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A GRANDE ASPIRAÇÃO DO HOMEM

 


Por Doris Gandres

“A aspiração do homem para uma ordem de coisas melhor que a atual é um indício certo da possibilidade de que chegará a ela.” (Allan Kardec – Obras Póstumas)

     Hoje, mais do que nunca – visto a comunicação entre as criaturas, em todos os níveis e quadrantes, se alastra de forma estonteantemente rápida – essa afirmativa de Allan Kardec é da maior relevância, porque o que o homem vivencia na atualidade física, e extrafísica também, parece que ainda não atende absolutamente aos seus melhores anseios, às suas aspirações por um mundo melhor.

     Entretanto, a longa caminhada que a humanidade vem fazendo no decorrer de um período que não conseguimos definir exatamente, pois a cada pesquisa antropológica se recua mais um pouco no tempo, demonstra o quanto efetivamente o homem já conquistou apesar do tanto que ainda lhe falta – já não somos mais os brutos das primeiras eras; já não praticamos mais uma série de atos hoje considerados bárbaros pela maioria das criaturas humanas, embora ainda possam existir numerosos casos de violência por vezes espantosa.

     Isso vem demonstrar que o anseio do bem e do belo é inato no ser humano, como inato é também em nós o sentimento da divindade e a intuição do “deus em nós”, desse potencial que faz de nós seres perfectíveis, destinados à felicidade e à perfeição relativa – relativa porque absoluta só a de Deus. Não foi por acaso que o Mestre Jesus nos incentivou a “deixar brilhar a nossa luz”...

      Não é de agora que o homem busca através de movimentos e ações as mais diversas atingir uma situação de mais tranquilidade, bem-estar físico, material e espiritual e de justiça e segurança para todos.

      N’O Livro dos Espíritos, questão 783, Allan Kardec pergunta: “O aperfeiçoamento da humanidade segue sempre uma marcha progressiva e lenta?” E os Espíritos Superiores respondem: “Há o progresso regular e lento, que resulta da força das coisas; mas quando um povo não avança bastante rápido, Deus lhe provoca, de tempos a tempos, um abalo físico ou moral, que o transforma” . A seguir, Kardec, nosso mestre espírita, comenta com uma propriedade admirável: “...O homem não pode permanecer perpetuamente na ignorância, porque deve chegar ao fim determinado pela Providência: ele se esclarece pela própria força das coisas. As revoluções morais, como as revoluções sociais, se infiltram pouco a pouco nas ideias, germinam ao longo dos séculos, e depois explodem subitamente, fazendo ruir o edifício carcomido do passado, que não se encontra mais de acordo com as necessidades novas e as novas aspirações” .

      Contudo, acomodados embora insatisfeitos, nós muitas vezes não compreendemos tais situações e acontecimentos e por isso mesmo Kardec, em seu comentário, nos esclarece: “O homem geralmente não percebe, nessas comoções, mais do que a desordem e a confusão momentâneas, que o atingem nos seus interesses materiais; mas aquele que eleva seu pensamento acima dos interesses pessoais, admira os desígnios da Providência, que do mal fazem surgir o bem. São a tempestade e o furacão que saneiam a atmosfera depois de a haverem revolvido” .

      Na questão seguinte, a 784, Kardec comenta sobre a perversidade do homem, que parece recuar em lugar de avançar moralmente, e os Espíritos lhe respondem: “Enganas-te. Observa bem o conjunto e verás que ele avança, pois vai compreendendo melhor o que é o mal, e dia a dia corrige seus abusos. É preciso que haja excesso do mal para fazer-lhe compreender a necessidade do bem e das reformas” .

      E é isso que hoje se passa – estamos cansados, enfastiados do mal, e já estamos buscando outro caminho, ainda que, por vezes, por meios drásticos e de consequências momentaneamente danosas – o tratamento de uma doença grave e prolongada é na maioria das vezes penoso e difícil, mas necessário para que, em breve, a cura se processe...

      Em Obras Póstumas, capítulo Questões e Problemas, Kardec ainda nos explica que: “As convulsões sociais são revoltas dos Espíritos encarnados contra o mal que os acicata, índice de suas aspirações a esse reino de justiça que anseiam, sem, todavia, se aperceberem claramente do que querem e dos meios de consegui-lo. Por isso é que se movimentam, agitam, tudo subvertem a torto e a direito, criam sistemas, propõem remédios mais ou menos utópicos, cometem mesmo injustiças sem conta, por espírito, dizem, de justiça, esperando que desse movimento saia, porventura, alguma coisa. Mais tarde, definirão melhor suas aspirações e o caminho se lhes aclarará” .

      Assim, com base nesses esclarecimentos criteriosos, nós, espíritas, podemos nos posicionar de forma tranquila diante dos acontecimentos tumultuados dos últimos tempos não só no Brasil, mas em diversos outros países. Cabe-nos seguir confiantes no planejamento divino, nas leis divinas, absolutamente perfeitas, sem, no entanto, nos tornarmos omissos e alienados quanto às melhorias sociais que urgem ser implementadas.

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