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JESUS E A IDEOLOGIA SOCIOECONÔMICA DA PARTILHA

 

Por Jorge Luiz

 

            Subjetivação e Submissão: A Antítese Neoliberal e a Ideologia da Partilha

            O sociólogo Karl Mannheim foi um dos primeiros a teorizar sobre a subjetividade como um fator determinante, e muitas vezes subestimado, na caracterização de uma geração, isso, separando a mera “posição geracional” (nascer na mesma época) da “unidade de geração” (a experiência formativa e a consciência compartilhada). “Unidade de geração” é o que interessa para a presente resenha, e é aqui que a subjetividade se torna determinante. A “unidade de geração” é formada por aqueles indivíduos dentro da mesma “conexão geracional” que processam ou reagem ao seu tempo histórico de uma forma homogênea e distintiva. Essa reação comum é que cria o “ethos” ou a subjetividade coletiva da geração, geração essa formada por sujeitos.

            Tome-se que a etimologia da palavra sujeito é derivada do latim subjectus, que é o particípio passado do verbo subjicere, significando “colocar debaixo”, “submeter” ou “subordinar”. O processo de subjetivação não produz apenas subjetividades, leva necessariamente também a um quadro de submissão não de todo consciente (Casara, 2024).

            Portanto, a 'unidade de geração' se refere à constituição de uma uniformidade, uma padronização do modo de interpretar o fenômeno histórico social... (Silva & Neto, 2024). É fundamental compreender as influências do liberalismo e das religiões nesse processo, para que se compreenda o desvirtuamento dos propósitos dos ensinamentos de Jesus para atender a esse processo da subjetivação dos indivíduos. Na realidade, enquanto o liberalismo em sentido amplo é antigo, a sua versão neoliberal — que faz o sujeito se ver como uma empresa de si mesmo e se responsabilizar inteiramente pelo seu destino — se consolida na subjetividade das gerações.

            Já Karl Marx adotou uma compreensão parecida com a de Mannheim, afirmando que as ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes, isto é, a classe que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, sua força espiritual também. (Marx, 2007). Esses mecanismos possibilitam compreender a simbiose entre as classes dominantes e a ortodoxia religiosa na construção da ideologia capitalista.

 

Ideologia do Capital, uma verdadeira Hidra de Lerna (*)

“Meus heróis/Morreram de overdose/Meus inimigos/Estão no poder/Ideologia/Eu quero uma pra viver/Ideologia/Eu quero uma pra viver.” Os versos da canção “Ideologia”, autoria de Cazuza, foi composta e lançada em 1988. A beleza (e a verdade) do verso está em transformar a crise existencial em uma demanda poética. Ele não pede amor ou dinheiro, mas sim uma ideologia, elevando a necessidade de propósito a um desejo básico de sobrevivência. É uma obra-prima de sinceridade brutal.

Com isso, Cazuza afirma que os indivíduos necessitam ter uma visão de mundo, de poder, da política, social, e a partir dessas ideias e a afinidade com outras pessoas, é possível construir um coletivo na luta pelas transformações necessárias.

Para Karl Marx, o que realmente distingue os humanos dos animais não é apenas a consciência — como pregam alguns pensadores liberais ou tradicionais —, mas a condição material de produzir a própria existência, tanto material quanto espiritual. Somos o que produzimos e como produzimos.

 

O que é ideologia?

No contexto marxista, a Ideologia é a totalidade das formas de consciência social, mas é criticada sobretudo como um sistema de ideias (a ideologia burguesa) que tem a função de legitimar e sustentar o poder econômico e social da classe dominante. Ela é a raiz da qual se extrai a alienação e a teoria de que a consciência expressa o mundo de uma forma que corresponde à materialidade em que o ser humano está inserido. Para Marx, a ideologia é, fundamentalmente, a expressão de uma consciência que se alienou de si.

            A forma inicial da consciência é, portanto, a alienação, pois os seres humanos não se percebem como produtores da sociedade, transformadores da natureza, inventores da religião, mas julgam que há um alienus, um Outro (Deus, natureza, chefes) que definiu e decidiu a vida deles e a forma social em que vivem. Submetem-se ao poder que conferem a esse Outro e não se reconhecem como criadores dele, pois a alienação é a manifestação inicial da consciência; a ideologia será possível: as ideias serão tomadas anteriores às práxis, como superiores a ela, como um poder espiritual autônomo que comanda a ação material dos seres humanos.

