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FÉ INABALÁVEL E RAZÃO - O SIGNIFICADO DE RELIGIÃO PARA ALLAN KARDEC - PARTE IV

 


4 - UMA NOVA RELIGIÃO EM PARIS

        Apesar de Kardec não ter tido a pretensão de criar uma religião, desde o princípio muitos ao seu redor encaravam o Espiritismo dessa forma, inclusive a Igreja Católica. Em 13 de abril de 1859, o Abade de Chesnel publicou no jornal L’Univers um artigo intitulado “Une religion nouvelle à Paris”, em que o mesmo tratava do Espiritismo como uma religião.

        Em resposta, Kardec publicou na Revista Espírita de Maio de 1859 um artigo fazendo questão de esclarecer as atividades e objetivos das reuniões da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, deixando claro a sua característica não ritualística e descaracterizando-a como religião:

“[...] a denominação Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas não se assemelha ao de nenhuma seita; tão diferente é o seu caráter que seu estatuto proíbe tratar de questões religiosas; está classificada na categoria das sociedades científicas, porque, com efeito, seu objetivo é estudar e aprofundar todos os fenômenos que resultam das relações entre os mundos visível e invisível; tem seu presidente, seu secretário e seu tesoureiro, como todas as sociedades; não convida o público às suas sessões; ali não se faz nenhum discurso, nem coisa alguma que tenha o caráter de um culto qualquer. Conduz os seus trabalhos com calma e recolhimento, primeiro porque é uma condição necessária para as observações e, segundo, porque sabe que devem ser respeitados aqueles que não vivem mais na Terra. Ela os chama em nome de Deus porque crê em Deus, em sua Onipotência e sabe que nada se faz neste mundo sem a sua permissão. Abre as sessões com um apelo geral aos Espíritos bons, uma vez que, sabendo que os há bons e maus, cuida para que estes últimos não venham se misturar fraudulentamente nas comunicações que recebe e induzi-la em erro. O que prova isso? Que não somos ateus; mas de modo algum implica que sejamos partidários de uma religião. (KARDEC, [1859]/(2007a), p. 206).”

 

        Aqui há de se pontuar que ele havia dito que o Espiritismo “não é uma religião constituída, visto que não tem culto, nem rito, nem templos, e que, entre seus adeptos reais, nenhum tomou o título de sacerdote ou de sumo sacerdote” (KARDEC, 2016, p. 232). Até aqui temos que ponderar que “cultos” e “ritos”, para Kardec, se encaixam no que Geertz classifica como ritual:

“[...] ritual – isto é, [...] comportamento consagrado – que se origina, de alguma forma, essa convicção de que as concepções religiosas são verídicas e de que as diretivas religiosas são corretas. É em alguma espécie de forma cerimonial – ainda que essa forma nada mais seja que a recitação de um mito, a consulta a um oráculo ou a decoração de um túmulo. (GEERTZ, 1978, p. 82).”

 

Outra questão relevante é que o mesmo já havia demonstrado no passado a sua intenção de trazer esclarecimentos que pudessem acabar com as disputas religiosas e suas dissenções:

 

Nascido na religião católica, mas estudando em um país protestante, os atos de intolerância a que foi submetido por este motivo lhe fizeram conceber desde a idade de 15 anos, a ideia de uma reforma religiosa, na qual trabalhou em silêncio durante longos anos, com a intenção de chegar à unificação das crenças. Contudo, faltava-lhe o elemento indispensável para a solução deste grande problema. O espiritismo, mais tarde, veio fornecer-lhe e imprimir uma direção especial a seus trabalhos. (LACHÂTRE, 1867, p. 199).

 

Kardec teve sua formação como pedagogo no famoso Instituto de Pestalozzi em Yverdon, na Suíça. Esse instituto, apesar de ter em seu quadro professores luteranos e calvinistas, procurava manter-se distante das querelas e paixões religiosas. Dava à Bíblia valor relativo e não demonstrava fervor às lições de catecismo (WANTUIL, 1984, p. 69). Aliás, enquanto discípulo de Jean Jacques Rousseau, acreditava em:

 

[...] uma religião natural, emancipada de rituais, hierarquias e dogmas. Princípios universais, imanentes à natureza humana, como a crença em Deus, na imortalidade da alma, na prática do bem constituiriam o fundamento de uma religião sem nome, individual, e muito mais orientada para a ética do que para o culto. (INCONTRI, 2001, p. 71).

 

Tais pensamentos, por sua vez, são facilmente encontrados nas obras do Professor Rivail, bem como na sua obra como Allan Kardec.

Por conta da postura em relação ao ensino da religião, o Instituto de Pestalozzi sofreu diversos ataques externos e internos. Mais de uma vez teve que rebater, por meio da imprensa, imputações inverídicas a respeito do ensino religioso no instituto. Internamente teve embates de cunho religioso com seu administrador Johannes Niederer, que chegou a fazer declarações embaraçosas junto aos seus alunos, particularmente nas comemorações do Pentecostes de 1817, como registra a história do instituto. A maneira de pensar aceitando o cristianismo, mas rejeitando os dogmas e as suas formas, foi citada por mais de um de seus biógrafos, como James Guillaume (1844-1916) e Gabriel Compayré (1843-1913). Compayré disse: “Não lhe perdoavam por contentar-se com uma religião natural, com um deísmo filosófico à Rousseau, com um cristianismo racionalista.” (WANTUIL, 1984, p. 70).

        Na contramão do método pestalozziano, Rivail viu o nascimento de uma vivificação da fé protestante, denominada “réveil” e que pregava uma teologia estreita e opressiva, a qual pretendia anular o livre arbítrio e a tentativa do ser humano de trabalhar a sua própria santificação. Os adeptos deste movimento, o “réveil”, chegaram a afirmar que Pestalozzi não era verdadeiro cristão e tentaram, a todo custo, impor ao fundador do instituto sua forma de pensar acerca do seu método de ensino religioso. (WANTUIL, 1984, p. 70).

        Kardec demonstra seu incômodo com as disputas religiosas da seguinte forma:

 

[...] se a religião devesse ser destruída pelo Espiritismo, é que ela seria destrutível e o Espiritismo mais poderoso. Afirmá-lo seria falta de habilidade, porquanto seria confessar a fraqueza de uma e a força do outro. O Espiritismo é uma doutrina moral que fortalece os sentimentos religiosos em geral e se aplica a todas as religiões; é de todas, e não pertence a nenhuma em particular. (KARDEC, [1862]/(2007b), p. 62 e 63).

 

Na citação acima fica clara a necessidade de Kardec de trazer, portanto, uma harmonização entre os sentimentos religiosos, e evidencia que não era, então, sua intenção instituir uma nova religião.

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