigora, contra as mulheres, os negros, os canhotos, os bruxos e cientistas. Quantos foram mortos, perseguidos e torturados por nossa ignorância? Existem culturas, ainda hoje, que não permitem que as mulheres menstruadas rezem para Deus, pois acreditam que, nessa fase, estão imundas. Esquecem que quem criou a mulher com a condição de menstruar foi Deus. Por ignorância, defendíamos que os negros eram animais sem alma, somente para justificar a nossa pequenez de escravizar e dominar o semelhante. Na ignorância, a Igreja Católica sustentou por mais de mil anos que todo canhoto havia sido criado pelo diabo e que todo e qualquer canhoto era mau e diabólico. Então, o caminho da mão esquerda seria o caminho para o inferno, e com isso pessoas morreram nas fogueiras pelo simples fato de apresentarem um controle motor mais fino com a mão esquerda, indicando um predomínio do hemisfério direito sobre o esquerdo do cérebro.

As pessoas satisfeitas, felizes com elas mesmas e que entendem a mensagem de paz proveniente de Jesus, não são intolerantes, nem preconceituosas. Elas vivem bem e deixam os outros viverem. A proposta renovadora do Messias revela sua força em derrubar todos os preconceitos. Jamais se deixou contaminar pelo preconceito vigente em sua época, soube desfazer os equívocos das normas arcaicas do sinédrio, bem como dos ataques vis dos fariseus e escribas.

Diante do exposto, deixo ao leitor as seguintes interrogações: nossa religião está derrubando preconceitos, ou continua a propagá-los? Como muito bem ponderou o cãozinho vira-lata da crônica: se cultivarmos o ódio e a indiferença pelos demais da espécie, somos dignos do posto de amigo sincero e dedicado do Mestre Jesus?

Ab imo pectore!

 

(*) Nossas boas vindas ao confrade Mário Portela, integrado ao movimento espírita em Recife, Pernambuco, novo colaborador do nosso blog. Mário é psicólogo e pedagogo.

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

16.11 - DIA INTERNACIONAL DA TOLERÂNCIA

“Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.” (Jesus, Mt, 22:34-40)                            John Locke (1632-1704), filósofo inglês, com o propósito de apaziguar católicos e protestantes, escreveu em 1689, Cartas sobre a Tolerância. Voltaire (1694-1778), filósofo iluminista francês, impactado com o episódio ocorrido em 1562, conhecido como Massacre da Noite de São Bartolomeu , marcado pelos assassinatos de milhares de protestantes, por fiéis católicos, talvez inspirado por Locke, em 1763, escreveu o Tratado sobre a Tolerância.             Por meio da  UNESCO¹, em sua 28ª Conferência Geral, realizada de 25.10 a 16.11.1995, com apoio da Carta das Nações Unidas que “declara a necessidade de preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra,...a reafirmar a fé nos direitos fundamentais do homem, na dignidade e...

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

EXPRESSÕES QUE DENOTAM CONTRASSENSO NA DENOMINAÇÃO DE INSTITUIÇÕES ESPÍRITAS

    Representação gráfica de uma sessão na SPEE (créditos: CCDPE-ECM )                                                     Por Jorge Hessen     No movimento espírita brasileiro, um elemento aparentemente periférico vem produzindo efeitos profundos na percepção pública da Doutrina Espírita. Trata-se da escolha dos nomes das instituições.  Longe de constituir mero detalhe administrativo ou expressão cultural inofensiva , a nomenclatura adotada comunica valores, orienta expectativas e, não raro,  induz a equívocos graves quanto à natureza do Espiritismo . À luz da codificação kardequiana, o nome de um centro espírita jamais é neutro; ele é, antes, a primeira  síntese doutrinária oferecida ao público . Desde sua origem, o Espiritismo foi definido por Allan Kardec como uma doutrina de tríplice aspecto...

ENCANTAMENTO

  Por Doris Gandres Encanta-me o silêncio da Natureza, onde, apesar disso, com atenção, podem-se perceber ruídos sutis e suaves cantos, quase imperceptíveis, das folhas e das aves escondidas. Encanta-me o silencioso correr dos riachos e o ronco contido de pequenas quedas d’água.

