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ROSEANA E JOJO, A FADA E OS PITBULLS¹

 

Por Ana Claudia Laurindo

No mundo violento das redes sociais também pode fluir poesia, e com esta o pensamento crítico, que sempre lutará contra os impositores do comportamento em série.

A escritora Roseana Murray tem flanado pelas redes como uma “fada” fazendo a mágica das palavras em um tempo de hostilidades.

Acompanhamos seu trabalho desde livros que perpassam vidas juvenis a práticas pedagógicas, ao recebimento de alunos em sua casa, oficina de trabalho na magia natural do lugar onde mora.

Aos 73 anos e em plena atividade na jornada literária, a escritora viveu uma experiência dolorosa quando ao fazer uma caminhada, foi atacada por três cães da raça pitbull; saiu com vida, em estado grave, perdendo um braço e uma orelha, comovendo milhares de leitores.

A rede de orações se estendeu e os curadores universais mostram presença em seus dias, apesar das feridas, permitindo que respire sem aparelhos após tê-los usado, e a primeira postagem de Roseana foi agradecendo às enfermeiras que cuidam do seu corpo, afirmando corajosamente que está bem, para acalmar seus leitores e fãs.

Já se divulga sua intenção em colocar prótese para voltar a escrever.

Por outro lado, tivemos no mesmo período das lutas de Roseana, uma aparição de Jojo Todynho exibindo seus cães da raça pitbull, mas o que chama atenção não é a exibição dos animais, mas o comportamento da dona quando uma internauta comenta sobre a necessidade de usar focinheiras neles.

A internauta adverte: Precisa colocar focinheira, perigo!

Jojo Todynho retruca: Vou colocar na sua língua.

Diante de novo argumento da internauta, Jojo arremata: Eu boto se eu quiser, se você não gostar coloque em você.

No tempo da instantaneidade da notícia o caso já envelheceu, mas o comportamento refinado de Roseana o avivou, deixando óbvio que merecemos mais gentilezas do que grosserias e transgressões não apenas no cotidiano material, mas também neste convívio online.

Sempre será importante refletir sobre o papel de personagens como Jojo Todynho no cenário contemporâneo, no qual todas as brechas na civilidade e sensibilidade humana alimentam o cio do fascismo.

Apesar de suas origens e características de minoria no Brasil, a influenciadora não adere a causas coletivas e fez da truculência sua marca registrada, que é alimentada por milhares de seguidores. O declínio da esperança só não é completo, porque apesar destas variáveis de brutalidade, as fadas sobrevivem.

Mesmo mutilada, Roseana desponta como flor renovada na haste da experiência e reafirma o compromisso com a escrita, apesar de ter arrancado o instrumento fisiológico usado para o manejo da magia.

Fica dito o quanto precisamos de quem incentiva a civilidade neste país afetado por tantos interesses, dentro dos quais luta a vida e seu cortejo de sonhos.

Que se recupere mais a cada dia, Roseana Murray!

Assim que terminamos este texto e publicamos, recebemos a segunda postagem da escritora Roseana Murray e obviamente, em sintonia com este universo de beleza em curso, reproduzimos com amor:

“Ainda estou na CTI. Me lembro do mito de Cérbero, o cachorro de três cabeças que tomava conta da passagem dos recém- mortos para o outro mundo. Eles eram ferozes e ninguém os vencia. Os três cachorros que me atacaram pareciam Cérbero, o cão de três cabeças prontos para me levar para a morte. Não conseguiram. Estou viva, mas como no livro que lemos no Clube da Casa Amarela “Escute as Feras”, de Nastassja Martin, a história da mulher que foi atacada por um urso, lutou e venceu, e no final, é uma mulher meio humana meio ursa, eu tambem me sinto meio humana meio mulher selvagem, por que venci. Agora já estou planejando um sarau de poesia aqui no Hospital Alberto Torres onde irei presentear cada um que cuidou de mim com um livro meu. Autografado com a mão esquerda. Este hospital é uma casa muito especial. Ouço as histórias dos enfermeiros e enfermeiras, troco com eles as minhas histórias, trocamos galáxias de amor. Essa experiência de ser meio humana meio selvagem, com a força adwuirida de Cerbero, aumenta a minha reaponsabilidade em relação à vida e a tudo o que é belo. Meu filho Guga Murray y está criando um movimento junto com a Alessandra Roscoe que recebe o nome de Ministério das Belezas Colaterais. Mesmo nos piores cenários há que buscar beleza. Esse é o nosso ofício. E a Paz acima de tudo”.

 

¹postado originalmente no portal Repórter Nordeste, nesta data.

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