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O CAMBURÃO E A FORMA-MERCADORIA: A ANATOMIA DE UMA EXCLUSÃO ÉTICA

 

 


 Por Jorge Luiz

 

A Estética do Terror

O racismo estrutural não é um ato isolado, mas uma relação social que estrutura o Brasil. Quando a sociedade aceita que "bandido bom é bandido morto", ela está, na verdade, validando que a vida de um homem negro periférico tem menos valor. Pesquisas indicam que, apesar de a maioria dos brasileiros reconhecer o racismo, a aplicação da frase seletiva perpetua desigualdades históricas de raça e classe, com a mídia e o sistema de segurança muitas vezes reforçando essa lógica.

Um caso chamou a atenção da sociedade brasileira, vista nos órgãos de imprensa e redes sociais, de D. Jussaara, uma diarista que foi presa e contida de forma violenta pela Polícia Militar na Avenida Paulista, em São Paulo, após ir ao local cobrar diárias de trabalho que não haviam sido pagas por antigos patrões. O caso gerou grande indignação nas redes sociais. A trabalhadora recebeu apoio e foi recebida no Palácio do Planalto após o ocorrido.

O militarismo brasileiro, herança do período sombrio da ditadura militar, em suas expressões mais sanguinárias como as atuais e presentes no Estado de São Paulo, revelam-se sempre diante das suas cada vez mais agudas contradições capitalistas. David Harvey, analisando essas contradições, afirma as oligarquias das classes capitalistas está conduzindo o mundo na mesma direção. Para atingir esses propósitos, o poder político se sustenta por uma vigilância, um policiamento e um policiamento militarizado. Essa violência, que se intensifica a cada dia e está sendo usado para atacar os que buscam o bem-estar das classes consideradas “substituíveis e descartáveis”. Segundo Harvey, testemunhamos a desumanização sistemática dessas pessoas; a arrogância e o desdém com que os abastados encaram os menos afortunados — mesmo quando rivalizam em gestos de caridade — são fatos notáveis da nossa condição atual. A “lacuna de empatia” entre a oligarquia e o resto do mundo é imensa: eles não sabem ouvir a dor do mundo porque não podem, nem vão, assumi-la voluntariamente.  

O caso da D. Jussara que inspira essas considerações, se formula, naturalmente, segundo Marx, quando o ser humano se torna mercadoria, na forma capitalista, ao vender sua forçam produtiva, em sendo comprada, demandará novos processos “forma-mercadoria”. Ao insurgir-se, cobrando os valores lhes devidos, nega a sua condição de coisa, exigindo respeito a sua dignidade como pessoa. O capitalista, portanto, não pune o crime, pois não existe na condição descrita, mas sim a condição do proletário que se recusa a ser coisa.

Neste cenário, é imperativo analisar a figura do policial através da lente marxista. Muitas vezes oriundo das mesmas camadas subalternas, o agente de segurança é recrutado e moldado como um “lumpemproletariado fardado”. Desprovido de consciência de classe e treinado na doutrina do inimigo interno, ele é a mão de obra proletária usada para esmagar o próprio proletariado. O sistema coloca o oprimido para algemar a oprimida, garantindo que a elite permaneça intocada em sua torre de marfim.

 

A Patologia da Elite: A Anatomia do Desligamento Ético

            É fato que a vida social dá direitos e impõe deveres recíprocos, a justiça, pois, consiste no respeito aos direitos de cada um, o próprio Jesus advertiu que: “Querer para os outros o que quereis para vós mesmos”. Deus pôs no coração do homem a regra de toda a verdadeira justiça, pelo desejo que tem cada um de ver os seus direitos respeitados, advertem os Espíritos (Kardec, 2000; Cap. XIX, Livro III).

            Tiago Muniz, adverte que aquilo que tolhe de forma cruenta, por completo a dignidade ontológica do ser humano que a natureza lhe compete, não é remanescente apenas como legado antigo e inacabado, na realidade a acepção da escravidão, em sua face mais pura e fiel, subjaz como uma característica inerente ao liame colonial-capitalista presente (2016).