O ESTUDO DA GLÂNDULA PINEAL NA OBRA MEDIÙNICA DE ANDRÉ LUIZ¹

Alvo de especulações filosóficas e considerada um “órgão sem função” pela Medicina até a década de 1960, a glândula pineal está presente – e com grande riqueza de detalhes – em seis dos treze livros da coleção A Vida no Mundo Espiritual(1), ditada pelo Espírito André Luiz e psicografada por Francisco Cândido Xavier. Dentre os livros, destaque para a obra Missionários da Luz, lançado em 1945, e que traz 16 páginas com informações sobre a glândula pineal que possibilitam correlações com o conhecimento científico, inclusive antecipando algumas descobertas do meio acadêmico. Tal conteúdo mereceu atenção dos pesquisadores Giancarlo Lucchetti, Jorge Cecílio Daher Júnior, Décio Iandoli Júnior, Juliane P. B. Gonçalves e Alessandra L. G. Lucchetti, autores do artigo científico Historical and cultural aspects of the pineal gland: comparison between the theories provided by Spiritism in the 1940s and the current scientific evidence (tradução: “Aspectos históricos e culturais da glândula ...

ESSENCIALMENTE EDUCATIVO

  Por Orson P. Carrara A Doutrina Espírita é essencialmente educativa. Seu objetivo é a melhora moral de todos aqueles que se conectam ao seu inesgotável conteúdo, sempre orientativo e luminoso. Aliás, como indicou o próprio Codificador do Espiritismo, Allan Kardec, no comentário acrescentado à resposta da conhecida e sempre comentada questão 685-a de O Livro dos Espíritos, referindo-se a um elemento capaz de equilibrar as relações sociais e seus desdobramentos nos diversos segmentos com suas especificações próprias: “(...) Esse elemento é a educação, não a educação intelectual, mas a educação moral. Não nos referimos, porém, à educação moral pelos livros e sim à que consiste na arte de formar os caracteres, à que incute hábitos, porquanto a educação é o conjunto dos hábitos adquiridos. (...)”

SILÊNCIO, PODER E RESPONSABILIDADE MORAL: A JUSTIÇA ESPÍRITA E A ÉTICA DA PALAVRA NÃO DITA

  Por Wilson Garcia   Há silêncios que protegem. Há silêncios que ferem. E há silêncios que governam. No senso comum, o ditado “quem se cala consente” traduz uma expectativa moral básica: diante de uma interpelação legítima, o silêncio sugere concordância, incapacidade de resposta ou aceitação tácita. O direito moderno, por sua vez, introduziu uma correção necessária a essa leitura, ao reconhecer o silêncio como garantia individual — ninguém é obrigado a produzir provas contra si. Trata-se de um avanço civilizatório, pensado para proteger o indivíduo vulnerável frente ao poder punitivo do Estado. O problema começa quando esse direito — concebido para a assimetria frágil — é apropriado por indivíduos ou instituições fortes, que não se encontram em situação de coerção, mas de conforto simbólico. Nesse contexto, o silêncio deixa de ser defesa e passa a ser estratégia. Não responde, não esclarece, não corrige — apenas espera. E, ao esperar, produz efeitos.

FÉ E CONSCIÊNCIA DE CLASSE: UMA ANÁLISE SOCIOLÓGICA DA LUTA ENTRE OPRESSORES E OPRIMIDOS NOS EVANGELHOS.

    Por Jorge Luiz   Para Além do Chão da Fábrica: A Luta de Classes na Contemporaneidade Até hoje, a história de todas as sociedades é a história das lutas de classes. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor feudal e servo, mestre de corporação e aprendiz; em resumo, opressores e oprimidos, estiveram em constante antagonismo entre si, travando uma luta ininterrupta, ora aberta, ora oculta — uma guerra que terminou sempre ou com uma transformação revolucionária de toda a sociedade ou com a destruição das classes em luta. Assim, Karl Marx e Friedrich Engels iniciam o desenvolvimento das ideias que comporão o Manifesto do Partido Comunista (Marx & Engels, ebook). As classes determinadas por Marx – burguesia e proletariado – não surgem de um tratado sociológico, são consideradas a partir das relações da reprodução da forma da mercadoria, frente os antagonismos e as contradições entre os opressores e oprimidos, a partir da apropriação do excedente da produç...

REFLEXÕES ESPÍRITAS SOBRE A SELEÇÃO FRANCESA DE FUTEBOL

  Arte sobre foto de François Xavier Marit AFP A Terra vive atualmente uma das crises migratórias mais grave da sua história. E esse número de imigrantes sempre está relacionado com guerras, crise econômica, direitos cerceados pelo poder local ou forças dominantes. Segundo dados estatísticos, anualmente, cerca de 200 milhões de pessoas se deslocam de um país para outro. A seleção francesa, campeã do mundo nesta copa, tem em seu time bi-campeão, 17 jogadores sendo imigrantes e filhos de imigrantes. É uma mensagem muito significativa nesses tempos de xenofobia extrema na Europa e das políticas anti-imigração para aqueles que as defendem. É uma seleção multicultural e multiétnica.