A divisão social do trabalho se torna completa quando o trabalho material e o espiritual se separam (Chauí, 2025).

Essa separação ocorre quando um grupo de pessoas assume o trabalho espiritual (pensar, administrar, governar) e outro grupo assume o trabalho material (produzir, construir, executar). Isso aprofunda a alienação, pois quem trabalha não pensa a totalidade, e quem pensa não executa, torna a estrutura de poder e a ideologia ainda mais difíceis de serem questionadas. Aqui, irão surgir mecanismos, importantes para a ideologia se impor:

a) Ocultar e Silenciar: A ideologia age como uma forma de consciência intencionalmente oculta ou cria silêncios e lacunas na nossa percepção, impedindo-nos de enxergar as reais determinações econômicas e políticas por trás das aparências. Exemplo emblemático: “O mercado acordou nervoso”. Quem é o mercado que tem seu humor regulado pela oscilação da Bolsa de Valores ou do Dólar?

b) A ideologia inverte: A religião não faz o homem, mas, ao contrário, o homem faz a religião: este é o fundamento da crítica irreligiosa. A religião é a autoconsciência e o autossentimento do homem que ainda não se encontrou ou que já se perdeu. Mas o homem não é um ser abstrato, isolado do mundo. O homem é o mundo dos homens, o Estado, a sociedade, este Estado, esta sociedade engendram a religião, criam uma consciência invertida do mundo, porque eles são um mundo invertido (Marx, 2007). O reino de Deus é conquistado pelo povo sofrido, pela opressão imposta pelo mercado, e conquistarão esse reino além-túmulo, enquanto o mercado, as igrejas e seus eleitos vivem de forma nababesca usufruindo as riquezas produzidas pelos pobres e miseráveis, bem-aventurados por Jesus, que inaugurou o reino de Deus a ser realizado aqui na terra.

c) Naturalizar o Histórico: Um dos mecanismos mais poderosos da ideologia é fazer com que aquilo que é histórico e cultural pareça natural e imutável. Por exemplo, o sistema capitalista é apresentado não como uma invenção humana, mas como algo inerente à natureza da humanidade.

d) Justificativa (Defesa Laudatória): A ideologia é uma defesa elogiosa e uma justificativa para o status quo (aquilo que existe). Ela impõe a ideia de que a ordem social atual é a única possível: “É assim, porque assim deve ser.” O Estado tem sua etimologia no termo latino "status", que significa “condição”, “situação” ou “modo de estar”, o termo evoluiu de seu sentido inicial de “posição” ou “condição” para a noção moderna de uma organização política soberana com território, governo e leis, que se naturaliza como o regulador do “ódio de classes”. O Supremo Tribunal Federal é reconhecido por ter suas posições sempre favoráveis ao patronato e não aos trabalhadores.

e) Universalização: A ideologia apresenta aquilo que é particular (os interesses de uma classe) como se fosse universal (os interesses de todos). A classe burguesa, por exemplo, apresenta sua visão de mundo e seus valores — como o eurocentrismo — como se fossem a própria essência da humanidade.

Com tudo isso, surgem os Aparelhos Ideológicos de Estado (AIE) como certo número de realidades que se apresentam ao observador imediato sob as formas de instituições distintas e especializadas (religiosas, escolar, familiar, jurídica e a mídia hegemônica) que se diferem dos Aparelhos Repressivos de Estado (AE), o governo, a administração, o Exército, a polícia, os tribunais etc., que funcionam através da violência – ao menos em situações-limites, pois a repressão administrativa, por exemplo, pode se revestir de formas não físicas (Althuser, 2022). Aí se encontra toda a engrenagem que funciona a favor da Ideologia do Capital, forjando consciências para a exploração pela classe dominante. Nesse ponto, é determinante realçar o aparecimento da Teologia da Prosperidade que sufoca os valores do Reino insertos na Teologia da Libertação, isso, a partir de um entendimento do Governo americano e o Vaticano.

Essas particularidades, presentes as contradições, anacronismos e a violência que enseja na maioria da população do globo, a ideologia da forma de mercadoria se apresenta como uma verdadeira Hidra de Lerna, diante das crises sucessivas que produz e pela capilaridade, tais quais as cabeças da Hidra, se reinventam, sempre, produzindo misérias em seu entorno, destruindo sonhos e vidas, bem como uma legião de miseráveis e desgraçados.