            Singular e adequada a constatação de Jesse Souza, que a ao contrário da ordem antiga que a desigualdade a partir da ordem escravocrata que era definida por lugares visíveis e pelo fenótipo e pelo status de origem de modo mais claro possível, ela agora é opaca e não transparente aos indivíduos que atuam nela.

A análise da desigualdade social brasileira exige a superação da dicotomia entre classe e raça, compreendendo-as como fenômenos indissociáveis na manutenção da exclusão. Em sociedades de passado escravocrata, a marginalização econômica atua como uma extensão contemporânea da escravidão, onde o estigma de "periculosidade" recai majoritariamente sobre populações negras e mestiças.

Nesse contexto, o aparato estatal — especialmente a segurança pública — opera não como origem da violência, mas como braço executor de uma política de higienização urbana e controle social demandada pelas elites. Assim, a opressão sistemática transcende a mera disparidade de renda, configurando-se como uma estratégia selvagem para minar a dignidade e a resistência das classes subalternizadas, perpetuando padrões coloniais de dominação sob novas roupagens institucionais.

Conclui Souza, o excluído, majoritariamente negro e mestiço, é estigmatizado como perigoso e inferior e perseguido não mais pelo capitão do mato, mas, sim, pelas viaturas de polícia com licença para matar pobre e preto (2017).

            O que se revela nesse episódio é que a precarização do trabalho doméstico, sob a perspectiva crítica da economia do cuidado, é totalmente invisibilizada e desvalorizada, tratada como um “ativo” naturalizado, especialmente quando realizado por mulheres, A percepção do pagamento como “perda de capital”, em vez de obrigação ética, sustenta a precariedade e a desigualdade nas relações de trabalho (1).

Ao se recusar a pagar e, em vez disso, acionar a força militar, o patrão tenta reafirmar a condição de "coisa" da trabalhadora. A violência do camburão é a resposta patológica de uma classe que não suporta ver a "mercadoria" reivindicando sua condição de pessoa.

 

            O Braço Armado: A Alienação do Proletariado

O Imperador Luís Bonaparte, a pretexto de fundar uma sociedade beneficente para o lumpemproletariado de Paris — que passou a ser conhecida como a Sociedade de 10 de Dezembro —, criou, na realidade, um grupo paramilitar e uma claque política composta por desclassificados (vagabundos, ex-presidiários e rufiões), que funcionava como seu exército particular (Marx, 2017). Alienados, desempenhavam os papéis mais vis: desde superlotar as estradas de ferro improvisando públicos para urrar "Viva o Imperador", até insultar e espancar republicanos. Em suas viagens, formavam a guarda avançada encarregada de impedir ou dispersar qualquer manifestação contrária (Idem).

Engels, no desenvolvimento das suas ideias sobre A origem da família, da propriedade privada e do Estado, advoga que os atenienses também tinham um verdadeiro grupo de guardas a pé e a cavalo, contudo, esse corpo de guardas era constituído de escravos (2014).

Assim, o braço armado em todas as dimensões federativas, também recrutam, seguindo os exemplos acima, a partir daqueles que lhes dão a ideia de pertencimento, obviamente, por não terem consciência de classe, em uma sociedade estruturada em uma hierarquia de classes.

A manutenção do status quo exige o que Frantz Fanon classifica como a "mais sublime alienação": o esforço do opressor em persuadir o oprimido de que os interesses do capital são, na verdade, os seus próprios. No cenário brasileiro, essa mistificação atinge seu ápice na figura do policial militar de origem periférica. O sistema exige que esse agente seja "entusiasta" da repressão, convencendo-o de que o condomínio de luxo que ele guarnece é a extensão de sua própria propriedade, enquanto ignora que ele é apenas a ferramenta descartável de uma elite que enriquece com sua agonia.

A saída para essa patologia, como propõe Fanon, não reside em ordens vindas de cima, mas na reumanização do panorama através da base. Se a reunião da célula militar serve para o desligamento ético e a obediência cega, a práxis da Utopia Encarnada (Espírito) exige a criação de "células de base" onde as massas — incluindo os agentes alienados do Estado — possam se reunir, discutir e inventar.

