Pular para o conteúdo principal

O ESPIRITISMO QUE QUEREMOS...

 


Em diversas polêmicas de que recentemente participamos nesse blog da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita (ABPE), provocando reações de adesão apaixonada ou de críticas agressivas, fica claro que há profundas rachaduras no movimento espírita brasileiro, apesar de muitos quererem maquiar essa realidade, invocando palavras de paz e fraternidade. Mas meras palavras e boa intenções não resolvem as divergências, que são sérias e algumas bastante pertinentes. Precisamos nos indagar: o que nos une e o que nos divide? Há cura para essas cisões? E, além disso, há mesmo necessidade e possibilidade de haver uma unificação homogênea de todos os que se dizem espíritas?

Uma unificação que não discute diferenças, que não permite crítica e que não se abre ao diálogo, é antes uma camisa de força autoritária, de que os espíritos críticos e pensantes certamente se afastarão.

Por isso, estamos sofrendo perdas significativas de pessoas inteligentes e ativas, de jovens com grande produtividade, e todas as vezes que publicamos alguma nota crítica, há muitos comentários do gênero: “por isso deixei o movimento espírita” ou, pior, “por isso deixei o espiritismo”.

Escutamos muita gente angustiada, expulsa ou auto-exilada de centros espíritas, perdidas em relação a conceitos básicos e à procura de referências. À porta da ABPE, batem os insatisfeitos, os questionadores, os que se sentem desconfortáveis com muitos aspectos do movimento.

Esse artigo, entretanto, não pretende analisar as queixas, pois em diversas postagens, temos feito esses apontamentos, que encontram eco em muita gente e provocam a ira dos que não admitem a crítica.

Queremos aqui fazer o reverso: falar do que a maioria das pessoas procura e o que queremos recuperar do espiritismo, que consideramos estar nas obras de Kardec. Essas também precisam ser lidas no seu contexto, mas para repensar alguns de seus aspectos, precisamos primeiro voltar a Kardec, principalmente a seu método e a seus critérios de racionalidade.

As pessoas querem e precisam ser bem acolhidas nos centros espíritas e bem acolhidas significa serem ouvidas, serem olhadas, poderem participar e terem uma identidade e não se sentirem “assistidas”, “frequentadoras”, “tuteladas” – ou seja, pessoas adultas não podem ser tratadas de forma paternalista. Aliás, segundo a Pedagogia Espírita, nem as crianças devem ser tratadas assim. Também elas precisam ser escutadas, escolher os temas que querem estudar, propor atividades e serem vistas como seres pensantes. Os jovens então mais ainda! Para isso, precisamos de centros pequenos, de grupos familiares, exatamente como propunha Kardec no Livro dos Médiuns.

As estruturas de poder precisam ser abolidas, ou pelo menos relativizadas – dirigentes, instituições, médiuns, não podem ser considerados infalíveis, não podem ser mitificados, e nunca questionados. Para isso, seria desejável que principalmente as pessoas que exercem liderança e têm responsabilidades maiores nas casas e no movimento, fizessem suas terapias, suas análises pessoais, para curarem baixa autoestima, feridas narcísicas, traumas de infância, inseguranças e até problemas psíquicos mais graves. Assim, evitariam o ridículo de se julgarem acima de outros seres humanos, de terem ilusões de grandeza, de se considerarem infalíveis e de aceitarem a devoção bajulatória de pessoas ingênuas e dependentes. A chamada reforma íntima não está dando conta dessas questões, porque produz mais hipocrisia que reais mudanças. Para evoluirmos de fato, precisamos de educação e terapia, com autoconhecimento e autocrítica e não repressão superficial de sentimentos e impulsos.

A mediunidade precisa voltar a ser democratizada. Crianças podem ser introduzidas aos fenômenos mediúnicos, adolescentes podem desenvolver mediunidade, iniciantes não precisam e nem devem fazer longos, engessados e apostilados cursos de desenvolvimento mediúnico, que redundam muitas vezes no ressecamento de todas as potencialidades mediúnicas. A mediunidade precisa ser estudada e praticada ao mesmo tempo, entendida a partir da referência direta do Livro dos Médiuns – até hoje, o melhor manual de exercício mediúnico. Depois das reuniões, desierarquizadas, com fortes vínculos afetivos entre seus participantes, com cruzamento de informações, é bom fazer uma roda de conversas, para comentar o que se sentiu, o que se ficou com dúvida, o que se pode melhorar, com franqueza, com delicadeza e sem melindres.