           

Ideologia da Partilha a Partir da Leitura dos Evangelistas

            O comunismo é a doutrina das condições de libertação do proletariado. Já o proletariado é aquela classe da sociedade que tira o seu sustento única e somente da venda do seu trabalho e não do lucro de qualquer capital; aquela classe cujo bem e cujo sofrimento, cuja vida e cuja morte, cuja total existência dependem da procura do trabalho e, portanto, da alternância dos bons e dos maus tempos para o negócio, das flutuações de uma concorrência desenfreada, assim conceitua Friedrich Engels (Engels, 2013). O proletariado é a classe trabalhadora do Século XIX. Entretanto, classes pobres e trabalhadoras sempre houve; e as classes trabalhadoras eram, na maioria dos casos, pobres. Mas nem sempre houve estes pobres, estes operários vivendo nas condições que acabamos de assinalar, portanto, nem sempre houve proletários, do mesmo modo que a concorrência nem sempre foi livre e desenfreada (idem).

            No quesito propriedade privada, ela terá de ser abolida e, em seu lugar, estabelecer-se-á a utilização comum de todos os instrumentos de produção e a repartição de todos os produtos segundo acordo comum, ou a chamada comunidade de bens (idem).

            “Então eles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou estrangeiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos?  Então lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo que, quando a um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim (Jesus, Mt, 25:44-45).

             “Se você quer ser perfeito, vá, venda os seus bens e dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro nos céus. Depois, venha e siga-me” (Jesus, Mc, 19:22).

            Entre que tipo de gente se recrutavam os primeiros cristãos? Principalmente entre os “laboriosos e os fatigados”, pertencendo às mais baixas camadas do povo; tal como convém a um elemento revolucionário. E de quem se compunham essas camadas? Nas cidades, de homens livres decadentes, gente de toda a espécie, semelhantes aos “mean whites” dos Estados esclavagistas do Sul, aos aventureiros e aos vagabundos europeus das cidades marítimas coloniais e chinesas, depois de libertos, e, sobretudo, de escravos nos latifúndios da Itália, da Sicília e da África, nos distritos rurais das províncias, de pequenos camponeses cada vez mais dependentes pelas suas dívidas (Engels, 2011).

Os dois, o cristianismo como o socialismo operário, pregam uma libertação próxima da servidão e da miséria; o cristianismo transpõe essa libertação para o Além, numa vida depois da morte, no céu; o socialismo coloca-a no mundo, numa transformação da sociedade (idem).

Em vez de confortarem as pessoas que estão cheias de preocupações, cansadas pela vida difícil, e que vão à igreja com fé no Cristianismo, os padres fulminam os trabalhadores que estão em greve e os opositores do Governo; e ainda mais, exortam-nos a suportar a pobreza e a opressão com humildade e paciência. Transformaram a igreja e o púlpito num lugar de propaganda política (idem).

Existe uma tensão dialética notável entre as análises de Karl Marx sobre a exploração econômica e a alienação social e os preceitos éticos e solidários do cristianismo primitivo, personificados na figura de Jesus. Apesar dessa convergência em relação à crítica à opressão, o marxismo foi veementemente demonizado. Esse escrutínio implacável justifica-se, principalmente, por sua postura crítica à religião como 'ópio do povo' e pela sua fatídica instrumentalização histórica por parte de regimes de Estado autoritários.

Schumpeter, ao considerar Karl Marx como um “profeta” pois considera o marxismo como religião, considerando que ele implica um plano de salvação e a indicação do mal do qual a humanidade, ou uma parcelas escolhida da humanidade, há de ser salva. Podemos especifica ainda mais: o socialismo marxista pertence ao subgrupo que promete o paraíso no lado de cá do túmulo (Schumpeter, 2016).

            Perante as reflexões feitas, a partir daqui, já se permite entender que a ação dos AE e AIE, com notoriedade à religião, transformou a ideologia da partilha de Jesus em algo não realizável aqui e agora, para uma recompensa após a morte, demonizando o comunismo apresentado por Marx como solução para se alcançar uma sociedade tendo os ideais iluministas de igualdade, liberdade e fraternidade em suas bases. Assim, até os que se rotulam como cristãos agem e combatem aquilo que deveriam ser os parâmetros da sua fé. Aqui, também se inserem muitos espíritas que confundem o materialismo comportamental que o Espiritismo combate com o materialismo dialético ou científico de Marx.

