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JESUS PARA O ESPIRITISMO

 

Imagem de Chil Vera por Pixabay

  Por Marcelo Henrique

Jesus foi um homem “normal” e “comum”, em relação às suas características físicas, isto é, materiais-corporais. Sua distinção em relação aos demais homens (daquele tempo e até hoje), evidentemente, pertence ao plano moral, das virtudes e das características egressas de sua progressividade espiritual.

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Toda tentativa de analisar o personagem Jesus sob a ótica espírita principia pelo questionamento de Kardec aos Espíritos, aposto no item 625, de “O livro dos Espíritos”, sobre o modelo ou guia para a Humanidade planetária. A resposta, na competente tradução do Professor Herculano Pires é “Vede Jesus”. Obviamente, não estamos falando de Jesus Cristo, o mito inventado pela religião cristã oficial (Catolicismo) e reproduzido por todas as que lhe sucederam no tempo, um ser meio homem meio divino, filho único (?) de Deus ou integrante do dogma da Santíssima Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo), como apregoam as liturgias.

Falamos do homem, cujos registros físicos (históricos) ainda são mínimos, mas que teria vivido há pouco mais de dois mil anos, no Oriente Médio, dono de uma filosofia de vida própria e que marcou a história humana ao ponto de dividi-la entre antes e depois de sua passagem. Yeshua bar Yosef (Jesus filho de José), conhecido como Jesus de Nazaré: este o seu nome. Mas é este o Jesus apresentado nas instituições espíritas? É este o Jesus referenciado nas obras pós-kardecianas, sobretudo aquelas de origem mediúnica? Cremos que não! Há uma diferença muito grande entre a realidade e a imagem que foi construída ― muito fortemente em função da influência das religiões de matiz cristã sobre o arquétipo coletivo.

Alguns dos problemas mais graves na abordagem “espírita” de Jesus já principiam pela gravidez de Maria (dita Santíssima pela tradição religiosa e, portanto, submetida a uma gestação sem ato sexual, sob a interferência do Espírito Santo), o que levou à consideração de que o carpinteiro seria um agênere, posto que detentor de um corpo não-físico, mas fluídico, porquanto não teria ele suportado as dores e lacerações a que foi submetido, na paixão e crucificação.

Tais teorias nunca seriam concordes à Filosofia Espírita, porque representariam a negação dos mínimos princípios ou fundamentos básicos espiritistas. Maria e José, tidos como pais de Jesus, tiveram um relacionamento normal ― como o de qualquer casal ― e Jesus, inclusive, teve vários irmãos, sendo, ele, o primogênito da prole (vide a passagem “Quem são minha mãe e meus irmãos”, a propósito). De uma gestação, portanto, natural e “normal”, decorreu um corpo físico muito parecido com o nosso, guardadas as proporções decorrentes do distanciamento temporal entre os nossos dias e os de dois milênios atrás.

Como a fábula cristã enquadra situações aparentemente sobrenaturais (como diversas passagens evangélicas relacionadas aos feitos de Jesus e, também, todo o tétrico relato das torturas a que teria sido submetido desde sua prisão, no Horto das Oliveiras até sua crucificação no Gólgota), muitas delas teriam sido construídas e moldadas pelos doutores da Igreja, interessados na construção de um super-homem, mítico e até mitológico, dotado de superpoderes ilimitados.

Jesus foi um homem “normal” e “comum”, em relação às suas características físicas, isto é, materiais-corporais. Sua distinção em relação aos demais homens (daquele tempo e até hoje), evidentemente, pertence ao plano moral, das virtudes e das características egressas de sua progressividade espiritual. Seu principal traço é o de uma moralidade bem acima da média da população terrena de todos os tempos conhecidos, daí porque os Espíritos o teriam sugerido como referência (não a única, fique bem claro!) para a esteira de progresso espiritual compatível com o nosso orbe (como já destacado de início, citando-se item específico da obra primeira, de Kardec).

Mas, ainda que distante da maioria dos homens em termos de moralidade, não deixou de “participar” da vida encarnada como a grande maioria de nós. Sentiu dores, sofreu decepções, alegrou-se com situações favoráveis, teve amigos e relacionou-se SIM sexualmente com uma mulher ― Myriam de Migdal, ou Maria Madalena ―, de cuja relação teria nascido uma criança, como, aliás, vários escritores, entre os quais, mais presentemente, Dan Brown, já referenciaram. Esta mulher, inclusive, participou das andanças do Carpinteiro, já como Pescador de Homens, compreendendo o percurso de seus ensinos, parábolas e conversações. Apesar da liturgia cristã afastar as mulheres, em geral, do “ministério” de Yeshua, nós a temos como um dos doze apóstolos, aqueles que seguiram de perto o personagem e que, depois, muitos deles, continuaram com a proposta da “Casa do Caminho”, nome poético para a organização de mulheres e homens em torno daquele homem.

Incrível é que, em muitas instituições espíritas, que deveriam se pautar pela “fé raciocinada”, pelo exame lógico de todas as situações e circunstâncias e pela abordagem livre e baseada nos princípios espíritas, se verifique um certo ar “pudico” quando o assunto vem à baila, como se uma (muito) provável experiência conjugal e sexual de Jesus de Nazaré pudesse diminuir o alcance de sua missão e papel perante os homens. Uma abstinência da simbiose energético-sexual não seria, nem de longe, “natural” e oportuna. Ademais, todos nós que, sob a esteira da dicção espiritual contida no item sublinhado da obra pioneira, nos espelhamos em Jesus para a construção de nossa senda evolutiva, ao buscarmos conhecer melhor o intercâmbio das relações humanas, sabemos que a sexualidade é um vértice de aprendizado espiritual e, antes de tudo, uma necessidade humana, rumo ao equilíbrio.

Mas há os que, não tão ingenuamente, pensam o contrário e tentam “importar” para o Espiritismo visões que pertencem aos dogmas das igrejas. Estes ainda não compreenderam a essência do próprio Espiritismo, que interpreta muitos dos atos, feitos e ditos atribuídos a Yeshua. Espera-se que, um dia, o compreendam!

 

 

Nota do ECK: Artigo originariamente publicado no descontinuado site “A Era do Espírito” e republicado em “Espiritualidade e Sociedade”.

 

Comentários

  1. COMENTÁRIO ELABORADO POR INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - IA (GEMINI).
    O artigo defende a humanização de Jesus, separando o personagem histórico (Yeshua) do mito religioso.

    Os pontos centrais são:

    Natureza Humana: Jesus teria tido um corpo físico comum e nascimento natural, rejeitando teorias de corpos fluídicos ou divinos.

    Superioridade Moral, não Biológica: Sua distinção reside apenas em suas virtudes e evolução espiritual, servindo como guia ético, não como um deus.

    Quebra de Dogmas: O autor sustenta que Jesus teve irmãos e um relacionamento conjugal com Maria Madalena, criticando o "pudor" de certas instituições espíritas que ainda mantêm heranças católicas.

    Fé Raciocinada: Propõe um Espiritismo livre de misticismos, onde a sexualidade e as necessidades humanas são vistas como naturais e partes do aprendizado espiritual.

    Em suma, o texto busca desconstruir o "super-homem" bíblico para apresentar um modelo de perfeição possível e mais próximo da realidade humana.

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