O espírita – sobretudo se escreve, ensina ou atua de maneira mais ampla no movimento – precisa conhecer o mundo em que vive, estar atualizado, ler fontes diversas que sustentam e refutam seus argumentos, por exemplo, mídia alternativa, artigos científicos referendados, para além da grande mídia e das publicações de ciência popular.

Os espíritas devem investir em educação e não em assistencialismo. E em educação alternativa, aberta, inovadora, como a que foi feita por Eurípedes Barsanulfo, 100 anos atrás, como a que foi proposta por Herculano Pires, como a que trabalhamos na Universidade Livre Pampédia.

Os espíritas precisam saber e aceitar – mesmo que não concordem – que há sim uma leitura à esquerda do espiritismo. O próprio Kardec cita os socialistas utópicos na Revista Espírita. Léon Denis escreveu o livro Socialismo e Espiritismo. Herculano Pires, O Reino e o texto Espiritismo Dialético. Humberto Mariotti, o livro Dialética e Metapsíquica, e houve tantos outros autores na mesma linha, como Cosme Mariño e Manuel Portero. Cleusa Beraldi Colombo (por acaso minha mãe) analisou já em 1991, em seu mestrado, depois transformado no livro Ideias Sociais Espíritas, a evolução de tais ideias no seio do espiritismo. Sinuê Neckel fez isso também em seu mestrado, em relação ao MUE, publicado no livro Movimento Universitário Espírita. Alysson Leandro Mascaro tem pela Editora Comenius, o livro Cristianismo Libertador. Na Espanha do final do século XIX, o espiritismo teve uma leitura anarquista… Ou seja, como em todos os movimentos religiosos, políticos, sociais, filosóficos, há diversas leituras, tendências, debates. Na Igreja Católica, por exemplo, há um Ratzinger, que fez a expulsão de Leonardo Boff e um Papa Francisco, que critica abertamente o capitalismo!

Os espíritas, segundo a recomendação do Espírito da Verdade, devem amar e se instruir. Por isso, um espírita de fato sabe discutir ideias, porque considera a racionalidade algo precioso, e sabe discutir com respeito ao outro.

E afinal, podemos achar e dizer o que nos une a todos? Creio que as ideias da reencarnação, a possibilidade de comunicação mediúnica, a ética do amor ao próximo são pilares sólidos do espiritismo. Mas para que possamos alinhavar mais gente nesse núcleo, precisamos urgentemente usar os critérios racionais de Kardec, o seu espírito de pesquisa, a sua sobriedade e a recusa que ele próprio teve de todo poder e de toda idolatria.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

PODE UM PASTOR QUE NEGA A REENCARNAÇÃO PALESTRAR NUMA CASA ESPÍRITA?

    Por Jorge Hessen Convidar um líder religioso (pastor) que nega a reencarnação e a mediunidade para palestrar numa casa espírita é, no mínimo, uma alucinação.  O problema começa quando se perde a clareza dos objetivos doutrinários. O Espiritismo ensina o respeito irrestrito à liberdade de consciência. Allan Kardec jamais defendeu o sectarismo. Aliás, dialogou com cientistas, materialistas, religiosos e céticos. O diálogo é saudável e necessário. Todavia, existe uma diferença fundamental entre dialogar com quem pensa diferente e  conceder tribuna doutrinária a quem combate os princípios fundamentais da Doutrina Espírita. Se um  palestrante evangélico  afirma categoricamente que a comunicação entre encarnados e desencarnados é impossível; que a mediunidade é fraude ou ação demoníaca; que a reencarnação não existe, então estamos diante de alguém que rejeita os pilares básicos do Espiritismo.

PARA FICARMOS JUNTOS NO INFERNO

        Por Orson Carrara                  Já  sabemos que o chamado inferno não é um local, mas um estado consciencial. Amarguras, desejos de vingança, inveja, ciúme, intrigas e manipulações que alimentamos transformam a vida naquilo que podemos denominar de um inferno emocional, um estado de intensa perturbação e sofrimento. Aquele inferno de sofrimento eterno, de diabo e caldeirões ferventes, isso não existe -  é imaginação humana.             Referimo-nos aqui aos tormentos que a inveja e o ciúme produzem. Ou, da mesma forma, as culpas e ainda os sentimentos de vingança ou de controle sobre a vida alheia.

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

BRASIL, O PARAÍSO FISCAL DO SAGRADO

         Por Jorge Luiz   A "Offshore" da Fé: Anatomia do Privilégio Fiscal             A Câmara dos Deputados aprovou recentemente, em 28 de maio de 2026, a proposta que amplia drasticamente a imunidade tributária para entidades e templos religiosos de qualquer culto. O texto, que agora segue para o Senado, estende a vedação de cobrança de impostos para a aquisição de quaisquer bens ou serviços necessários à implantação, manutenção e funcionamento dessas instituições. Trata-se de uma manobra que pode abrir um rombo de até R$ 50 bilhões na arrecadação da União, dos estados e dos municípios.             Pelas regras do novo sistema tributário nacional, qualquer benefício fiscal concedido a um setor precisa ser compensado pelo restante da sociedade. Na prática, isso significa que enquanto as corporações da fé pagarão menos tributos, seus própr...