A transformação da dor do "fato bruto" (o camburão) em combustível para a justiça real depende de multiplicarmos essas vias de associação cerebral. É necessário que o oprimido fardado descubra que a "causa pública deve ser a causa do público", e não a defesa do lucro alheio. Somente quando o cérebro humano recupera a capacidade de ouvir e dizer — o que Fanon chama de acto litúrgico de fala — é que o panorama se humaniza, permitindo que o proletário reconheça no rosto do "inimigo" a sua própria imagem refletida.

 

O Paradigma de Jesus vs. O Sistema

            A desigualdade social não se consolida em uma lei natural, elas são obras do homem e não de Deus,  nem tampouco as desigualdades das riquezas tem origem, totalmente, nas desigualdade das faculdades, como alguns sugerem ser verdade; que dizes da astúcia e do roubo? afirmam os Espíritos (Kardec, Q.808 e 808.a).

            Jesus se postou sempre contra o que se chama hoje de sistema. Seus ensinamentos são antissistema, os homens, entretanto, os transformaram em aparelho ideológico do Estado, a partir do Imperador Constantino, para servir à classe dominante. Judas equivocou-se em sua traição pontual; as religiões institucionalizadas, não. Elas o vendem diariamente, a cada hora e em todas as esquinas do Brasil, aprofundando as desigualdades e as injustiças, o que o Nazareno veio combater.

O Papa Francisco, em conversa com Javier Cercas, reconheceu que o problema do Vaticano é enfrentar o clericalismo, por entender que os clérigos estão acima dos fiéis, e dessa superioridade nasce toda a ordem de abusos. O desafio, entendia ele, é fazer voltar o Evangelho  à pobreza e à humildade que o Evangelho prega (2025). Esse é o problema crônico do institucionalismo religioso, o neopentecostalismo de então é prova viva e ridícula desse espectro. Aqui, é pertinente lembrar  que o único momento em que Jesus usou de virilidade foi quando reagiu ao templo, ao ser usado como tráfico financeiro, para em seguida condenar o sistema, o fazendo metaforicamente com a Figueira Estéril, que não produz o fruto da justiça. A "pobreza" citada por Francisco não é a miséria material imposta pelo capital, mas a simplicidade ontológica que permite ver o outro como irmão, e não como recurso. É o oposto da "patologia da elite". O sistema tira a virtuosidade de qualquer iniciativa.

            O resgate do Evangelho exige, portanto, o retorno à pobreza e à humildade — não como resignação, mas como despojamento das armas do sistema. O paradigma de Jesus convoca a uma "Utopia Encarnada", onde o trabalho da diarista não é uma mercadoria, mas uma expressão da dignidade do Espírito. Contra o sistema que tira a virtuosidade de tudo, Jesus propõe o "Marchem Comigo": uma práxis que transforma a indignação do fato bruto na coragem de construir o Reino agora.

 

O Cristianismo de Libertação: Da Indignação à Práxis

            Ernst Renan, via na Internacional dos Trabalhadores o espírito do cristianismo primitivo, hoje, o Cristianismo de Libertação é resultado da Comunidade Eclesial de Base (CEB) que enxerga na luta D. Jussara, a semente da mesma "seção local" que se recusa a aceitar a injustiça. É fácil de se compreender que o Cristianismo não nasceu nos palácios suntuosos ou sínodos clericais, nem mesmo em templos de mármore e granito, mas no chão da Galileia, comparativamente a hoje aos chãos das fábricas e dos enxugados pelas diaristas, como D. Jussara; é nesses espoliados pelos afortunados da terra que deverá surgir a semente que proclamará o reino de Deus na terra.

A conclusão deste percurso exige que abandonemos a passividade contemplativa em favor do que Michael Löwy (1991) define como Cristianismo de Libertação. Para Löwy, não se trata apenas de uma nova doutrina, mas de um movimento histórico que opera uma "afinidade eletiva" entre a fé cristã e a luta pela justiça social. Ao olharmos para o episódio da diarista, o Cristianismo de Libertação nos convoca a ver não apenas uma vítima, mas um sujeito político que, ao exigir o pagamento devido, desafia a lógica da mercadoria.