            A Ideologia da Partilha de Jesus, consolidada por Ched Myers, a partir do evangelista Marcos, apresenta uma análise rica para moldurar à consciência daquilo que ele define como “discipulado radical” para superarmos essa ideologia violenta de opressão. Diz ele que a nova prática socioeconômica proposta pode ser resumida em uma única tese:

O Evangelho de Marcos é um manifesto de resistência que convoca o discípulo a desmantelar as estruturas de dominação (o “Homem Forte”), substituindo a lógica do império e da escassez por uma Economia Sabática baseada na redistribuição radical e na justiça social.

Os Pilares da Prática:

Pilares

Descrição

Implicações Socioeconômicas

Política do Confronto

Jesus é um Messias que confronta o status quo opressor (tanto o Império Romano quanto a elite religiosa local).

A fé deve se traduzir em ação política não violenta que desafia os poderes vigentes e defende os marginalizados.

Economia de Abundância

Baseada na confiança na provisão de Deus (oposta à lógica da acumulação). Inclui a ética do Sábado/Jubileu.

Promove a redistribuição de riqueza para erradicar a pobreza e garantir que os recursos sejam compartilhados de forma equitativa.

Discipulado como Movimento

O seguimento a Jesus é um compromisso com um novo modo de vida comunitário, que inclui o abandono de privilégios e a solidariedade.

A comunidade de fé deve ser uma contraeconomia e uma contracultura, vivendo a justiça e denunciando a exploração estrutural (como no exemplo da viúva pobre).

 

A leitura de Myers transforma a compreensão de Marcos, resgatando Jesus como um profeta social radical e definindo o discipulado como uma prática sociopolítica de libertação que atua contra a desigualdade e a opressão em todas as épocas (Myers, 2021).

Jesus tem de sair dos altares, púlpitos e louvores. Seus altares e púlpitos devem ser o asfalto das ruas onde são realizados os enfrentamentos para a realização do reino de Deus.

 

Referências:

ALTHUSSER, Louis. Aparelhos ideológicos de estado. Rio de Janeiro: Pax & Terra, 2022.

CASARA, Rubens. A construção do idiota. Rio de Janeiro: Da Vinci, 2024.

CHAUÍ, Marilena. Ideologia. São Paulo: Boitempo, 2025.

MARX, Karl. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007.

MYERS, Ched. O evangelho de Marcos. São Paulo: Paulus, 2021.

SILVA, Maria C. S. & NETO, Geraldo Magela R. O. O problema sociológico das gerações. Revista Mal-Estar e Sociedade. Disponível em: https://share.google/OEQHGwa8kQXB3J1l0, 2024.

SCHUMPETER, Joseph A. Capitalismo, socialismo e democracia. São Paulo; UNESP, 2016.

 

(*) A expressão “mean White” (significa branco) pode se referir ao gesto “OK”, que foi apropriado por grupos de supremacia branca e se tornou um símbolo de ódio.

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Comentários

  1. COMENTÁRIO ELABORADO PELA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - IA (GEMINI)
    O artigo argumenta que o Capitalismo Neoliberal (a "Hidra de Lerna" ideológica) cooptou a Religião (via AIEs e Teologia da Prosperidade) para anular a mensagem socioeconômica original de Jesus—a Ideologia da Partilha.
    Eixo de Análise Ideologia Dominante (Neoliberal) Ideologia da Partilha (Jesus Original)
    Foco Acúmulo, Submissão, Responsabilidade individual (você é sua empresa). Redistribuição Radical, Solidariedade, Abundância.
    Função da Religião Consolação (céu pós-morte), Justificação do status quo (AIE). Confronto (ação política não violenta contra o opressor).
    Objetivo Perpetuar a exploração e a desigualdade. Realizar a Justiça Social e o Reino de Deus aqui na Terra.
    Ferramenta Alienação, Inversão, Naturalização do Capitalismo. Discipulado Radical (prática sociopolítica de libertação).

    Em suma: A essência de Jesus é a Partilha Comunitária e a Luta contra a Opressão material, que foi convenientemente transformada, pela ideologia dominante, em uma promessa individualizada e adiada para o além-túmulo.
    "Jesus tem de sair dos altares, púlpitos e louvores. Seus altares e púlpitos devem ser o asfalto das ruas onde são realizados os enfrentamentos para a realização do reino de Deus."

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