UMA AMOSTRAGEM DA TESE ESPÍRITA: DOIS CASOS QUE SUGEREM REENCARNAÇÃO (PARTE I)

   Por Jerri Almeida   Introdução A pesquisa científica sobre reencarnação oferece contribuições valiosas para ampliar horizontes de conhecimento sobre o sentido da vida. Não se trata, obviamente, de trilharmos somente o caminho da fé ou da crença, pois estamos diante de uma questão mais complexa, que envolve de forma totalizante o saber humano. Infelizmente, na atualidade, nem sempre as pesquisas nessa área ocorrem com o ritmo e os critérios que as possam alavancar em termos de reconhecimento científico, mesmo porque o mundo acadêmico, em boa parte, ainda se ressente dos preconceitos com tal tipo de temática.

ESPIRITISMO SEM ESPÍRITO E CARIDADE SEM ALMA

  Por Wilson Garcia Quando a prática se afasta da essência e a forma sobrevive ao conteúdo Há algo de silenciosamente inquietante no movimento espírita contemporâneo. Não se trata de uma ruptura declarada, nem de um abandono explícito de princípios. Ao contrário: tudo parece funcionar — reuniões, palestras, obras assistenciais, rotinas institucionais. E, no entanto, cresce a sensação de que algo essencial foi sendo deslocado, suavemente, até quase desaparecer. Duas manifestações desse fenômeno merecem atenção urgente: o chamado “Espiritismo sem espírito” e a prática de uma caridade que, ao privilegiar o material, esvazia sua dimensão mais profunda — a espiritual.

O ESTUDO DA GLÂNDULA PINEAL NA OBRA MEDIÙNICA DE ANDRÉ LUIZ¹

Alvo de especulações filosóficas e considerada um “órgão sem função” pela Medicina até a década de 1960, a glândula pineal está presente – e com grande riqueza de detalhes – em seis dos treze livros da coleção A Vida no Mundo Espiritual(1), ditada pelo Espírito André Luiz e psicografada por Francisco Cândido Xavier. Dentre os livros, destaque para a obra Missionários da Luz, lançado em 1945, e que traz 16 páginas com informações sobre a glândula pineal que possibilitam correlações com o conhecimento científico, inclusive antecipando algumas descobertas do meio acadêmico. Tal conteúdo mereceu atenção dos pesquisadores Giancarlo Lucchetti, Jorge Cecílio Daher Júnior, Décio Iandoli Júnior, Juliane P. B. Gonçalves e Alessandra L. G. Lucchetti, autores do artigo científico Historical and cultural aspects of the pineal gland: comparison between the theories provided by Spiritism in the 1940s and the current scientific evidence (tradução: “Aspectos históricos e culturais da glândula ...

SILOGISMO

  Silogismo é uma interessante forma de raciocínio. Divide-se em três partes que se completam: premissa maior, premissa menor e conclusão. Exemplo: A justiça de Deus nunca falta na Terra – premissa maior. Vivemos na Terra – premissa menor. Não há injustiça em nenhuma situação humana – conclusão. Resultado duvidoso para muita gente. Como considerar justo um planeta onde convivem o gênio e o obtuso, o atleta e o paralítico, o sábio e o ignorante, o milionário e o miserável, o santo e o facínora?

MORFOGÊNESE DO REINO: O "EN MARCHE!" DE CHOURAQUI E O MANIFESTO DE MYERS

  Imagens de IA   Por Jorge Luiz       O VERBO EM MARCHA: A Exegese de Chouraqui e a Morfogênese do Reino Este capítulo abandona a ideia de Reino como "lugar" e o apresenta como "processo biológico e social".             A polêmica joanina de que o “Verbo se fez carne” – João 1:1-14 –, que faz parecer, implicitamente, que há uma identificação entre Deus e Jesus, mereceu uma atenção especial de Allan Kardec, embora só tenha se tornada pública após a sua desencarnação.             Tão controversa que, somente no IV século uma parte da Igreja a adotou. Vê-se que, a decisão foi dos homens e não uma revelação divina, já que não foi o próprio Jesus que a considerou, tão somente, João, o evangelista.             Carlos Pastorino também a analisou azeitando ainda mais as considerações de Kardec,...