Pular para o conteúdo principal

'PÁTRIA-CÁRCERE" DO EVANGELHO


           




         Recente matéria mostrou que os médicos canadenses protestaram contra o aumento de salários. Você não leu errado. Os profissionais alegam que já são bem pagos, e que não seria justo receber um salário maior enquanto outros profissionais da saúde trabalham em condições precárias. No Brasil, juízes federais ameaçaram fazer greve em decorrência da discussão que se estabeleceu sobre a verba auxílio-moradia no valor de R$4.300,00, um dos diversos penduricalhos agregados aos seus salários que os fazem passar da casa dos três dígitos. Mas o pior é que o problema que afeta a economia do Brasil é o auxílio bolsa-família no valor de R$70,00, pagos às famílias miseráveis dos diversos grotões desse país, reclama a burguesia brasileira.

          Violência. Corrupção. Desigualdade Social. Miséria. Narcotráfico. Fundamentalismo religioso. Homofobia. Misogenia. Fascismo. O Brasil é uma sociedade totalmente disfuncional.
          Esse paralelo é traçado para que se possa entender o desnível de humanitarismo que separa essas duas Nações. Ademais, que faz com que alguns espíritas e a própria Federativa Nacional acreditem que o Brasil é a Pátria do Evangelho, estando presente tal indigência moral?
          A discutível obra ufanista do Espírito Humberto de Campos – Brasil Coração do Mundo Pátria do Evangelho – pela pena mediúnica de Francisco Cândido Xavier, levou os dirigentes febianos à época, a adotá-la como bandeira, e a exemplo do povo hebreu de outrora, avocou para si a condição responsável pela direção do povo escolhido, nomeando o anjo Ismael para ser substituto do Javé daqueles tempos. O Brasil é o novo povo eleito de Deus.
          Esta hipótese de Campos é meramente uma opinião pessoal, unicamente de caráter pessoal, cuja autenticidade derrete-se como cera sobre vela quando submetida aos controles kardecianos – razão e ensino universal dos espíritos. Sobre o último Kardec enuncia na Revista Espírita, abril de 1864:

“Uma só garantia séria existe para o ensino dos Espíritos: a concordância que haja entre as revelações que eles façam espontaneamente, servindo-se de grande número de médiuns estranhos uns aos outros e em vários lugares."

          Divaldo Franco, em entrevista ao jornal Goiás Espírita, no ano de 1993, foi indagado:


“GE – A Doutrina Espírita apresenta o Brasil como sendo a “Pátria do Evangelho”. Contudo, o que se vê é o índice crescente de marginalidade e criminalidade. Não existe aí um contrassenso?
Divaldo – A expressão “Pátria do Evangelho” não é da Doutrina Espírita. Está inserta numa obra de Humberto de Campos e trata-se de uma colocação emocional do literato que ama a sua pátria. (...)”

          Busque-se trilhar novos caminhos dos já percorridos acerca desse imbróglio criado. Verifique-se que o Brasil tem pouco mais de quinhentos anos de civilização. Há de se convir que seja um tempo diminuto para os avanços conseguidos pelo progresso intelectual e mesmo moral. Fica patente que esse progresso não foi obtido pelos Espíritos autóctones – made in Brazil – e sim de levas de Espíritos de outros países que vieram degredados para cá. Assim como nos Mundos, também nas Nações. Imigração de povos. Imigração de Espíritos. Como atesta o Espírito Deolindo Amorim, psicografia de Elzio Souza, na obra Espiritismo em Movimento:

“Uma quantidade considerável de Espíritos ligados à civilização francesa transferiu-se, por tal razão (difusão das ideias espíritas), para o Brasil, em meados do século passado, buscando novos ares onde pudessem, em face das dificuldades, enfrentar os desafios da mudança, na conquista da humildade, fraternidade e solidariedade.”

