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NÃO SOU ESPÍRITA BOAZINHA

 

 

Ana Cláudia Laurindo

Alguma vez alguém “adivinhou” que você era espírita por causa do seu “ar de bondade”?

Comigo já aconteceu muitas vezes.

No entanto, hoje consigo compreender que por trás deste estereótipo estava uma ideia religiosa de espiritismo.

Meu ar nunca foi de “bondade”, mas de humanismo! Talvez uma coisa acabe por misturar-se à outra no cotidiano duríssimo de um país criado sobre tantas desigualdades e individualismos, mas o fato é que a partir das representações de Chico Xavier e outras demandas “caritativas”, a imagem do espírita “bonzinho” ganhou corpo.

O próprio Evangelho Segundo o Espiritismo, faz alusões a este objetivo, mas a evolução pede mais do que isso.

As experiências mostram que sermos apenas “bons” não é suficiente para alargarmos a margem de bondade no mundo das formas, pois para isso precisamos de fato enfraquecer a raiz do mal, e tal ação é transformadora, exige renovação paradigmática e nem sempre somos vistos como “pessoas boas” ao questionar vícios estabelecidos.

Quem experimentou o poder silenciador da não geração de conflitos nos centros espíritas sabe do que falamos, pois sob um estigma de obsediado, qualquer questionador ficaria exposto, em postura mal-intencionada. E o eixo autoritário seguiu preservado, convenientemente mantido.

Os espíritas são bons?

Talvez entre os espíritas muitos sejam bons, mas até mesmo essa noção de bondade tem gradações que consideramos importante analisar, pois a caridade material nem sempre se vincula à moral, e quem trata os “necessitados” com gentileza extrema às vezes não consegue lidar com a autonomia dos espíritos, na condição de iguais em direitos.

Sopas, bazares, campanhas do quilo, brechós, feiras de livros espíritas e similares não são as únicas referências de espiritismo, e isso é maravilhoso!

Na alçada do espiritismo laico todas as ações caritativas são executadas no paralelo com o livre pensamento, no cultivo de um humanismo que não gera necessidade de igrejismo, religiosismo e outras fórmulas comportamentais servis aos mecanismos de controle.

Espiritismo libertário existe?

Sim. E seu teor é leve. Não aguça sentimentos de culpa, mas esclarece sobre o bem e o mal fazer, aguçando outras necessidades no âmbito do conhecer.

É possível ser espírita laico e fazer caridade?

Sim. Auxiliar e acolher são prerrogativas humanitárias.

Não desejamos aqui ir além desse alqueire, onde o espiritismo é luz de libertação e incentivo à autonomia do ser.

Mas pela dinâmica própria dessa constatação, muitos outros diálogos sobre este tema ainda haveremos de ter.

Vamos adiante com expectativas cada vez melhores!

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