Diferente da "Figueira Estéril" das instituições que vendem Jesus para pacificar os oprimidos, o Cristianismo de Libertação atua como um fermento de subversão. Löwy destaca que a religião pode funcionar como um poderoso protesto contra a ordem estabelecida. No Brasil, essa tradição resgata a ideia de que a salvação não é um evento puramente extraterreno, mas uma libertação que começa na carne, no prato de comida e no respeito ao suor do trabalho doméstico.

Se a elite sofre de um "desligamento ético" e o braço armado de uma "alienação sublime", o Cristianismo de Libertação propõe o religamento. A fé, aqui, é o motor que quebra o fetichismo da mercadoria. Quando nos solidarizamos com a trabalhadora da Avenida Paulista, estamos realizando o que Löwy identifica como a transição da "fé individual" para a "práxis coletiva".

A resistência ao sistema não é apenas uma estratégia política, mas um imperativo da fé que se recusa a aceitar o camburão como o destino natural dos pobres. O chamado "Marchem Comigo" de Jesus ressoa, então, nas comunidades de base, nos sindicatos e nas ruas, transformando a dor do fato bruto na força histórica necessária para que a justiça não seja mais uma promessa, mas uma realidade encarnada.

 

 

 

Referências:

ALTHUSSER, Louis. Aparelhos ideológicos de estado. Rio de Janeiro; Paz e Terra, 2022.

CAVALCANTE, Tiago M. Sub-humanos - o capitalismo e a metamorfose da escravidão. São Paulo; Boitempo, edições Kindle, 2016.

CERCAS, Javier. O Louco de deus no fim do mundo. Rio de Janeiro; Record, 2025.

ENGELS, Friedrich. A Origem da família, da propriedade privada e do estado. Rio de Janeiro; BestBolso, 2014.

FENON, Franzt. Os condenados da terra. Lisboa; Ulisseia, 1961.

HARVEY, David. 17 contradições e o fim do capitalismo. São Paulo; Boitempo, edições Kindle (2016).

KARDEC, Allan. O Livro dos espíritos. São Paulo; LAKE, 2000).

LÖWI, Michael. Cristianismo de libertação. São Paulo; Fundação Perseu Abramo, 2016.

MARX, Karl. O Capital – Vol. I – São Paulo; Boitempo, edições Kindle.

_________   O 18 brumário de luis bonaparte. eBooksBrasil.com, 2001.

RENAN, Ernst. Vida de Jesus. São Paulo; Martin Claret, 1995.

SOUZA, Jessé. A Elite do atraso – da escravidão à lava-jato. Rio de Janeiro; Leya, 2017.

 

(1)https://www.observatoriodeseguranca.org/pesquisas-e-estudos/apropriacao-capitalista-do-trabalho-domestico-e-reprodutivo-nao-remunerado-da-dona-de-casa-sob-a-perspectiva-de-genero (24.04.2026)

 

Comentários

  1. O caso da diarista D. Jussara, violentamente contida ao cobrar seus direitos na Avenida Paulista, não é um fato isolado, mas o sintoma de uma patologia social profunda. Como o texto bem articula, vivemos sob uma "Estética do Terror", onde o racismo estrutural e a lógica capitalista tentam reduzir o ser humano à condição de mercadoria. Quando o trabalhador se insurge contra o calote, ele nega sua "coisificação" e exige sua humanidade — um ato que o sistema responde com o braço armado do Estado.

    É fundamental destacar a análise sobre a alienação do oprimido: o uso do "lumpemproletariado fardado" para reprimir seus próprios semelhantes revela como o sistema mantém as elites intocadas em suas "torres de marfim". A ponte estabelecida entre a crítica marxista e o Cristianismo de Libertação nos oferece a saída: a transição da indignação passiva para a práxis coletiva.

    Inspirados pelo exemplo de Jesus — que foi o primeiro a se opor ao sistema de opressão de sua época — e pelas vozes de intelectuais como Jessé Souza e David Harvey, somos convocados a romper o "desligamento ético" das elites. A luta por justiça não é apenas uma estratégia política, mas um imperativo espiritual e humanitário. É hora de transformar o "fato bruto" da violência em combustível para uma Utopia Encarnada, onde o trabalho seja expressão de dignidade, e não objeto de descarte.

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