          Idênticas situações se têm também de outros países. Como se pode notar, o trabalho para se elevar o padrão intelectual, moral e espiritual das criaturas exige sempre a participação dos dois grupos interessados – desencarnados e encarnados.
           Lembrando Jesus em um dos seus diálogos com os escribas e fariseus, no evangelho de Marcos, 2:17, quando ele afirma:

“Os sãos não necessitam de médico, mas, sim, os que estão doentes; eu não vim chamar os justos, mas, sim, os pecadores ao arrependimento.”

O que há no Brasil são Espíritos degredados de outras Nações, em processo de soerguimento moral – provação ou expiação – à luz do Evangelho Redentor. O Brasil é Pátria sim, mas “Pátria-Cárcere do Evangelho”.
           Assim, fica mais compreensível a obra ufanista do Espírito Humberto de Campos. Precisa-se acabar com esse nonsense!


Referências

SILVA, Gélio Lacerda. Conscientização Espírita. São Paulo: EME, 1995.
SOUZA, Elzio F./Esp. Deolindo Amorim. Espiritismo em movimento. Bahia: Circulus, 1999.


Comentários

  1. Francisco Castro de Sousa18 de março de 2018 às 23:09

    Jorge, embora teu artigo seja bastante audacioso, de certa forma, percebe-se nele uma certa coerência com a realidade desse nosso País Continente. Até porque, o Movimento Espírita Brasileiro ainda se encontra, de certa forma, encarcerado intramuros do Órgão Federativo Nacional. Aguardemos as repercussões, a não ser que imaginem que você não passa perturbado, envolvido pelos Espíritos trevosos e que não mereça nenhuma credibilidade! Repito... aguardemos!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

SER HUMANO: ZONA DE INTERESSES – DA COISIFICAÇÃO DA VIDA AO NEGÓCIO DA MORTE

    Por Jorge Luiz O Sujeito como Território de Caça  Thomas Hobbes, em sua festejadíssima obra Leviatã (1651), sentenciou que o “homem é o lobo do homem”. Para ele, a ausência de uma autoridade central condenaria a humanidade a uma vida “solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta”. O remédio hobbesiano é o Contrato Social de submissão: a entrega irreversível do poder ao Soberano (Estado) em troca de segurança. Hobbes rompe com o pensamento puramente religioso ao defender o Erastismo — a subordinação da Igreja ao poder civil —, sob a premissa de que não pode haver dois senhores disputando a obediência do súdito. Contudo, o Leviatã de Hobbes não anteviu a mutação do Estado-Nação sob o capitalismo. O sistema, consolidado entre os séculos XVIII e XIX, transitou do mercantilismo para o liberalismo industrial, onde o Estado parece diminuir sua intervenção, mas se agiganta na construção das subjetividades. Como propõe Louis Althusser , o Estado realiza-se através de s...

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

FRONTEIRAS ENTRE O REAL E O IMAGINÁRIO

  Por Jerri Almeida                A produção literária, desde a Grécia Antiga, vem moldando seus enredos e suas tramas utilizando-se de contextos e fatos históricos. Os romances épicos, que em muitos casos terminam virando, contemporaneamente, filmes ou novelas de grandes sucessos, exploram os aspectos de época, muitas vezes, adicionando elementos mentais e culturais de nosso tempo. Essa é uma questão perigosa, pois pode gerar os famosos anacronismos históricos. Seria algo como um romance que se passa no Egito, na época de um faraó qualquer, falar em “burguesia egípcia”. Ora, “burguesia” é um conceito que começa a ser construído por volta dos séculos XII-XIII, no Ocidente Medieval. Portanto, romances onde conceitos ou ideias são usados fora de seu contexto histórico, tornam-se anacrônicos.

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

'SELFIES" ALIENANTES

Por Jorge Hessen (*) As tecnologias pessoais, sobretudo os smartphones, revolucionaram o formato com que as pessoas se expressam no dia-a-dia na atualidade, e a selfie faz parte dessa transformação. Experimenta-se a neurose do selfie (derivada do termo inglês self (eu) junto ao sufixo “ie” – um tipo de fotografia), para indicar uma espécie de autorretrato, tradicionalmente exposto na rede social que tem contagiado a muitos, principalmente no Instagram e Facebook. O indivíduo aponta o smartphone para o próprio rosto e busca o melhor ângulo para tirar uma fotografia esmerada. Pode ser na praia, na festa, no parque, no restaurante ou em situação de alto risco de vida. A obsessão é tamanha que neste último caso chega a causar acidentes fatais. Quando falamos em selfies aqui, os números não são nem de longe inexpressivos, ou seja, nada menos que 880 bilhões de fotos foram feitos apenas em 2014. Uma parcela relevante de auto-exposição na forma de autorretratos. Tais imag...

O ESTUDO DA GLÂNDULA PINEAL NA OBRA MEDIÙNICA DE ANDRÉ LUIZ¹

Alvo de especulações filosóficas e considerada um “órgão sem função” pela Medicina até a década de 1960, a glândula pineal está presente – e com grande riqueza de detalhes – em seis dos treze livros da coleção A Vida no Mundo Espiritual(1), ditada pelo Espírito André Luiz e psicografada por Francisco Cândido Xavier. Dentre os livros, destaque para a obra Missionários da Luz, lançado em 1945, e que traz 16 páginas com informações sobre a glândula pineal que possibilitam correlações com o conhecimento científico, inclusive antecipando algumas descobertas do meio acadêmico. Tal conteúdo mereceu atenção dos pesquisadores Giancarlo Lucchetti, Jorge Cecílio Daher Júnior, Décio Iandoli Júnior, Juliane P. B. Gonçalves e Alessandra L. G. Lucchetti, autores do artigo científico Historical and cultural aspects of the pineal gland: comparison between the theories provided by Spiritism in the 1940s and the current scientific evidence (tradução: “Aspectos históricos e culturais da glândula ...

O ABORTO E A GRATIDÃO POR TER NASCIDO

Minha mãe e eu, 54 anos atrás Hoje, no dia do meu aniversário, uma data que sempre me alegra, pois gosto de ter nascido, resolvi escrever algumas considerações sobre esse tema tão controvertido: o aborto. Se estou comemorando meu aniversário e vivendo uma vida plena de sentido, é porque minha mãe permitiu que eu nascesse. Me recebeu e me acolheu, com a participação de meu pai. Então, é bastante pertinente falar sobre esse tema, nesse dia. Meu dia de entrada nessa vida. Penso que esse debate sempre caminha por lados opostos, com argumentos que não tocam o cerne da questão.

O PERÍODO DOS "GRANDES MÉDIUNS" JÁ PASSOU!

    Por Jerri Almeida   Allan Kardec foi sempre muito cuidadoso na preservação dos médiuns com os quais manteve contato, e que colaboraram em suas investigações. Poucas são as citações ou referências aos nomes desses médiuns no conjunto de sua obra. Parece evidente, que Kardec se preocupava muito mais com o conteúdo das informações e das ideias apresentadas do que, propriamente, com os médiuns e Espíritos que as comunicavam.

PRECE DO EDUCADOR

Por Dora Incontri (*) Senhor, Que eu possa me debruçar sobre cada criança, e sobre cada jovem, com a reverência que deve animar minha alma diante de toda criatura Tua! Que eu respeite em cada ser humano de que me aproximar, o sagrado direito de ele próprio construir seu ser e escolher seu pensar! Que eu não deseje me apoderar do espírito de ninguém, imprimindo-lhe meus caprichos e meus desejos pessoais, nem exigindo qualquer recompensa por aquilo que devo lhe dar de alma para alma!

CIVILIZAÇÃO

  Por Doris Gandres A mim me admira como a filosofia espiritista ainda hoje, passados cerca de 160 anos de seu lançamento a público como corpo de doutrina organizada com base na pesquisa e no bom senso, se aplica a situações e condições contemporâneas. Ao afirmar que nos julgamos “civilizados” devido a grandes descobertas e invenções, por estarmos melhor instalados e vestidos e alimentados do que há alguns séculos, milênios até – o que hoje sabemos estar restrito a uma minoria dentro da humanidade – percebemos o quanto de verdade encerra essa afirmativa ao nos chamar a atenção de como estamos iludidos.